quarta-feira, 29 de abril de 2026

O caso inusitado do ouro “americano” que nasce no crime

Há algo profundamente revelador — e perturbador — na recente investigação do The New York Times: ouro extraído por cartéis de drogas na Colômbia está sendo incorporado à cadeia oficial e vendido como “ouro americano”. Não se trata de um desvio marginal. Trata-se de um mecanismo.

A narrativa oficial é conhecida: países centrais, como os Estados Unidos e o Canadá, operam sob rígidos padrões de rastreabilidade, governança e respeito a normas internacionais. Mas, quando se observa a cadeia concreta, essa imagem começa a se desfazer. O que aparece no lugar é outra coisa: um sistema que transforma origem ilegal em produto legítimo por meio de operações técnicas, jurídicas e financeiras perfeitamente legais.

Mais do que isso: a investigação mostra que esse processo não ocorre à margem do sistema, mas no seu interior. A própria United States Mint — responsável pela cunhagem de moedas de investimento — adquire ouro por meio de fornecedores que importam grandes volumes de metal estrangeiro. Uma vez fundido e misturado, esse ouro passa a ser contabilizado como produto doméstico, sob a supervisão do U.S. Treasury, que sustenta a legalidade desse enquadramento.

<><> A ficção da origem

A investigação mostra que ouro colombiano — inclusive de áreas sob controle de cartéis como o Clan del Golfo — entra nos Estados Unidos, é misturado a ouro local e, a partir daí, passa a ser considerado “norte-americano”. Esse ponto é crucial. A mudança não ocorre na mina, nem na extração. Ocorre no momento da classificação. Uma simples operação de mistura altera a identidade do produto. O que antes estava associado a desmatamento ilegal, violência paramilitar e narcotráfico torna-se, por definição, um ativo legítimo.

E mais: essa transformação não viola a lei. Ela está dentro das regras.

<><> Quando a legalidade encobre a realidade

A própria Casa da Moeda Real Canadense admite que não realiza verificação aprofundada sobre a origem do ouro quando ele já foi “processado” por fornecedores intermediários. Confia, como disse sua assessoria jurídica, na auditoria desses fornecedores.

É aqui que a contradição se revela com mais nitidez. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estabelece diretrizes claras: empresas devem realizar diligência prévia robusta para garantir que minerais não financiem conflitos, violações de direitos humanos ou atividades ilícitas. Mas, como reconheceu um de seus próprios consultores, deixar de fazer essa verificação representa um desvio significativo tanto da letra quanto do espírito dessas diretrizes.

Ainda assim, nada acontece. Não há sanção legal, nem penalidade efetiva. A norma existe — mas sua aplicação é, na prática, facultativa.

<><> A indústria do ouro como zona cinzenta global

O que esse episódio revela é que o problema não está apenas na falha de um ator específico. Ele está no desenho da própria cadeia global.

O ouro possui características singulares: pode ser fundido e remoldado indefinidamente, perde sua identidade física original, circula por múltiplos intermediários e concentra enorme valor em volumes reduzidos. Essas propriedades fazem dele um ativo ideal não apenas para preservar riqueza, mas também para ocultar sua origem.

É por isso que o ouro se tornou um dos instrumentos mais eficientes de conversão de riqueza ilícita em ativo legítimo. E não apenas para organizações criminosas. O próprio sistema financeiro global absorve esse ouro sem exigir rastreabilidade plena, desde que ele passe pelos canais considerados formais.

Como mostra o caso, basta um intermediário, uma etapa de mistura e um enquadramento regulatório conveniente para que ouro de origem criminosa seja plenamente integrado ao mercado.

<><> De onde vem, afinal, o ouro dos Estados Unidos?

A pergunta que emerge é inevitável — e desconfortável: de onde vem, de fato, o ouro vendido como americano?

A resposta honesta é que ele provém de múltiplas origens, muitas delas impossíveis de rastrear com precisão. A cadeia não foi desenhada para garantir transparência absoluta. Foi desenhada para garantir fluidez. E isso muda completamente o debate.

Não estamos diante de uma falha ocasional de compliance. Estamos diante de um sistema que tolera — e, em certa medida, depende — da opacidade.

<><> O colapso silencioso das salvaguardas

Com o preço do ouro em níveis historicamente elevados, os incentivos econômicos tornam essa dinâmica ainda mais intensa. Torna-se mais lucrativo avançar sobre florestas, ocupar territórios pela força, financiar estruturas armadas e inserir esse ouro na cadeia global.

As salvaguardas institucionais continuam existindo, mas operam sob uma lógica de custo-benefício. E, hoje, o custo de investigar profundamente é maior do que o risco de não investigar.

<><> O problema não é o desvio. É o sistema

Talvez o aspecto mais importante dessa história não seja o envolvimento de cartéis. É o fato de que tudo isso ocorre sem ruptura institucional, sem ilegalidade explícita, sem crise imediata.

O sistema funciona — exatamente como foi desenhado.

Ele não impede que ouro ilícito entre na cadeia formal. Apenas exige que, em algum ponto do percurso, esse ouro seja reclassificado.

<><> Um espelho do capitalismo contemporâneo

O caso do ouro é, na verdade, um espelho. Mostra como cadeias globais de valor operam ao separar origem de produto final, fragmentar responsabilidades e converter ilegalidade material em legalidade formal.

Não se trata apenas do ouro. Trata-se de uma lógica mais ampla de funcionamento da economia global, cada vez mais dependente da capacidade de transformar opacidade em legitimidade.

A pergunta, portanto, não é se há ouro de origem ilícita no mercado internacional. A evidência sugere que há. A pergunta relevante é outra: até que ponto o próprio sistema precisa que isso continue acontecendo?

Porque, se a rastreabilidade plena fosse de fato exigida, parte significativa dessa cadeia simplesmente deixaria de funcionar. E isso talvez explique o silêncio — e a complacência — diante de casos como este.

<><> A quem interessa esse sistema?

A resposta mais honesta é: a muitos atores — e por razões distintas.

Interessa ao crime organizado, que encontra no ouro um meio eficaz de converter riqueza ilícita em ativo legítimo. Interessa aos intermediários, que operam justamente nesse espaço entre rastreabilidade formal e opacidade real, onde a flexibilidade na definição de origem garante fluidez e alta rentabilidade.

Interessa também aos Estados Nacionais, não porque promovam diretamente essas práticas, mas porque se beneficiam de um mercado de ouro profundo, líquido e funcional. O ouro segue sendo reserva de valor, ativo estratégico e instrumento de estabilidade. Submeter sua cadeia a um controle rigoroso implicaria introduzir fricções que poucos estão dispostos a aceitar.

Forma-se, assim, uma convergência silenciosa. O crime precisa de canais de legalização. O mercado precisa de oferta contínua. Os Estados precisam de estabilidade.

<><> Um sistema que pode financiar o ilícito

A questão não é hipotética. Quando ouro extraído sob controle de grupos armados entra na cadeia formal e é aceito como produto legítimo, cria-se um mecanismo indireto — mas eficaz — de financiamento.

Não é necessário vínculo direto entre refinarias e organizações criminosas. Basta que o sistema aceite ouro cuja origem foi diluída ao longo da cadeia.

É assim que a engrenagem opera: por absorção.

E essa absorção tem efeitos concretos. Sustenta economias ilegais em regiões frágeis, financia estruturas de violência, acelera a destruição ambiental e reforça dinâmicas que depois são tratadas como problemas isolados de segurança.

<><> O ponto cego deliberado

Talvez o mais inquietante não seja a existência dessas práticas, mas a forma como são administradas. As diretrizes existem. As recomendações são conhecidas. A retórica institucional é sofisticada. Mas a aplicação é seletiva.

Cria-se um espaço em que todos podem afirmar compromisso com padrões éticos sem que isso implique transformação real da cadeia.

Sabe-se o suficiente para reconhecer o problema — mas não o que parece é que não se quer interromper o fluxo.

O caso do ouro não revela apenas uma falha de controle. Revela uma arquitetura.

Uma arquitetura na qual ilegalidade, violência e destruição ambiental não estão completamente fora do sistema, mas podem ser absorvidas, transformadas e reintegradas como valor.

O que está em jogo não é apenas a origem de um metal precioso. É a lógica de funcionamento de uma economia global que depende, em alguma medida, da capacidade de converter opacidade em legitimidade.

E isso nos coloca diante de uma constatação incômoda: não se trata apenas de desvio. Trata-se de funcionamento.

¨      Como a China contornou o tarifaço. Por Por Carlos Aguiar de Medeiros

Na segunda década do novo milênio, diversas transformações ocorreram na economia chinesa, decorrentes de pressões e desafios externos e internos. Entre os fatores externos, os principais foram a grande crise financeira de 2008, a desaceleração do crescimento do comércio mundial e o aprofundamento do protecionismo e das sanções americanas ao acesso a semicondutores avançados. Entre os fatores internos, os principais foram o boom imobiliário, a expansão dos salários reais, a implementação de uma abrangente política industrial voltada à redução da dependência tecnológica – as metas do Made in China 2025, lançadas em 2015 – e à diversificação energética, e a construção de uma ampla rede egional de comércio e investimentos (o BRI foi lançado em 2012). Estes movimentos iniciaram um deslocamento relativo das fontes de crescimento da economia chinesa, com a contração da parcela das exportações no PIB – hoje em torno de 20% –, a favor do consumo e dos investimentos em infraestrutura, e da mudança na estrutura do produto e do emprego, com forte expansão dos serviços. (Medeiros, Majerowicz, 2024).

Nos últimos anos, diversos eventos e circunstâncias, como a pandemia da Covid-19 e a guerra da Ucrânia, reforçaram o movimento voltado à redução da dependência externa e à autossuficiência em insumos e equipamentos essenciais. No primeiro ano do novo governo Trump, um novo choque tarifário foi implementado, e a utilização geopolítica do poder econômico do mercado americano, visando enquadrar aliados e atingir a China, foi ampliada. No plano interno, após a forte contração decorrente da política de Covid Zero e da crise imobiliária, a economia chinesa retomou uma taxa de crescimento superior à dos países da OCDE, ainda que inferior à dos últimos anos.

No 14º Plano Quinquenal (2021-5), o governo reiterou, na estratégia de “circulação dual”, publicada em 2020, a prioridade à expansão do consumo que, mesmo após um período de elevação do salário real e de transferências sociais ocorrido na última década, permanece interno – hoje cerca de 39% do PIB –, num patamar muito inferior ao das economias industriais. Sob elevadas tarifas no mercado americano e sob fortes sanções tecnológicas, os investimentos em inovação, na energia renovável, de aumento do consumo das famílias e na diversificação dos parceiros comerciais ganharam novo ímpeto. O 15º Plano quinquenal (2026-2030) prioriza a política industrial, a construção de um mercado nacional unificado e o aumento do consumo. O foco foi posto nas “Forças Produtivas de Nova Qualidade”, isto é, na modernização das indústrias tradicionais por meio da digitalização e do uso da IA, bem como no esforço científico voltado ao progresso técnico e às inovações.

As relações entre os EUA e a China possivelmente evoluirão para um tipo de acomodação (Gao, 2026) entre as duas superpotências, por meio de negociações permanentes sobre tarifas e sanções. Este movimento ficou evidente quando o governo americano, depois do choque tarifário de 150% imposto à China, adiou sua implementação e reduziu as alíquotas, após esta ter imposto fortes restrições às exportações de terras raras (reunião da APEC, na Coreia, em outubro de 2025). Tendo em vista este contexto, objetiva-se, nesta pequena nota, discutir alguns movimentos de reposicionamento das relações internacionais chinesas, como a relocalização do comércio externo, os investimentos em semicondutores e IA, a diversificação da base energética e a produção industrial de baixo carbono. A questão da expansão do consumo das famílias, que constitui prioridade nos dois últimos planos quinquenais, está fora do escopo desta nota.

Em relação ao comércio externo, um fato notável é que, em meio ao forte protecionismo americano, as exportações globais chinesas atingiram, em 2025, um recorde histórico. Do mesmo modo, em que pese o importante crescimento das importações, o saldo comercial da China em 2025, em dólares correntes, é o maior de sua história (China Briefing, 2026). Esta corrente de comércio, entretanto, mudou de direção. O principal movimento foi a queda das exportações da China para o mercado americano. Em 2017, elas constituíam 21% das importações totais dos EUA; em 2025, já sob o regime tarifário instituído por Trump 2.0, situaram-se em 9%. (Alfaro, Chor, 2026). Sob o efeito das tarifas americanas, as exportações passaram a dirigir-se cada vez mais para outros mercados, especialmente para a ASEAN, a UE, a América Latina, a Austrália e o Japão. Os países da ASEAN, especialmente Tailandia, Malásia e Vietnã, foram os principais beneficiários do desvio de comércio decorrente das tarifas impostas pelos EUA à China. Os deslocamentos das rotas de comércio que já estavam em movimento desde 2018 incluem tanto o de bens finais chineses reexportados por terceiros países para os EUA, quanto o de bens intermediários provenientes da China, contidos nas exportações dos países da ASEAN (particularmente do Vietnã) destinadas aos EUA. Estas triangulações fazem com que o declínio das exportações chinesas para os EUA não seja tão intenso quanto o indicado pelas estatísticas oficiais do comércio bilateral. Ainda que a geografia do comércio esteja em processo de mudança em direção a outros países, especialmente os da Iniciativa Cinturão e Rota, que envolve 151 países, os principais parceiros comerciais da China são os da ASEAN, que superam tanto os EUA quanto a UE. As exportações que mais cresceram nos últimos anos são as de máquinas e equipamentos, produtos eletrônicos, painéis solares, turbinas a vento e automóveis elétricos. O deslocamento da composição setorial das exportações chinesas se dá não apenas pelo aumento da parcela de produtos de maior conteúdo tecnológico, mas também pelo fato de estes produtos possuírem marcas chinesas. Progressivamente, a principal base exportadora chinesa vem mudando de equipamentos manufaturados sob encomenda (OEM) para equipamentos manufaturados sob marca própria (OBM) (Bruh, 2024). Do lado das importações, dois movimentos centrais vieram se afirmando após a Covid-19: a forte retomada da demanda por energia, alimentos e minerais, responsável pelo crescimento do valor total das importações num período de queda dos preços das commodities, e a substituição de importações de produtos de alta tecnologia, em especial semicondutores (Outlook, 2026), que seguem sendo o principal item importado— e o petróleo, o segundo.

Associada a estas transformações nos fluxos comerciais, a China prosseguiu, ainda que em ritmo menor, suas exportações de capital sob a forma de investimentos diretos e empréstimos, especialmente destinados aos países da Iniciativa do Cinturão e Rota. Por outro lado, introduziu diversas iniciativas visando à internacionalização do RMB. Particularmente significativo foi o aumento das exportações chinesas denominadas em RMB e a sua expansão nas operações de crédito.

Em relação à questão energética e à infraestrutura, dois motores importantes para o crescimento dos investimentos chineses, os principais movimentos são a elevada expansão da capacidade de geração solar e eólica (incomparável em termos internacionais), a construção de novas usinas nucleares e, simultaneamente, tendo em vista a base energética chinesa, a expansão de novas plantas de energia a carvão. Face à demanda crescente de gás e petróleo, investimentos importantes em pipelines e em estruturas de conversão de LNG importado estão em curso. Ao lado destes investimentos, os em transportes continuam em expansão, com planos de ampliação substancial da rede de trens de alta velocidade, que já é a maior em operação na economia mundial, visando a unificar e integrar o mercado interno. (Brüh, 2024).

Em relação a uma “innovation-driven economy” estabelecida no 14º Plano e reforçada no 15º Plano Quinquenal, o objetivo é fazer da inovação um motor central dos investimentos, por meio de estímulos ao P&D e à formação de diversos clusters industriais, visando à aproximação entre a inovação e a produção industrial. A China hoje está na liderança em algumas tecnologias críticas, especialmente associadas às energias renováveis, baterias elétricas, painéis solares, veículos elétricos e infraestrutura de telecomunicações (5G), e está muito próxima dos EUA em IA (evidente com o lançamento do DeepSeek, em 2025), computação quântica, big data, nanotecnologia e big Pharma, e vem aumentando rapidamente suas capacidades em semicondutores, petroquímica e armamentos. O controle e as sanções estabelecidos hoje pelos EUA sobre chips sofisticados e máquinas de litografia avançadas constituem a maior ofensiva tecnológica contra a China e, ao mesmo tempo, um forte incentivo à inovação e à produção doméstica. Presentemente, a SMTC já produz chips de 7 nanômetros (e os projetos em curso são para chips menores) e as máquinas necessárias a esta produção (The Economist, 2025).

A política industrial em curso, estimulada pelas sanções e tarifas americanas, faz da inovação em tecnologias avançadas o eixo central para elevar o conteúdo tecnológico das exportações, bem como para expandir a renovação dos padrões de consumo das famílias em novos bens e serviços. Desse modo, é possível dizer – já há um relativo consenso entre especialistas – que o forte aumento do protecionismo e das sanções americanas tem levado ao aprofundamento da estratégia chinesa de diversificação e regionalização dos mercados, bem como de autonomia tecnológica iniciada há uma década.

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247/Outras Palavras

 

Nenhum comentário: