quarta-feira, 29 de abril de 2026

Zé Barbosa Junior: Frei Gilson - a doce face do cristofascismo católico

No centro de diversas polêmicas, a última a partir de uma fala categórica e certeira da senadora Soraya Tronicke, há algo de profundamente inquietante no fenômeno Frei Gilson. Não apenas pelo conteúdo de suas falas, amplamente documentadas e reiteradas, mas pela forma como elas chegam ao público: envoltas em uma estética de espiritualidade leve, musical, jovem, quase terapêutica. Lives de madrugada, convites à oração, violão suave, linguagem acolhedora. Tudo parece inofensivo — até que se escuta com atenção.

É justamente aí que reside o perigo.

Frei Gilson não representa apenas mais um líder religioso conservador. Ele encarna uma mutação contemporânea do autoritarismo religioso: uma versão palatável, emocionalmente sedutora e digitalmente eficaz de um projeto que busca reordenar a sociedade a partir de hierarquias rígidas, controle moral e exclusão simbólica. Em outras palavras, uma face doce de algo muito mais duro: o cristofascismo.

O termo pode soar exagerado à primeira vista, mas ganha contornos concretos quando analisamos o conjunto de suas declarações e práticas. Ao afirmar que mulheres “nasceram para auxiliar o homem” e que o desejo feminino por autonomia seria uma “fraqueza” alimentada pela “ideologia do empoderamento”, o frei não está apenas interpretando a Bíblia — ele está reafirmando uma estrutura de poder patriarcal como ordem divina incontestável. Não se trata de fé, mas de política travestida de teologia.

Quando associa o comunismo a um “flagelo” do qual o Brasil deve ser livrado por intervenção divina, ele não está apenas expressando opinião ideológica — está mobilizando o medo religioso como ferramenta política. Ao ridicularizar debates sobre racismo como “mimimi” e normalizar termos racialmente problemáticos sob a justificativa de “carinho”, ele reforça estruturas históricas de desigualdade enquanto deslegitima qualquer tentativa de enfrentá-las.

E talvez mais grave: ao atacar religiões de matriz africana e o espiritismo, sugerindo que suas práticas são obra do diabo, ele alimenta um ciclo perigoso de intolerância religiosa — algo que, no contexto brasileiro, tem consequências concretas, violentas e historicamente enraizadas.

Nada disso ocorre no vácuo.

O crescimento meteórico de Frei Gilson coincide com um momento de intensa polarização política no Brasil, no qual símbolos religiosos passaram a ser instrumentalizados como marcadores ideológicos. Ainda que não declare apoio explícito, sua proximidade simbólica com figuras como Jair Bolsonaro e o acolhimento que recebe de setores da direita não são acidentais. Eles revelam uma convergência de interesses: a construção de uma base moral-religiosa para sustentar projetos de poder autoritários.

Nesse sentido, a presença do nome do frei em documentos da Polícia Federal relacionados à investigação de tentativa de golpe — ainda que não como investigado — é sintomática. Mostra como o campo religioso, longe de ser neutro, está profundamente imbricado nas disputas políticas mais delicadas do país.

Mas o que diferencia Frei Gilson de outros atores desse campo é sua capacidade de comunicação.

Ele não grita. Não agride frontalmente. Não se apresenta como radical. Pelo contrário: sua imagem é a do jovem carismático, do padre acessível, do líder espiritual que acorda milhões às quatro da manhã para rezar. É justamente essa estética que torna sua mensagem mais eficaz — e mais perigosa.

O autoritarismo, quando vem com farda e discurso inflamado, é facilmente identificável. Quando vem com sorriso, música e linguagem de acolhimento, ele se infiltra. Em última instância, Frei Gilson é a antítese imagética de Silas Malafaia, mas defendendo o mesmo discurso bélico, preconceituoso e anticristão.

A estratégia é clara: primeiro, cria-se um vínculo emocional com o público. Depois, introduzem-se, de forma gradual, ideias que reforçam submissão, hierarquia e obediência. Por fim, essas ideias são naturalizadas como verdades espirituais inquestionáveis. O resultado é uma forma sofisticada de manipulação, na qual o controle não se impõe pela força, mas pela fé. E isso tem implicações profundas.

Ao defender que homens e mulheres têm “papéis diferentes” determinados por Deus, o frei legitima desigualdades de gênero. Ao demonizar ideologias políticas específicas, transforma adversários em inimigos morais. Ao atacar outras religiões, fragiliza o pluralismo religioso. Ao se posicionar como vítima de “cristofobia”, inverte a lógica do debate e transforma crítica em perseguição. Trata-se de um projeto.

Um projeto que busca não apenas influenciar indivíduos, mas moldar a sociedade. Um projeto que entende o Estado laico como obstáculo e a diversidade como ameaça. Um projeto que se alimenta da insegurança, do medo e da busca por sentido em tempos de crise.

Chamar isso de cristofascismo não é retórica vazia — é uma tentativa de nomear um fenômeno real: a fusão entre fundamentalismo religioso, autoritarismo político e estratégias modernas de comunicação.

Frei Gilson não é o criador desse movimento. Mas é, sem dúvida, um de seus rostos mais bem acabados. E talvez o mais eficaz.

Porque o perigo, desta vez, não chega com botas ou discursos raivosos.

Chega com violão, oração e um sorriso meigo às quatro da manhã.

•        Padre indiciado pela PF em trama golpista reage ao ser comparado a Frei Gilson nas redes

Padre José Eduardo de Oliveira e Silva, sacerdote da Diocese de Osasco (SP) indiciado pela Polícia Federal na investigação da trama golpista, reagiu nas redes sociais após ser comparado a Frei Gilson em uma publicação sobre a relação de religiosos católicos com o bolsonarismo. Em post no X, o padre negou ser “bolsonarista raiz”, afirmou que nunca atuou em “política partidária” e disse que seus contatos com Jair Bolsonaro ocorreram “exclusivamente” para atendimento espiritual.

A reação veio depois de uma publicação de Roque Citadini, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, que citou Frei Gilson e afirmou que o caso de José Eduardo seria diferente. Citadini escreveu que o padre teria “sólida formação religiosa”, seria “bolsonarista raiz” e teria estado perto das “tramas do golpe fracassado de 2022”.

O peso da reação está no histórico recente do religioso. Padre José Eduardo aparece no relatório final da Polícia Federal sobre a tentativa de golpe de Estado e foi apontado como integrante do chamado núcleo jurídico da trama golpista.

Segundo a PF, esse núcleo atuou no assessoramento e na elaboração de minutas de decretos que davam aparência jurídica a medidas de interesse golpista. O relatório levou ao indiciamento de 37 pessoas, entre elas Jair Bolsonaro, militares, ex-ministros e civis.

<><> Padre indiciado em trama golpista nega ser bolsonarista raiz

Na resposta, padre José Eduardo afirmou que Citadini fez “afirmações graves” e disse que elas não poderiam ser demonstradas. O sacerdote também tentou afastar a acusação de atuação política em favor do bolsonarismo.

“Acusa-me de ‘bolsonarista raiz’, quando eu nunca me meti em política partidária”, escreveu padre José Eduardo.

O religioso afirmou ainda que não existiria “sequer uma fala” sua de atuação partidária. Segundo ele, seus encontros ou contatos com Bolsonaro ocorreram “a pedido”, antes da eleição e no fim do mandato presidencial, com finalidade exclusivamente religiosa.

“O fiz exclusivamente para atendimento espiritual”, disse o padre.

Padre José Eduardo nega envolvimento na tentativa de golpe. A defesa do sacerdote também já sustentou que as idas dele a Brasília tinham caráter religioso e que suas conversas com autoridades eram de aconselhamento espiritual.

<><> Ligação com Frei Gilson voltou ao debate

A comparação com Frei Gilson reacendeu um ponto sensível do relatório da Polícia Federal. A investigação menciona uma mensagem atribuída a padre José Eduardo enviada a um contato salvo como “Frei Gilson”.

Na mensagem, segundo a PF, o padre pedia orações pelo então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, e por generais quatro estrelas. O texto dizia que Deus deveria dar aos militares “coragem de salvar o Brasil”.

A Polícia Federal tratou o episódio como parte da disseminação da ideia de uma intervenção das Forças Armadas para impedir a posse do governo eleito em 2022. O caso ganhou repercussão como a chamada “oração do golpe”.

<><> Indiciado pela PF, mas não denunciado pela PGR

Embora tenha sido indiciado pela Polícia Federal, padre José Eduardo não foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República no caso da trama golpista. A PGR deixou o sacerdote fora da denúncia apresentada ao STF contra Bolsonaro e aliados.

A nova reação nas redes, porém, recoloca o religioso no debate público sobre a presença de lideranças católicas no entorno político do bolsonarismo e sobre a relação entre a extrema direita religiosa e a tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022.

•        Evangélicos e poder: a disputa pela alma política do Brasil. Por Paulo Canabrava Filho

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno religioso para se tornar um fator central na disputa política. Em ano eleitoral, essa presença ganha ainda mais peso e levanta uma preocupação evidente: estamos diante de um projeto organizado de poder.

Hoje, os evangélicos já se aproximam de algo em torno de um terço da população brasileira, com projeções indicando avanço contínuo. Esse crescimento se expressa em números robustos. A Assembleia de Deus reúne cerca de 12 milhões de fiéis; a Congregação Cristã no Brasil, mais de 2 milhões; a Igreja Universal do Reino de Deus, 1,9 milhão; a Quadrangular, 1,8 milhão; Deus é Amor, 845 mil; além de diversas outras denominações que, somadas, alcançam milhões de brasileiros. Entre as igrejas tradicionais, destacam-se os batistas, com cerca de 3,7 milhões, e os adventistas do sétimo dia, com 1,5 milhão, além de luteranos, presbiterianos e metodistas.

Esse contingente não está disperso. Ele vem sendo sistematicamente trabalhado politicamente. O Partido Liberal (PL), por exemplo, mapeia essas igrejas com o objetivo de transformá-las em base eleitoral organizada. Lideranças religiosas assumem papel direto na política, orientando votos e mobilizando fiéis. Um caso emblemático é o da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, que já declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro, projetado como candidato à Presidência da República, levando essa influência diretamente para dentro da disputa eleitoral.

Mas esse movimento não pode ser analisado apenas no plano doméstico. Em A Nova Roma, mostro como os Estados Unidos se consolidaram como uma potência imperial também através da instrumentalização da fé. Grande parte dessas denominações tem origem nos Estados Unidos e carrega consigo uma visão teológica que não é neutra: trata-se da teologia da prosperidade e, em muitos casos, da chamada teologia do domínio, que desloca o foco da justiça social para a legitimação do poder e da riqueza.

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Esse avanço contrasta com o papel histórico da teologia da libertação, que aproximava a Igreja Católica das camadas populares e colocava a fé a serviço da transformação social. O que vemos agora é uma inversão: a religião sendo utilizada como instrumento de conformação e controle.

Há ainda um componente geopolítico que não pode ser ignorado. Em estudo recente, o jornalista Leonardo Wexel Severo demonstra como determinadas seitas religiosas atuam articuladas a interesses externos, funcionando como extensão de estratégias políticas, inclusive vinculadas ao Estado de Israel. Em países como a Guatemala, esse processo se deu sob um clima de terror e repressão, frequentemente silenciado pela mídia hegemônica.

No Brasil, sinais desse alinhamento aparecem no uso recorrente de símbolos de Israel em cultos e atividades religiosas, apresentados como referência espiritual incontestável. No entanto, esse discurso pode operar como instrumento de despolitização e desvio de foco, enquanto se constrói, na prática, um projeto de ocupação de espaços de poder.

A situação é crítica. Mais do que nunca, o desafio é levar à população a verdade dos fatos, romper o véu da manipulação e do uso político da fé. Em ano eleitoral, cabe exigir do candidato das forças democráticas não apenas resistência, mas um projeto claro de salvação nacional — capaz de recuperar a soberania, reafirmar o caráter laico do Estado e devolver à política seu compromisso com o interesse público.

•        Padre vai a julgamento por 25 crimes no Paraná

Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) decidiu unificar em um único processo, na comarca de Cascavel, todas as acusações contra o padre Genivaldo Oliveira dos Santos, de 42 anos. A medida atende a um recurso do Ministério Público do Paraná (MPPR) e impede que os 25 crimes atribuídos ao religioso sejam julgados separadamente em diferentes cidades — estratégia que, segundo a Promotoria, poderia fragmentar as provas e enfraquecer a responsabilização penal.

A decisão foi tomada pela 5ª Câmara Criminal e diz respeito, especialmente, a três crimes que inicialmente não haviam sido recebidos pela Justiça de primeira instância sob o argumento de que teriam ocorrido fora de Cascavel. O MPPR sustentou que todos os casos possuem conexão probatória, ou seja, estão interligados por circunstâncias, métodos e contexto — argumento acolhido pelo tribunal.

Com isso, Genivaldo passa a responder integralmente, em um único foro, por uma série de crimes que incluem nove casos de estupro de vulnerável, dois de violação sexual mediante fraude (um tentado e um consumado), seis de importunação sexual, um de fornecimento de substância nociva sob pretexto medicinal e sete crimes relacionados ao tráfico de drogas.

<><> Investigações revelam padrão de abuso

As investigações conduzidas pelo Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), no âmbito da Operação Lobo em Pele de Cordeiro, apontam que o padre teria utilizado sua posição de autoridade religiosa para se aproximar das vítimas — muitas delas jovens e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

De acordo com os depoimentos reunidos, o religioso promovia encontros e festas em ambientes ligados à igreja, onde havia consumo de álcool e, em alguns casos, uso de substâncias ilícitas. Há relatos de que ele oferecia supostos “tratamentos” para dependência química, durante os quais teria dopado vítimas antes de cometer abusos.

Os crimes teriam ocorrido entre 2010 e 2019, em cidades do Oeste do Paraná, como Cascavel, Santa Lúcia e Boa Vista da Aparecida, além de registros no Rio de Janeiro. Até o momento, 16 vítimas foram formalmente identificadas, com idades que variavam entre 12 e 48 anos à época dos fatos.

Um dos episódios mais recentes incorporados à denúncia envolve três integrantes de uma mesma família. Segundo o Ministério Público, um adolescente de 17 anos teria sido vítima de estupro e importunação sexual, enquanto sua irmã, de 18, e a mãe, de 48, teriam sido induzidas ao consumo e à distribuição de drogas. O atendimento ocorreu dentro da casa paroquial onde o padre atuava.

Genivaldo está preso preventivamente desde outubro de 2025 e atualmente cumpre detenção no Complexo Médico Penal. A transferência para a unidade ocorreu após relatos de que ele teria tentado manter contato insistente com testemunhas durante a fase inicial das investigações — o que levantou preocupações sobre possível interferência no processo.

A defesa do religioso nega todas as acusações e afirma que está reunindo provas para contestar os depoimentos das vítimas. Em nota, os advogados sustentam que as denúncias são infundadas e que a inocência do padre será demonstrada ao longo da instrução processual.

No âmbito eclesiástico, a Arquidiocese de Cascavel afastou o padre de suas funções assim que as denúncias vieram à tona. Um processo administrativo canônico foi instaurado, e o caso deve ser analisado pelo Vaticano.

Caso as acusações sejam confirmadas também na esfera religiosa, Genivaldo poderá ser submetido à pena máxima prevista pelo direito canônico: a demissão do estado clerical, o que implica a perda definitiva do título de padre.

A cúria local, no entanto, não se pronunciou oficialmente sobre relatos de que parte dos crimes teria ocorrido dentro de dependências paroquiais.

Além da condenação criminal, o Ministério Público solicitou que o réu seja obrigado a indenizar as vítimas por danos morais e materiais. Os valores pedidos variam entre R$ 20 mil e R$ 150 mil por pessoa, a depender da gravidade de cada caso.

Diante da quantidade e da natureza dos crimes, a polícia estima que, em caso de condenação máxima com somatória de penas, o total pode ultrapassar os 500 anos de reclusão — número que evidencia a gravidade e a extensão das acusações.

<><> Um caso emblemático

A centralização do julgamento em Cascavel é vista como um passo decisivo para garantir maior coerência na análise das provas e evitar decisões contraditórias. Também reforça a dimensão sistêmica das acusações, que apontam não para episódios isolados, mas para um padrão prolongado de conduta criminosa.

O caso lança mais uma vez luz sobre o uso de posições de autoridade religiosa para a prática de crimes, reacendendo debates sobre mecanismos de controle, transparência e proteção de fiéis — especialmente os mais vulneráveis — dentro de instituições religiosas.

 

Fonte: Fórum/Diálogos do Sul Global

 

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