O
caso inusitado do ouro “americano” que nasce no crime
Há algo
profundamente revelador — e perturbador — na recente investigação do The
New York Times: ouro extraído por cartéis de drogas na Colômbia está sendo
incorporado à cadeia oficial e vendido como “ouro americano”. Não se trata de
um desvio marginal. Trata-se de um mecanismo.
A
narrativa oficial é conhecida: países centrais, como os Estados Unidos e o
Canadá, operam sob rígidos padrões de rastreabilidade, governança e respeito a
normas internacionais. Mas, quando se observa a cadeia concreta, essa imagem
começa a se desfazer. O que aparece no lugar é outra coisa: um sistema que
transforma origem ilegal em produto legítimo por meio de operações técnicas,
jurídicas e financeiras perfeitamente legais.
Mais do
que isso: a investigação mostra que esse processo não ocorre à margem do
sistema, mas no seu interior. A própria United States Mint —
responsável pela cunhagem de moedas de investimento — adquire ouro por meio de
fornecedores que importam grandes volumes de metal estrangeiro. Uma vez fundido
e misturado, esse ouro passa a ser contabilizado como produto doméstico, sob a
supervisão do U.S. Treasury, que sustenta a legalidade desse
enquadramento.
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A ficção da origem
A
investigação mostra que ouro colombiano — inclusive de áreas sob controle de
cartéis como o Clan del Golfo — entra nos Estados Unidos, é
misturado a ouro local e, a partir daí, passa a ser considerado
“norte-americano”. Esse ponto é crucial. A mudança não ocorre na mina, nem na
extração. Ocorre no momento da classificação. Uma simples operação de mistura
altera a identidade do produto. O que antes estava associado a desmatamento
ilegal, violência paramilitar e narcotráfico torna-se, por definição, um ativo
legítimo.
E mais:
essa transformação não viola a lei. Ela está dentro das regras.
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Quando a legalidade encobre a realidade
A
própria Casa da Moeda Real Canadense admite que não realiza verificação
aprofundada sobre a origem do ouro quando ele já foi “processado” por
fornecedores intermediários. Confia, como disse sua assessoria jurídica, na
auditoria desses fornecedores.
É aqui
que a contradição se revela com mais nitidez. A Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) estabelece diretrizes claras: empresas devem
realizar diligência prévia robusta para garantir que minerais não financiem
conflitos, violações de direitos humanos ou atividades ilícitas. Mas, como
reconheceu um de seus próprios consultores, deixar de fazer essa verificação
representa um desvio significativo tanto da letra quanto do espírito dessas
diretrizes.
Ainda
assim, nada acontece. Não há sanção legal, nem penalidade efetiva. A norma
existe — mas sua aplicação é, na prática, facultativa.
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A indústria do ouro como zona cinzenta global
O que
esse episódio revela é que o problema não está apenas na falha de um ator
específico. Ele está no desenho da própria cadeia global.
O ouro
possui características singulares: pode ser fundido e remoldado
indefinidamente, perde sua identidade física original, circula por múltiplos
intermediários e concentra enorme valor em volumes reduzidos. Essas
propriedades fazem dele um ativo ideal não apenas para preservar riqueza, mas
também para ocultar sua origem.
É por
isso que o ouro se tornou um dos instrumentos mais eficientes de conversão de
riqueza ilícita em ativo legítimo. E não apenas para organizações criminosas. O
próprio sistema financeiro global absorve esse ouro sem exigir rastreabilidade
plena, desde que ele passe pelos canais considerados formais.
Como
mostra o caso, basta um intermediário, uma etapa de mistura e um enquadramento
regulatório conveniente para que ouro de origem criminosa seja plenamente
integrado ao mercado.
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De onde vem, afinal, o ouro dos Estados Unidos?
A
pergunta que emerge é inevitável — e desconfortável: de onde vem, de fato, o
ouro vendido como americano?
A
resposta honesta é que ele provém de múltiplas origens, muitas delas
impossíveis de rastrear com precisão. A cadeia não foi desenhada para garantir
transparência absoluta. Foi desenhada para garantir fluidez. E isso muda
completamente o debate.
Não
estamos diante de uma falha ocasional de compliance. Estamos diante
de um sistema que tolera — e, em certa medida, depende — da opacidade.
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O colapso silencioso das salvaguardas
Com o
preço do ouro em níveis historicamente elevados, os incentivos econômicos
tornam essa dinâmica ainda mais intensa. Torna-se mais lucrativo avançar sobre
florestas, ocupar territórios pela força, financiar estruturas armadas e
inserir esse ouro na cadeia global.
As
salvaguardas institucionais continuam existindo, mas operam sob uma lógica de
custo-benefício. E, hoje, o custo de investigar profundamente é maior do que o
risco de não investigar.
<><>
O problema não é o desvio. É o sistema
Talvez
o aspecto mais importante dessa história não seja o envolvimento de cartéis. É
o fato de que tudo isso ocorre sem ruptura institucional, sem ilegalidade
explícita, sem crise imediata.
O
sistema funciona — exatamente como foi desenhado.
Ele não
impede que ouro ilícito entre na cadeia formal. Apenas exige que, em algum
ponto do percurso, esse ouro seja reclassificado.
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Um espelho do capitalismo contemporâneo
O caso
do ouro é, na verdade, um espelho. Mostra como cadeias globais de valor operam
ao separar origem de produto final, fragmentar responsabilidades e converter
ilegalidade material em legalidade formal.
Não se
trata apenas do ouro. Trata-se de uma lógica mais ampla de funcionamento da
economia global, cada vez mais dependente da capacidade de transformar
opacidade em legitimidade.
A
pergunta, portanto, não é se há ouro de origem ilícita no mercado
internacional. A evidência sugere que há. A pergunta relevante é outra: até que
ponto o próprio sistema precisa que isso continue acontecendo?
Porque,
se a rastreabilidade plena fosse de fato exigida, parte significativa dessa
cadeia simplesmente deixaria de funcionar. E isso talvez explique o silêncio —
e a complacência — diante de casos como este.
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A quem interessa esse sistema?
A
resposta mais honesta é: a muitos atores — e por razões distintas.
Interessa
ao crime organizado, que encontra no ouro um meio eficaz de converter riqueza
ilícita em ativo legítimo. Interessa aos intermediários, que operam justamente
nesse espaço entre rastreabilidade formal e opacidade real, onde a
flexibilidade na definição de origem garante fluidez e alta rentabilidade.
Interessa
também aos Estados Nacionais, não porque promovam diretamente essas práticas,
mas porque se beneficiam de um mercado de ouro profundo, líquido e funcional. O
ouro segue sendo reserva de valor, ativo estratégico e instrumento de
estabilidade. Submeter sua cadeia a um controle rigoroso implicaria introduzir
fricções que poucos estão dispostos a aceitar.
Forma-se,
assim, uma convergência silenciosa. O crime precisa de canais de legalização. O
mercado precisa de oferta contínua. Os Estados precisam de estabilidade.
<><>
Um sistema que pode financiar o ilícito
A
questão não é hipotética. Quando ouro extraído sob controle de grupos armados
entra na cadeia formal e é aceito como produto legítimo, cria-se um mecanismo
indireto — mas eficaz — de financiamento.
Não é
necessário vínculo direto entre refinarias e organizações criminosas. Basta que
o sistema aceite ouro cuja origem foi diluída ao longo da cadeia.
É assim
que a engrenagem opera: por absorção.
E essa
absorção tem efeitos concretos. Sustenta economias ilegais em regiões frágeis,
financia estruturas de violência, acelera a destruição ambiental e reforça
dinâmicas que depois são tratadas como problemas isolados de segurança.
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O ponto cego deliberado
Talvez
o mais inquietante não seja a existência dessas práticas, mas a forma como são
administradas. As diretrizes existem. As recomendações são conhecidas. A
retórica institucional é sofisticada. Mas a aplicação é seletiva.
Cria-se
um espaço em que todos podem afirmar compromisso com padrões éticos sem que
isso implique transformação real da cadeia.
Sabe-se
o suficiente para reconhecer o problema — mas não o que parece é que não se
quer interromper o fluxo.
O caso
do ouro não revela apenas uma falha de controle. Revela uma arquitetura.
Uma
arquitetura na qual ilegalidade, violência e destruição ambiental não estão
completamente fora do sistema, mas podem ser absorvidas, transformadas e
reintegradas como valor.
O que
está em jogo não é apenas a origem de um metal precioso. É a lógica de
funcionamento de uma economia global que depende, em alguma medida, da
capacidade de converter opacidade em legitimidade.
E isso
nos coloca diante de uma constatação incômoda: não se trata apenas de desvio.
Trata-se de funcionamento.
¨
Como a China contornou o tarifaço. Por Por Carlos
Aguiar de Medeiros
Na
segunda década do novo milênio, diversas transformações ocorreram na economia
chinesa, decorrentes de pressões e desafios externos e internos. Entre os
fatores externos, os principais foram a grande crise financeira de 2008, a
desaceleração do crescimento do comércio mundial e o aprofundamento do
protecionismo e das sanções americanas ao acesso a semicondutores avançados.
Entre os fatores internos, os principais foram o boom imobiliário, a expansão
dos salários reais, a implementação de uma abrangente política industrial
voltada à redução da dependência tecnológica – as metas do Made in China 2025,
lançadas em 2015 – e à diversificação energética, e a construção de uma ampla
rede egional de comércio e investimentos (o BRI foi lançado em 2012). Estes movimentos
iniciaram um deslocamento relativo das fontes de crescimento da economia
chinesa, com a contração da parcela das exportações no PIB – hoje em torno de
20% –, a favor do consumo e dos investimentos em infraestrutura, e da mudança
na estrutura do produto e do emprego, com forte expansão dos serviços.
(Medeiros, Majerowicz, 2024).
Nos
últimos anos, diversos eventos e circunstâncias, como a pandemia da Covid-19 e
a guerra da Ucrânia, reforçaram o movimento voltado à redução da dependência
externa e à autossuficiência em insumos e equipamentos essenciais. No primeiro
ano do novo governo Trump, um novo choque tarifário foi implementado, e a
utilização geopolítica do poder econômico do mercado americano, visando
enquadrar aliados e atingir a China, foi ampliada. No plano interno, após a
forte contração decorrente da política de Covid Zero e da crise imobiliária, a
economia chinesa retomou uma taxa de crescimento superior à dos países da OCDE,
ainda que inferior à dos últimos anos.
No 14º
Plano Quinquenal (2021-5), o governo reiterou, na estratégia de “circulação
dual”, publicada em 2020, a prioridade à expansão do consumo que, mesmo após um
período de elevação do salário real e de transferências sociais ocorrido na
última década, permanece interno – hoje cerca de 39% do PIB –, num patamar
muito inferior ao das economias industriais. Sob elevadas tarifas no mercado
americano e sob fortes sanções tecnológicas, os investimentos em inovação, na
energia renovável, de aumento do consumo das famílias e na diversificação dos
parceiros comerciais ganharam novo ímpeto. O 15º Plano quinquenal (2026-2030)
prioriza a política industrial, a construção de um mercado nacional unificado e
o aumento do consumo. O foco foi posto nas “Forças Produtivas de Nova
Qualidade”, isto é, na modernização das indústrias tradicionais por meio da
digitalização e do uso da IA, bem como no esforço científico voltado ao
progresso técnico e às inovações.
As
relações entre os EUA e a China possivelmente evoluirão para um tipo de
acomodação (Gao, 2026) entre as duas superpotências, por meio de negociações
permanentes sobre tarifas e sanções. Este movimento ficou evidente quando o
governo americano, depois do choque tarifário de 150% imposto à China, adiou
sua implementação e reduziu as alíquotas, após esta ter imposto fortes
restrições às exportações de terras raras (reunião da APEC, na Coreia, em
outubro de 2025). Tendo em vista este contexto, objetiva-se, nesta pequena
nota, discutir alguns movimentos de reposicionamento das relações
internacionais chinesas, como a relocalização do comércio externo, os
investimentos em semicondutores e IA, a diversificação da base energética e a
produção industrial de baixo carbono. A questão da expansão do consumo das
famílias, que constitui prioridade nos dois últimos planos quinquenais, está
fora do escopo desta nota.
Em
relação ao comércio externo, um fato notável é que, em meio ao forte
protecionismo americano, as exportações globais chinesas atingiram, em 2025, um
recorde histórico. Do mesmo modo, em que pese o importante crescimento das
importações, o saldo comercial da China em 2025, em dólares correntes, é o
maior de sua história (China Briefing, 2026). Esta corrente de comércio,
entretanto, mudou de direção. O principal movimento foi a queda das exportações
da China para o mercado americano. Em 2017, elas constituíam 21% das
importações totais dos EUA; em 2025, já sob o regime tarifário instituído por
Trump 2.0, situaram-se em 9%. (Alfaro, Chor, 2026). Sob o efeito das tarifas
americanas, as exportações passaram a dirigir-se cada vez mais para outros
mercados, especialmente para a ASEAN, a UE, a América Latina, a Austrália e o
Japão. Os países da ASEAN, especialmente Tailandia, Malásia e Vietnã, foram os
principais beneficiários do desvio de comércio decorrente das tarifas impostas
pelos EUA à China. Os deslocamentos das rotas de comércio que já estavam em
movimento desde 2018 incluem tanto o de bens finais chineses reexportados por
terceiros países para os EUA, quanto o de bens intermediários provenientes da
China, contidos nas exportações dos países da ASEAN (particularmente do Vietnã)
destinadas aos EUA. Estas triangulações fazem com que o declínio das
exportações chinesas para os EUA não seja tão intenso quanto o indicado pelas
estatísticas oficiais do comércio bilateral. Ainda que a geografia do comércio
esteja em processo de mudança em direção a outros países, especialmente os da
Iniciativa Cinturão e Rota, que envolve 151 países, os principais parceiros
comerciais da China são os da ASEAN, que superam tanto os EUA quanto a UE. As
exportações que mais cresceram nos últimos anos são as de máquinas e
equipamentos, produtos eletrônicos, painéis solares, turbinas a vento e
automóveis elétricos. O deslocamento da composição setorial das exportações
chinesas se dá não apenas pelo aumento da parcela de produtos de maior conteúdo
tecnológico, mas também pelo fato de estes produtos possuírem marcas chinesas.
Progressivamente, a principal base exportadora chinesa vem mudando de
equipamentos manufaturados sob encomenda (OEM) para equipamentos manufaturados
sob marca própria (OBM) (Bruh, 2024). Do lado das importações, dois movimentos
centrais vieram se afirmando após a Covid-19: a forte retomada da demanda por
energia, alimentos e minerais, responsável pelo crescimento do valor total das
importações num período de queda dos preços das commodities, e a substituição
de importações de produtos de alta tecnologia, em especial semicondutores
(Outlook, 2026), que seguem sendo o principal item importado— e o petróleo, o
segundo.
Associada
a estas transformações nos fluxos comerciais, a China prosseguiu, ainda que em
ritmo menor, suas exportações de capital sob a forma de investimentos diretos e
empréstimos, especialmente destinados aos países da Iniciativa do Cinturão e
Rota. Por outro lado, introduziu diversas iniciativas visando à
internacionalização do RMB. Particularmente significativo foi o aumento das
exportações chinesas denominadas em RMB e a sua expansão nas operações de
crédito.
Em
relação à questão energética e à infraestrutura, dois motores importantes para
o crescimento dos investimentos chineses, os principais movimentos são a
elevada expansão da capacidade de geração solar e eólica (incomparável em
termos internacionais), a construção de novas usinas nucleares e,
simultaneamente, tendo em vista a base energética chinesa, a expansão de novas
plantas de energia a carvão. Face à demanda crescente de gás e petróleo,
investimentos importantes em pipelines e em estruturas de conversão de LNG
importado estão em curso. Ao lado destes investimentos, os em transportes
continuam em expansão, com planos de ampliação substancial da rede de trens de
alta velocidade, que já é a maior em operação na economia mundial, visando a
unificar e integrar o mercado interno. (Brüh, 2024).
Em
relação a uma “innovation-driven economy” estabelecida no 14º Plano e reforçada
no 15º Plano Quinquenal, o objetivo é fazer da inovação um motor central dos
investimentos, por meio de estímulos ao P&D e à formação de diversos
clusters industriais, visando à aproximação entre a inovação e a produção
industrial. A China hoje está na liderança em algumas tecnologias críticas,
especialmente associadas às energias renováveis, baterias elétricas, painéis
solares, veículos elétricos e infraestrutura de telecomunicações (5G), e está
muito próxima dos EUA em IA (evidente com o lançamento do DeepSeek, em 2025),
computação quântica, big data, nanotecnologia e big Pharma, e vem aumentando
rapidamente suas capacidades em semicondutores, petroquímica e armamentos. O controle
e as sanções estabelecidos hoje pelos EUA sobre chips sofisticados e máquinas
de litografia avançadas constituem a maior ofensiva tecnológica contra a China
e, ao mesmo tempo, um forte incentivo à inovação e à produção doméstica.
Presentemente, a SMTC já produz chips de 7 nanômetros (e os projetos em curso
são para chips menores) e as máquinas necessárias a esta produção (The
Economist, 2025).
A
política industrial em curso, estimulada pelas sanções e tarifas americanas,
faz da inovação em tecnologias avançadas o eixo central para elevar o conteúdo
tecnológico das exportações, bem como para expandir a renovação dos padrões de
consumo das famílias em novos bens e serviços. Desse modo, é possível dizer –
já há um relativo consenso entre especialistas – que o forte aumento do
protecionismo e das sanções americanas tem levado ao aprofundamento da
estratégia chinesa de diversificação e regionalização dos mercados, bem como de
autonomia tecnológica iniciada há uma década.
Fonte:
Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247/Outras Palavras

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