Por
que o Spotify não tem um botão para filtrar música feita por IA
Em
meados de 2025, a frustração de Cedrik Sixtus chegou a um novo limite.
Ao
perceber que suas playlists no Spotify estavam cada vez mais repletas de faixas
que ele suspeitava terem sido geradas por inteligência artificial (IA), o
programador, que vive em Leipzig, na Alemanha, criou uma ferramenta para
rotular e bloquear automaticamente esse tipo de música nas suas playlists.
Batizado
de Spotify AI Blocker, o software foi publicado em plataformas de
compartilhamento de código e centenas de pessoas o baixaram. A ferramenta
filtra uma lista crescente de mais de 4,7 mil artistas suspeitos de usar IA,
com base em iniciativas comunitárias de monitoramento e em sinais como um
volume incomum de lançamentos, capas com estética típica de IA e o apoio de
ferramentas externas de detecção.
"É
uma questão de escolha — se você quer ouvir música feita por IA ou não",
afirma Sixtus. Para ele, o ideal seria que o próprio Spotify identificasse
claramente esse tipo de conteúdo e oferecesse a opção de filtrá lo.
A
ferramenta de Sixtus é instalada inicialmente no navegador pela versão do
Spotify para web. Ele alerta que usar seu software "pode violar os termos
de serviço do Spotify".
Ele não
é o único incomodado com isso. O tema desperta debates acalorados nos fóruns da
comunidade do Spotify, o serviço de streaming de música mais popular do mundo.
Enquanto alguns criticam a qualidade da música gerada por IA, outros
simplesmente rejeitam a ideia de ouvir algo que não foi criado por um ser
humano.
O
Spotify fez algumas concessões para lidar com essas preocupações.
Neste
mês, passou a testar um recurso que indica, nos créditos de uma música, de que
forma a IA foi utilizada por um artista. Mas é um sistema voluntário baseado no
que um artista informa à sua gravadora ou distribuidora.
"Sabemos
que isso, por si só, não é uma solução completa. Criar um sistema realmente
abrangente é um desafio que exige alinhamento de toda a indústria",
declarou o Spotify.
Ainda
assim, a empresa está longe de adotar uma postura ativa de identificação de
músicas geradas por IA ou de permitir que usuários as filtrem.
"É
um equilíbrio delicado — quase existencial — para o Spotify", avalia
Robert Prey, pesquisador do Instituto de Internet da Universidade de Oxford,
especializado em plataformas de streaming. Segundo ele, a empresa tenta evitar
julgamentos de valor sobre a forma como a música é criada, mas corre o risco de
minar a confiança entre ouvintes, artistas e a indústria se não oferecer
transparência suficiente.
"O
Spotify precisa entender o que os ouvintes querem e como os artistas se sentem
— tudo isso enquanto a IA evolui, se difunde e se torna cada vez mais difícil
de detectar", acrescenta.
A
chegada da IA generativa à música provoca fascínio e inquietação em igual
medida. Serviços como Suno e Udio já conseguem gerar canções completas — com
letra, voz e instrumentação — a partir de simples comandos de texto, em questão
de segundos, e com um nível de refinamento cada vez maior.
Um
teste recente, que fez parte de uma pesquisa da Deezer–Ipsos, mostrou que 97%
dos ouvintes não conseguiram diferenciar corretamente músicas feitas por IA de
faixas criadas por humanos. Ao mesmo tempo, dezenas de milhares dessas músicas
parecem ser enviadas diariamente às plataformas de streaming, onde podem diluir
o bolo de receitas destinado a artistas humanos — ainda que, por enquanto, a
maioria tenha poucas reproduções.
Spotify,
YouTube Music e Amazon Music vêm evitando, até agora, adotar rótulos claros ou
filtros visíveis para o usuário, sem recorrer abertamente a ferramentas de
detecção ou exigir autodeclarações sistemáticas — embora esse cenário possa
mudar com o surgimento de padrões no setor.
Artistas
amplamente suspeitos de serem criações de IA, como Sienna Rose, Breaking Rust e
The Velvet Sundown, são tratados como quaisquer outros no Spotify. A plataforma
afirma agir apenas contra o que considera usos nocivos da tecnologia, como
spam, envios massivos de faixas ou músicas muito curtas criadas para burlar o
sistema.
"Nossa
prioridade é combater usos prejudiciais [da IA], como falsificação de
identidade e spam, em vez de filtrar músicas com base em como foram
feitas", disse um porta voz da empresa, ressaltando que o uso de IA na
música existe em um espectro, e não como uma categoria binária.
A
Deezer — uma concorrente menor do Spotify — adotou uma abordagem mais rigorosa.
Desde o
ano passado, passou a rotular álbuns que contêm faixas geradas por IA e a
excluí las de recomendações algorítmicas e playlists focadas em música criada
por humanos.
A
empresa utiliza tecnologia própria de detecção, treinada para identificar
padrões estatísticos no áudio, e recentemente começou a oferecê la ao mercado.
"Somos a única plataforma de streaming a ter isso implementado",
afirma Jesper Wendel, diretor de comunicações globais da Deezer.
Em
março, a Apple Music anunciou que passaria a adotar "etiquetas de
transparência" e que, futuramente, exigiria que gravadoras e
distribuidoras informassem quando novas músicas envolvessem IA. Críticos, no
entanto, ressaltam que sistemas baseados em autodeclaração tendem a ser pouco
confiáveis, já que artistas podem evitar divulgar o uso da tecnologia por
receio de estigmatização — e ainda não está claro o quão visíveis serão as
etiquetas da Apple para os ouvintes.
O fato
de a música de IA existir em um contínuo realmente torna a rotulagem difícil,
diz Maya Ackerman, especialista em IA e criatividade computacional na
Universidade Santa Clara, na Califórnia, e cofundadora e CEO da WaveAI, que tem
uma ferramenta de IA para ajudar músicos a escrever letras.
Enquanto
algumas ferramentas são "escreva um prompt, receba uma música" — em
que rótulos de IA seriam diretos —, outras são projetadas para co-criação,
ajudando com partes específicas do processo de fazer música. Se um músico usa
essas ferramentas, em que ponto isso justificaria um rótulo?
E, diz
Ackerman, mesmo com ferramentas como Suno e Udio, usuários podem colocar muito
de sua própria criatividade nos resultados — inserindo letras próprias ou
passando muitas horas refazendo a música.
"De
longe, parece óbvio que a resposta para tudo é: 'sim, vamos rotular música de
IA', mas, quando você olha de perto, percebe que é algo muito complicado",
diz ela.
Há
também o desafio técnico de detectar com precisão faixas geradas por IA, com
consequências potencialmente graves se músicos humanos forem rotulados
falsamente como IA.
Mesmo
detectar música totalmente gerada por IA pode ser problemático, observa Bob
Sturm, que estuda a disrupção da música pela IA no KTH Royal Institute of
Technology, na Suécia.
Sistemas
de detecção de IA são treinados em resultados de ferramentas existentes de
geração de música por IA, mas, à medida que essas ferramentas melhoram, o
software precisa ser continuamente retreinado, levando ao que ele caracteriza
como uma espécie de "corrida armamentista da música de IA".
É um
desafio, reconhece Manuel Moussallum, diretor de pesquisa da Deezer, mas a
tecnologia de detecção da empresa, até agora, manteve uma baixa taxa de falsos
positivos, diz ele, e a pesquisa para entender melhor casos híbridos, em que a
IA é usada apenas parcialmente, continua.
Ainda
assim, outros veem essas preocupações como uma distração.
"Há
uma mensagem de lobby para dizer 'não conseguimos traçar a linha e, portanto,
não deveríamos fazer nada'", diz David Hoffman, professor da Universidade
Duke, na Carolina do Norte, que estuda o impacto da música gerada por IA no
sustento dos artistas.
Ele
argumenta que as plataformas deveriam pelo menos rotular faixas totalmente
geradas por IA e avaliar a dimensão do restante do problema a partir daí.
E os
ouvintes parecem querer rótulos: na pesquisa Deezer–Ipsos, cerca de 80% dos
entrevistados disseram que música gerada por IA deveria ser claramente
rotulada, embora as opiniões sobre filtragem fossem mais divididas.
"Os
ouvintes merecem saber", diz a cantora e compositora Tift Merritt, que
trabalha com Hoffman na Duke, citando a forma como fornecemos rótulos
nutricionais em alimentos ou informamos consumidores se algo é orgânico.
O que
pode realmente estar impedindo o Spotify de adotar rotulagem e filtragem é a
economia, especulam muitos.
O
Spotify está tentando otimizar o crescimento da plataforma, diz Prey, de
Oxford. Manter os sistemas de recomendação o mais "desimpedidos e livres
para operar" possível ajuda nisso.
Detectar
conteúdo gerado por IA adicionaria custo, observa Hoffman, e também pode ser
mais barato oferecer música de IA.
Controvérsias
anteriores alimentam suspeitas, observam críticos. O Spotify, em vários
momentos, foi acusado de encomendar e promover música de menor custo para
playlists de estilo "música ambiente" — alegações que nega.
"Todas
as faixas na nossa plataforma são entregues por detentores de direitos de
terceiros, como gravadoras e distribuidoras, e o modelo de pagamento é o mesmo
para todas elas: os royalties são pagos a partir do bolo de receita com base na
participação de audição", disse um porta-voz do Spotify.
Enquanto
isso, a área está evoluindo.
O órgão
de padrões da indústria musical, a DDEX, continua trabalhando em um padrão
amplo para a indústria sobre divulgações de IA nos créditos musicais, embora a
exibição dependa das plataformas de streaming.
E
certos conteúdos gerados por IA serão obrigados a ser rotulados a partir de
agosto de 2026 sob o AI Act da União Europeia; embora ainda não esteja claro
como o Spotify implementará essas regras.
Parece
um "Velho Oeste" para música de IA neste momento, diz David
Hesmondhalgh, professor de mídia, música e cultura na Universidade de Leeds.
Mas ele
também espera que "algum tipo de ordem surja", assim como o pânico
com o compartilhamento de arquivos no início dos anos 2000 acabou levando à
indústria de streaming de hoje.
E o
Spotify parece estar reconhecendo a pressão, ao anunciar recentemente recursos
voltados a valorizar a arte humana, incluindo SongDNA e "About the
Song", que dão a usuários premium uma visão mais aprofundada sobre as
origens e os colaboradores de uma faixa.
"Acreditamos
que a resposta certa para a IA na música não é uma única política; é uma
combinação de controles proativos, padrões em toda a indústria e um
investimento mais profundo na criatividade humana por trás de cada faixa",
acrescentou o porta-voz do Spotify.
Fonte:
BBC News em San Francisco

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