Por
que o aeroporto de Singapura é considerado o melhor do mundo
Imagine
que você acaba de aterrissar depois de um voo de 18 horas.
Bocejando
e com os olhos vermelhos, você se prepara para enfrentar as habituais
dificuldades que encontramos nos aeroportos: a caminhada até a imigração, as
filas que não andam e a quase infinita espera pela liberação da bagagem.
Mas, em
vez disso, você encontra limpadores autônomos sorridentes, gerenciados por IA,
limpando os pisos impecáveis do local. E a imigração anda tão rápido que você
passa alguns momentos suspeitando de alguma coisa.
Em
menos de 15 minutos, você já está na rua, em meio ao calor tropical, se
perguntando por que, no resto do mundo, tudo aquilo ainda é tão difícil.
Alguns
dias depois, você volta ao aeroporto, faz um check-in impecável para sua viagem
de volta e espera o voo nos salões de trânsito do aeroporto.
Lá,
você encontra um cinema grátis aberto 24 horas por dia, sete dias por semana,
um jardim de borboletas e a cachoeira em ambiente interno mais alta do mundo.
Você pode até andar sobre um tanque de vidro para criação de peixes, com uma
tela no teto que imita digitalmente o clima do lado externo.
Às
vezes, você esquece que está em um aeroporto e se sente em uma minúscula cidade
futurista, brilhantemente administrada.
Pode
parecer o sonho do viajante frequente, mas este lugar existe. É o aeroporto
Changi, em Singapura, vencedor do prêmio Skytrax de melhor aeroporto do mundo
pelo segundo ano consecutivo — e pela 14ª vez, desde a sua criação.
Enquanto
outros aeroportos importantes enfrentam infestações de roedores, greves e tetos
que desabam, a paz futurista de Changi parece um mundo à parte. A distância
entre um aeroporto médio e de classe internacional nunca pareceu tão grande.
Mas o
que é necessário para que as viagens aéreas modernas possam fluir tão bem? E
como Singapura consegue atingir este nível, enquanto seus concorrentes
enfrentam tantas dificuldades?
Max
Hirsh é o diretor-gerente do centro de pesquisa Airport City Academy, dedicado
ao planejamento e desenvolvimento de aeroportos. Para ele, o sucesso de Changi
não se restringe à qualidade.
O
aeroporto também oferece o básico do dia a dia, como velocidade, segurança e
conectividade, além da flexibilidade de adaptação quando algo não sai conforme
o planejado.
"No
mundo da aviação, isso acontece muito", explica Hirsh.
"O
desafio não é atingir o equilíbrio em apenas um momento, mas manter o padrão
por décadas, frente às alterações de demanda, tecnologia e perturbações. Changi
tem sucesso porque trata esse equilíbrio como um projeto contínuo, não como um
feito de design isolado."
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Primeiro, a eficiência; depois, o espetáculo
Se você
já tiver voado para Singapura, provavelmente terá notado a sensação de calma
que permeia o aeroporto. O que provavelmente passa despercebido é como esta
tranquilidade é cuidadosamente produzida.
Existe
nos bastidores uma operação enorme e rigorosamente coreografada. Nela, a
automação, a biometria e a análise de previsões são empregadas para remover
gargalos antes que eles se tornem visíveis.
São 60
mil funcionários que mantêm as bagagens, a limpeza, o consumo de energia e o
fluxo de passageiros em perfeita sincronia. Nas palavras de Hirsh, Changi
parece estar sempre "um passo à sua frente".
A mesma
lógica se estende para os detalhes menos glamourosos.
A
infraestrutura de retaguarda, como orientação intuitiva, sinalização clara e
gestão de público, faz com que os passageiros, já afetados pelo fuso horário,
não desperdicem sua carga cognitiva tentando encontrar o seu portão.
Existem
500 toaletes espalhados pelos terminais, o que também ajuda bastante. Cada um
tem uma tela sensível ao toque para que os passageiros avaliem sua experiência.
E qualquer queda nas avaliações fará uma equipe de limpeza surgir em questão de
minutos.
"A
hierarquia é simples", explica Hirsh. "Primeiro, eficiência; segundo,
atmosfera; terceiro, espetáculo."
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O poder do fluxo
Changi
tem tanto a oferecer que pode ser necessário fazer várias visitas para apreciar
sua amplitude.
O
exemplo mais conhecido é a cachoeira interna Jewel Rain Vortex, no complexo de
varejo anexo ao aeroporto. Ela se tornou uma das imagens turísticas mais
conhecidas de Singapura.
Os
viajantes também podem observar Toni, o bartender robótico de Changi, preparar
diversos coquetéis nos terminais 2 e 3 do aeroporto.
O
jardim de borboletas importa pupas a cada duas a três semanas, para nunca ficar
sem exibir as maravilhas aladas. E, se os insetos voadores não forem a sua
praia, existe também um jardim de cactos e outro de girassóis no telhado.
A nova
zona Fit and Fun, aberta no início de 2025, é repleta de atividades que agradam
a todos os gostos. Ela oferece desde sacos de boxe até minitrampolins.
E, para
quem tiver uma escala mais longa (e não precisar de visto de entrada), o
aeroporto oferece até mesmo tours guiados gratuitos da cidade.
As
atrações são continuamente atualizadas e fazem mais do que reduzir o ônus de
uma longa viagem.
Elas
também têm um propósito mais prático: incentivar as pessoas a explorar as
instalações, levando-as a caminhar para diferentes locais dentro do terminal, e
ajudam a evitar a sensação de superlotação característica de outros aeroportos.
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Facilidade para chegar e para sair
Parte
da eficiência de Changi nasce, ao mesmo tempo, do pragmatismo e da ambição.
As
restrições trabalhistas de Singapura levaram o aeroporto a adotar a automação
nos setores de imigração e limpeza, além de outros serviços aos passageiros.
"Os
serviços de imigração precisam de muita mão de obra e nem todos os
singapurenses estão dispostos a fazer este trabalho", explica o
vice-presidente de comunicações corporativas e marketing do Changi Airport
Group, Ivan Tan. "Por isso, em parte, somos levados pela
necessidade."
Em
2024, Changi se tornou o primeiro aeroporto a implementar completamente a
imigração sem passaporte, usando reconhecimento biométrico facial e da íris
para reduzir o tempo desta que pode ser uma das partes mais irritantes de
qualquer viagem internacional.
Os
moradores de Singapura podem usar o sistema na chegada e na saída. Já os
viajantes internacionais podem usar a liberação sem passaporte ao sair do país.
Esta
mentalidade prática também ajuda a explicar por que o aeroporto Changi, na
verdade, nunca se permitiu ficar parado.
Os
aeroportos são cidades em miniatura, orientados por cronogramas rígidos e
logística complexa. Eles são muito vulneráveis à volatilidade.
Esta é
uma das razões que levaram Changi a criar recentemente o Terminal X, um
laboratório de inovação cuja tarefa é enfrentar a volatilidade do clima,
questões de mão de obra, limites de capacidade e as expectativas cada vez
maiores dos clientes.
"Para
nós, o centro de inovação é indispensável", afirma a gerente de
comunicações do laboratório, Kris Mok. Ela destaca que, devido à permanente
evolução dos desafios, "em alguns anos, precisaremos trabalhar duas vezes
mais".
A
equipe é incentivada a testar ideias bizarras, mesmo que fracassem — uma
técnica incomum na cultura do trabalho em Singapura, que é frequentemente
cuidadosa.
Entre
os projetos do laboratório, estão uma frota de drones que voam durante as
tempestades para impedir a queda de raios que poderiam fechar as pistas do
aeroporto, em um dos países mais sujeitos a raios do mundo.
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Cartão de visitas do país
A
obsessão de Changi pela eficiência já é antiga. Ela data dos anos 1970, quando
o pai fundador e primeiro primeiro-ministro de Singapura, Lee Kuan Yew
(1923-2015), percebeu que, para que a pequena nação dependente do comércio
pudesse crescer, seria necessário um símbolo de boas-vindas que demonstrasse
eficiência.
A
aposta foi dispendiosa, mas funcionou. Lee chegaria a chamar Changi de "o
melhor investimento de 1,5 bilhão de dólares de Singapura [cerca de R$ 5,9
bilhões, pelo câmbio atual] que já fizemos".
Cinquenta
anos se passaram e o investimento ainda rende dividendos.
"[Changi]
é uma Singapura em miniatura: eficiente, limpo, organizado e você pode confiar
que tudo funciona conforme o esperado", segundo Alisha Rodrigo, moradora
de Singapura que viaja frequentemente a partir do aeroporto.
Converso
com ela logo depois que uma paralisação do governo americano deixou os
aeroportos dos Estados Unidos com tempos de espera de quatro horas na imigração
e no check-in.
"Às
vezes, a previsibilidade é algo bom", destaca Rodrigo. E, em última
análise, é por isso que Changi continua ganhando prêmios.
Os
visitantes podem levar a lembrança da cachoeira, mas a verdadeira conquista é
que eles conseguiram chegar até ela sem se perder e sem nem mesmo interromper o
passo.
Fonte:
BBC Travel

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