Pão
engorda, mas não pelo motivo que você imagina; entenda
Até o
final dos anos 1990, pão e massa eram considerados alimentos saudáveis e
nutritivos. Mas, desde que a clássica dieta low-carb do Dr. Robert Atkins
explodiu, os carboidratos passaram a ocupar o banco dos réus. O resultado de
sua eliminação — perda de peso rápida e notável — os tornou culpados pela
obesidade.
Feito
de farinha refinada, o pão branco se transformou em principal vilão. E com
razão: tem índice glicêmico alto, é pobre em fibras e proteínas, e é consumido
em grandes quantidades no cotidiano. O pão integral ficou numa zona cinzenta —
às vezes condenado junto, às vezes defendido.
Mas uma
coisa é associar carboidratos refinados à obesidade, e outra é provar uma causa
direta. Afinal, comedores de pão branco também costumam ter padrões alimentares
mais amplos que favorecem o ganho de peso. Por isso é muito complicado saber se
o pão em si é o responsável pelo ganho de peso — ou se o problema está no
conjunto do que a pessoa come.
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Em um
estudo recente, publicado na revista Molecular Nutrition & Food Research,
cientistas da Universidade Metropolitana de Osaka, no Japão, se propuseram a
separar o impacto específico do pão do contexto geral da dieta. Para isso,
ofereceram a camundongos acesso livre tanto à ração padrão quanto a alimentos à
base de trigo — aí incluídos pão e uma massa assada sem fermento.
Não é
preciso nem dizer que os camundongos praticamente abandonaram a ração e
escolheram se fartar dos produtos à base de trigo. Outra conclusão também
lógica foi que eles ganharam muito peso corporal. No entanto, uma descoberta
intrigante foi: a ingestão calórica total dos grupos não havia mudado. Ou seja,
mesmo sem comer mais, os roedores que comeram trigo ganharam mais peso.
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A culpa não foi só do pão
Essa
constatação jogou por terra a hipótese de que o pão engorda porque você come
calorias demais. Mas, se os camundongos não comeram mais calorias que aqueles
no grupo de controle, o que causou essa obesidade? Para o líder da pesquisa,
professor Shigenobu Matsumura, a culpa não foi do trigo, “mas sim da forte
preferência por carboidratos e das mudanças metabólicas associadas".
Em
outras palavras: fissurados por carboidrato e carentes de proteína, os animais
tiveram seu metabolismo desequilibrado. O trigo reduziu o gasto energético
deles: mesmo com o nível de atividade física inalterado, o organismo passou a
usar carboidratos como combustível preferencial, acumulando gordura em vez de
queimá-la.
Isso
não se deu por uma decisão do organismo, mas como uma consequência química: o
metabolismo usa preferencialmente como combustível aquilo que está mais
disponível na corrente sanguínea. Com o consumo de grandes quantidades de
carboidratos, os níveis de glicose disparavam no sangue, e a resposta do
pâncreas foi liberar insulina.
Como
aprendemos no ensino médio, a insulina é o hormônio que "abre as
portas" das células para a glicose entrar. Mas também bloqueia a queima de
gordura. Com muita insulina circulando, o organismo praticamente não consegue
usar gordura como combustível — ela fica "trancada" no tecido
adiposo.
E o
mais grave é que, além da gordura que vem da própria dieta — lipídios
absorvidos no intestino que chegam ao tecido adiposo pela corrente sanguínea —,
há também a lipogênese, processo pelo qual o fígado fabrica gordura a partir do
excesso de carboidratos e a empacota para distribuição pelo organismo.
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O que acontece quando você para de comer pão?
Para
provar que o trigo não engorda porque você come mais calorias, mas porque seu
metabolismo passa a gastar menos energia e armazenar mais gordura, a equipe
usou calorimetria indireta, uma técnica que mede o gasto energético pelo
oxigênio consumido: quanto menos oxigênio, menos energia queimada.
As
medições mostraram que os animais que comiam trigo gastavam menos energia no
geral e que o pouco combustível que queimavam vinha predominantemente dos
carboidratos, não da gordura. Esta estava sendo fabricada de forma acelerada no
fígado e acumulada no tecido adiposo.
Um dos
testes mais reveladores ocorreu quando o trigo foi retirado da dieta, após
cinco semanas de consumo da farinha de trigo. Quando metade dos camundongos
voltou a receber só a ração padrão, eles relutaram em comê-la, o que reduziu
temporariamente a ingestão calórica — e interrompeu o ganho de peso em menos de
uma semana.
Outra
importante descoberta foi que os níveis de leptina — hormônio produzido pelo
tecido adiposo para sinalizar ao cérebro que o organismo tem gordura suficiente
armazenada — também caíram após a interrupção do consumo. Isso sugere que os
animais possam ter desenvolvido resistência à leptina — um dos principais
mecanismos biológicos que impulsionam a obesidade.
Ressaltando
que os resultados foram obtidos em modelo animal, Matsumura afirma que
pretende, no futuro, direcionar a pesquisa para humanos, a fim de verificar em
que medida as alterações metabólicas identificadas se aplicam aos hábitos
alimentares reais.
Fonte:
CNN Brasil

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