Fábio
Py: Uma (nova) história do deus - Flávio, cristofascista ‘escolhido’ e
totalmente crente
"Ora,
nada é mais característico do cristianismo hegemônico do que a ideia de um
'chamado', de uma 'missão' atribuída a um 'Filho de Deus'. Poucos elementos
sensibilizam tanto o universo do cristianismo comum quantos essas noções. Nesse
sentido, o marco inicial da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro se dá por meio
da leitura de uma carta pública escrita por Jair Bolsonaro (pai), na qual
destaca a escolha do filho, o '01'", escreve Fábio Py, doutor em teologia
pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor do Programa
de Pós-graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte
Fluminense Darcy Ribeiro.
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Eis o artigo.
O
artigo busca delinear a pré-campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro como a de um
cristão que teria “retornado ao evangelho” para assumir a missão (atribuída
pelo pai) de se tornar candidato à Presidência da República. Para isso, são
analisadas quatro cenas digitais produzidas para suas redes sociais, em
datas-chave do calendário cristão, entre o fim de 2025 e o início de 2026.
Nessas ocasiões, o político recorre ao repertório religioso para construir o
que chama de uma “história de Deus” no campo da política. Cabe lembrar que
Flávio é o filho mais velho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, conhecido
como “01” dentro de uma espécie de linhagem político-familiar marcada por
traços autoritários. Ao mesmo tempo, nesses primeiros meses de pré-campanha,
ele vem operando uma estratégia midiática de relativo distanciamento da figura
do pai — movimento compreensível, dado o desgaste associado à sua imagem e às
acusações envolvendo tentativas de ruptura institucional. Flávio Bolsonaro
nasceu no Rio de Janeiro e iniciou sua trajetória política ao ser eleito
deputado estadual, cargo que ocupou por mandatos consecutivos entre 2003 e
2019. Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ),
consolidou-se com uma atuação alinhada a pautas típicas da extrema-direita,
especialmente nas áreas de segurança pública e defesa de “valores morais”. Em
2018, no contexto da eleição presidencial de seu pai, foi eleito senador pelo
estado do Rio de Janeiro, passando a atuar no Congresso Nacional a partir de
2019. Sua trajetória política também foi marcada por controvérsias, como as
acusações de “rachadinhas”, envolvendo o desvio de parte dos salários de
assessores de seu gabinete durante o período em que exerceu o mandato de
deputado estadual.
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Um cristofacismo mais crente
Agora,
há pouco de mais teológico (e político) do que ser anunciado pré-candidato à
Presidência da República em pleno Natal. Por isso, reafirma-se que é uma
herança do bolsonarismo a orquestração do uso do calendário litúrgico cristão
em articulação com as mídias, de forma politicamente orientada. Tal estratégia
já foi demonstrada em análises anteriores sobre a Páscoa de 2020 e de 2021,
quando o então presidente Bolsonaro publicou mensagens nas quais assumia um
lugar de messias eleito por deus para conduzir a nação brasileira. Esse é o
ponto de partida para sustentar que esse setor autoritário articula um
“cristofascismo brasileiro”. Em outras palavras, trata-se do uso de elementos
litúrgicos, exegéticos e hermenêuticos de vertentes ultraconservadoras e fundamentalistas
do cristianismo para a construção de uma plataforma de ações autoritárias (nos
termos de Adorno), combinadas com o aprofundamento do neoliberalismo, a
perseguição a setores considerados heterodoxos (como comunistas e populações
LGBTQIAP+) e a produção de políticas que expõem os mais pobres à morte (Adorno,
2020). Assim, o “cristofascismo brasileiro” não deve ser entendido como uma
etapa passageira, mas como parte de um modo de fazer política de determinados
setores sociais no país. Essa formulação dialoga com a teóloga alemã Dorothee
Sölle, que cunhou o termo “cristofascismo” ao analisar o contexto do nazismo.
Sölle investigou as relações entre membros do Partido Nazista e igrejas cristãs
no desenvolvimento do estado de exceção na Alemanha, evidenciando como o regime
se apropriou de linguagens e símbolos cristãos para sua legitimação (Sölle,
1970). No caso alemão, Adolf Hitler mobilizou jargões cristãos como elementos
centrais de seus discursos, recorrendo, por exemplo, a passagens bíblicas como
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8,32) e “Deus criou o
homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”,
instrumentalizadas para defender uma ideia de família cristã tradicional. Além
disso, participou de encontros religiosos (luteranos e católicos) e manteve
relações com lideranças e intelectuais cristãos.
O
conceito de cristofascismo brasileiro também pode ser articulado com a reflexão
de Walter Benjamin, que compreende o fascismo não como simples regressão
civilizatória, mas como algo inscrito nas próprias condições de reprodução da
modernidade liberal e burguês-capitalista, na qual opera continuamente uma
“estetização da política” (Benjamin, 2012). Essa operação estética - que
implica uma simplificação da complexidade política - favorece concepções
conservadoras sobre moral, família e progresso, frequentemente mediadas por
formas de fundamentalismo, convertendo o todo nacional em um estado de exceção
efetivo. Além de Benjamin, incorpora-se aqui de modo mais direto a contribuição
de Theodor Adorno. Isso porque o projeto político em questão, já em seus momentos
iniciais, pode ser analisado à luz de sua reflexão sobre a propaganda fascista,
que “não é tanto a expressão de um conteúdo ideológico consistente quanto a
utilização de elementos simplificadores do discurso, sem maiores
justificativas” (Adorno, 2015, p. 141). Para Adorno, o agitador fascista deve
ser compreendido menos como um pensador sistemático e mais como um “técnico da
psicologia de massas” (Adorno, 2015, p. 154). Trata-se, portanto, de um tipo de
atuação política que recorre sistematicamente a uma lógica de simplificação
extrema, baseada em silenciamentos e na construção de uma unidade artificial
(Adorno, 2020). Essa operação é particularmente perigosa porque projeta a ideia
de sujeitos universais, ao mesmo tempo em que exclui e silencia aqueles que não
se enquadram nessa norma. A partir desse quadro teórico, passa-se à análise de
quatro postagens realizadas nas redes sociais de Flávio Bolsonaro em datas
centrais do cristianismo hegemônico, com o objetivo de explicitar as
estratégias contemporâneas dessa nova configuração de cristofascismo (ainda
mais marcada por uma performance pública de uma espiritualidade).
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Cena 1: O Natal da vocação na carta do cristofascismo
Ora,
nada é mais característico do cristianismo hegemônico do que a ideia de um
“chamado”, de uma “missão” atribuída a um “filho de Deus”. Poucos elementos
sensibilizam tanto o universo do cristianismo comum quantos essas noções. Nesse
sentido, o marco inicial da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro se dá por meio
da leitura de uma carta pública escrita por Jair Bolsonaro (pai), na qual
destaca a escolha do filho, o “01”. De certa forma, esse posicionamento
tornou-se necessário diante da força que ganhavam outros nomes, como Tarcísio
de Freitas e Michelle Bolsonaro, cogitados para compor uma possível chapa. Para
reafirmar sua escolha em meio a controvérsia, a comunicação foi realizada em 25
de dezembro de 2025, por meio de uma carta manuscrita por Bolsonaro. O texto
foi lido pelo próprio Flávio, acompanhado do “02” (o vereador Carlos
Bolsonaro), em frente ao Hospital DF Star. Antes da leitura, o “01” afirmou que
o pai se preparava para uma cirurgia, mencionando duas vezes o nome de Deus e
destacando a importância das “orações”. Nesse momento, chama atenção o fato de
ele indicar que a carta já havia sido escrita anteriormente, mas foi
deliberadamente tornada pública naquela data. O que reforça o peso simbólico do
momento na decisão de “indicar Flávio Bolsonaro como pré-candidato à
Presidência da República em 2026”, conforme registrado na leitura. Esse
elemento sustenta o argumento de uma espécie de “atenção messiânica política”
presente na carta, na qual Bolsonaro afirma: “Entrego o que há de mais
importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o
nosso Brasil. Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo
de preservar a representação daqueles que confiaram em mim”. Assim, em pleno 25
de dezembro de 2025 - data em que a tradição cristã celebra o nascimento de
Jesus -, ativa-se uma operação teológica densa no interior do cristianismo.
Trata-se da ideia de que Jesus, entendido como deus (segunda pessoa da
Trindade), “se esvazia” para tornar-se humano. Uma das formulações clássicas
dessa doutrina é a kenosis (do grego), frequentemente associada a Filipenses
2,7, no qual indica uma forma de “autoesvaziamento” ou “auto-humilhação” do
divino ao assumir a condição humana. Essa construção teológica está ligada à
noção de missão: deus envia o filho para o sacrifício, com o objetivo de
redimir a humanidade. Esses elementos são centrais nos manuais tradicionais de
teologia cristã. Nesse sentido, no dia simbólico desse “esvaziamento” - o
nascimento do “Filho de Deus” -, Jair Bolsonaro, por meio da carta, atribui ao
seu primogênito uma missão política de “resgatar o Brasil”.
Ele
próprio afirma: “entrego (…) o próprio filho”, para que este lidere “essa
corrente de milhões de brasileiros que honram a Deus, a pátria, a família e a
liberdade”. Dessa forma, de maneira cuidadosamente construída, a carta opera
uma transferência de legitimidade que mobiliza categorias centrais da teologia
cristã. A incumbência atribuída é elevada: assim como na narrativa cristã, o
filho assume uma missão de redenção. A carta, portanto, carrega um forte apelo
de transmissão messiânica de pai para filho, orientada à “preservação da
representação daqueles que confiaram” no líder anterior. Desse modo, observa-se
um processo de vocação política que articula elementos do cristianismo
fundamentalista com a construção de um projeto de poder. Trata-se de uma operação
que contribui para a reconfiguração do cristofascismo brasileiro, ao combinar
linguagem religiosa, herança política e a ampliação de práticas de exceção no
campo estatal.
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Cena 2: A estética da reconciliação do primogênito em meio às divergências
Na
segunda mensagem do dia de Natal, após a leitura da carta, o “01” aparece na
Igreja Batista da Lagoinha, em Orlando, liderada pelo pastor bolsonarista André
Valadão. A ida chama atenção por se diferenciar do padrão habitual das
aparições públicas da família Bolsonaro em ambientes religiosos. Isso porque
Jair Bolsonaro, em suas visitas a igrejas, costumava ocupar posição de
destaque, frequentemente indo à frente para falar. Nesse caso, a postura do
“01” é distinta: ele não se dirige ao púlpito. Ao contrário, vai à frente para
receber oração, em um gesto de “reconciliação com Deus”. No vídeo , constrói-se
uma cena cuidadosamente estetizada, na qual ele aparece como um “bom cristão”,
acompanhado da família no Natal. Retoma-se aqui a reflexão de Walter Benjamin
sobre a estetização da política. Nesse caso, trata-se de uma estética de cunho
fundamentalista que atua para suavizar críticas internas ao campo bolsonarista,
especialmente diante das disputas em torno da escolha do candidato. Entre os
críticos, destaca-se Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em
Cristo, que afirmou que Flávio não possuía “musculatura política” e indicou
como mais competitivos nomes como Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro.
Nesse
“momento estetizador” (Benjamin, 1987), o “01” aparece diante de Valadão, que
convida fiéis a uma “reconciliação com Deus”. Acompanhado da esposa, Fernanda
Bolsonaro, e do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), o senador participa da
oração pastoral. Posteriormente, ao comentar o episódio, descreveu sua ida à
igreja como um “momento especial de oração”, no qual sentiu “de forma muito
clara a presença de deus”, afirmando ainda que entregou “a Ele a vida do meu
pai”, confiando na condução divina do procedimento cirúrgico. Nesse discurso,
observa-se a retomada do vínculo com o pai, mediada pela linguagem religiosa.
Para reforçar essa construção, o “01” recorre a formulações de forte apelo
teológico: “Creio no deus que cura, que restaura e que sustenta. Ele é o médico
dos médicos e vai restabelecer a saúde de Jair Bolsonaro”. A ideia de
reconciliação com deus mobiliza elementos centrais do fundamentalismo pietista,
especialmente ao enfatizar atributos divinos como cura e restauração. A
expressão “médico dos médicos” dialoga diretamente com o Evangelho de Lucas
5,31 - “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes”,
seguido da afirmação de que Jesus veio chamar não os justos, mas os pecadores.
Essa referência reforça o sentido performático da ida “à frente do culto”: um
gesto público de reconhecimento, arrependimento e recomeço. Trata-se de um rito
de passagem, que prepara o sujeito para um novo ciclo - neste caso, a entrada
mais explícita na disputa eleitoral. Essa cena estética (Benjamin, 1987),
ancorada em elementos do cristianismo fundamentalista, cumpre uma função
estratégica no universo religioso: aquele que recebe uma missão divina deve,
antes, se reconectar plenamente com o divino. Ainda mais quando se trata de uma
missão política atribuída no interior de uma linhagem familiar. Assim, ganha
sentido o registro público, em pleno Natal, do “01” sendo filmado ao se
“reconciliar com deus”, como parte da construção de sua legitimidade para a
candidatura. Ao mesmo tempo, a cena atua como resposta às críticas internas,
operando como um gesto de recomposição simbólica. Deste modo, esse conjunto de
duas cenas digitais (a carta e a reconciliação) apresenta o “01”
simultaneamente como herdeiro de uma missão messiânica e como sujeito em processo
de purificação para exercê-la. A seguir, passam-se às duas cenas da Páscoa de
2026.
Cena 3:
A Páscoa do 01 e a simplificação cristão-política pelo valor da família
Após as
duas cenas do Natal de 2025, passa-se às duas cenas da Páscoa de 2026, agora
com um tom mais claramente devocional, em sintonia com o cristianismo
hegemônico. Afinal, depois de receber a missão atribuída pelo “capitão” e de
passar por um processo simbólico de redenção no Natal, o “01” busca se
apresentar como “verdadeiramente cristão”. No vídeo, afirma que essa é uma
“época do ano que traz muita esperança para todos nós: a Páscoa”, destacando-a
como “um dos momentos mais profundos da fé: a paixão, morte e ressurreição de
Jesus”. Ao mobilizar essa sequência (paixão, morte e ressurreição), demonstra
conhecimento da temporalidade central do calendário litúrgico cristão e da
narrativa fundamental da fé. Nesse contexto, o “01” aciona elementos clássicos
do léxico cristão: “amor ao próximo”, “perdão”, “compaixão” e “renovação”. São
termos diretamente associados à tradição pascal, o que evidencia uma construção
discursiva que busca demonstrar familiaridade com o universo cristão,
especialmente com sensibilidades católicas e evangélicas. Ao mesmo tempo, é
importante destacar o tom genérico e conciliador adotado. Ao evocar valores
como “amor”, “solidariedade” e “esperança” , o discurso se aproxima do que
Theodor Adorno identifica, em Aspectos do Novo Radicalismo de Direita (2020),
como uma forma de moderação discursiva estratégica. Trata-se de uma linguagem
que mobiliza valores amplamente aceitos, dificultando sua contestação e
reduzindo a resistência crítica.
Como
observa Adorno, “os movimentos radicais de direita frequentemente adotam um tom
aparentemente razoável e moderado, a fim de tornar suas posições aceitáveis a
um público mais amplo” (Adorno, 2020, p. 79). Esse tom também funciona como
preparação do terreno simbólico para discursos posteriores, potencialmente mais
polarizadores. No caso em análise, ao discursar sobre a Páscoa, o “01”
apresenta valores cristãos como se constituíssem uma base ética comum a toda a
sociedade. Com isso, desloca o cristianismo do campo confessional para um
horizonte civilizacional mais amplo. Trata-se de um movimento discursivo
relevante, pois estabelece uma conexão entre religião e o nacional - um dos
mecanismos centrais do que se denomina cristofascismo. Essa operação torna-se
evidente quando afirma que a mensagem pascal pode inspirar “todos nós,
independentemente de nossa crença”. Ao fazê-lo, suaviza diferenças culturais e
religiosas, ao mesmo tempo em que universaliza uma gramática cristã específica.
Esse movimento pode ser interpretado à luz do conceito adorniano de ideologia,
entendido como aquilo que se apresenta como universal enquanto encobre sua
particularidade. Nesse sentido, o vídeo configura uma performance de
pertencimento religioso. O “01” demonstra domínio do vocabulário cristão e o
mobiliza em uma data central do calendário litúrgico para se posicionar como
alguém “de dentro” do universo da piedade cristã. Esse elemento é estratégico
para sua candidatura, que busca instrumentalizar o cristianismo hegemônico como
base simbólica de um projeto de poder - possivelmente ainda mais densificado do
que aquele mobilizado por seu pai. Assim, o vídeo de Páscoa, ao enfatizar
“amor”, “perdão” e “solidariedade” em um nível superficial – depois do
“chamado” e a “reconciliação” com o divino –, contribui para uma simplificação
religiosa da política. Essa simplificação pode, posteriormente, abrir espaço
para a construção de antagonismos, inimigos e exclusões - elementos
constitutivos do dispositivo cristofascista, que se tornam mais visíveis na
cena seguinte.
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Cena 4: A Páscoa do 01 e o dispositivo cristofascista a partir do texto de
Colossenses
Como já
indicado, além da reflexão religiosa no dia 5 de abril de 2026, Flávio
Bolsonaro também envia um recado no contexto das tensões internas da
extrema-direita brasileira em torno das eleições. Em meio às disputas no campo
autoritário, grava um vídeo no qual afirma: “Tô gravando esse vídeo pra tentar
chamar todos pra racionalidade. É muito angustiante ver lideranças do nosso
lado se digladiando”. Na sequência, mobiliza um elemento clássico da retórica
dos fascismos ao declarar: “enquanto a gente tem um país pra resgatar e o
inimigo não tá aqui, tá do lado de lá. Esse é o tipo de confusão que não tem
vencedor, todo mundo sai perdendo!”. A construção discursiva do “inimigo”,
localizado sempre “do outro lado”, constitui uma peça central do que Theodor
Adorno analisa como traço das personalidades autoritárias. Nesse tipo de
formulação, o “lado de lá” (frequentemente associado à esquerda ou a
adversários políticos) deixa de ser reconhecido como parte legítima do jogo
democrático e passa a ser enquadrado como inimigo a ser combatido. Como observa
Adorno, há um deslocamento das tensões e contradições internas do grupo para
uma figura externa, permitindo a recomposição da unidade interna (Adorno, 2015,
p. 121). Nesse sentido, “indivíduos autoritários tendem a pensar em termos
rígidos de ‘nós’ e ‘eles’” (Adorno, 2015, p. 123). Na mesma direção, Umberto
Eco observa que a construção de um inimigo é fundamental para dar coesão e
propósito a determinados projetos políticos, funcionando como elemento
organizador da identidade coletiva (Eco, 1995). É nesse registro que a fala do
“01” deve ser compreendida: ao afirmar que “todo mundo sai perdendo”, ele não
apenas critica conflitos internos, mas convoca seu campo político à
recomposição estratégica diante de um adversário comum.
Esse
tipo de construção está diretamente associada a uma lógica binária, típica de
formações autoritárias, que operam a partir de oposições rígidas. Nessa chave,
emerge o apelo à “unidade” como valor absoluto - uma unidade que tende a
suprimir divergências internas. O “01” explicita esse movimento ao afirmar:
“Pessoal, a partir de agora, todos nós temos que focar em um só objetivo: bora
olhar pra frente”. A partir desse ponto, o discurso avança para uma
fundamentação explicitamente religiosa, mobilizando diretamente o universo do
cristianismo fundamentalista. Para sustentar a necessidade de superação dos
conflitos internos, recorre ao texto bíblico de Colossenses 3,13: “Não fiquem
irritados uns com os outros e perdoem uns aos outros; caso alguém tenha alguma
queixa contra outra pessoa, assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem uns aos
outros”. Ao acionar essa passagem, atribui um fundamento teológico à
necessidade de unidade política. Trata-se de uma reatualização da carta
paulina, originalmente escrita em um contexto de divergências na comunidade de
Colossos, na qual se orienta o comportamento dos fiéis diante de conflitos
internos. Como observa James D. G. Dunn, trata-se de uma exortação à construção
de uma “nova vida em Cristo”, que inclui práticas de reconciliação e perdão
(Dunn, 1996, p. 325). No entanto, no contexto analisado, esse recurso opera
como uma transposição direta do stor teológico para o político, mobilizando um
passado idealizado para reforçar a necessidade de coesão interna. A repetição do
imperativo “perdoem uns aos outros” assume, assim, uma função estratégica: não
apenas religiosa, mas também política. Em meio a esse discurso, o “01” reforça
seu apelo ao afirmar: “Pessoal, só vem comigo, vem me ajudar a devolver a fé”.
Essa formulação é central. Seu projeto não se apresenta apenas como um projeto
de governo, mas como uma missão de restauração simbólica: “devolver a fé, a
esperança e a alegria para nossa nação”. Lida em articulação com o uso do texto
bíblico, a expressão “devolver a fé” adquire contornos próximos ao pietismo
cristão fundamentalista, vinculando a ideia de renovação espiritual à
reorganização da vida nacional. Ao final, o discurso se fecha com uma
hierarquização clara de prioridades: “todo o resto agora é menor”. Essa afirmação
funciona como uma ratificação do projeto político apresentado, ao mesmo tempo
em que reforça o apelo à unidade como valor superior. Trata-se de uma operação
potencialmente problemática do ponto de vista democrático, pois tende a
desqualificar divergências, reduzir o espaço do debate e enfraquecer práticas
deliberativas. Não por acaso, esse discurso é proferido no contexto da Páscoa,
data central do cristianismo, reforçando o uso estratégico de símbolos
religiosos para sustentar uma política de unificação. Ao mobilizar o texto de
Colossenses nesse cenário, constrói-se a ideia de que, fora dessa lógica de
coesão, “todo o resto agora é menor” — o que explicita, em termos discursivos,
o funcionamento do dispositivo cristofascista.
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Indicações parciais sobre um cristofascismo mais “crente”
Como se
demonstrou ao longo das cenas analisadas (especialmente nas postagens
vinculadas a datas centrais do calendário litúrgico, como o Natal e a Páscoa),
Flávio Bolsonaro constrói sua pré-candidatura à Presidência da República a
partir de uma narrativa que o apresenta como um “filho entregue” à missão de
liderar a nação. Trata-se de uma elaboração que guarda paralelos com a figura
de Jesus no cristianismo, mobilizando a ideia de vocação, sacrifício e envio.
Nesse sentido, evidencia-se a construção estratégica de uma “história com Deus”
como eixo organizador da campanha do “01”. Na segunda cena, por exemplo, sua
presença na igreja, sendo publicamente “orado”, não apenas reforça sua imagem
de piedade, mas também marca um momento de submissão e entrega ao divino,
necessário para legitimar o início de seu projeto político. Como ele próprio
afirma, trata-se de uma “reconciliação com Deus” (gesto de forte apelo em um
país majoritariamente cristão).
Essa
“história com Deus” avança ao longo dos meses seguintes. Já na cena da Páscoa,
o “01” assume a posição de alguém autorizado a “trazer uma palavra” à nação,
mobilizando elementos centrais da fé cristã para construir uma mensagem de
alcance coletivo. Em seguida, no mesmo contexto pascal, aprofunda esse
movimento ao recorrer ao texto bíblico de Colossenses, atribuindo um fundamento
teológico à necessidade de superação das divergências internas. Nesse ponto, a
operação se torna mais evidente: ao afirmar que tudo aquilo que escapa a esse
projeto é “menor”, estabelece-se uma hierarquia simbólica na qual a unidade do
campo político alinhado à sua candidatura se sobrepõe às diferenças. Assim, a
“história com Deus” que estrutura essa narrativa não apenas legitima o
candidato, mas também orienta o comportamento esperado de seus apoiadores
(especialmente no sentido da coesão e da obediência). Desse modo, o que se
observa é a consolidação de uma forma específica de cristofascismo, na qual
elementos do cristianismo, especialmente em sua vertente fundamentalista, são
mobilizados para sustentar um projeto de poder. Nessa configuração, a dimensão
religiosa não aparece apenas como adorno retórico, mas como eixo estruturante
de legitimidade política. Isso permite compreender por que aspectos
potencialmente controversos da trajetória do candidato (como acusações
políticas, posições radicais ou performances públicas) tendem a ser
relativizados ou reabsorvidos no interior dessa narrativa. Afinal, toda
“história com Deus” comporta tensões, desvios e ambiguidades, que são
reconfigurados como parte de um percurso maior de missão. Assim, mais do que um
recurso pontual, a articulação entre linguagem religiosa, calendário litúrgico
e estratégia política indica a formação de um dispositivo mais amplo, no qual
fé, poder e o nacional se entrelaçam. É nesse entrelaçamento que se delineia
uma versão ainda mais “crente” do cristofascismo brasileiro contemporâneo.
Fonte:
IHU

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