quarta-feira, 29 de abril de 2026

Do Superpop e kit gay à presidência do Brasil, pesquisa mostra construção política de Jair Bolsonaro

A publicação “Com que moral vão me caçar aqui?” surgiu a partir de um projeto acadêmico com o objetivo de destrinchar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, e entender como se deu a construção política que o alçou ao mais alto cargo da República no Brasil.

Pesquisador e autor do projeto, o sociólogo Rodrigo Cassis explica ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que, ainda na década de 1980, momento em que o país vivenciava o início da redemocratização, Bolsonaro se lança como uma liderança jovem. “Talvez não uma liderança da extrema direita, já que isso não era tão bem desenhado naquele momento. Mas talvez seja um fato que não seja muito bem evidenciado sobre a sua trajetória, uma vez que ele é tomado naqueles primórdios como um deputado de baixo clero. Isso é bastante verdadeiro. Mas ao mesmo tempo ele tinha enorme ambição”, relata.

“Ele tentou candidaturas para lugares mais importantes no Executivo, na prefeitura, governador, muitas vezes. Ele sempre ambicionou lugares de maior destaque. Por exemplo, ele sonhou em ser candidato a presidente ou a vice numa chapa com Silvio Santos, veja você, em 1994″, conta.

Para Cassis, ao contrário do que pode se pensar, Bolsonaro não passa a almejar a presidência na esteira da Operação Lava Jato, mas muito antes disso, construindo de maneira hábil essa figura que venceria em 2018 e do próprio bolsonarismo que hoje ocupa o país. “De início, o plano dele era ser o representante dos militares e construir uma bancada multipartidária de deputados militares. Ele queria se tornar o líder dessa bancada e ainda jovem sentar com o presidente da República, ter um lugar de negociação. Os dados da pesquisa apontam que ele também queria se tornar o líder desses militares de baixa patente, insatisfeitos com salários, para que no momento que surgisse uma insatisfação nos quartéis, ele pudesse ser o líder dessa revolta contra o regime na Nova República.”

O sociólogo também dedica parte da pesquisa a mostrar como, em 2010, Bolsonaro passa a fazer parte do imaginário popular com participação no programa Super Pop e a mentira do kit gay. Pouco tempo depois, ele faria coro com questionamento da confiabilidade da urna eletrônica, narrativa que até hoje é forte dentro da extrema direita.

“Ele galvaniza uma narrativa anticomunista que passa a tomar conta de tudo e cria as bases do bolsonarismo tal qual a gente conhece hoje. Então, desde então, e ele quis se candidatar a presidente em 2014, pretendia alcançar novos lugares. Então, esse lugar de líder de uma extrema direita, eu não diria que ele foi jogado lá, mas ele construiu ao longo do tempo e quando as circunstâncias apareceram, ele estava lá pronto para assumir esse lugar”, destaca Cassis.

•        STM autoriza coleta de dados sobre trajetória de Bolsonaro no Exército

O ministro Carlos Vuyk de Aquino, do Superior Tribunal Militar (STM), acolheu nesta quarta-feira (22) pedido feito pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para que as Forças Armadas enviem documentos sobre a trajetória dele no serviço militar. 

Os documentos deverão ser remetidos ao STM para auxiliar no julgamento que vai decidir se Bolsonaro será expulso do Exército em função da condenação na ação penal da trama golpista pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro é capitão da reserva.

Com a decisão, o Exército deverá remeter ao tribunal o prontuário funcional referente ao período de 1971 a 1988, histórico disciplinar completo, certidão de existência ou não de punições disciplinares, eventuais elogios recebidos e relação de condecorações, medalhas e honrarias.

No dia 3 de fevereiro deste ano, o Ministério Público Militar (MPM) protocolou no STM ações para decretação da perda do oficialato de Bolsonaro.

De acordo com a Constituição, o oficial das Forças Armadas pode ser expulso no caso de condenação criminal superior a dois anos de prisão por condenação criminal. O ex-presidente foi condenado pelo Supremo a 27 anos e três meses de prisão.

Além de Bolsonaro, o MPM também pediu a perda da patente dos generais da reserva Augusto Heleno, Paulo Sergio Nogueira, Braga Netto e o almirante Almir Garnier, que também foram condenados pelo STF.

•        Abin de Bolsonaro monitorou movimentos sociais e críticas após tragédia de Brumadinho

Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produzido durante o governo Jair Bolsonaro, ao qual o ICL Notícias teve acesso, mostra que a estrutura federal de inteligência monitorou protestos, movimentos sociais, organizações religiosas e demandas de atingidos no contexto dos atos que marcariam um ano do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Datado de 17 de janeiro de 2020, o relatório foi compartilhado com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e com a Casa Civil da Presidência da República, indicando que o monitoramento e suas conclusões circularam no núcleo central do governo federal.

O documento foi elaborado poucos dias antes das mobilizações previstas para lembrar a tragédia de 25 de janeiro de 2019, que matou 272 pessoas e devastou comunidades, cursos d’água e a economia local. O material revela que a Abin não se limitou a registrar a existência dos atos. O órgão levantou informações sobre a situação social e econômica do município, descreveu o ambiente político local, acompanhou críticas dirigidas à mineradora e ao poder público e reuniu, em anexos, listas de entidades e programações de manifestações.

Logo na abertura, o relatório deixa explícito o caráter das mobilizações monitoradas. Segundo o documento, os eventos eram organizados “para lembrar o desastre ambiental e para protestar em cobrança de demandas da sociedade civil”. A própria Abin registra que os atos incluíam críticas ao governo federal, à Vale e a autoridades públicas, além de apontar a possibilidade de repercussão política em razão da presença do presidente da República nas cerimônias e desencorajar que autoridades do governo federal fossem ao evento.

O texto também mostra que o foco do monitoramento ia além de qualquer preocupação imediata com violência. Em outro trecho, a agência avalia que a tendência era de manifestações “dentro da normalidade, sem ocorrências graves ou violência”. Ainda assim, detalha atores, pautas e ambiente político, deixando claro que o acompanhamento era voltado ao conteúdo e à repercussão dos atos.

A primeira parte do documento traz um quadro descritivo da tragédia. A Abin relembra que a Barragem I da mina do Córrego do Feijão se rompeu em 25 de janeiro de 2019, liberando milhões de metros cúbicos de rejeitos. O relatório descreve que a lama atingiu áreas operacionais da empresa, comunidades e cursos d’água, alcançando o rio Paraopeba e provocando “destruição ambiental e impactos diretos ao abastecimento de água na região”.

Na sequência, o documento aborda o cenário econômico e social de Brumadinho após o desastre. A agência registra que a economia local foi fortemente afetada e que moradores dependiam da mineração. Também menciona programas de indenização e auxílio emergencial, apontando que os recursos vinham sendo usados para despesas básicas, como alimentação e contas domésticas.

Esse ponto é relevante porque mostra que a Abin acompanhava o humor social. O relatório indica insatisfação persistente com o processo de reparação e com o ritmo das respostas após o rompimento. Em um dos trechos, o documento destaca críticas às negociações conduzidas com a Vale e à percepção de que os acordos não atendiam plenamente aos atingidos.

<><> Mapeamento de movimentos e atos

Ao tratar das mobilizações, a Abin identifica duas frentes distintas. De um lado, a solenidade oficial organizada por autoridades e familiares de vítimas. De outro, atos autônomos organizados por movimentos sociais, organizações civis e setores da Igreja, com discurso mais crítico.

É nesse segundo eixo que o relatório se aprofunda. O documento descreve campanhas e articulações sociais, com destaque para a campanha “Janeiro Marrom”, que reunia dezenas de organizações. Segundo a Abin, a iniciativa tinha como objetivo “lembrar um ano do desastre, denunciar os impactos socioambientais e cobrar reparação às vítimas”.

A agência lista 45 entidades envolvidas na mobilização. Entre elas, Movimento dos Atingidos por Barragens, Frente Brasil Popular, Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração, Projeto Manuelzão, Polos de Cidadania da UFMG e diversas organizações ambientais, religiosas e comunitárias. O nível de detalhamento inclui a identificação de coletivos locais, instituições acadêmicas e frentes de articulação política.

<><>MST na mira

O MST aparece com destaque no relatório. Segundo o documento, o movimento organizaria uma caravana com cerca de 350 participantes entre Belo Horizonte e Brumadinho. A ação incluía uma marcha em memória das vítimas e o lançamento do plano “Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis”. A Abin registra inclusive a programação da atividade, com “concentração, plantio simbólico, ato em memória das vítimas e atividade cultural”.

A dimensão religiosa das mobilizações também foi monitorada. O relatório descreve a realização da “1ª Romaria pela Ecologia Integral”, organizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte. Segundo o documento, o evento tinha como objetivo “promover a ecologia integral e solidarizar-se com as vítimas”. A Abin detalha a programação, incluindo caminhada, celebração de missa e lançamento de campanha nacional, com apoio da CNBB.

O acompanhamento desses eventos mostra que a inteligência estatal incluía no radar não apenas movimentos políticos, mas também mobilizações de caráter religioso e comunitário.

O relatório também sistematiza as principais demandas dos atingidos. Entre elas, a continuidade das buscas por vítimas desaparecidas, revisão dos critérios de indenização, reparação ambiental e responsabilização dos envolvidos no rompimento.

Em um dos trechos mais sensíveis, a Abin registra que, segundo movimentos sociais, haveria “favorecimento” em acordos firmados com a Vale. O documento aponta que essa percepção alimentava críticas à mineradora e ao poder público. Também menciona insatisfação com o auxílio emergencial e com os critérios de compensação por danos materiais e morais.

As reivindicações aparecem de forma objetiva. O relatório lista quatro pontos centrais dos protestos: pagamento de auxílio por problemas de saúde relacionados ao desastre; indenização a moradores afetados por obras de captação de água; continuidade das buscas por desaparecidos; e punição dos responsáveis pelo rompimento.

<><> Sem risco de violência, com impacto político

Outro trecho relevante trata do ambiente político. A Abin afirma que, naquele momento, não havia registro de críticas diretas ao governo federal. Mas acrescenta que a presença de autoridades poderia gerar mobilizações “principalmente contra a manifestação do governo federal”. O documento também indica a possibilidade de críticas ao presidente da República e ao governo de Minas Gerais durante os atos.

Esse ponto explicita que o monitoramento incluía o potencial de desgaste político das manifestações. A preocupação não se limitava à segurança pública, mas abrangia a repercussão política e social dos atos.

Mesmo com esse nível de detalhamento, a conclusão do relatório aponta ausência de risco relevante. Segundo a Abin, não havia indícios de atuação de “grupos para a prática de atos violentos ou extremistas”, e a tendência era de manifestações pacíficas.

A combinação desses elementos torna o documento particularmente revelador. A agência produziu um relatório extenso sobre mobilizações sociais, mapeando atores, pautas e críticas, mesmo sem identificar risco concreto de violência.

Os anexos reforçam essa conclusão. O material inclui listas de organizações, programação de eventos religiosos e peças de divulgação de atos, evidenciando o acompanhamento da logística e da comunicação das mobilizações.

O relatório, portanto, expõe o nível de atenção da inteligência estatal sobre uma rede de mobilização formada por familiares de vítimas, moradores atingidos, movimentos sociais, entidades religiosas e organizações civis. Ao registrar demandas, críticas e articulações, o documento revela como o Estado monitorou a resposta social a uma das maiores tragédias ambientais do país.

Mais do que um registro administrativo, o texto funciona como um retrato detalhado do cenário político e social de Brumadinho um ano após o rompimento da barragem — e do olhar da inteligência governamental sobre essa mobilização.

•        Durante gestão Bolsonaro, INSS mudou regras para beneficiar banco Master

Durante o governo Bolsonaro, em 2022, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) alterou as regras para o crédito consignado, o que permitiu a criação do Credcesta, uma modalidade de crédito que possibilitou a expansão do Banco Master, de Daniel Vorcaro, preso por suspeitas de organização criminosa e gestão fraudulenta. A mudança em uma das regras foi feita pelo INSS apenas 16 dias após o recebimento de um ofício do Master demonstrando a intenção de operação do cartão.

De acordo com reportagem publicada pela Folha de S. Paulo, as mudanças nas regras foram cruciais para a expansão do banco, investigado pela Polícia Federal desde novembro de 2025 pela Operação Compliance Zero.

Por meio do Credcesta, o Master se expandiu para 24 estados e 176 municípios com contratos que saltaram de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024, abrangendo servidores públicos municipais e estaduais, aposentados e pensionistas do regime geral de previdência, além de beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Os documentos do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o INSS e o Master, obtidos pela Folha, mostram que as regras alteradas em 2022, sem detalhamento da operação, possibilitaram um funcionamento quase imediato do Credcesta e sua expansão acelerada e de forma irregular, segundo análise da atual gestão do INSS. O acordo vigorou de 2020 a 2025 e deixou de ser renovado diante das suspeitas de fraudes em carteiras do banco de Vorcaro, investigadas pela PF.

Em nota enviada ao jornal, a defesa de Vorcaro afirmou que o Master sempre atuou em observância a normas e procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, “incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”.

Coaf revela transações entre Vorcaro e ACM Neto

Vorcaro afirmou, também segundo apuração da Folha de S.Paulo, ter recebido em casa o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), que é pré-candidato a governador da Bahia. O encontro teria ocorrido em maio de 2024 e foi registrado em fotos e mensagens trocadas entre Vorcaro e o empresário Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que, entre março de 2023 a maio de 2024, a A&M Consultoria Ltda, empresa de ACM e da esposa dele, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag Investimentos, que também teve as atividades encerradas por graves violações às normas financeiras. Segundo o Coaf, a A&M movimentou “recursos expressivos, acima de sua capacidade financeira declarada”.

Diante das afirmações do Coaf, ACM Neto respondeu que a empresa prestou serviços de consultoria, “notadamente relacionados à análise da agenda político-econômica nacional”, e negou irregularidades. Ele finalizou dizendo que à época, não existia nada que desabonasse o Master e a Reag no período do contrato.

A quebra do sigilo do celular de Daniel Vorcaro vem revelando um complexo esquema de relações com políticos, banqueiros e empresários, que é investigado por denúncias de tráfico de influência para o enriquecimento ilícito e operações bancárias fraudulentas.

Além de Vorcaro, estão presos Fabiano Zettel; Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão e Marilson Roseno da Silva, acusados de formar uma milícia utilizada para monitorar ilegalmente e intimidar adversários, autoridades e jornalistas.

 

Fonte: Brasil de Fato

 

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