Os
jovens chineses solitários e desiludidos que buscam carinho e conexão com 'pais
virtuais'
Como
muitos outros jovens, Vincent Zhang fica sempre "grudado" no telefone
celular na hora do almoço. Mas o seu conteúdo favorito é de um casal de
meia-idade que ele chama de seus "pais virtuais".
Os
influenciadores preferidos de Vincent no Douyin (a versão chinesa do TikTok)
são Pan Huqian e Zhang Xiuping.
Seus
vídeos mostram abertamente sua adorável vida familiar. E o casal frequentemente
trata os espectadores como se fossem seus próprios filhos.
Em
menos de três anos, sua conta atraiu mais de 1,8 milhão de seguidores.
Em um
dos vídeos mais populares, Pan e Zhang dizem: "Quem é o adulto da família?
Você anda cansado de trabalhar e estudar? Não se force demais. Mamãe e papai
sabem que você suporta muito por aí."
"Meus
pais nunca me dizem para não me forçar demais, nem que eu já sou bom o
suficiente", lamenta Vincent. "Mas os pais virtuais só me perguntam
se estou feliz hoje."
Os
"pais virtuais" entraram na moda na internet chinesa em 2024. Desde
então, mais de uma dezena de influenciadores, como Pan e Zhang, ganharam
inúmeros seguidores.
Estas
discussões trazem à tona a insatisfação cada vez maior de muitos jovens
chineses millennials (os nascidos entre 1980 e 1995) e da geração Z (entre 1996
e 2012) com a dinâmica familiar tradicional, que leva as obrigações e a
obediência a virem antes do afeto.
Na rede
social chinesa RedNote, a hashtag "pais chineses" foi visualizada
mais de 500 milhões de vezes, com mais de 1,2 milhão de comentários.
Muitos
também estão frustrados porque seus pais não compreendem as dificuldades de
enfrentar uma economia lenta e as pressões de atender às expectativas dos pais
como filhos únicos — o resultado da política chinesa de controle da natalidade,
adotada entre 1979 e 2015.
Vincent
teve sucesso e, hoje, mora em Xangai, onde trabalha como desenvolvedor web.
Sua
jornada de trabalho é extenuante. Ele pratica a escala 996 adotada no setor de
tecnologia, que leva os profissionais a trabalhar das 9 horas da manhã às 21
horas, seis dias por semana.
Mas ele
acha as ligações telefônicas semanais com seus pais ainda mais estressantes.
Eles
costumam criticar sua escolha de carreira, segundo ele, e acreditam que um
emprego no governo seria mais estável. Ou perguntam quando ele irá trazer uma
namorada para casa.
Vincent
se sente menos sozinho quando participa com os demais da seção de comentários
do canal de Pan e Zhang. Muitas pessoas como ele escrevem para o casal e os
chamam de "mãe" e "pai".
Suas
mensagens costumam falar do seu dia a dia e, às vezes, eles pedem parabéns
pelos seus aniversários. Mas algumas mensagens são extremamente alarmantes.
Em um
desses casos, uma menina chamada Dian Dian disse a Pan que não queria viver
mais, que sofre de depressão e, por isso, tinha pensamentos suicidas.
"Fiquei
falando com ela por duas horas, mas ela não respondeu depois de 40
minutos", contou Pan, em uma entrevista no Douyin em 2024. Ele disse que
não sabia o que havia acontecido com ela.
Uma
semana depois, ele recebeu uma ligação de Dian Dian. A jovem disse que, agora,
se sentia muito melhor.
"Percebi
que havia feito algo muito significativo e me senti orgulhoso por muito
tempo", conta Pan.
Pan
compreende a dor que pode causar uma família negligente, pois ele próprio não
teve uma infância feliz.
Ele
cresceu em uma yáodòng, uma espécie de casa subterrânea tradicional, na
província de Shaanxi, no norte do país.
Aos 14
anos, ele saiu de casa para ser o provedor da família, quando sua mãe sofreu
paralisia.
"Fiquei
fora de casa por 33 anos e meus pais nunca disseram uma palavra de
incentivo", disse ele, na mesma entrevista ao Douyin.
Quando
nasceu sua filha Jiangyu, Pan estava determinado a criar uma atmosfera familiar
diferente. E, ao contrário das famílias chinesas típicas, Pan e Zhang sempre
dizem a Jiangyu que a amam.
Jiangyu
incentivou seus pais a produzir vídeos curtos e eles se tornaram criadores de
conteúdo em tempo integral, após o fechamento da empresa de Pan, em 2024.
Ele não
tem grandes planos para sua conta, mesmo com o potencial de ter altos lucros
vendendo produtos com streaming ao vivo.
"Espero
poder fazer um pouco para que eles sintam o carinho do amor paternal",
afirma ele.
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'Literatura de sopa de abobrinha'
Além do
conteúdo relativo aos pais virtuais, também viralizou, no segundo semestre do
ano passado, o conteúdo humorístico chamado de "literatura de sopa de
abobrinha".
Esta
tendência foi inspirada por uma cena de um minuto, que mostra um filho
recusando educadamente uma tigela de sopa de abobrinha da sua mãe, mas acaba
sendo repreendido por mau temperamento.
Muitos
usuários jovens afirmam que esse vídeo captura a falta de comunicação típica
das famílias chinesas, especialmente quando os pais ignoram os desejos dos
filhos, dizendo que algo é para o seu próprio bem.
Zhao
Xuan, de 28 anos, faz parte deste grupo.
Ela já
silenciou o chat do grupo da família porque seus pais raramente demonstram que
se importam. E, sempre que falam com ela, é simplesmente o retratado na
"literatura de sopa de abobrinha", segundo ela.
Zhao
também acredita que seus pais preferem seu irmão de 15 anos. A cultura
tradicional chinesa considera que apenas os meninos podem carregar a linhagem
da família.
Zhao
conta que sua mãe é muito controladora sobre todos os aspectos da sua vida.
Depois
que se formou, ela encontrou um emprego em tempo integral na França, mas sua
mãe disse para ela desistir e voltar para a China.
"Antes
de voltar, minha mãe insistia que iria tomar conta de mim. Fiquei
sensibilizada", ela conta.
"Mas,
na verdade, ela só queria que eu voltasse para casa para cuidar do meu irmão...
Ela me trata da mesma forma que fazia quando eu era menor. Mas ela é uma mãe
modelo para o meu irmão."
No
passado, Zhao chegava às lágrimas ao conversar com suas amigas, tentando
entender o comportamento dos seus pais. Mas, agora, ela recorre a memes e
vídeos humorísticos.
As
reações similares de outras pessoas fizeram com que ela percebesse que sua
experiência não é a única e que ela poderia lidar com suas questões familiares
com humor.
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Trauma político
A
estudiosa de questões de gênero Guo Ting, da Universidade de Toronto, no
Canadá, afirma que se identifica com os pais chineses. Ela observa muitas
"razões históricas" por trás das altas expectativas com seus filhos e
suas dificuldades de expressar afeição.
Na
época em que os pais de hoje em dia eram mais jovens, o discurso público
negligenciava as emoções pessoais, segundo ela.
Eles
passaram pela Revolução Cultural Chinesa, uma década de violência e
instabilidade entre 1966 e 1976. Naquela época, só se demonstrava amor pelo
país ou pelo seu líder da época, Mao Tsé-Tung (1893-1976).
Para
Guo, a insegurança e a ansiedade dos pais de hoje podem ser explicadas pelas
"turbulências e pela pobreza que eles atravessaram, bem como pelo ambiente
inóspito, de sobrevivência do mais adaptado, que eles precisaram
enfrentar".
Parte
da imprensa estatal tentou conduzir a discussão na internet em termos do
conceito tradicional de piedade filial, aconselhando às gerações mais novas que
fossem mais compreensivas com seus pais.
Mas
esta estratégia parece não funcionar com Vincent, por exemplo: "Posso
entender as dificuldades dos meus pais, mas também tenho meus próprios
traumas", afirma ele.
Alguns
pais virtuais contrataram empresas de gestão para monetizar seu conteúdo, mas
Vincent conta que ainda deseja assistir aos seus vídeos.
"Eles
me dão o único carinho da minha vida. E é melhor do que nada."
Fonte:
BBC News China

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