quarta-feira, 29 de abril de 2026

Paulo Kliass: Lula tem toda a razão!

Lula participou, em 18 de abril de 2026, de um importante evento em Barcelona, capital da Catalunha, na Espanha. O Presidente brasileiro falou durante a 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global, iniciativa que esteve a cargo de lideranças socialistas europeias, tais como Pedro Sanchez (Presidente do governo da Espanha) e Stefan Lövfen (Presidente do Partido Socialista Europeu).

A Mobilização Progressista Global tem por lema a bandeira: “Unindo as forças progressistas do mundo por um futuro mais justo, igualitário e sustentável”.

A intervenção de Lula chamou a atenção das forças políticas presentes no evento por suas críticas contundentes ao modelo econômico e social imposto pelo neoliberalismo aos povos e países do mundo.

Tendo em vista a amplitude da divulgação do conclave, por todo o planeta as palavras do líder foram registradas com atenção e entusiasmo.

Em aparente oposição às políticas públicas levados a cabo pelas próprias forças progressistas quando chegavam ao poder, ele deixou aberta uma leitura de que se tratava também de uma autocrítica por tudo aquilo que vem sendo realizado em seu terceiro mandato à frente da república brasileira.

As colocações de Lula foram muito bem recebidas e festejadas por todos aqueles que tinham maiores expectativas quanto à linha a ser implementada por seu governo a partir de janeiro de 2023.

Afinal, a grande maioria das promessas feitas por ele durante a campanha eleitoral ainda não foram colocadas em prática. Por outro lado, o discurso causou um pouco de estranheza e cautela naqueles representantes dos interesses do financismo e das classes dominantes brasileira de forma geral.

Como estamos às vésperas de um novo processo eleitoral, permanece o receio de que Lula resolva trazer para seu quarto mandato tudo aquilo que estava contido em sua fala no evento.

<><> Que volte o Lula do Velho Testamento

Trata-se da conhecida repetição da postura de Lula em campanhas eleitorais. Ele costuma forçar um pouco a barra pela esquerda, com a intenção de empolgar sua torcida e envolvê-la com mais dedicação no embate eleitoral.

Alguns analistas apelam também para a figura do “Lula do Velho Testamento” no intuito de promover a analogia com as posições de Lula antes de se tornar Presidente pela primeira vez em 2003.

A sua manifestação no encontro remontava às raízes do movimento conservador, em termos de política econômica, que tomou conta do globo a partir da década de 1980. Parecia que outra persona estava com o microfone à mão, denunciando as mazelas do modelo perverso e toda a sorte de equívocos que foram sendo cometidos desde então. Senão, vejamos:

(…) “A esquerda progressista foi vítima do discurso do Consenso de Washington. Muita gente nova aqui não se lembra, mas quem tem 80 anos, como eu, se lembra, porque já tinha bons anos nos anos 80. E eu agora fico analisando o que é que está acontecendo no mundo.” (…) [GN]

E segue na crítica:

(…) “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança.” (…) [GN]

E na sequência, como se fosse um profundo mea culpa do desempenho do Partido dos Trabalhadores no Brasil e outras forças de esquerda em experiência pelo mundo afora, Lula não poupa palavras para descrever o processo que tenta analisar:

(…) “Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema.” (…) [GN]

Na verdade, é como se Lula assumisse para si a crítica que sempre lhe foi endereçada por setores mais autênticos do campo progressista, que usam a metáfora do governo violino: “segura com a esquerda e toca com a direita”. E ele segue:

(…) “O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo.” (…) [GN]

A seguir Lula reconhece as frustrações que foram sendo causadas na população pelos diferentes governos de esquerda que não conseguiram – ou não ousaram – implementar os programas para os quais haviam sido eleitos.

(…) “Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante.” (…)  [GN]

(…) “Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia” (….) [GN]

(…) “Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. ” (…) [GN]

Ao não rever os fundamentos da política econômica neoliberal, os diferentes governos progressistas tornaram-se sócios de tal modelo e terminaram por implementar políticas públicas à frente de seus governos com as consequências perversas derivadas das diretrizes do Consenso de Washington.

As decorrências de tal postura se apresentam nas opções políticas que a população passa a adotar a partir da falência do modelo que começa a se exaurir.

(…) “E a gente vai ficando com medo e a gente vai tentando agradar o mercado, a gente vai tentando agradar o empresário, e o que acontece é que nós vamos ficando desmoralizados.” (…)

Com isso, vem a reviravolta na direção política dos países e um certo encantamento da população com as promessas da extrema direita, a partir de suas críticas cínicas e mentirosas ao sistema e ao establishment. E Lula avança em seu correto diagnóstico

(…) “A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. ” (…)

(…) “Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia.” (…)

a população quer “(…) Um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada. Um salário que permita uma vida confortável.” (…)

Ora, para ser coerente com seu discurso e seu diagnóstico, é razoável supor que Lula deveria propor mudanças para seu quarto mandato. Afinal, ele tem toda a razão em sua análise retrospectiva das causas dos fracassos das políticas neoliberais colocadas em prática por governos progressistas, inclusive os que foram presididos por ele.

O momento atual é de extrema delicadeza política e eleitoral. Lula deveria aproveitar as dicas deixadas por ele mesmo no encontro em Barcelona e abandonar alguns dos dogmas da austeridade fiscal.

Essa é a condição necessária para colocar imediatamente em marcha um programa emergencial de ajuda às famílias endividadas e de apoio às políticas públicas voltadas à população mais carente.

Mas para isso ele precisa flexibilizar as amarras do Arcabouço Fiscal proposto a ele por Fernando Haddad ainda em 2023. O primeiro passo é vencer as eleições e impedir o retorno da extrema direita, na figura do filho de Bolsonaro.

<><> A missão de Lula para 2027/30

No entanto, Lula precisaria ir além. Aproveitando o diagnóstico que ele mesmo apresentou no fórum progressista, Lula deveria iniciar um amplo debate a esse respeito.

Seria essencial que ele convocasse economistas e especialistas do campo progressista para elaborar um programa de governo para seu próximo mandato. Um conjunto de medidas que signifiquem a ruptura com aquilo mesmo que ele criticou perante as forças de esquerda e centro esquerda de todo o globo.

Uma alternativa para entrar para a História com uma plataforma que seja apresentada como um “contra programa” ao Consenso de Washington. Uma tentativa de mostrar aos povos de todos os continentes que, sim, um outro mundo é possível. Um movimento forte para provar que esta consigna do Fórum Social Mundial ainda permanece viva e necessária.

Lula tem toda a razão!

Governos de esquerda não podem praticar políticas de direita.

Governos de esquerda não podem sucumbir à ortodoxia econômica e devem propor uma alternativa ao neoliberalismo.

Governos de esquerda não podem limitar suas ações a apenas agradar o mercado e se esquecer de suas missões de transformação da sociedade para atender às necessidades da grande maioria da população.

Governos de esquerda devem dar um passo à frente e não se contentarem em apenas serem meros gestores das mazelas do modelo neoliberal concentrador de renda/patrimônio e espoliador dos mais pobres.

Lula tem diante de si a oportunidade histórica de encerrar sua biografia à frente do Palácio do Planalto deixando para o povo brasileiro e de todo o mundo um legado à altura de seu discurso em Barcelona.

Em 2022 ele havia prometido fazer neste terceiro mandato mais e melhor do que havia realizado nos dois primeiros. Infelizmente, não conseguiu.

Que agora ele desperte para a imensa responsabilidade da nova missão que o aguarda – o quadriênio 2027/30.

•        Alta de querosene e bandeira amarela na energia elétrica devem manter inflação pressionada. Por Paulo Gala

A semana que se inicia será marcada por uma agenda intensa de divulgação de indicadores econômicos relevantes, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. No cenário internacional, os destaques ficam por conta da divulgação do índice de preços de consumo pessoal (PCE), principal medida de inflação acompanhada pelo Federal Reserve, além dos dados do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre. Esses indicadores serão fundamentais para avaliar o ritmo da atividade econômica e a persistência das pressões inflacionárias na economia americana.

No Brasil, o calendário também é robusto. Entre os principais dados, destaca-se o IPCA-15, prévia da inflação oficial que cobre o período de meados de março a meados de abril. Além disso, serão divulgados índices gerais de preços (IGP), dados do mercado de trabalho — incluindo informações do CAGED e da PNAD Contínua — e números de arrecadação federal. Em conjunto, esses indicadores oferecem um panorama abrangente sobre a evolução dos preços, da atividade econômica e das condições do mercado de trabalho no país.

O mais recente Relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, reforça a deterioração das expectativas inflacionárias. A projeção para o IPCA de 2026 subiu para 4,86%, enquanto a estimativa para 2027 já se aproxima de 4%, ambos acima da meta oficial de 3%. No campo monetário, a expectativa para a taxa Selic ao final deste ano gira em torno de 13%, embora haja dúvidas quanto à viabilidade desse patamar diante do atual cenário inflacionário.

Um dos principais fatores de pressão inflacionária segue sendo o preço do petróleo, que permanece acima de US$ 100 por barril, em um contexto de incertezas geopolíticas, especialmente nas relações entre Estados Unidos e Irã. Esse ambiente tem contribuído para a elevação de custos em diversos setores, incluindo o de combustíveis. No Brasil, por exemplo, o preço do querosene de aviação acumula alta próxima de 100%, ampliando as pressões sobre a inflação. A energia elétrica também deverá subir com a definição da bandeira amarela para o próximo mês.

No campo da política monetária, a chamada “Super Quarta” reunirá decisões simultâneas do Federal Reserve e do Banco Central do Brasil. Nos Estados Unidos, a expectativa predominante é de manutenção da taxa de juros, atualmente na faixa de 3,75%, possivelmente marcando uma das últimas reuniões sob a atual liderança. O posicionamento deverá refletir cautela diante de sinais recentes de inflação mais persistente.

No Brasil, por sua vez, o Banco Central enfrenta um dilema mais complexo. Embora haja espaço técnico para redução da taxa Selic, o avanço das expectativas de inflação limita o ritmo de flexibilização monetária. A expectativa do mercado aponta para um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para aproximadamente 14,50%. Ainda assim, o ciclo de cortes deve seguir de forma gradual e cautelosa, podendo, inclusive, ser interrompido caso o cenário inflacionário continue se deteriorando.

Em síntese, a semana será decisiva para a formação de expectativas econômicas nos próximos meses, com dados relevantes e decisões de política monetária que devem influenciar os rumos da inflação, dos juros e da atividade econômica, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

 

Fonte: Viomundo/Brasil 247

 

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