segunda-feira, 27 de abril de 2026

Clãs familiares testam força nas urnas e buscam retomar protagonismo

Os principais clãs familiares da política brasileira voltam às urnas em outubro para testar a força de seus sobrenomes e tentar retomar o protagonismo em uma eleição marcada por forte polarização nacional e um cenário competitivo nos estados.

Ao menos quatro filhos e dois netos de ex-governadores, além de um sobrinho de governador em exercício, vão concorrer ao Executivo estadual nas eleições. Também disputam o cargo de governador dois filhos de senadores em mandato e três filhos de ex-senadores.

Nas campanhas, eles devem equilibrar a memória das gestões de seus familiares com o desafio de mostrar que têm luz própria e podem representar uma renovação política.

<><> Clã Bolsonaro tenta mais espaço

Mais influente clã da história recente do país, a família Bolsonaro quer voltar à Presidência com o senador Flávio Bolsonaro (PL). O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que comandou o país entre 2019 e 2022, está inelegível e cumprindo prisão domiciliar condenado na trama golpista.

Será a primeira vez no Brasil que o filho de um ex-presidente da República vai concorrer ao mesmo cargo com uma candidatura competitiva. Em 2018, o filho do ex-presidente João Goulart disputou a Presidência pelo PPL, mas foi o menos votado entre os 13 candidatos naquela eleição.

A família Bolsonaro tentará ampliar a presença no Congresso, com Carlos Bolsonaro e Michelle Bolsonaro candidatos ao Senado e Jair Renan Bolsonaro disputando uma cadeira na Câmara, todos pelo PL.

<><> Oligarquias nos estados

Nos estados, quatro candidatos vão tentar repetir o feito dos pais e se elegerem para o cargo de governador. Na história recente do Brasil, seis estados já foram governados por pais e filhos: Pernambuco, Paraná, Santa Catarina, Paraíba, Maranhão e Pará.

Neste ano, a principal novidade são as candidaturas de filhos e netos de ex-governadores no campo da esquerda, historicamente menos aberta a dinastias familiares na política brasileira.

O nome mais simbólico é o do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), que iniciou sua pré-campanha ao Governo de Pernambuco exaltando o legado de seu pai, Eduardo Campos, e do bisavô Miguel Arraes, ambos ex-governadores.

Ele concorre contra a atual governadora Raquel Lyra (PSD), também filha de um ex-governador. João Lyra foi vice de Eduardo Campos, pai de João, e o sucedeu por um período de nove meses em 2014.

Ao contrário de 2020 e 2022, quando a família Campos-Arraes esteve rachada, neste ano João Campos estará no mesmo palanque da prima, a ex-deputada Marília Arraes (PDT), que será candidata ao Senado.

No Rio Grande do Sul, a esquerda se uniu em torno da candidatura da ex-deputada Juliana Brizola (PDT), neta de Leonel Brizola, um dos principais líderes da esquerda brasileira no século 20 e que foi governador do Rio Grande do Sul nos anos 1960 e do Rio de Janeiro nos anos 1980 e 1990.

A esquerda também estará unida no Paraná com Requião Filho (PDT), deputado estadual que concorre ao governo. Ele é filho de Roberto Requião, que governou o estado por três mandatos e agora é candidato a deputado federal.

A cientista política Priscila Lapa, professora da Universidade Federal de Pernambuco, diz que os sobrenomes ainda têm peso eleitoral, mas não se sustentam se for o único argumento de campanha. Também diz ver pragmatismo na esquerda ao apostar em legados familiares.

“Apesar da origem nas lutas da classe trabalhadora, os partidos de esquerda não escapam de utilizar as ferramentas tradicionais da política para buscar competitividade.”

Dentre os candidatos da centro-direita, ACM Neto (União Brasil) volta a desafiar o governador Jerônimo Rodrigues (PT) na Bahia sob o legado do avô Antônio Carlos Magalhães, que comandou o estado por três mandatos.

O passado político da família tem sido usado pelos governistas para criticar o ex-prefeito de Salvador. “Aqui no Nordeste está cheio de gente que se apresenta como novo, mas é a velha oligarquia”, afirmou o ex-ministro Rui Costa (PT).

ACM Neto rebateu as críticas e disse que o adversário age com destempero.

O governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB), concorre à reeleição sob as bases de uma tradição familiar iniciada por seu pai, Maguito Vilela, governador de 1995 a 1998.

Ele já havia sido candidato a governador em 2018, quando perdeu para Ronaldo Caiado (PSD), de quem se tornaria vice na eleição seguinte. Caiado, que disputa a Presidência, lançou a esposa, Gracinha Caiado (União Brasil), como candidata a senadora.

No Maranhão, o governador Carlos Brandão (sem partido) terá o próprio sobrinho, Orleans Brandão (MDB), como candidato à sua sucessão. A escolha bagunçou o campo lulista e enfureceu petistas, que veem na candidatura a tentativa de criar uma nova oligarquia no estado.

“Nosso estado não pode ser tratado como se tivesse dono, sobrenome ou sucessor escolhido dentro de casa”, disse o vice-governador Felipe Camarão (PT), que rompeu com Brandão.

Orleans, que vai disputar a sua primeira eleição, vai para a eleição ancorado em uma aliança com 12 partidos. Não há impedimento legal, já que a lei eleitoral não proíbe a candidatura de sobrinho de governador, considerado parente de terceiro grau.

Ao menos cinco filhos de senadores e ex-senadores concorrem aos governos estaduais, dentre eles Lucas Ribeiro (PP) e Efraim Filho (PL) na Paraíba, Natasha Slhessarenko (PSD) em Mato Grosso, e Expedito Netto (PT) em Rondônia.

A lista também inclui o já senador Renan Filho (MDB), filho do também senador Renan Calheiros (MDB), que vai tentar se eleger governador de Alagoas pela terceira vez.

Caso tenham sucesso nas urnas, esses candidatos devem protagonizar uma volta por cima dos clãs familiares, em baixa desde 2018, eleição que marcou o ocaso de famílias como os Sarney e os Lobão, no Maranhão, e os Maia e os Alves, no Rio Grande do Norte.

•        Flávio Bolsonaro critica provocações entre bolsonaristas; Nikolas reclama de quem mina própria base

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) criticou “provocações e cobranças” entre aliados após novo episódio de troca de ofensas entre um de seus irmãos e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) nas redes sociais.

“Fica aqui meu pedido sincero: não precisa ‘pressionar’ ninguém ou me ‘defender’ de pessoas que também querem Bolsonaro na Presidência da República. Já disse algumas vezes e repito, cada um tem o seu tempo e a sua forma de ajudar”, escreveu Flávio em publicação na noite desta sexta-feira (24).

Mais cedo, Nikolas havia afirmado que, se a capacidade cognitiva do vereador Jair Renan Bolsonaro (PL) e a de outro influenciador de direita que o critica fossem somadas, ainda assim não alcançariam a de uma “toupeira cega”.

A nova briga começou quando o perfil de Junior Japa ironizou o deputado por trocar a camiseta preta que ficou famosa em seus vídeos de denúncias contra o governo Lula (PT) por uma branca para fazer a divulgação de obras para ligadas ao governador de Minas Gerais Mateus Simões (PSD), que faz campanha para o ex-governador Romeu Zema (Novo) para a Presidência.

“Se trocou a camiseta preta pela branca é pq sentiu [a crítica]”, escreveu o influenciador.

Nikolas respondeu dizendo que iria “mandar emenda também pra internar vocês num hospício” e foi rebatido por Jair Renan, que usou um antigo meme da internet com o narrador Galvão Bueno para ironizar o deputado federal por ter sentido a crítica.

Depois da postagem do pré-candidato à Presidência, o deputado mineiro respondeu ao apelo e afirmou que sofre provocações “há três anos” e permanecia calado. “Mas como todo ser humano, tenho um limite. E com o passar do tempo, vários aliados de longa data, leais e íntegros tem sido alvo da mesma turma que nada agregam, a não ser gerar divisão e até mesmo fiscalização/perseguição a quem não posta uma porcentagem que eles desejam.”

Nikolas também citou correligionários na Câmara, afirmando que eles têm se tornado “alvo diário” de perseguição, “minando a própria base que o seu pai criou”.

“Isso tem gerado um clima que ninguém mais suporta. Poucos tem coragem de enfrentar, e quando enfrentam, recebem o rótulo de ‘traidores'”, disse.

No início do mês, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro disse que “os holofotes e a fama” fizeram mal ao parlamentar mineiro.

“Você continua colocando Flavio numa espiral do silêncio, com menos de meia dúzia de apoios públicos, apenas para fingir não ter abandonado o grupo político que te projetou”, escreveu na ocasião.

Em fevereiro, Nikolas já havia afirmado, após visita a Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha, que Eduardo “não está bem”, em resposta às críticas feitas contra ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro por, na visão de Eduardo, não terem se engajado o suficiente na campanha de Flávio.

Como a Folha mostrou, Nikolas citou Flávio em 10 dos 544 posts que fez no X entre 5 de dezembro, quando o senador foi lançado candidato à Presidência, e 9 de abril, período em que virou alvo de ataques pela falta de engajamento com a campanha. Nikolas e aliados defendem que o papel dele é outro, de desgastar o presidente Lula (PT) e aumentar a mobilização em torno das pautas conservadoras.

O racha interno do PL, com cobranças públicas e trocas de farpas nas redes sociais, é mais um capítulo na disputa por influência e protagonismo na direita bolsonarista após o ex-presidente Bolsonaro ter sido preso e declarado inelegível.

•        Em meio à disputa na extrema direita, Nikolas chama Jair Renan de ‘toupeira’

Depois de seguidos embates com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) se envolveu em mais uma confusão pública, desta vez com Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), filho mais novo do ex-presidente Jair Bolsonaro. As rusgas se dão em meio à uma disputa de poder dentro da extrema direita tendo em vista a eleição deste ano.

Após ser ironizado por Jair Renan e por um influenciador bolsonarista, Nikolas postou um print dos ataques em seu perfil no X e afirmou que o filho de Bolsonaro tem capacidade cognitiva “menor que de uma toupeira”.

“Se juntar a capacidade cognitiva dessa dupla não alcança a de uma toupeira cega”, disparou Nikolas.

<><> Racha na extrema direita

Os confrontos nas redes sociais são a face pública de uma disputa maior dentro da extrema direita. Figuras ligadas à família Bolsonaro, encabeçadas por Eduardo, vem atacando parlamentares do PL sob a acusação de não defenderem a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de agirem em prol do próprio projeto político. Nikolas Ferreira tem sido o principal alvo dessas críticas, em especial por seu alinhamento à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com quem os irmãos travam uma disputa interna na família Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro tem feito gestos públicos tentando apaziguar a situação. Nesta sexta-feira (24), ele postou um longo texto nas redes sociais pedindo novamente união na extrema direita.

“Preciso muito de todos me defendendo das mentiras criminosas da esquerda e esfregando a verdade na cara deles. Mas fica aqui meu pedido sincero: não precisa “pressionar” ninguém ou me “defender” de pessoas que também querem Bolsonaro na Presidência da República. Já disse algumas vezes e repito, cada um tem o seu tempo e a sua forma de ajudar”, escreveu o pré-candidato da família Bolsonaro.

Nikolas reagiu à publicação em seu próprio perfil e cobrou o fim do que considera persegução a figuras de destaque do bolsonarismo.

“Isso tem gerado um clima que ninguém mais suporta. Poucos tem coragem de enfrentar, e quando enfrentam, recebem o rótulo de “traidores”. Sendo que todos, inclusive eu, faremos de tudo para que você ganhe as eleições esse ano. Mas obviamente, cada um do seu jeito, no seu papel, da sua melhor forma. Sem acusar ou perseguir ninguém. E sem colocar uma forma do que é ou não ideal de se fazer. E que mesmo após todos os seus pedidos de pacificação, insistem em criar atritos e desobedecem publicamente aquele que, de fato, é a liderança escolhida por Jair Bolsonaro. Até cor de camisa é argumento para conflitos. Como aturar isso?”, rebateu Nikolas.

•        Zema quer ser ponta-de-lança da Operação Delenda Supremo. Por Paulo Henrique Arantes

omeu Zema integra o campo político dos direitistas travestidos de moderninhos, que administram a coisa pública pela ótica das redes sociais. Seus atos são forjados por marqueteiros para conquistarem seguidores, gerarem likes e aumentarem o engajamento, visando a consolidar uma persona pública antes de tudo falsa, descasada das liturgias a que são obrigados os governantes. São enganadores profissionais.

Candidato a presidente da República, o ex-governador de Minas Gerais, ou sua assessoria de marquetagem, percebeu que a onda do momento é atirar contra o Supremo Tribunal Federal. A Operação Delenda Supremo, ora em curso, é pilotada por políticos e empresários enroscados com a lei, golpistas da democracia, alas partidarizadas da Polícia Federal e boa parte da imprensa. Zema pretende ser ponta-de-lança do movimento.

Como quase metade do Brasil aprecia um ser abjeto como Jair Bolsonaro, por natural a corte que o condenou tornou-se alvo da turba e atacá-la, discurso eleiçoeiro certeiro. A intenção de voto em Romeu Zema deu um pequeno salto depois do bate-boca que travou com Gilmar Mendes, ministro que não leva desaforo para casa, mas que neste caso parece ter caído numa armadilha. A retórica do cerceamento da liberdade de expressão gruda como cola.

<><> Ridículo

O que dá certa tranquilidade à parcela civilizada do eleitorado é que a desconstrução de Zema virá com facilidade, pelo ridículo do seu comportamento e por sua administração errática em Minas Gerais.

Ocupante do Palácio Tiradentes, Roma Zema não apenas comeu banana com casca para abordar pateticamente a questão alimentar. Antes, no Carnaval de 2019, surgiu vestido de gari, a varrer ruas em Belo Horizonte. A ação buscava sinalizar humildade e valorização do trabalho básico, mas não passou de encenação simbólica, típica de marketing político rasteiro, sem conexão com políticas públicas estruturais. Ao viajar de classe econômica, tentou posar de homem simples e econômico, mas a atitude nitidamente performática de se fazer passar por um cidadão comum prejudica, na prática, a gestão do Estado: o governador não pode estar limitado aos voos de carreira em suas viagens de trabalho, em nome da celeridade administrativa.

Ao longo dos seus mandatos, Zema publicou vídeos com linguagem coloquial, tentando se aproximar do eleitor comum. Tais conteúdos foram alvo de críticas por parecerem artificiais ou mal calibrados, especialmente quando tratavam de temas complexos mediante simplificação excessiva, gerando reações negativas.

<><> Esqueletos no armário

O verdadeiro governo Zema guarda esqueletos assustadores no armário. Em 2021, auge da pandemia, o Ministério Público Federal abriu procedimentos para apurar compras de EPIs pelo governo de Minas por indícios de sobrepreço e favorecimento de fornecedores. A investigação foi encerrada, contudo, sem desdobramento penal.

Em 2026, o Ministério Público de Minas Gerais abriu inquérito para apurar uma queda de 96% na destinação de recursos para prevenção contra enchentes no Estado, motivado por suspeitas de omissão administrativa e má gestão orçamentária. A investigação está em curso.

O neoliberal Romeu Zema, de outra parte, não consegue se livrar da ajuda estatal, como prova o avanço da dívida mineira, hoje na casa de R$ 200 bilhões, cerca de 90% dos quais com a União. O governador Zema obteve um novo acordo com a União, no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), que estabelece parcelamento em até 30 anos, possibilidade de juros reais próximos de zero (IPCA + 0%) e exigência de contrapartidas (ajustes fiscais e eventualmente venda/federalização de ativos). Uma renegociação de pai para filho.

<><> Crescimento da dívida

Só que o papagaio continua sendo tema de disputa no Supremo Tribunal Federal. O ministro Nunes Marques chegou a cobrar comprovantes de pagamento da dívida em 2026. Minas já conseguiu, no passado recente, suspender pagamentos por quase dois anos via decisões judiciais.  Ou seja: o conflito federativo não desapareceu — só foi reorganizado. Registre-se que a dívida de Minas Gerais cresceu mais de 60% desde 2019, início da era Zema.

Apesar do acordo do Propag, relatórios da Secretaria de Fazenda de Minas Gerais indicam que o Estado iniciou 2026 com uma disponibilidade de caixa líquida negativa em mais de R$ 11 bilhões. Isso ocorre porque, embora a dívida tenha sido alongada, o fluxo de pagamentos e a renúncia fiscal aprovada em 2025 ainda pressionam o orçamento mineiro no curto prazo.

Como todo neoliberal brasileiro, Zema não vive sem uma mãozinha da União.

 

Fonte: FolhaPress/ICL Notícias

 

Nenhum comentário: