segunda-feira, 27 de abril de 2026

Chernobyl: a história das milhares de crianças atingidas pela catástrofe que foram tratadas em Cuba

"Não era como estar em um hospital. Até as crianças mais doentes se divertiam."

O ucraniano Roman Gerus guarda lembranças muito carinhosas de uma experiência que surgiu de uma catástrofe. Estamos falando da explosão de um dos reatores da usina nuclear de Chernobyl em 26 de abril de 1986, uma tragédia cujo 40º aniversário está sendo comemorado esta semana.

Gerus foi uma das mais de 23.000 crianças afetadas pelo acidente que receberam tratamento médico em Cuba. O programa, patrocinado pelo Ministério da Saúde cubano, funcionou de 1990 a 2011.

Como foi essa experiência pioneira?

<><> À beira-mar

"Eu estive em Cuba três vezes", conta Roman Gerus à BBC News Mundo. "Na primeira, eu tinha 12 anos, fiquei seis meses; na segunda, tinha 14 anos e fiquei três meses; na última, tinha 15 e fiquei apenas 45 dias. Cada vez foi diferente, mas eu gostei de todas elas. É algo que me lembro com amor - quero voltar a Cuba com minha família para apresentar a ilha", diz. Ele enfatiza a beleza do cenário no qual ele aterrissou para tratar a doença de pele que se desenvolveu muitos anos após o acidente de Chernobyl.

Este jovem, hoje com 27 anos, nem tinha nascido quando o desastre ocorreu, mas sua família morava relativamente perto da antiga usina nuclear. "Quando eu tinha 10 ou 11 anos, os médicos detectaram manchas brancas na minha pele. Era vitiligo. Tentamos tratar na Ucrânia, mas os médicos disseram que não era tão fácil, que eu precisava de remédios caros e eles não garantiam a ajuda", lembra. "Alguém disse à minha mãe que havia um programa para ir a Cuba. Ela não acreditou no começo porque disseram que era de graça, mas ela descobriu os detalhes e preencheu os documentos. Esperamos pelo menos um semestre, e de repente ligaram para dizer que eu iria viajar em duas semanas. Eu não podia acreditar. Meus pais ficaram preocupados porque Cuba é muito longe da Ucrânia e eu era pequeno, mas decidimos ir em frente".

<><> Mais de 26 mil pacientes

O local onde Gerus desembarcou era um balneário localizado na praia de Tarará, cerca de 30 km a leste de Havana. Fundada nos anos 1950 como uma cidade de classe média alta, tornou-se após a Revolução Cubana a sede de acampamentos infantis da organização José Martí Pioneros. O governo cubano reabilitou a área para acomodar os milhares de pacientes do programa "Crianças de Chernobyl" por mais de 21 anos: de 29 de março de 1990 a 24 de novembro de 2011.

Segundo dados do Ministério da Saúde de Cuba, um total de 26.114 pacientes (84% crianças) vieram principalmente da Ucrânia, Rússia e Belarus. As graves dificuldades que Cuba enfrentou após a dissolução da União Soviética não interromperam o programa.

<><> Doenças diferentes

O complexo de Tarará possuía residências para crianças e seus acompanhantes, dois hospitais, uma clínica, um estacionamento para ambulâncias, cozinha, teatro, escolas, parques e áreas de lazer. A 15 minutos de distância, havia também uma praia com 2 km de extensão. Chegaram ali pacientes com uma variedade de doenças, desde câncer, paralisia cerebral e problemas dermatológicos até malformações, doenças digestivas e distúrbios psicológicos.

O programa estava sob a direção dos médicos cubanos Julio Medina e Omar García, que classificaram os pacientes em quatro grupos, dependendo de sua situação:

  • Crianças com condições oncohematológicas e doenças sérias que precisavam de hospitalização e ficavam na ilha por vários meses;
  • Crianças com patologias que necessitavam de hospitalização, mas não eram consideradas sérias. A permanência era de cerca de 60 dias;
  • Crianças com patologias tratáveis em ambulatório. A permanência era de 45 a 60 dias;
  • Crianças relativamente saudáveis ​​cuja permanência era de 45 e 60 dias.

<><> Duas zonas

O caso da ucraniana Khrystyna Kostenetska, que participou do programa dos 12 aos 13 anos, correspondia ao quarto grupo. "Fui a Cuba entre 1991 e 1992", disse à BBC News. "Ambas as vezes eu estive lá por 40 dias - o período em que o corpo humano teria a capacidade de se recuperar de uma dose baixa de radiação".

Kostenetska explica que havia duas áreas diferentes em Tarará: o campo baixo, onde as crianças com problemas de saúde mais sérios ficavam; e o alto, destinado a crianças sem problemas de saúde aparentes, mas que viveram nas proximidades de Chernobyl. "Morávamos em pequenas casas independentes, com cerca de 15 crianças em cada. As crianças do acampamento alto não tinham tratamento médico específico, mas checavam nossa visão e nos levavam ao dentista", explica.

Ela tem lembranças conflitantes dos tempos que passou em Tarará. "Eu me lembro de um mar incrível, ondas, sol, natureza e sorvete, mas também me lembro de crianças com sérios problemas de saúde", explica. "Eram crianças com vitiligo que tinham que usar mangas compridas e se cobrir do sol. Mas apesar disso, o clima de Cuba curou algumas delas e acelerou a recuperação de muitas outras."

<><> Sol curandeiro

Gerus foi uma das crianças que se recuperaram completamente. "Depois da segunda vez que fui, todos os pontos ficaram cinzentos e desapareceram. Tomei alguns medicamentos, mas o principal remédio era o Sol", diz ele. "Costumávamos nadar muito, o mar era lindo. Íamos com os professores até a praia, fazia parte do tratamento. Sempre que quiséssemos, podíamos ir", recorda Gerus, que lembra também de noites com atividades recreativas como idas ao cinema ou à boate.

<><> Elementos mal explicados

Além das boas lembranças de Gerus e Kostenetska e da visão positiva que geralmente se faz do trabalho do governo cubano, obviamente em Tarará houve também situações dramáticas. Especialmente levando-se em conta aqueles que chegaram com doenças mais sérias ou que ficaram de fora do programa. A correspondente do serviço ucraniano da BBC em Kiev, Diana Kuryshko, ressalta que o processo de seleção dos participantes não foi totalmente transparente. "Cresci em um lugar menos poluído, mas lembro-me vivamente das consequências do acidente de Chernobyl", explica Kuryshko.

A jornalista recorda que esse foi um período de profunda crise na Ucrânia, no qual as famílias não podiam pagar passagens de avião para que crianças tratassem os efeitos da radioatividade. "Quando o programa do governo cubano foi anunciado, as pessoas se animaram pensando que poderiam mandar seus filhos para lá", lembra. "Você tinha muita sorte se seu filho ou filha pudessem ir para Cuba. Não ficou muito claro como os participantes eram escolhidos. A realidade é que muitos deles não eram de famílias necessariamente humildes".

Apesar das dúvidas, a percepção da colaboração cubana na Ucrânia e em outras ex-repúblicas soviéticas é positiva. "Embora eu fosse pequeno, era capaz de entender que a situação dos cubanos era difícil, havia muita pobreza. Mas eles sempre foram muito legais, desde os trabalhadores da cozinha até os professores, os gerentes de segurança, os médicos... ", lembra Gerus. "Eram pessoas de bom coração e isso era o mais importante".

¨      Os trágicos números de Chernobyl acobertados pelos soviéticos

A primavera era sempre a época mais movimentada do ano para as mulheres que trabalhavam na fábrica de processamento de lã de ovelhas em Chernihiv, no norte da Ucrânia. E os meses de abril e maio de 1986 não foram exceção, com turnos de 12 horas para separar as pilhas à mão antes de serem lavadas e enfardadas. Só que as mulheres começaram a ficar doentes. Algumas sofreram hemorragias nasais, outras reclamaram de tontura e náusea. Quando as autoridades foram chamadas para investigar, descobriram níveis de radiação na fábrica de até 180 mSv/hr. Hoje, em menos de um minuto qualquer pessoa exposta a esses níveis excederia a dose anual considerada segura em muitas partes do mundo. A 80 km da fábrica ficava a usina nuclear de Chernobyl. Em 26 de abril de 1986, um reator da instalação sofreu uma explosão catastrófica que expôs o núcleo e jogou nuvens de material radioativo sobre seu entorno, como um incêndio incontrolável. Mas, na época, consideraram que Chernihiv estava bem fora da zona de exclusão lançada às pressas ao redor da usina atingida, e leituras em outros lugares da cidade mostraram que ela tinha níveis comparativamente baixos de radiação. "A área tinha a legenda amarela nos mapas de radiação, o que significa que a cidade não havia sido atingida com muita força", diz Kate Brown, historiadora da ciência do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. "Mas havia 298 mulheres nesta fábrica que receberam status de 'liquidante', termo normalmente reservado àqueles que documentaram exposições durante os primeiros dias da limpeza após o acidente."

Brown descobriu a história dos trabalhadores de lã de Chernihiv como parte de sua pesquisa sobre o impacto do desastre de Chernobyl. Sua determinação em desvendar o verdadeiro impacto do desastre fez com que ela viajasse para muitas partes da Ucrânia, Bielorússia e Rússia, entrevistasse sobreviventes, vasculhasse arquivos oficiais e revisasse relatórios antigos de hospitais. De acordo com os dados oficiais, o número de mortos reconhecido internacionalmente aponta que apenas 31 pessoas morreram como resultado imediato de Chernobyl, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 50 mortes podem ser diretamente atribuídas ao desastre. Em 2005, previa que mais 4 mil poderiam eventualmente ter morrido como resultado da exposição à radiação. A pesquisa de Brown, no entanto, sugere que Chernobyl lançou uma sombra muito maior.

<><> É como abraçar máquina de raio-x

"Quando visitei a fábrica de lã em Chernihiv, conheci algumas das mulheres que estavam trabalhando na época", diz ela. "Havia apenas 10 dessas mulheres ainda presentes. Eles me disseram que estavam pegando fardos de lã e os classificando-os nas mesas. Em maio de 1986, a fábrica estava adquirindo lã que tinha radiação de até 30Sv/hr. Os fardos de lã que as mulheres carregavam eram como abraçar uma máquina de raios X ligada." Milhares de animais foram abatidos na área ao redor de Chernobyl ao longo da evacuação. Para Brown, as lãs de alguns desses animais parecem ter chegado à fábrica em Chernihiv, juntamente com outras lãs contaminadas de fazendas sob nuvens de material radioativo que se espalharam pelo norte da Ucrânia.

Quando Brown encontrou dez das pessoas que trabalharam na fábrica de lã, suas histórias trouxeram à tona uma imagem sombria do que parece ter acontecido em toda a região, já que pessoas comuns que não tinham nada a ver com a limpeza do desastre acabaram expostas ao material radioativo. "Eles apontaram para diferentes partes de seus corpos que tinham envelhecido mais do que o resto e onde tinham problemas de saúde", diz Brown. "Eles sabiam tudo sobre quais isótopos radioativos haviam se alojado em seus órgãos." As outras 288 mulheres, dizem os sobreviventes, morreram ou passaram a receber pensões por problemas de saúde. Nas semanas e meses que se seguiram ao desastre de Chernobyl, centenas de milhares de bombeiros, engenheiros, tropas militares, policiais, mineiros, faxineiros e integrantes da equipe médica foram enviados para a área imediatamente ao redor da usina destruída em um esforço para controlar o fogo e o núcleo colapsado, e evitar que o material radioativo se espalhe ainda mais pelo ambiente.

Essas pessoas - que ficaram conhecidas como "liquidantes" devido à definição oficial soviética de "participante na liquidação das consequências do acidente da usina nuclear de Chernobyl" - receberam um status especial que, na prática, significava receber benefícios como cuidados médicos extras e indenizações. Registros oficiais indicam que 600 mil pessoas receberam o status de liquidante. Mas um relatório publicado por membros da Academia Russa de Ciências, que foi alvo de controvérsia, indica que poderia haver até 830 mil pessoas nas equipes de limpeza de Chernobyl. Eles estimaram que entre 112.000 e 125.000 destes - cerca de 15% - haviam morrido até 2005. Muitos dos números presentes desse estudo, no entanto, foram contestados por cientistas do Ocidente, que questionaram sua validade científica.

As autoridades ucranianas, no entanto, fizeram um registro de seus próprios cidadãos afetados pelo acidente de Chernobyl. Em 2015, havia 318.988 trabalhadores de limpeza ucranianos no banco de dados, embora, de acordo com um relatório recente do Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação na Ucrânia (NRCRM), 651.453 trabalhadores de limpeza foram examinados em razão da exposição à radiação entre 2003 e 2007. Um registro semelhante em A Bielorrússia registrou 99.693 trabalhadores de limpeza, enquanto outro registro incluiu 157.086 liquidantes russos.

Na Ucrânia, as taxas de mortalidade entre esses indivíduos aumentaram entre 1988 e 2012, passando de 3,5 para 17,5 mortes por mil pessoas. A incapacidade entre os liquidantes também disparou. Em 1988, 68% deles eram considerados saudáveis, enquanto 26 anos depois apenas 5,5% ainda eram saudáveis. A maioria - 63% - sofria de doenças cardiovasculares e circulatórias, enquanto 13% tinham problemas com o sistema nervoso. Na Bielorrússia, 40.049 liquidantes foram diagnosticados com câncer até 2008, além de outros 2.833 da Rússia.

<><> 40 mil hospitalizados

Outro grupo que suportou o peso das exposições à radiação foram aqueles que moravam na cidade vizinha de Pripyat e arredores. Demorou um dia e meio até que a evacuação de 49.614 pessoas tivesse início. Mais tarde, outras 41.986 pessoas foram evacuadas de um perímetro de 30 km ao redor da usina. Por fim, cerca de 200.000 pessoas foram deslocadas em razão do acidente. Algumas das pessoas que viviam mais perto da usina receberam doses de radiação em suas glândulas tireoides de até 3.9Gy - cerca de 37 mil vezes a dose de um raio-x de tórax - depois de respirar material radioativo e comer alimentos contaminados. Médicos que pesquisaram as pessoas deslocadas de suas casas relatam que a mortalidade entre os evacuados tem aumentado gradualmente, atingindo um pico entre 2008 e 2012, com 18 mortes por 1.000 pessoas. Mas isso ainda representa uma pequena proporção das pessoas afetadas por Chernobyl.

A Agência Internacional de Energia Atômica (um braço da ONU), no entanto, diz que os estudos de saúde sobre os liquidantes "falharam em mostrar qualquer correlação direta entre a exposição à radiação" e câncer ou outras doenças. Brown, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, encontrou evidências escondidas nos registros hospitalares, feito por volta da época do acidente, que mostram problemas generalizados. "Em hospitais daquela região, e mesmo nos distantes como o de Moscou, as pessoas estavam repletas de sintomas agudos", diz ela. "Os registros indicam que pelo menos 40 mil pessoas foram hospitalizadas no verão após o acidente, muitas delas mulheres e crianças." Acredita-se que a pressão política de autoridades soviéticas tenha levado à supressão de um retrato fidedigno do problema, já que não queriam arranhar a imagem do país no âmbito internacional. Com o colapso da União Soviética e como as pessoas que viviam em áreas expostas à radiação começam a se apresentar com uma série de problemas de saúde, está vindo à tona uma imagem muito mais clara do número de mortos pelo desastre.

<><> Aumento da taxa de mortalidade

Viktor Sushko, vice-diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação, descreve o desastre de Chernobyl como o "maior desastre antropogênico da história da humanidade". O órgão estima que cerca de 5 milhões de cidadãos da antiga União Soviética, incluindo 3 milhões na Ucrânia, tenham sido afetados pelo desastre de Chernobyl. Na Bielorrússia, outras 800 mil pessoas também foram atingidas pela radiação. Atualmente, o governo ucraniano paga pensões a 36.525 viúvas de homens que são considerados vítimas do acidente de Chernobyl.

Em janeiro de 2018, 1,8 milhão de pessoas na Ucrânia, incluindo 377.589 crianças, tinham o status de vítimas do desastre, segundo Sushko. Houve um rápido aumento no número de pessoas com deficiência entre esta população, passando de 40.106 em 1995 para 107.115 em 2018. Curiosamente, Sushko e sua equipe também relatam que o número de vítimas de Chernobyl na Ucrânia diminuiu em 657.988 desde 2007 - uma queda de 26%. Embora não expliquem os motivos, as hipóteses prováveis são a migração, à medida que as vítimas deixaram o país, a reclassificação do estatuto de vítima e, inevitavelmente, algumas mortes.

As taxas de mortalidade em áreas contaminadas por radiação têm crescido progressivamente mais na região do que o resto da Ucrânia. O pico foi em 2007, quando morreram mais de 26 pessoas em cada 1.000 - a média nacional é de 16 para cada 1.000. No total, cerca de 150.000 km² da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia são considerados contaminados e a zona de exclusão de 4.000 km² - uma área com mais que o dobro do tamanho de Londres - permanece praticamente desabitada. Mas a precipitação radioativa, carregada pelos ventos, espalhou-se por grande parte do hemisfério Norte. Dois dias depois da explosão, altos níveis de radiação foram detectados na Suécia, enquanto a contaminação de plantas e campos na Grã-Bretanha levou a restrições rigorosas à venda de cordeiros e de outros produtos ovinos durante anos. Em áreas da Europa Ocidental também afetadas, houve indícios de que as taxas de neoplasmas - crescimentos anormais de tecido que incluem câncer - foram maiores do que em áreas que escaparam à contaminação.

<><> Café da manhã radioativo

Em um arquivo em Moscou, Brown, do MIT, encontrou registros que indicavam que carne, leite e outros produtos de plantas e animais contaminados foram enviados para todo o país. "Eles criaram manuais para as indústrias de carne, lã e leite para classificar os produtos como alta, média e baixa em termos de radiação", diz ela. "Carne com nível alto, por exemplo, foi colocada em um freezer para que eles pudessem esperar até que a taxa caísse. Carne de nível médio e baixo deveria ser misturada com carne limpa e transformada em salsicha. Foi rotulada como normal e enviada para todo o país, embora tenha havido instruções para não enviá-la para Moscou."

Brown, que escreveu um livro sobre suas descobertas chamado Manual de Sobrevivência: Um Guia de Chernobyl para o Futuro, também descobriu histórias semelhantes de mirtilos que estavam acima do limite de radiação aceitável misturado com bagas mais limpas para que todo o lote fosse aprovado no limite regulamentar. Isso significa que as pessoas de fora da Ucrânia "tomariam um café da manhã com mirtilos de Chernobyl", mesmo sem saber, Brown diz. Estabelecer elos entre a exposição à radiação e os efeitos na saúde a longo prazo, no entanto, é uma tarefa difícil. Pode levar anos, até mesmo décadas antes que o câncer apareça, e atribuí-lo a uma causa específica pode bastante complexo.

Um estudo recente, no entanto, identificou problemas nos genomas de crianças que foram expostas durante o desastre ou que nasceram de pais que foram expostos. Foram achados níveis elevados de dano e instabilidade em seus genomas. "A instabilidade do genoma representa um risco significativo de câncer", diz Aleksandra Fučić, do Instituto de Pesquisa Médica e Saúde Ocupacional, na Croácia. Filha de uma mulher ucraniana, ela tem atuado com cientistas russos para estudar os efeitos da radiação de Chernobyl sobre crianças da região. "Nos casos de Chernobyl, o tempo não está curando, mas um período de latência para o desenvolvimento do câncer."

As taxas de suicídio entre as pessoas envolvidas na limpeza em Chernobyl são maiores do que na população geral, segundo estudos, que também descobriram que as pessoas que relataram viver nas zonas afetadas pelo desastre na Ucrânia tinham taxas mais altas de problemas com álcool e níveis mais baixos de saúde mental. Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível. Mas, apesar do quadro sombrio da maioria das pinturas de pesquisa, há algumas histórias de esperança também. Três engenheiros que se voluntariaram para drenar milhões de galões de água de tanques sob o reator em chamas nos dias logo depois da explosão passaram por águas altamente radioativas e detritos para alcançar válvulas. Seu heroísmo é um dos momentos mais dramáticos da recente série da HBO sobre o desastre, Chernobyl.

Surpreendentemente, dois dos três ainda estão vivos, apesar da proteção mínima contra a radiação durante a missão. O terceiro deles, Borys Baranov, viveu até 2005.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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