terça-feira, 28 de abril de 2026

Contradições dos discursos do pré-candidato Flávio Bolsonaro

Ao assumir a condição de pré-candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro passou a desenhar uma estratégia de reposicionamento político que busca ampliar seu alcance para além da base bolsonarista tradicional. Mais conciliador no discurso, defensor do diálogo institucional e vocalizando pautas historicamente rejeitadas por setores da direita radical — como valorização da ciência, combate ao racismo e maior participação feminina nos espaços de poder —, o filho mais velho do ex-presidente tenta construir a imagem de um "Bolsonaro moderado". A movimentação, no entanto, esbarra em um obstáculo central: a herança política e simbólica do sobrenome que carrega.

No núcleo aliado, a mudança de tom é tratada como ativo eleitoral. Líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB) avalia que Flávio reúne características capazes de ampliar o alcance do campo conservador. "Ele é um cara bem moderado, um cara bem otimista. Não tenho dúvida de que vai furar a bolha", afirmou. A fala reforça a leitura de aliados de que o senador pode alcançar eleitores fora do núcleo duro bolsonarista e se apresentar como uma versão mais palatável do conservadorismo.

O líder da oposição no Senado, Izalci Lucas (PL-DF), vê a postura de moderação de Flávio como um "amadurecimento natural" de quem vive o dia a dia do Parlamento. "Eu trabalho com o Flávio aqui no Senado há anos e posso dizer com propriedade: ele é um dos senadores mais articulados e equilibrados que temos. Ele consegue manter a essência e os valores que o (ex) presidente Jair Bolsonaro consolidou, como a defesa da liberdade, da propriedade privada e da família, mas com uma capacidade de interlocução muito maior", disse o senador, ao destacar que o pré-candidato sabe ouvir e tem facilidade de construir pontes para vencer em 2026.

A construção dessa nova imagem tem sido acompanhada por gestos calculados. Entre aliados do senador, ganhou força a tese de compor uma chapa presidencial com uma mulher como vice, preferencialmente de perfil conservador e ligada ao eleitorado religioso.

O cientista político Tiago Valenciano avalia que a guinada discursiva de Flávio tem alvo claro. "Não é que ele queira chegar perto da esquerda, mas daquele grupo de eleitores independentes, que ainda não escolheu candidato. Para isso, ele quer convencer esse eleitor mais moderado", explicou. Rodrigo Dias, da Universidade de Brasília, destaca que a estratégia passa inevitavelmente pelo eleitorado feminino, maioria nas urnas. "Estamos falando de mais de 52% do eleitorado brasileiro, um segmento decisivo numa disputa apertada", pontuou. Na mesma linha, Murilo Medeiros observa que o senador tenta abrir novas frentes de diálogo. "Ao abordar temas progressistas, Flávio busca reduzir resistências e ampliar diálogo com setores que rejeitavam o bolsonarismo tradicional, como mulheres, jovens e eleitores urbanos independentes", afirmou.

Contradição

O reposicionamento, porém, entra em choque direto com a memória recente do bolsonarismo — especialmente nos temas que Flávio agora escolheu para se diferenciar.

Em artigo publicado em seu perfil no site da Academia Brasileira de Letras, o escritor Ruy Castro lança o questionamento: "Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um 'Bolsonaro moderado'. Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro. Um de seus argumentos é que se vacinou contra a covid. E daí? Se achava a vacina tão importante a ponto de tomá-la, o que fez para sustar a política homicida de seu pai, que sonegou enquanto pôde a vacina à população, mentiu sobre ela, ridicularizou-a e, como um misto de camelô e curandeiro, vendeu um substituto sabidamente ineficaz?", indaga Castro em seu artigo.

No debate sobre mulheres, a contradição é evidente. Enquanto Flávio passou a defender maior presença feminina na política e acena à possibilidade de ter uma mulher como vice, Jair Bolsonaro protagonizou episódios que marcaram sua trajetória pública por declarações de teor machista e ofensivo. O caso mais emblemático ocorreu contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS), alvo de ataques verbais do então parlamentar em uma fala que se tornou símbolo da violência política de gênero no país ao dizer que não a estupraria porque ela "não merece" e por ela ser "feia". Anos depois, ao afirmar que o nascimento da filha havia sido uma "fraquejada", Bolsonaro voltou a alimentar a rejeição de parte expressiva do eleitorado feminino ao bolsonarismo.

Maria do Rosário reagiu à nova postura do filho 01 do ex-presidente e agora presidenciável com desconfiança. "Flávio Bolsonaro não tem credibilidade para falar em fortalecer as mulheres. São palavras vazias. Toda a carreira política do seu sobrenome foi construída incentivando a violência contra mulheres. Alguma vez ele contestou seu pai? Nunca. Um candidato não se julga por suas palavras, mas pela sua prática", criticou.

Na ciência, o distanciamento discursivo também é visível. Durante a pandemia, Jair Bolsonaro confrontou recomendações técnicas, minimizou a covid-19, desacreditou vacinas e sustentou um discurso negacionista em meio à crise sanitária. Flávio, por outro lado, passou a destacar que se vacinou e evita embates públicos contra consensos científicos, numa tentativa clara de se desvincular de uma das agendas mais controversas do governo bolsonarista.

A mudança aparece ainda na relação institucional. Enquanto Jair Bolsonaro construiu sua trajetória presidencial em embates constantes com o Supremo Tribunal Federal (STF), ameaças de ruptura institucional e confrontos com ministros da Corte, Flávio tem procurado adotar uma linguagem mais cautelosa, defendendo em diferentes momentos o diálogo entre Poderes e uma postura menos incendiária.

A moderação, no entanto, é vista por opositores como mero cálculo político. Para o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (RS), trata-se de uma operação eleitoral. "O perigo de um lobo que aprende etiqueta é que ele continua sendo um predador, mas sabe como se aproximar sem fazer barulho. A moderação de Flávio Bolsonaro é uma estratégia política eleitoreira, não de consciência. É uma manobra de contenção de danos. O radicalismo do bolsonarismo tem um teto eleitoral difícil de romper", afirmou.

No mesmo sentido, Rogério Correia (PT-MG) rejeita a tese de um bolsonarismo moderado. "Essa história de Bolsonaro moderado não existe. A perspectiva de um governo bolsonarista será a perspectiva de um governo antidemocrático. Isso está na gênese do bolsonarismo, que é uma vertente da extrema-direita", declarou, acrescentando que, na visão dele, as pautas centrais do grupo permanecem intactas sob nova embalagem discursiva.

Gestos também contradizem o discurso de Flávio, como a participação no CPAC (Conservative Political Action Conference), evento da extrema-direita, realizado nos Estados Unidos, em março. No evento, em Dallas, Texas, ele comparou Jair Bolsonaro a Donald Trump e pediu que outros países monitorem as eleições brasileiras e exerçam "pressão diplomática" sobre as instituições do país.

Flávio Bolsonaro também disse que "o Brasil é a solução para que os EUA não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos".

É justamente nessa contradição que mora o maior desafio eleitoral de Flávio Bolsonaro. Ao suavizar o discurso, ele tenta crescer fora da bolha bolsonarista. Mas, ao mesmo tempo, precisa manter fidelidade ao legado que o projetou nacionalmente.

No campo da direita, a estratégia do senador se aproxima da postura adotada por nomes como Romeu Zema, pré-candidato à Presidência pelo Novo, que também tenta ocupar um espaço conservador mais institucional, liberal na economia e menos conflagrado nos costumes e nas relações entre Poderes. Segundo a sua assessoria, Zema reforça diferenças de trajetória e de posicionamento, destacando que foi “o único pré-candidato que já divulgou diretrizes públicas de governo” e que mantém defesa aberta de uma agenda ampla de privatizações, buscando consolidar-se como alternativa competitiva dentro do campo conservador moderado.

•        A farsa do Bolsonaro moderado: por que a elite se divide no apoio a Flávio

A narrativa construída pelo senador Flávio Bolsonaro de que ele seria expressão de uma facção moderada dentro de seu próprio clã político serve a um propósito claro: anabolizar, pela fraude, ambições eleitorais e afastar o espantalho do "bolsonarismo radical", que afugenta o centro e é inaceitável mesmo para parte das elites. Nos últimos meses, porém, essa fachada vem ruindo de forma acelerada. O chamado “bolsonarismo light”, recitado pela mídia neoliberal, revela-se uma ficção publicitária, e o mais recente sintoma dessa constatação é o distanciamento, já explícito, de setores influentes do pensamento conservador que por muito tempo flertaram com a direita. Mesmo entre partidos antes colados ao bolsonarismo cresce a ambiguidade.

Ao contrário do que Flávio tenta vender, não há um Bolsonaro moderado — há apenas um projeto de poder, um oportunismo eleitoreiro que, diante do isolamento do patriarca e do que ele significa, busca sobreviver fazendo o teatro do moço cheiroso, mas montado sobre as mesmas vísceras autoritárias, negacionistas e golpistas.

A jornalista Miriam Leitão, conhecida por sua trajetória de críticas ao petismo, foi direta em sua coluna recente. Ao analisar os movimentos de Flávio para se descolar do pai, encarcerado por liderar violenta organização criminosa golpista, Miriam apontou que o senador tenta “recolorir o bolsonarismo”, mas que sua própria trajetória — incluindo o caso das rachadinhas e a lealdade incondicional ao clã — desmente qualquer viragem. Para ela, a tentativa de Flávio de se apresentar como uma alternativa negociadora esbarra na realidade: o DNA do grupo é a ruptura institucional, e o filho jamais condenou os ataques desferidos pelo pai ao sistema eleitoral ou os atos golpistas. Miriam não expressa uma opinião isolada. Antes, aponta que a marca de descompromisso do clã com a democracia encapsula as chances eleitorais de Flávio Bolsonaro.

Reinaldo Azevedo, outro veterano que nunca escondeu seus arreganhos à esquerda, também dedicou espaço ao tema. Para Azevedo, Flávio ensaia um discurso de centro para agradar ao mercado financeiro e a parte do Judiciário, mas mantém o mesmo manual tático de seu pai: ataque à imprensa, defesa de pautas de costumes reacionárias e silêncio conveniente sobre a tentativa de golpe em 2023, que ele apoia. Azevedo lembrou que o senador foi um dos articuladores do orçamento secreto e blindou Jair nas piores horas. Portanto, tentar vender moderação é, nas palavras dele, “insultar a inteligência de todos”. Isso sem falar do crescimento patrimonial inexplicável de Flávio, de suas ligações com o crime organizado miliciano, das rachadinhas em seu gabinete, da lavagem de dinheiro e do empréstimo a taxas incompatíveis no BRB para a compra de uma mansão em Brasília por R$ 6 milhões, mas que na verdade vale R$ 14 milhões.

Já Ruy Castro, em sua coluna, foi cirúrgico ao descrever o cenário como um “divórcio anunciado”. O cronista observa que as elites — incluindo setores do agronegócio, do mercado financeiro e da chamada Nova Direita — começam a migrar para outras lideranças, como Tarcísio de Freitas ou Romeu Zema, que oferecem a agenda econômica liberal sem o estorvo golpista e a toxicidade familiar. Ruy destaca que Flávio tem tentado se reunir com empresários e artistas para construir uma imagem de “Bolsonaro que conversa”, mas o resultado tem sido o oposto: ninguém acredita na moderação de quem cresceu à sombra das manifestações com faixas pedindo intervenção militar. Talvez com certo exagero, o colunista conclui que o não casamento das elites com Flávio é definitivo, pois elas já compreenderam que apoiar o herdeiro significa apenas reviver o espólio de um projeto autoritário que se recusa a mudar.

Esse afastamento revela uma contradição profunda e incômoda no próprio seio das elites. De um lado, a ala mais pragmaticamente liberal, capitaneada por setores do mercado financeiro e do agronegócio, ainda enxerga em Flávio um instrumento útil, uma potencial alavanca para um programa austericida e de desmonte do Estado. Para esses, o senador serviria como cavalo de Troia para aprovar reformas impopulares, privatizações e o arrocho fiscal, desde que mantida a fachada da governabilidade. O cálculo é cínico, porém racional: usa-se o nome Bolsonaro para a agenda econômica, enquanto se isola o núcleo golpista. Mas aí reside a fissura. Outra parcela das elites abomina exatamente o que Flávio representa como instrumento de sabotagem do valor principal, sobretudo nessa conjuntura histórica: a democracia. Para esse grupo, reduzir o regime a um meio para fins fiscais é aceitar a própria extinção das regras do jogo. Eles compreendem que apoiar Flávio, mesmo como muleta para a eliminação dos reajustes do salário mínimo acima da inflação e das verbas destinadas à saúde e educação, significa validar a tática permanente de ruptura, a ameaça às instituições que de algum modo garantem sua hegemonia e o apetite pela exceção. É essa contradição não resolvida que trava o casamento definitivo. Enquanto uma parte da elite ainda cogita o pacto maquiavélico, a outra já percebeu que não se fazem reformas sobre escombros autoritários. E, por ora, o medo do golpismo, ainda que por margem estreita, tem falado mais alto que a fome por cortes de gastos.

É essa a realidade que Flávio Bolsonaro insiste em maquiar. O mercado pode até ter tolerado, no passado, o discurso truculento de Jair enquanto as reformas andavam — mas o 8 de janeiro e a persistente defesa do revisionismo eleitoral mudaram, ao menos em parte, a equação, e isso já se faz notar. Parte das elites, em seu pragmatismo frio, calcula que o risco de associar-se à marca Bolsonaro supera hoje qualquer ganho de curto prazo. E, ao contrário do que tenta propagar o senador, essa rejeição não é ao “estilo”, mas à própria substância.

 

Fonte: Correio Braziliense/Brasil 247

 

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