Reforma
Tributária: brecha ameaça recursos do SUS
Uma
lacuna preocupante foi aberta pela Reforma Tributária aprovada em 2023, que já
tem alíquotas em fase de testes e começa a entrar em vigor a partir de janeiro
de 2027. Se não for corrigida, pode trazer um ambiente de insegurança em
relação à origem dos recursos que financiam o sistema de Seguridade Social do
Brasil, que tem como pilares as áreas de Saúde, Previdência e Assistência
Social.
É o que
argumenta uma análise apresentada pelo economista, doutor em política social e
professor do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de
Brasília (UnB), Evilasio Salvador, e pela assistente social, doutora em
Política Social e professora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Micheli Burginski. Segundo seus
estudos, as alterações no sistema previstas pela Emenda Constitucional 132/2023
podem afetar o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), já que tributos
como o PIS e a Cofins, contribuições sociais destinadas à Seguridade Social
segundo a Constituição, serão agregadas sob a Contribuição sobre Bens e
Serviços (CBS), que inclui ainda o Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI).
“Levantamento
que realizamos no sistema Siga Brasil mostra que, no período de 2016 a 2024,
Cofins e a CSLL [Contribuição Social sobre o Lucro Líquido] foram as duas
principais contribuições sociais que financiaram a Saúde. (…) fica evidente a
forte dependência do financiamento da Saúde de Cofins, que foi extinta pela
reforma tributária e chegou a representar 71,83% do orçamento pago, em 2022, na
função orçamentária saúde”, apontam os autores. “As fontes 1001 (Recursos
Livres da Seguridade Social) e 1002 (Atividades-Fim da Seguridade Social),
originadas da Cofins e da CSLL, responderam por 83,52% dos recursos aplicados
na função saúde em 2024.”
Salvador,
em entrevista ao Outra Saúde, ressalta a importância de se atentar à
regulamentação da reforma. “A transição tributária é complexa, pois mexe com
uma segurança jurídica construída ao longo de trinta anos. Nesse processo, é
fundamental deixar claras as destinações dos recursos. O modelo anterior era
ruim e regressivo, onerando os mais pobres, um problema que a atual reforma não
resolve”, comenta, lembrando de outro aspecto daquilo que não foi modificado.
Embora a nova CBS busque simplificar o sistema e aumentar a transparência, ela
é classificada como um tributo regressivo – ou seja, assim como a Cofins,
continua a onerar proporcionalmente mais as camadas de baixa renda, pois incide
sobre o consumo.
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Incertezas na arrecadação local e o desafio das prefeituras
Outro
sinal de alerta sobre a CBS é o fato de o IPI compor, junto ao Imposto de Renda
(IR) um dos principais mecanismos de transferência constitucional da União, o
Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o Fundo de Participação dos
Municípios (FPM). “O FPE recebe 21,5% e o FPM 24,5% da arrecadação desses
tributos, garantindo redistribuição de receitas, redução das desigualdades
regionais e fortalecimento do equilíbrio federativo. Esses recursos são
essenciais para que os entes federativos cumpram o mínimo constitucional de
aplicação em ações e serviços públicos de saúde”, destacam Salvador e
Burginski.
Mas não
é só a CBS e o fim das contribuições sociais específicas para a área de
Seguridade Social que preocupam os pesquisadores. A substituição do ISS,
principal tributo municipal, e do ICMS (estadual) pelo Imposto sobre Bens e
Serviços (IBS) também pode gerar incertezas na arrecadação local, afetando a
gestão das cidades.
Na
segunda mesa do ciclo Diálogos sobre o SUS, organizado pelo Instituto Walter
Leser (IWL) da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP),
a questão da responsabilidade das administrações municipais na área foi
destacada como um dos desafios para a manutenção e aprimoramento do SUS, já que
o município é o elo fraco desse pacto federativo do ponto de vista da
capacidade de financiamento das políticas públicas.
O
economista e pesquisador associado ao IWL-FESPSP, Francisco Funcia, pontua que,
no caso da saúde, a União gasta, do total investido na área, 42%, e os
municípios, 32% no total. O estado é o terceiro em termos de financiamento, com
26%. “O município não tem espaço para propor mais recursos para resolver essa
questão. Quando dizemos que tem que ter mais apoio do governo federal e dos
governos estaduais no financiamento do SUS, é um pouco por conta desse olhar
estrutural da capacidade dos entes federativos.”
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Tributação de produtos nocivos: arrecadação versus prevenção
Também
relacionado à área de saúde na Reforma Tributária, mas sem que sua arrecadação
constitua uma destinação direcionada à área, o Imposto Seletivo é outro
instrumento importante para o debate. Aplicado especificamente a produtos e
serviços prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, ao encarecer itens que causam
doenças, como tabaco ou bebidas alcoólicas, o tributo poderia reduzir o seu
consumo, diminuindo a demanda por atendimentos no SUS relacionados a essas
patologias no longo prazo.
Em
entrevista ao jornal Folha de S. Paulo no início de abril, o diretor da
Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda, Rodrigo Orair, afirmou que a
minuta da proposta relacionada ao Imposto Seletivo está pronta, mas falta
definir quais serão as alíquotas. Entre os cenários elaborados pela área
técnica do governo estão aqueles que permitem manter a carga atual dos produtos
ou alcançar metas mais ambiciosas de saúde pública.
Mais
importante que a arrecadação em si, o objetivo principal é outro com esse
tributo. “O tabagismo provoca cerca de 477 mortes por dia (mais de 173 mil ao
ano, ou 12% de todas as mortes no Brasil) e gera um custo anual de R$ 112,2
bilhões, incluindo R$ 67,2 bilhões em tratamentos de saúde e R$ 45 bilhões em
perda de produtividade, enquanto a arrecadação de impostos do setor não
ultrapassa R$ 8 bilhões. O consumo de álcool, principal causa de morte e
invalidez entre brasileiros de 15 a 49 anos, resulta em 12 mortes por hora,
somando 105 mil por ano, com impacto econômico de R$ 20,6 bilhões, equivalente
a quase 10% do orçamento do Ministério da Saúde. Já as bebidas açucaradas e
outros ultraprocessados estão associados a cerca de 70 mortes prematuras por dia
e, apenas em 2019, foram responsáveis por 33% das mortes prematuras por todas
as causas e 22% das cardiovasculares, gerando um custo anual ao Sistema Único
de Saúde (SUS) de quase R$ 3 bilhões com o tratamento de doenças provocadas
pelo consumo de bebidas açucaradas, e de R$ 10,4 bilhões por ano quando
considerados todos os ultraprocessados (custos diretos com tratamentos no SUS e
indiretos por mortes e absenteísmo)”, apontava um manifesto divulgado em março
pela ACT Promoção da Saúde.
Subscrito
por ex-ministros da Saúde como José Gomes Temporão, Nísia Trindade e Arthur
Chioro, além de médicos como Drauzio Varella, Margareth Dalcomo e Gonzalo
Vecina, o texto solicitava “que o projeto de lei ordinária a ser encaminhado em
breve ao Congresso Nacional assegure, de forma inequívoca, o cumprimento de seu
objetivo constitucional: desestimular o consumo de produtos nocivos à saúde e
ao meio ambiente por meio da elevação da carga tributária sobre esses itens”.
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Propostas para proteger o orçamento e reduzir a regressividade
Em sua
conversa com o Outra Saúde, Evilasio Salvador sugeriu medidas que poderiam
proteger a aplicação dos mínimos constitucionais da saúde. “Como salvaguarda
essencial, a regulamentação deve garantir a preservação do valor real dos pisos
de saúde e educação no ‘marco zero’ da reforma. Nenhum ente da federação
deveria poder aplicar um valor inferior ao praticado no ano anterior em termos
reais”, defende.
O
pesquisador sustenta ainda que outras medidas na área tributária deveriam ser
promovidas para modificar sua estrutura regressiva, como o fim da isenção de
tributação sobre lucros e dividendos, o aprimoramento da cobrança de IPVA sobre
veículos de luxo como jatinhos e iates, a revisão do Imposto Territorial Rural
(ITR), que “arrecada muito pouco em um país dominado por latifúndios”, a
reformulação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e o resgate da
bandeira do Imposto sobre Grandes Fortunas.
E
propõe ainda outras discussões sobre a questão. “As renúncias tributárias, que
funcionam como financiamento público ao setor privado, precisam ser revistas e
regulamentadas. Esse é um tabu na sociedade, inclusive para a classe média que
se beneficia de deduções regressivas no Imposto de Renda, mas é um problema que
precisa ser atacado”, sugere.
Outro
ponto crítico, segundo ele, são as emendas parlamentares, que já representam
10% do orçamento da saúde e continuam crescendo consideravelmente. “Esses
recursos deveriam ser um valor adicional, um plus para a área, e não
contabilizados para atingir o piso constitucional mínimo”, argumenta.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outra Saúde

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