quarta-feira, 29 de abril de 2026

Samuel Kilsztajn: Xing-Ling, os chineses estão chegando!

A transição da hegemonia global para o Oriente revela o triunfo da mercadoria chinesa, que converteu o antigo estigma da descartabilidade em uma sofisticada rede de dominação tecnológica e industrial...

<><> O fetichismo da mercadoria

Antes da Revolução Industrial, a divisão social do trabalho era muito limitada e as trocas eram marginais. Mesmo no período do chamado “capitalismo mercantil”, a quantidade e o valor dos produtos comercializados eram muito pouco expressivos na estrutura de produção e consumo das nações. A relação entre senhores e trabalhadores (escravos, servos etc.) também não era comercial, era em espécie. Foi só a partir do capitalismo industrial que a mercadoria se generalizou, converteu o processo de produção e consumo em sistema e transformou todo mundo (trabalhadores, capitalistas etc.) em agentes econômicos, ou seja, prolongamentos da mercadoria.

Um exemplo que talvez possa ajudar: antes da Revolução Industrial, poderia haver crises climáticas, sociais, políticas, militares etc.; mas crise econômica é uma categoria específica do capitalismo industrial, em que o sistema trava, desocupando tanto os trabalhadores como os meios de produção (o capital), porque o que se procura não é o produto em si (valor de uso), mas sim a rentabilidade do investimento, com lucro e capital mensurados em dinheiro (equivalente geral) – num sistema não mercantil, o que se procura não é o valor (de troca) do produto, mas sim o produto em si.

No início do século XX, o parque industrial da Inglaterra era robusto, as máquinas duravam em média 25 anos. Nos Estados Unidos as máquinas duravam em média 15 anos. Se o progresso técnico vai tornar obsoleto o seu parque industrial em pouco tempo, para que investir em máquinas sólidas que vão parar no ferro velho? O numerador da rentabilidade é o lucro e o denominador é o valor do capital; máquinas com menor vida útil são de baixo valor; quanto menor o valor do capital, maior é a taxa de lucro (vá desculpando o economês). Além disso, sob o Império Americano, o sistema alastrou-se para o setor terciário da economia, ampliando o espaço da acumulação do capital.

Nota de rodapé: no extremo oposto, a União Soviética, que era contra o consumismo, produzia máquinas (e produtos) que poderiam durar (tecnicamente obsoletos) uma eternidade.

A Rússia derrotou Napoleão em 1812, teve que esperar um século para se livrar de sua monarquia absolutista e, fazendo uso do socialismo real (o ritmo de trabalho imposto na União Soviética deixaria Taylor e Ford encabulados), se transformou em uma potência internacional da noite para o dia. A comédia Os Russos estão chegando! Os Russos estão chegando! foi produzida durante a Guerra Fria e, apesar da paranoia existente, conseguiu agradar a gregos e goianos. Nos anos 1970, os Estados Unidos reataram relações diplomáticas e comerciais com a China como forma de isolar a União Soviética.

Nota de rodapé: em sua concepção, o “socialismo científico” nunca havia sido pensado como um modelo para industrializar economias “atrasadas”; muito pelo contrário, foi pensado como um modelo para a superação do sistema capitalista de ponta (destinado ao colapso, a tal “crise geral do capitalismo”).

<><> A passagem do império norte-americano para o império chinês

A industrialização chinesa, mais tardia ainda do que a industrialização russa, também fez uso do socialismo real (os direitos trabalhistas em vigor na China deixariam qualquer sindicalista ocidental boquiaberto).

Nos anos 1980, para dizer que um produto era de má qualidade, você dizia que ele era xing-ling, ou seja, Made in China (leia-se meid in tchaina). E a China conquistou o mercado mundial fabricando produtos descartáveis a baixo preço. Se o negócio é ficar comprando, comprando, para que investir em um produto que vai durar para sempre?

Amigos me perguntam qual é o segredo na administração de meu fluxo de caixa. Ao que respondo que nunca tive televisão, nem celular, e não participo de redes sociais. Mas outro dia fui comprar um aparelho para cortar cabelo, perguntei a origem de um dos modelos e o vendedor disse: “meu senhor, são todos chineses”.

Outra experiência mercantil: fui comprar um monitor de pressão arterial numa farmácia e o funcionário falou que o valor do produto era 250 reais. Aí eu perguntei por que na Internet tinha aparelhos semelhantes por 40 reais. E o funcionário, rindo, disse que os da Internet eram xing-ling. Fazia muito tempo que eu não ouvia essa expressão e falei: “meu senhor, mas o seu produto também é xing-ling, são todos chineses”.

A mercadoria se generalizou pela Europa, atravessou o Atlântico e ocupou o mundo, inclusive a Rússia e a China. A Inglaterra deteve a hegemonia inconteste do capitalismo internacional no século XIX, a ponto do inglês se transformar em língua franca universal. No século XX, os Estados Unidos herdaram a hegemonia capitalista, com a União Soviética saindo do “atraso de vida” para ocupar o posto de segunda potência internacional.

No século XXI, ao que tudo indica, a China está fadada a herdar a hegemonia internacional do capitalismo, isto é, personificar a mercadoria globalmente. O governo chinês, extremamente centralizado, desenvolveu uma economia totalmente descentralizada – uma economia “socialista” de mercado, ou melhor, uma economia paternalista de mercado. Ajustada pelo custo de vida interno, a China já é a maior economia do mundo, 40% maior que a economia dos Estados Unidos.

Por acaso, a minha cultura é russa. Minha família atravessou gerações vivendo em território do Império Czarista e Alexandre Pushkin e Liev Tolstói são os meus autores de cabeceira. Mesmo não falando russo, entendo tudo o que eles dizem, principalmente quando estão bêbados.

Por algum outro acaso, sou terapeuta chinês, adepto das religiões orientais, mas quanto mais vou à China, menos entendo o país. Só sei que a China já era civilizada quando o ocidente vivia na barbárie (ainda vive), que foi submetida nas Guerras do Ópio em meados do século XIX e que está usando o padrão ocidental mercantil para se vingar do ocidente, ou melhor, está sendo usada pela mercadoria em seu processo de dominação.

De acordo com Keyu Jin, a aparente submissão cega da população às autoridades reflete a deferência a um governo paternalista que lhe garante estabilidade, segurança, paz, esperança e prosperidade. Keyu Jin enfatiza que esta característica do povo chinês é cultural, é milenar, ou seja, data do Império. O apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.

Também, por acaso, sou palestino e entendo que os árabes muçulmanos, mesmo sendo conhecidos como exímios negociantes, não se sujeitam à mercadoria. Contudo, sendo brasileiro, fecho mesmo é com o Ailton Krenak, o nosso filósofo discípulo de Baruch Spinoza em busca de um futuro ancestral.

<><> Post Scriptum

Em 2024, a empresa chinesa de biotecnologia MGITech inaugurou em São Paulo o Customer Experience Center (CEC), projetado para oferecer tecnologia avançada a laboratórios clínicos, hospitais e universidades, com objetivo de impulsionar avanços na saúde, agricultura e sustentabilidade ambiental. A MGITech já construiu parcerias com o Grupo Oncoclínicas, Eva Holding Group, Grupo Sabin, Unidade de Apoio ao Diagnóstico (UNADIG) e laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Também uniu esforços com a Universidade Federal do Pará –UFPA para enfrentar desafios ligados à biodiversidade amazônica por meio de tecnologias avançadas de sequenciamento.

Em 2026, a empresa chinesa de transporte ferroviário CRRC vai implantar uma unidade industrial em Araraquara, São Paulo. Além de tecnologia, os chineses já estão exportando até rappers. Apesar do mandarim ser uma língua tonal, com uma variação de sons não absorvíveis após os sete anos de idade, muitos jovens ocidentais estão se esforçando para aprender chinês. E alguns até já estão se submetendo a cirurgias que os transformam em “chineses natos”.

No início de 2026, por acaso, como sempre, eu estava na Amazônia, ao lado da Venezuela, e recebi um recado de Donald Trump para lembrar que, até prova em contrário, a América Latina ainda era o seu quintal. Em 28 de fevereiro, ao lado do Estado de Israel, Donald Trump resolveu também investir no Irã. América primeiro? Se as manobras e maquinações de Donald Trump tornaram alguma nação grande, foi a China, não os Estados Unidos. Make China Great Again! Enquanto a política norte-americana – literalmente bombástica – degringola, a China, decididamente, avança na liderança internacional.

Xing-ling, os chineses estão chegando!

•        A sindemia global e os limites do progresso. Por Sâmela Klein

A crise alimentar contemporânea não é apenas uma questão de saúde pública nem um desdobramento colateral da crise climática. Ela constitui a expressão concreta de um mesmo modelo econômico que, ao transformar comida em mercadoria global, passou a produzir simultaneamente corpos doentes e ecossistemas em colapso. É nesse contexto que a saúde pública passou a nomear essa convergência como “sindemia global”: a interação sinérgica entre obesidade, desnutrição e mudanças climáticas.Aqui não se entende estas como uma infeliz coincidência de crises paralelas, mas de um modelo orientado à extração e ao consumo, que esgota, de forma sistemática, tanto a base material do planeta quanto os corpos que o sustentam.

Essas três emergências compartilham determinantes estruturais e retroalimentam-se no interior de uma arquitetura que fragmentou a própria experiência do real. Ao instituir a separação entre natureza e sociedade, a modernidade produziu sistemas alimentares e urbanos incapazes de responder à complexidade dos fenômenos que ela mesma engendrou. A produção intensiva voltada à exportação de commodities constitui uma expressão paradigmática dessa ruptura: ao externalizar seus impactos ecológicos e sociais, o agronegócio degrada territórios enquanto simultaneamente consolida padrões alimentares associados tanto à desnutrição quanto à obesidade.

A tendência global de direcionamento da agricultura para produtos de alto valor financeiro e baixo valor nutricional explicita essa interdependência. O modelo produtivo que intensifica o desmatamento, reduz a biodiversidade e amplia a pressão sobre os recursos hídricos é o mesmo que encarece o alimento in natura.

Os impactos ambientais, por sua vez, não apenas decorrem desse arranjo, mas o intensificam. Em um contexto em que os efeitos da crise climática deixam de ser projeções futuras e passam a se manifestar como experiência cotidiana em diferentes regiões do planeta, eventos climáticos extremos como secas prolongadas, enchentes e quebras de safra destroem sistemas produtivos inteiros e aprofundam a dependência de ultraprocessados entre populações vulnerabilizadas.

A economia de mercado atua como vetor organizador dessa dinâmica, subordinando a reprodução da vida à lógica da rentabilidade. Saúde, ambiente e finanças deixam de ser esferas analiticamente separáveis: passam a operar como dimensões de um mesmo metabolismo disfuncional.

A partir da perspectiva de Bruno Latour, esse arranjo pode ser lido como expressão do impasse constitutivo da modernidade. O sistema capitalista produz continuamente “híbridos”, isto é, redes sociotécnicas que articulam sementes, clima, mercados financeiros, agrotóxicos e saúde humana. No entanto, essas mesmas redes são governadas por categorias purificadas, que insistem em separar natureza, sociedade e economia. É essa operação que autoriza, simultaneamente, a concepção da terra como insumo inesgotável e a redução das doenças crônicas a desvios individuais ou determinantes genéticos.

A sindemia global configura-se, portanto, como um fenômeno radicalmente híbrido. À luz da teoria sistêmica, sua complexidade não reside apenas na multiplicidade de componentes, mas nas interações dinâmicas, não lineares e frequentemente imprevisíveis entre eles. Reduzi-la a uma única dimensão – biomédica, climática ou econômica – implica não apenas empobrecimento analítico, mas incapacidade prática de intervenção. A crise contemporânea é, nesse sentido, simultaneamente material e epistemológica: evidencia a falência de um pensamento reducionista diante de realidades estruturalmente interdependentes.

A persistência dessa trajetória de colapso encontra respaldo no que Isabelle Stengers denomina imperativo do avanço capitalista. Trata-se de uma narrativa de progresso fundada no crescimento contínuo, que constrange a ação política mesmo diante de evidências robustas de exaustão ecológica. O reconhecimento científico da insustentabilidade do modelo não tem sido força suficiente para frear sua reprodução.

Nesse contexto, respostas baseadas exclusivamente em ajustes técnicos, como a descarbonização parcial da matriz energética ou a taxação de alimentos ultraprocessados, revelam-se insuficientes. O que está em jogo não é apenas a correção de externalidades, mas a necessidade de reconfiguração das bases ontológicas que orientam a relação entre sociedade e natureza. É nesse ponto que a crítica aos híbridos modernos encontra ressonância no Bem Viver. Oriundo de cosmovisões indígenas andinas, esse horizonte recusa a racionalidade utilitarista e propõe uma ontologia relacional, na qual humanos, não humanos e territórios constituem uma trama indissociável.

Se, como argumenta Bruno Latour, jamais fomos modernos, o Bem Viver evidencia que outras formas de organizar a vida coletiva não apenas existiram, mas persistem e resistem. Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas do reconhecimento de epistemologias ativas, capazes de orientar arranjos alternativos de produção, consumo e governança.

A agroecologia e a agricultura regenerativa emergem como expressões materiais dessa perspectiva. Ao reintegrar processos ecológicos e práticas sociais, operam deliberadamente no plano dos híbridos. A conservação do solo, a diversificação produtiva e a redução do uso de agrotóxicos deixam de ser meras métricas ambientais e passam a constituir estratégias de reprodução da vida em contextos de instabilidade climática. Nesse horizonte, os saberes tradicionais não são vestígios culturais, mas formas sofisticadas de inteligência etnoclimática, fundamentais para a adaptação no Antropoceno.

A articulação entre rigor científico e saberes tradicionais abre caminho para a produção de conhecimentos mais aderentes à complexidade contemporânea. Nesse processo, a ciência desloca-se de uma posição de exterioridade e controle para uma prática situada, relacional e experimental, comprometida com a construção coletiva de territórios resilientes.

Enfrentar a sindemia global exige mais do que integração de políticas públicas. Exige um gesto epistemológico e político de desaprendizado. Implica renunciar à ideia de progresso linear, infinito e universalizável. A sobrevivência no Antropoceno dependerá da capacidade de reconfigurar nossas formas de habitar o mundo, reconhecendo nossa condição de interdependência.

Ao dialogar com o Bem Viver, torna-se possível vislumbrar que a saída para a policrise contemporânea não reside em soluções tecnológicas isoladas, mas na reorientação profunda das formas de existência que  sustentam a vida no planeta. Em um mundo que insiste em tratar a vida como recurso, talvez a ruptura mais radical seja justamente reaprender a habitá-la como relação.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Le Monde

 

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