Contradições
dos discursos do pré-candidato Flávio Bolsonaro
Ao
assumir a condição de pré-candidato à Presidência da República, o senador
Flávio Bolsonaro passou a desenhar uma estratégia de reposicionamento político
que busca ampliar seu alcance para além da base bolsonarista tradicional. Mais
conciliador no discurso, defensor do diálogo institucional e vocalizando pautas
historicamente rejeitadas por setores da direita radical — como valorização da
ciência, combate ao racismo e maior participação feminina nos espaços de poder
—, o filho mais velho do ex-presidente tenta construir a imagem de um
"Bolsonaro moderado". A movimentação, no entanto, esbarra em um
obstáculo central: a herança política e simbólica do sobrenome que carrega.
No
núcleo aliado, a mudança de tom é tratada como ativo eleitoral. Líder da
oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB) avalia que Flávio reúne
características capazes de ampliar o alcance do campo conservador. "Ele é
um cara bem moderado, um cara bem otimista. Não tenho dúvida de que vai furar a
bolha", afirmou. A fala reforça a leitura de aliados de que o senador pode
alcançar eleitores fora do núcleo duro bolsonarista e se apresentar como uma
versão mais palatável do conservadorismo.
O líder
da oposição no Senado, Izalci Lucas (PL-DF), vê a postura de moderação de
Flávio como um "amadurecimento natural" de quem vive o dia a dia do
Parlamento. "Eu trabalho com o Flávio aqui no Senado há anos e posso dizer
com propriedade: ele é um dos senadores mais articulados e equilibrados que
temos. Ele consegue manter a essência e os valores que o (ex) presidente Jair
Bolsonaro consolidou, como a defesa da liberdade, da propriedade privada e da
família, mas com uma capacidade de interlocução muito maior", disse o
senador, ao destacar que o pré-candidato sabe ouvir e tem facilidade de
construir pontes para vencer em 2026.
A
construção dessa nova imagem tem sido acompanhada por gestos calculados. Entre
aliados do senador, ganhou força a tese de compor uma chapa presidencial com
uma mulher como vice, preferencialmente de perfil conservador e ligada ao
eleitorado religioso.
O
cientista político Tiago Valenciano avalia que a guinada discursiva de Flávio
tem alvo claro. "Não é que ele queira chegar perto da esquerda, mas
daquele grupo de eleitores independentes, que ainda não escolheu candidato.
Para isso, ele quer convencer esse eleitor mais moderado", explicou.
Rodrigo Dias, da Universidade de Brasília, destaca que a estratégia passa
inevitavelmente pelo eleitorado feminino, maioria nas urnas. "Estamos
falando de mais de 52% do eleitorado brasileiro, um segmento decisivo numa disputa
apertada", pontuou. Na mesma linha, Murilo Medeiros observa que o senador
tenta abrir novas frentes de diálogo. "Ao abordar temas progressistas,
Flávio busca reduzir resistências e ampliar diálogo com setores que rejeitavam
o bolsonarismo tradicional, como mulheres, jovens e eleitores urbanos
independentes", afirmou.
Contradição
O
reposicionamento, porém, entra em choque direto com a memória recente do
bolsonarismo — especialmente nos temas que Flávio agora escolheu para se
diferenciar.
Em
artigo publicado em seu perfil no site da Academia Brasileira de Letras, o
escritor Ruy Castro lança o questionamento: "Flávio Bolsonaro apresenta-se
ao eleitorado como um 'Bolsonaro moderado'. Equivale ao círculo quadrado e ao
fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro. Um de seus argumentos é
que se vacinou contra a covid. E daí? Se achava a vacina tão importante a ponto
de tomá-la, o que fez para sustar a política homicida de seu pai, que sonegou
enquanto pôde a vacina à população, mentiu sobre ela, ridicularizou-a e, como
um misto de camelô e curandeiro, vendeu um substituto sabidamente
ineficaz?", indaga Castro em seu artigo.
No
debate sobre mulheres, a contradição é evidente. Enquanto Flávio passou a
defender maior presença feminina na política e acena à possibilidade de ter uma
mulher como vice, Jair Bolsonaro protagonizou episódios que marcaram sua
trajetória pública por declarações de teor machista e ofensivo. O caso mais
emblemático ocorreu contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS), alvo de ataques
verbais do então parlamentar em uma fala que se tornou símbolo da violência
política de gênero no país ao dizer que não a estupraria porque ela "não
merece" e por ela ser "feia". Anos depois, ao afirmar que o
nascimento da filha havia sido uma "fraquejada", Bolsonaro voltou a
alimentar a rejeição de parte expressiva do eleitorado feminino ao bolsonarismo.
Maria
do Rosário reagiu à nova postura do filho 01 do ex-presidente e agora
presidenciável com desconfiança. "Flávio Bolsonaro não tem credibilidade
para falar em fortalecer as mulheres. São palavras vazias. Toda a carreira
política do seu sobrenome foi construída incentivando a violência contra
mulheres. Alguma vez ele contestou seu pai? Nunca. Um candidato não se julga
por suas palavras, mas pela sua prática", criticou.
Na
ciência, o distanciamento discursivo também é visível. Durante a pandemia, Jair
Bolsonaro confrontou recomendações técnicas, minimizou a covid-19, desacreditou
vacinas e sustentou um discurso negacionista em meio à crise sanitária. Flávio,
por outro lado, passou a destacar que se vacinou e evita embates públicos
contra consensos científicos, numa tentativa clara de se desvincular de uma das
agendas mais controversas do governo bolsonarista.
A
mudança aparece ainda na relação institucional. Enquanto Jair Bolsonaro
construiu sua trajetória presidencial em embates constantes com o Supremo
Tribunal Federal (STF), ameaças de ruptura institucional e confrontos com
ministros da Corte, Flávio tem procurado adotar uma linguagem mais cautelosa,
defendendo em diferentes momentos o diálogo entre Poderes e uma postura menos
incendiária.
A
moderação, no entanto, é vista por opositores como mero cálculo político. Para
o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai
(RS), trata-se de uma operação eleitoral. "O perigo de um lobo que aprende
etiqueta é que ele continua sendo um predador, mas sabe como se aproximar sem
fazer barulho. A moderação de Flávio Bolsonaro é uma estratégia política
eleitoreira, não de consciência. É uma manobra de contenção de danos. O
radicalismo do bolsonarismo tem um teto eleitoral difícil de romper",
afirmou.
No
mesmo sentido, Rogério Correia (PT-MG) rejeita a tese de um bolsonarismo
moderado. "Essa história de Bolsonaro moderado não existe. A perspectiva
de um governo bolsonarista será a perspectiva de um governo antidemocrático.
Isso está na gênese do bolsonarismo, que é uma vertente da
extrema-direita", declarou, acrescentando que, na visão dele, as pautas
centrais do grupo permanecem intactas sob nova embalagem discursiva.
Gestos
também contradizem o discurso de Flávio, como a participação no CPAC
(Conservative Political Action Conference), evento da extrema-direita,
realizado nos Estados Unidos, em março. No evento, em Dallas, Texas, ele
comparou Jair Bolsonaro a Donald Trump e pediu que outros países monitorem as
eleições brasileiras e exerçam "pressão diplomática" sobre as
instituições do país.
Flávio
Bolsonaro também disse que "o Brasil é a solução para que os EUA não
dependam mais da China em terras raras e minerais críticos".
É
justamente nessa contradição que mora o maior desafio eleitoral de Flávio
Bolsonaro. Ao suavizar o discurso, ele tenta crescer fora da bolha
bolsonarista. Mas, ao mesmo tempo, precisa manter fidelidade ao legado que o
projetou nacionalmente.
No
campo da direita, a estratégia do senador se aproxima da postura adotada por
nomes como Romeu Zema, pré-candidato à Presidência pelo Novo, que também tenta
ocupar um espaço conservador mais institucional, liberal na economia e menos
conflagrado nos costumes e nas relações entre Poderes. Segundo a sua
assessoria, Zema reforça diferenças de trajetória e de posicionamento,
destacando que foi “o único pré-candidato que já divulgou diretrizes públicas
de governo” e que mantém defesa aberta de uma agenda ampla de privatizações,
buscando consolidar-se como alternativa competitiva dentro do campo conservador
moderado.
• A farsa do Bolsonaro moderado: por que a
elite se divide no apoio a Flávio
A
narrativa construída pelo senador Flávio Bolsonaro de que ele seria expressão
de uma facção moderada dentro de seu próprio clã político serve a um propósito
claro: anabolizar, pela fraude, ambições eleitorais e afastar o espantalho do
"bolsonarismo radical", que afugenta o centro e é inaceitável mesmo
para parte das elites. Nos últimos meses, porém, essa fachada vem ruindo de
forma acelerada. O chamado “bolsonarismo light”, recitado pela mídia
neoliberal, revela-se uma ficção publicitária, e o mais recente sintoma dessa
constatação é o distanciamento, já explícito, de setores influentes do
pensamento conservador que por muito tempo flertaram com a direita. Mesmo entre
partidos antes colados ao bolsonarismo cresce a ambiguidade.
Ao
contrário do que Flávio tenta vender, não há um Bolsonaro moderado — há apenas
um projeto de poder, um oportunismo eleitoreiro que, diante do isolamento do
patriarca e do que ele significa, busca sobreviver fazendo o teatro do moço
cheiroso, mas montado sobre as mesmas vísceras autoritárias, negacionistas e
golpistas.
A
jornalista Miriam Leitão, conhecida por sua trajetória de críticas ao petismo,
foi direta em sua coluna recente. Ao analisar os movimentos de Flávio para se
descolar do pai, encarcerado por liderar violenta organização criminosa
golpista, Miriam apontou que o senador tenta “recolorir o bolsonarismo”, mas
que sua própria trajetória — incluindo o caso das rachadinhas e a lealdade
incondicional ao clã — desmente qualquer viragem. Para ela, a tentativa de
Flávio de se apresentar como uma alternativa negociadora esbarra na realidade:
o DNA do grupo é a ruptura institucional, e o filho jamais condenou os ataques
desferidos pelo pai ao sistema eleitoral ou os atos golpistas. Miriam não
expressa uma opinião isolada. Antes, aponta que a marca de descompromisso do
clã com a democracia encapsula as chances eleitorais de Flávio Bolsonaro.
Reinaldo
Azevedo, outro veterano que nunca escondeu seus arreganhos à esquerda, também
dedicou espaço ao tema. Para Azevedo, Flávio ensaia um discurso de centro para
agradar ao mercado financeiro e a parte do Judiciário, mas mantém o mesmo
manual tático de seu pai: ataque à imprensa, defesa de pautas de costumes
reacionárias e silêncio conveniente sobre a tentativa de golpe em 2023, que ele
apoia. Azevedo lembrou que o senador foi um dos articuladores do orçamento
secreto e blindou Jair nas piores horas. Portanto, tentar vender moderação é,
nas palavras dele, “insultar a inteligência de todos”. Isso sem falar do
crescimento patrimonial inexplicável de Flávio, de suas ligações com o crime
organizado miliciano, das rachadinhas em seu gabinete, da lavagem de dinheiro e
do empréstimo a taxas incompatíveis no BRB para a compra de uma mansão em
Brasília por R$ 6 milhões, mas que na verdade vale R$ 14 milhões.
Já Ruy
Castro, em sua coluna, foi cirúrgico ao descrever o cenário como um “divórcio
anunciado”. O cronista observa que as elites — incluindo setores do
agronegócio, do mercado financeiro e da chamada Nova Direita — começam a migrar
para outras lideranças, como Tarcísio de Freitas ou Romeu Zema, que oferecem a
agenda econômica liberal sem o estorvo golpista e a toxicidade familiar. Ruy
destaca que Flávio tem tentado se reunir com empresários e artistas para
construir uma imagem de “Bolsonaro que conversa”, mas o resultado tem sido o
oposto: ninguém acredita na moderação de quem cresceu à sombra das
manifestações com faixas pedindo intervenção militar. Talvez com certo exagero,
o colunista conclui que o não casamento das elites com Flávio é definitivo,
pois elas já compreenderam que apoiar o herdeiro significa apenas reviver o
espólio de um projeto autoritário que se recusa a mudar.
Esse
afastamento revela uma contradição profunda e incômoda no próprio seio das
elites. De um lado, a ala mais pragmaticamente liberal, capitaneada por setores
do mercado financeiro e do agronegócio, ainda enxerga em Flávio um instrumento
útil, uma potencial alavanca para um programa austericida e de desmonte do
Estado. Para esses, o senador serviria como cavalo de Troia para aprovar
reformas impopulares, privatizações e o arrocho fiscal, desde que mantida a
fachada da governabilidade. O cálculo é cínico, porém racional: usa-se o nome
Bolsonaro para a agenda econômica, enquanto se isola o núcleo golpista. Mas aí
reside a fissura. Outra parcela das elites abomina exatamente o que Flávio
representa como instrumento de sabotagem do valor principal, sobretudo nessa
conjuntura histórica: a democracia. Para esse grupo, reduzir o regime a um meio
para fins fiscais é aceitar a própria extinção das regras do jogo. Eles
compreendem que apoiar Flávio, mesmo como muleta para a eliminação dos
reajustes do salário mínimo acima da inflação e das verbas destinadas à saúde e
educação, significa validar a tática permanente de ruptura, a ameaça às
instituições que de algum modo garantem sua hegemonia e o apetite pela exceção.
É essa contradição não resolvida que trava o casamento definitivo. Enquanto uma
parte da elite ainda cogita o pacto maquiavélico, a outra já percebeu que não
se fazem reformas sobre escombros autoritários. E, por ora, o medo do golpismo,
ainda que por margem estreita, tem falado mais alto que a fome por cortes de
gastos.
É essa
a realidade que Flávio Bolsonaro insiste em maquiar. O mercado pode até ter
tolerado, no passado, o discurso truculento de Jair enquanto as reformas
andavam — mas o 8 de janeiro e a persistente defesa do revisionismo eleitoral
mudaram, ao menos em parte, a equação, e isso já se faz notar. Parte das
elites, em seu pragmatismo frio, calcula que o risco de associar-se à marca
Bolsonaro supera hoje qualquer ganho de curto prazo. E, ao contrário do que
tenta propagar o senador, essa rejeição não é ao “estilo”, mas à própria
substância.
Fonte:
Correio Braziliense/Brasil 247

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