A
máquina do consenso: a mídia corporativa como braço da elite financeira
Em
sociedades democráticas, a imprensa exerce um papel decisivo na formação da
opinião pública. Em tese, deveria ser informar com rigor, pluralidade e
responsabilidade, permitindo que a população compreenda os fatos a partir de
diferentes perspectivas.
No
entanto, no Brasil, grande parte da chamada mídia corporativa, concentrada nas
mãos de poucas famílias e grupos econômicos, extrapolou esse papel e passou a
atuar como agente político ativo, interferindo diretamente nos rumos da
democracia brasileira.
Essa
atuação se torna ainda mais evidente em períodos eleitorais. Em vez de apenas
informar, divulgar com isenção os acontecimentos, não raro a grande mídia
constrói narrativas, seleciona quais fatos merecem destaque, quais devem ser
omitidos e quais personagens políticos serão tratados como articuladores,
moderados ou ameaças. Não se trata apenas de divergência editorial, algo
legítimo em qualquer democracia, mas da repetição sistemática de enquadramentos
que favorecem projetos alinhados aos interesses do mercado financeiro, das
elites econômicas e de setores conservadores historicamente privilegiados.
A
democracia, portanto, enfrenta um desafio que vai além das urnas, quando
convive com a hegemonia da narrativa construída pela mídia corporativa. Longe
de ser apenas veículo de informação, grandes conglomerados atuam como partidos
políticos não eleitos, cujo objetivo principal é influenciar a opinião pública
com a finalidade de proteger os interesses da elite financeira e do mercado
especulativo.
Ao
longo de décadas, o que se observa é a institucionalização da distorção, uma
ferramenta utilizada para pavimentar projetos neoliberais e boicotar governos
de base popular através da fabricação de crises e da invisibilização de
conquistas.
O
percurso contemporâneo brasileiro fornece vastas evidências dessa prática. O
apoio de grandes conglomerados midiáticos, a exemplo da Rede Globo, Folha de
São Paulo, Estadão ao golpe militar de 1964, a cobertura seletiva da crise
política que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e a
naturalização de políticas de austeridade que penalizam trabalhadores enquanto
preservam privilégios do sistema financeiro demonstram como parte da mídia
brasileira atua não como observadora imparcial, mas como participante ativa das
disputas de poder.
Em
2026, esse comportamento permanece evidente. Os noticiários, programas de
debate e colunas políticas da mídia corporativa seguem reproduzindo análises
frequentemente marcadas por seletividade, omissões e distorções que atingem
sobretudo governos de perfil popular e progressista. O problema não é a crítica
ao governo, crítica é parte essencial da democracia, mas a diferença de
tratamento dada a políticos distintos, dependendo de seus vínculos ideológicos
e econômicos.
Um
exemplo dessa prática ocorreu no programa Estúdio i, da GloboNews exibido nesta
semana, durante comentários de um dos jornalistas sobre a viagem do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva à Europa. A agenda presidencial dessa viagem incluiu
compromissos diplomáticos e econômicos relevantes, como a participação na 4ª
Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre, presença na abertura do 42º
Encontro Econômico Brasil-Alemanha, voltado a temas estratégicos como inovação,
sustentabilidade, indústria de defesa, inteligência artificial e geopolítica,
além de reuniões oficiais em Portugal com o primeiro-ministro Luís Montenegro e
com o presidente português António José Seguro.
Tratou-se
de uma agenda diplomática ampla, voltada ao fortalecimento das relações
bilaterais, cooperação econômica e aproximação estratégica entre países. Ainda
assim, a leitura apresentada pelo jornalista, muito conhecido por ser um
contumaz grilo falante dos Marinhos, reduziu toda a viagem do presidente Lula a
um suposto movimento eleitoral para “construção de imagem” visando a reeleição.
Essa interpretação reducionista e flagrantemente parcial ignora não apenas a
tradição diplomática construída por Lula ao longo de décadas, mas também o
reconhecimento internacional que o presidente brasileiro possui desde seus
primeiros mandatos.
O
presidente Lula sempre manteve forte atuação internacional voltada à construção
de parcerias econômicas e políticas estratégicas para o Brasil. Durante seus
governos, o país ampliou relações comerciais, fortaleceu alianças multilaterais
e ganhou protagonismo internacional. Não por acaso, diversas lideranças
estrangeiras reconhecem sua capacidade diplomática. A própria Ursula von der
Leyen, presidente da Comissão Europeia, elogiou publicamente Lula ao destacar
seu compromisso com a democracia, com a soberania das nações e com uma ordem
internacional baseada em regras e cooperação.
Entretanto,
parte da mídia corporativa parece incapaz de reconhecer qualquer avanço ou ação
positiva de governos progressistas. Há comentaristas a exemplo desse
jornalista, que transformam toda iniciativa do atual governo em suspeita,
marketing político ou populismo, enquanto relativizam ou silenciam diante de
figuras do Centrão e da extrema direita envolvidas em escândalos graves.
Essa
diferença de tratamento torna-se ainda mais evidente quando determinados
setores da imprensa tentam construir equivalências artificiais entre o
presidente Lula e figuras como os ex governadores Romeu Zema, Ronaldo Caiado e
o senador Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma comparação inadmissível, que ignora
não apenas a dimensão histórica e política de cada trajetória, mas também o
impacto concreto de suas atuações na vida nacional.
Enquanto
Lula consolidou-se como um estadista de projeção internacional, associado a
políticas de inclusão social, expansão das universidades e institutos federais,
valorização real do salário mínimo, fortalecimento do emprego formal e
programas de combate à desigualdade e à fome, Flávio Bolsonaro desenvolveu uma
trajetória política marcada por baixa relevância legislativa e por recorrentes
controvérsias públicas. Seu nome aparece associado a reportagens envolvendo
suspeitas ligadas ao caso das rachadinhas, à aquisição de uma mansão de valor
incompatível com os rendimentos declarados e a relações controversas envolvendo
homenagens a personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro.
Soma-se
a esse histórico a divulgação, nesta semana, pelo jornal Folha de S. Paulo, de
seu plano de governo de orientação ultra neoliberal para uma eventual eleição à
Presidência. O documento aponta para a redução de direitos sociais ao propor o
fim dos ganhos reais do salário mínimo sobre aposentadorias, pensões e o
Benefício de Prestação Continuada (BPC), medida que tende a aprofundar a perda
do poder aquisitivo de amplas parcelas da população trabalhadora. Além disso,
prevê que os mínimos constitucionais destinados à saúde e à educação passem a
ser corrigidos apenas pela inflação, eliminando o crescimento real
anteriormente atrelado ao PIB.
Ainda
assim, a cobertura da mídia corporativa, liderada pela Globo e seguida pelos
demais grupos midiáticos de mesma inclinação, insiste em colocar no mesmo
patamar projetos políticos, biografias e legados absolutamente distintos, como
se fosse possível comparar um líder reconhecido internacionalmente por sua
capacidade de governar e promover inclusão social com um político de trajetória
medíocre, baixa produção legislativa e histórico cercado de suspeitas. A
distância entre as estaturas políticas, institucionais e históricas entre Lula
e Flávio é simplesmente abissal.
Todavia,
constata-se que propostas econômicas de caráter neoliberal costumam receber
tratamento benevolente da grande mídia, mesmo quando implicam redução de
direitos sociais, congelamento de investimentos públicos e arrocho sobre
trabalhadores e aposentados. Medidas de austeridade apresentadas como a velha
cantilena da “responsabilidade fiscal” pela direita e extrema direita por
agradar a Faria Lima, são estimuladas repetitivamente, enquanto políticas de
distribuição de renda e fortalecimento do Estado social são tratadas como
ameaça econômica.
Nesse
panorama, esse padrão revela problemas estruturais graves. A concentração dos
meios de comunicação nas mãos de poucos grupos econômicos cria um ambiente em
que interesses empresariais acabam influenciando diretamente a construção das
narrativas públicas. A chamada mídia hereditária ou corporativa frequentemente
atua em sintonia com setores financeiros que defendem privatizações, redução do
papel do Estado e flexibilização de direitos trabalhistas e previdenciários
como previsto nos planos de governo dos candidatos presidenciáveis do centrão e
da extrema direita. Os exemplos históricos dessa postura são contundentes.
Durante décadas, setores da grande mídia apoiaram agendas econômicas que
ampliaram desigualdades sociais, defenderam privatizações controversas e
legitimaram políticas de austeridade que atingiram principalmente os mais
pobres.
Torna-se
necessário reiterar a sistemática deturpação dos fatos, a exemplo do recente
powerpoint da Globo News sobre as falsas imputações de relações suspeitas do
banqueiro Daniel Vorcaro com o governo Lula, o presidente do Bacen, Gabriel
Galípolo e o Partido dos Trabalhadores, omitindo os personagens do Centrão e da
extrema direita comprovadamente envolvidos no escândalo financeiro, além do
presidente do Bacen à época da aprovação de funcionamento do Banco Master,
Roberto Campos Neto, atualmente executivo no Nubank em que o Grupo Globo tem
participação acionária. Outro agravante é o uso recorrente de fontes
controversas e politicamente comprometidas sem o devido rigor crítico que
também fragilizam a veracidade dos fatos noticiados. Isso levanta questionamentos
legítimos sobre os critérios editoriais adotados por veículos que se apresentam
como defensores da imparcialidade jornalística.
Cumpre
assinalar que em muitos momentos, vozes dissonantes da grande mídia foram
sistematicamente marginalizadas, caricaturadas ou desacreditadas, enquanto
comentaristas alinhados aos interesses do mercado financeiro passaram a ocupar
posição dominante no debate público. Políticos que ousaram confrontar esse
poder midiático hereditário frequentemente sofreram campanhas de desgaste e
ataques permanentes à sua imagem pública. Um dos exemplos mais expressivos foi
o de Leonel Brizola, líder histórico do trabalhismo brasileiro, reconhecido não
apenas por sua firmeza política, mas também por seu extraordinário legado na
educação pública.
Sua
trajetória foi marcada pela defesa da soberania nacional, da democracia e da
inclusão social. Brizola tornou-se um dos mais ferrenhos críticos do poder
exercido pelo Grupo Globo sobre a política e a opinião pública brasileira. Após
denunciar a manipulação da cobertura eleitoral no episódio da Proconsult, em
1982, e enfrentar reiterados ataques da emissora, eternizou uma frase que
sintetizava sua desconfiança em relação ao alinhamento político da empresa: Se
a Globo é a favor, eu sou contra; se é contra eu sou a favor. Sua crítica não
era dirigida apenas a uma linha editorial específica, mas ao risco de uma
concessionária pública de comunicação ultrapassar os limites do jornalismo para
atuar como agente político e formador de consensos em favor de determinados
interesses econômicos e ideológicos.
Cabe
destacar que, se a prioridade atribuída por Brizola à educação pública
integral, à inclusão social e à formação crítica da população tivesse sido
mantida ao longo do tempo, possivelmente teria contribuído para a formação de
gerações do Rio de Janeiro mais politicamente conscientes e menos suscetíveis à
manipulação midiática, ao clientelismo eleitoral e a discursos simplistas
baseados no medo e na desinformação. Seu projeto educacional ia além do ensino
formal, buscava formar cidadãos com senso crítico, dignidade social e
capacidade de participação ativa na vida democrática.
Em vez
do cenário de degradação institucional, violência estrutural e sucessivos
escândalos de corrupção que marcaram a política fluminense nas últimas décadas,
o estado poderia ter consolidado uma cultura política baseada em escolhas mais
conscientes de seus dirigentes e de seus parlamentares por parte de uma
população educada e socialmente amparada. O contraste torna-se ainda mais
graves quando se observa que diversos governadores do Rio de Janeiro acabaram
presos, afastados ou envolvidos em graves denúncias de corrupção, evidenciando
o fracasso de modelos políticos que privilegiaram interesses privados, alianças
espúrias e projetos de poder em detrimento do investimento abrangente em
educação, cidadania e desenvolvimento humano.
Diante
desse cenário, torna-se inevitável questionar se parte da mídia corporativa
brasileira tem cumprido efetivamente o papel previsto no artigo 221 da
Constituição Federal de 1988, que estabelece princípios para os serviços de
radiodifusão, entre eles a promoção de finalidades educativas, culturais e
informativas. Quando a informação é constantemente filtrada por interesses
políticos e econômicos, a democracia enfraquece e a sociedade perde sua
capacidade de discernimento crítico.
A
democracia depende de uma imprensa livre, mas também responsável, plural e
comprometida com a verdade dos fatos. Quando grandes conglomerados midiáticos
utilizam seu poder para selecionar narrativas, manipular percepções e favorecer
determinados projetos políticos e econômicos, deixam de cumprir apenas um papel
informativo e passam a atuar como agentes de influência sobre o destino do
país.
O
problema não está na crítica ao governo ou na divergência ideológica, ambas são
legítimas e necessárias, mas na seletividade sistemática, na omissão de
contextos importantes e na construção de discursos que favorecem interesses
específicos em detrimento do debate público honesto.
Por
essas razões, torna-se fundamental que a população desenvolva consciência
crítica diante da informação consumida diariamente. Nenhuma democracia saudável
pode sobreviver quando a verdade é substituída por enquadramentos manipulativos
e interesses econômicos travestidos de neutralidade jornalística. O cidadão
precisa aprender a questionar, comparar fontes, identificar omissões e
compreender quem se beneficia de determinadas narrativas.
Mais do
que nunca, o Brasil necessita de pluralidade informativa, democratização da
comunicação e fortalecimento do pensamento crítico. Sem isso, a mídia
corporativa continuará exercendo um poder desproporcional sobre a percepção da
realidade nacional, influenciando eleições, formando consensos artificiais e
ajudando a preservar estruturas históricas de desigualdade e privilégio.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário