Tadeu
Valadares: A violência plurissecular dos Estados Unidos
Diante
da enormidade da crise geopolítica de fato mundial, impossível, de momento e
tendo em conta a enxurrada dos acontecimentos cotidianos, elaborar mapa preciso
de conjuntura tão complexa quanto desnorteante. Daí que me limite a esboçar
precário portulano que traduz meu sentimento de estarmos vivendo à beira do
abismo.
Aceita
essa ideia inicial, algo se torna em decorrência evidente: a ordem antiga se
esgotou – há quem negue isso –, mas outra ainda não surgiu, e há quem isso
também negue. Para mim, estamos vivendo paradoxal momento longo, perigosamente
longo, dessa transição de um mundo a outro, de uma hegemonia a outra. Seu
término, indeterminável. Em princípio, não se estenderá pelo que resta do
século.
Tão
enormes quanto a enormidade da crise que é policrise são as expectativas que a
provável quebra de hegemonia em curso desperta no Sul global, em especial nos
países – Estados, sociedades, povos e nações – que desde 1945 constituem a
periferia imediata e a periferia extrema do sistema que funciona para afirmar o
centro, beneficiário maior do esquema global de extração de recursos do Sul
global para o Norte, cujo primeiro momento ‘orgânico’, no dizer dos
historiadores da longa duração, foi o ciclo genovês-espanhol nos séculos XV e
XVI.
Para
boa parte do Sul global, a transição de um ciclo sistêmico a outro e de uma
hegemonia a outra, bem como seu vetor final, são favas contadas. Estamos
prestes a deixar para trás a ordem exaurida, estamos prontos para ingressar no
mundo novo. Em outras palavras, o grande jogo da política e da economia mundial
nos favorece estruturalmente. Para o novo que desejamos caminhamos com olhos
abertos.
Mas
quando se observa a coisa mais de perto, depois de registrarmos o óbvio
esgotamento da ordem caduca, pouco se detecta quanto ao que será a base
essencial a sustentar a ordem futura. Por enquanto, invisível os delineamentos
da estrutura formal jurídico-política e diplomática eletivamente afim com esse
projeto audaciosa e ideologicamente inovador. Por enquanto inexiste a malha
mínima de instituições suficientemente cristalizadas – instituições, não grupos
de países, não acertos informais –, capazes de eficientemente operar o
cotidiano do novo sistema, conferir-lhe vida efetiva.
Nesse
contexto, o BRICS e outros agrupamentos mais ou menos similares são desde já
evidentemente importantes, mas ainda não deixaram de todo o embrionário. Ainda
estão no casulo enquanto em geral os vemos como belas borboletas. E,
completando o raciocínio, até o momento não ocorreram, nem parecem prestes a
ocorrer, os grandes acertos de poder que em última instância são os
estruturadores da ordem nova como espaço institucionalizado favorável ao
exercício de algum novo tipo de hegemonia, algum tipo novo de ciclo de
acumulação de poder e de capital, ambos por igual indeterminados.
Estamos,
portanto, na plena ambiguidade que marca as grandes transições históricas de
hegemonia. A ‘ordem onusiana’ perdeu quase completamente sua relevância, e o
quase é cláusula minha de prudência. A velha ordem representa o mundo velho nos
estertores. Mas o novo ainda não nasceu, não se sabe se nascerá e, se nascer,
qual será sua real fisionomia. Provável seja bastante diferente das tantas
configurações imaginárias que tantos analistas de grande fôlego e saber
generosamente desenham, quem sabe se guiados pelos votos do coração. O curso
real do mundo não disse sua palavra final. Ela, até pronunciada, persistirá
como claro enigma.
Pensando
a partir dessa moldura algo (?) heterodoxa, decerto coisa muito frágil,
importante assinalar: para os da longa duração, a decadência final do hegemon de
turno e o estabelecimento em cada ciclo de seu eventual sucessor foram sempre
mediatizados por período com características particulares, os chamados tempos
de “caos sistêmico”. Esse tempo de caos ocorreu tanto na passagem da hegemonia
genovesa-espanhola para a holandesa quando na transição da hegemonia de
Amsterdã para Londres. Também na ‘chegada à hegemonia’ de Nova Iorque em
substituição a londrina.
Parece-me
bem mais do que aceitável trabalhar com a hipótese de que – desde mais ou menos
50 anos atrás, e muito especialmente no curso do século XXI – estamos vivendo o
caos sistêmico mediador da queda da hegemonia americana e da ascensão da China
ao ápice do sistema. Ordem e sistema que, ao permanecerem em última análise
como sistema e ordem, permitem ao novo hegemon dar início a
novo e diferente ciclo de acumulação de capital e poder.
Certo,
isso tem muito de teórico, especulativo, hipotético. A hegemonia prevista e
desejada pela maioria do Sul Global tem de deixar de ser teoria, especulação,
hipótese. Tem que se afirmar na prática da realidade efetiva. Lembrando
Friedrich Engels, a prova da materialidade do pudim está em comê-lo.
O
conhecimento acumulado pelos historiadores no que diz respeito às transições de
hegemonia induz a certa sobriedade: nas quatro passagens conhecidas de
hegemonia, todas mediatizadas por períodos de caos sistêmico, as guerras foram
as parteiras da história. Em todo esse período, que cobre o desenvolvimento do
capitalismo histórico desde ao menos o século 15, como os historiadores da
longa duração viram a relação entre guerra e capitalismo?
Para
autores como Fernand Braudel (1902-1985), Charles Tilly (1929-2008) e José Luís
Fiori, octogenário como eu, a guerra, fenômeno fundamental que singulariza
o homo sapiens, nos acompanha como uma espécie de invariante
histórico.
Para
Fernand Braudel, a constância das guerras se expressa muito além das fronteiras
do capitalismo histórico. A guerra acompanha e conforma em grande medida toda a
história da espécie“, como se fosse uma necessidade biológica’. O americano
Charles Tilly, ao analisar o fenômeno no período que mais ou menos se inicia no
século 15, realça : “De 1480 a 1800, a cada 2 ou 3 anos iniciou-se em algum
lugar do mundo um conflito internacional expressivo’. Diz ainda que “de 1800 a
1944, esse tipo de conflito passou a ocorrer a cada 2 anos’. E sinaliza: ‘a
partir da II Guerra Mundial, um conflito internacional expressivo eclodiu a
cada 14 meses’.
Mais
preocupante ainda, sugiro, o ingresso da humanidade na era nuclear não
enfraqueceu essa tendência ou pulsão que vem dos tempos mais recuados. Agora,
evidente para mim, a guerra é feita nos moldes ditados pela expansão do modo de
produção capitalista, processo e dinâmica irremediavelmente conflitivos,
vigentes no mínimo há mais de cinco séculos.
Para
José Luís Fiori, a guerra – em suas diversas modalidades – é desde sempre a
ultima ratio a que recorrem todos os que exercem o poder tentando acumulá-lo,
independentemente dos tipos ou formas de vida social humana predominantes. E
não há como, em se tendo poder, deixar de obsessivamente acumulá-lo.
Idealmente, acumular poder até exercer uma espécie de monopólio temporário.
A
guerra é, portanto, mais do que uma possibilidade. É necessidade a que todas as
formas sociais estão – queiram ou não – submetidas. Diferentemente do dito por
Fernando Pessoa, neste mundo – o do poder – não há lugar para o livre nem para
o indeterminado. Diria eu, então, que só há lugar, nesse registro que é do
mundo, para o que é determinado pela própria lógica eternamente expansiva do
poder. Eternamente, enquanto homens houver.
Daí que
a guerra seja copresente ao arco inteiro da história humana, desde as
organizações comunitárias e tribais mais recuadas, passando pelas cidades,
reinos, estados, repúblicas e impérios antigos e medievais. Essa quase que
necessidade bioógica, na formulação ‘braudeliana’, vige, creio que até mesmo
com mais força, desde os começos do mundo moderno. Sobredetermina, parece-me,
os detinos dos estados nacionais ou plurinacionais, dos impérios, repúblicas –
entre elas a imperial –, e as reveste com diversificadas formulações retóricas
legitimadoras, muitas delas imperiais.
Resumida
de maneira obviamente abrupta e incompleta as formulações de alguns dos
principais historiadores da longa duração – os que tentam fazer convergir a
dimensão estrutural com a conjuntural, ambas inseridas no corpo mais amplo da
história humana –, façamos (outro?) corte abrupto: deixemos essa moldura-macro
e foquemos nossa atenção nos Estados Unidos.
Ao
fazermos isso, a violência plurissecular que os Estados Unidos deflagaram ao
longo de sua história – até mesmo, via guerras contra os povos indígenas, no
seu período de colônia britânica – pode nos deixar com a sensação de que o que
era o famoso cinza que se põe sobre o cinza hegeliano ameaça de vez com a
escuridão completa. A escuridão nuclear que poria termo ao último voo do mocho
de Minerva.
Minha
hipótese sobre a violência plurissecular dos Estados Unidos talvez pareça no
mínimo exagerada. Entendo. Então, vamos a uma tentativa de ilustração da tese.
Quatro
anos atrás, o Instituto Quincy para Política Estatal Responsável (em
inglês Quincy Institute for Responsible Statecraft) circulou os
resultados de ampla pesquisa sobre os Estados Unidos e suas guerras.
Resumidamente: de 1946 a 1989 (43 anos) os Estados Unidos realizaram 104
intervenções militares; de 1990 a 2019 (29 anos), 112 intervenções foram
feitas. No período pós-Guerra Fria coberto pela pesquisa (1991-2022), mais de
100 intervenções militares em 31 anos.
No
debate ocorrido no lançamento do relatório do Instituto Quincy, John
Mearsheimer sublinhou que de 1946 a 1989 (43 anos), Washington operacionalizou
104 intervenções militares. Em média, 2,4 intervenções por ano. Mas de 1990 a
2019 (29 anos), 112 intervenções americanas ocorreram. Em média, 3.7 por ano.
Ou seja, houve aumento do número de intervenções e de sua média durante os
tempos da ‘hegemonia liberal’ americana. Isso ocorreu enquanto a ‘ordem
internacional baseada em regras’ era cantada em prosa e verso neoliberal no
centro, na periferia imediata e na periferia extrema do sistema internacional
crescentemente em crise. Por quem, bem sabemos.
Desde
2022, o quadro não mudou para melhor. Tanto assim que de certa forma
contabilizando o estado bélico do mundo, dois anos atrás o espanhol El
país circulou matéria pela qual informou estarem em curso 56 “guerras
ativas entre países”. Também em 2024, relatório elaborado pelo Comitê
Internacional da Cruz Vermelha registrou mais de 120 conflitos armados a
envolver cerca de 60 estados. Ou seja, mais ou menos 30% dos países que estão
representados na Assembleia-Geral da ONU. A maioria desses conflitos armados,
para nenhuma surpresa nossa, se concentra na África e na Ásia.
Simplificando
escandalosamente o panorama geopolítico mundial no registro bélico que vai
muito além dele mesmo, registremos que ele é pontuado: (a) pela guerra ou
operação militar especial na Ucrânia, em que os Estados Unidos desempenharam e
desempenham papel fundamental; e (b) pela guerra relâmpago de agressão à
Venezuela, feita ao arrepio de todas regras estabelecidas pela ONU, mas que
numa subserviência com medo e mácula foi aceita pelo Conselho de
Segurança; e (c) pela ‘guerra de escolha’ contra o Irã encetada por Washington
e Tel Aviv.
Na
verdade, guerra em dois estágios, o dos 12 dias de junho passado e o atual, que
no momento em que escrevo chegou ao seu quinquagésimo-sétimo dia. Guerra que
pode voltar ao estado mais ativo e destrutivo a qualquer momento, dada a
imprevisibilidade que caracteriza as ações, intenções, gestos, falas e
incoerências geopolíticas do governo americano. Impossível vencer o Irã, mas
bem possível para os Estados Unidos e Israel nesse intento destruírem ‘nolens
volens’ – dada a segura reposta iraniana à terceira onda agressiva – toda a
infraestrutura das monarquias do Golfo e a maior parte da israelense. Isso
seria uma espécie de suicídio que levaria o capitalismo planetário a uma crise
que muitos só encontram termo de comparação no caos provocado pela crise de 1929.
Esses,
os focos principais. Indispensável, entretanto, não esquecer: o genocídio em
Gaza e a falsa paz imposta por Donald Trump e Benjamin Netanyahu com o
beneplácito vergonhoso do Conselho de Segurança; as violências cotidianas
cometidas contra o povo palestino na Margem Ocidental e em Jerusalém Oriental;
a guerra de ocupação em curso contra o Líbano, com remoção forçada de 20% da
população libanesa antes concentrada no sul do país.
Em
todos esses ‘conflitos internacionais expressivos’, para lembrar a categoria
elaborada por Tilly, os Estados Unidos ou são participantes ativos ou
apoiadores pavlovianos de Israel. Reflexo condicionado substituiu qualquer
estratégia minimamente racional. Isso, no caso de Israel como um quase-estado
americano, sua condição desde ao menos 1967.
A quase
perenidade com que os Estados Unidos recorrem à guerra para manter o império se
manifesta num dado nem tão conhecido assim: desde o término da Segunda Guerra
Mundial, a república imperial – cada vez menos república, cada vez mais
imperial e imprevisível – só não esteve em guerra contra um ou mais países em
três ‘anos fora da curva’: 1946, 1952 e 1974.
Arrisco
especular, a despeito da frase de Augusto Roa Bastos segundo a qual no futuro a
gente entra de costas. De costas, sim, tal como de costas está o Anjo de Paul
Klee descrito por Walter Benjamin na nona tese em Sobre a filosofia da
história. Para mim, dos resultados dessas duas guerras, a da Ucrânia e a
resultante da agressão cometida contra o Irã, em muito depende, para voltarmos
ao início deste texto, o surgimento com dose de clareza, em lugar de um ainda
obscuro esboço de outra ordem internacional que consagre uma nova hegemonia. As
duas guerras bem podem funcionar como aceleradores, dependendo dos respectivos
vetores finais.
Mas
apesar do papel e do peso desses dois eventuais ‘aceleradores’, não creio que o
mundo novo surja no prazo curto de anos. A nova ordem continua em potência.
Torná-la realidade efetiva, só no longo prazo keynesiano, aquele que se aplica
muito especialmente a todos os da minha geração. Até lá é viver o momento
tendencialmente catastrófico. Ou não-catastrófico, como quer nossa esperança.
Mas decerto caracterizado pela vigência do caos sistêmico mediador. Viver é
mesmo muito perigoso, como nos ensinou Riobaldo.
¨
Merz diz ver os EUA sendo "humilhados" em
guerra contra Irã
O
chanceler federal alemão, Friedrich
Merz,
afirmou nesta segunda-feira (27/04) que os Estados
Unidos estão
sendo "humilhados" em sua guerra contra o Irã. Segundo ele, parece
faltar a Washington uma estratégia clara, e há dúvidas sobre como os EUA
pretendem sair do conflito.
"Os
iranianos estão claramente mais fortes do que se esperava, e os americanos
claramente não têm uma estratégia realmente convincente nas negociações",
disse Merz durante uma visita a uma escola em Marsberg, cidade de sua região
natal, Sauerland.
"O
problema com conflitos como este é sempre o seguinte: não basta entrar, é
preciso também sair. Vimos isso de forma muito dolorosa no Afeganistão por 20 anos.
Vimos isso no Iraque."
"No
momento, não vejo qual saída estratégica os americanos vão escolher, sobretudo
porque os iranianos estão claramente negociando de forma muito habilidosa
– ou muito habilidosamente não negociando", afirmou.
Merz
acrescentou que "uma nação inteira está sendo humilhada pela liderança
iraniana, em particular pela chamada Guarda Revolucionária".
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Como a guerra com o Irã afeta a Alemanha?
Merz
disse que a situação no Oriente Médio tem provocado
um forte efeito econômico negativo na Alemanha.
"No
momento, é uma situação bastante complicada", afirmou. "E isso está
nos custando muito dinheiro. Esse conflito, essa guerra contra o Irã, tem
impacto direto sobre a nossa produção econômica."
O
chanceler federal disse que a Alemanha mantém a oferta de enviar navios
varredores de minas para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa uma
grande parcela do fornecimento global de petróleo.
No
entanto, segundo Merz, isso depende do fim prévio das hostilidades.
O
chanceler federal ressaltou que a Alemanha precisa agora assumir um papel de
liderança na União Europeia e destacou que
o bloco tem 100 milhões de habitantes a mais do que os Estados Unidos. "Se
nos uníssemos de forma mais eficaz e fizéssemos mais coisas juntos, poderíamos
ser pelo menos tão fortes quanto os Estados Unidos", afirmou.
Fonte:
A Terra é Redonda/DW Brasil

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