Gustavo
Tapioca: O impasse das elites na eleição decisiva de 2026
O
problema das elites brasileiras já não é apenas escolher um candidato. É evitar
perder o controle num cenário em que o bolsonarismo colapsa, Flávio Bolsonaro
não se firma como herdeiro político e Lula permanece como o único polo real de
poder.Na política, os movimentos decisivos raramente são anunciados. Eles se
acumulam, se insinuam e, quando aparecem, já estão consumados.É o que ocorre
agora com Flávio Bolsonaro.O herdeiro político de Jair Bolsonaro tentou ocupar
o vazio deixado pelo pai. Fracassou. Faltou densidade, faltou liderança, faltou
projeto. Sobrou rejeição.O problema não é apenas eleitoral. É estrutural.Flávio
não organiza maioria. Não estabiliza nem oferece previsibilidade. Para o
establishment, isso basta.O que se vê, hoje, é um afastamento progressivo,
ainda cuidadoso, mas cada vez mais nítido, de setores empresariais,
financeiros, midiáticos e políticos que já compreenderam o óbvio: o
bolsonarismo com ou sem Jair Bolsonaro perdeu sua principal função
histórica.Deixou de ser instrumento de poder. Passou a ser fator de risco.
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O bolsonarismo sem Jair não se sustenta
O
diagnóstico já está feito, ainda que nem sempre seja dito de forma direta.Sem
Jair Bolsonaro no centro do tabuleiro, o bolsonarismo perde força
gravitacional. A extrema direita brasileira foi construída em torno de um
líder, de sua linguagem, de sua agressividade, de sua capacidade de mobilizar
ressentimentos e produzir crise como método.Flávio não herdou esse capital
político. Apenas carrega o sobrenome.E sobrenome, sozinho, não vence eleição
presidencial.Editorial do Estadão, leituras da Folha, análises de Miriam
Leitão, no Globo, e movimentos de bastidor no mundo empresarial convergem no
essencial: há fadiga com o extremismo, cansaço com o ruído e demanda por
previsibilidade.Mas há um problema maior.Nada disso produziu uma alternativa.
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Não existe “terceira via” — existe um vazio
Este é
o ponto que reorganiza toda a eleição de 2026.As elites não querem Flávio. Mas
também não têm quem colocar no lugar.Durante meses, parte do mercado, da mídia
tradicional e do centro político alimentou a expectativa de que surgiria uma
candidatura conservadora capaz de reunir direita, centro e setores antipetistas
sob uma aparência de moderação institucional.Mas essa candidatura não
apareceu.Nomes circulam. Ensaios acontecem. Testes são feitos. Nenhum se
sustenta. Nenhum unifica a direita, nenhum organiza o centro, nenhum se impõe
nacionalmente como alternativa real a Lula.Tarcísio de Freitas, antes tratado
como hipótese preferencial por parte do establishment, saiu da equação
presidencial ao não se desincompatibilizar no prazo exigido pela legislação
eleitoral. Resta-lhe a disputa pelo governo de São Paulo. Não o Planalto.O
resultado é raro — e perigoso: um campo político inteiro sem liderança
funcional.
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O impasse: rejeitar não é governar
Diante
disso, o comportamento das elites muda de natureza. Deixa de ser ofensivo e
passa a ser defensivo.O objetivo já não é impor um projeto claro, muito menos
apresentar ao país uma alternativa de poder. O objetivo, agora, é evitar o
pior.E o pior, para as elites brasileiras, tem três faces: o bolsonarismo
tosco, a fragilidade do bolsonarismo “moderado” e a força política de Lula.Elas
rejeitam o bolsonarismo tosco porque ele desorganiza demais. Rejeitam o
bolsonarismo “moderado” de Flávio porque ele não organiza nada. E rejeitam Lula
porque ele representa, mesmo dentro dos limites da conciliação brasileira, um
projeto de fortalecimento do Estado, redistribuição de renda e disputa com o
poder absoluto do capital financeiro.As elites rejeitam os três por razões
distintas.Mas só um deles tem viabilidade real.
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Lula é o único polo que organiza poder
Lula
não é apenas candidato. É estrutura.É o único líder capaz de mobilizar base
social, organizar maioria política, falar com os pobres, negociar com o
Congresso, dialogar com empresários, enfrentar o sistema financeiro e ainda
conservar densidade eleitoral nacional.Esse é o dado que incomoda seus
adversários.Lula é, antes de tudo, um negociador de altíssimo nível. Talvez o
mais habilidoso da história política brasileira recente. Sabe ceder sem
desaparecer, compor sem se anular, recuar sem entregar o centro do projeto.É
exatamente por isso que o establishment o teme — e, ao mesmo tempo, pode ser
levado a negociar com ele.Não por confiança.Por falta de alternativa.
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A eleição de 2026 como ponto final de uma trajetória
Tudo
indica que esta será a última disputa presidencial de Lula.Não é apenas mais
uma eleição. É um encerramento histórico. Um acerto de contas com a própria
biografia. Um ajuste final entre projeto político, legado pessoal e destino
nacional.Lula não disputa apenas poder. Disputa memória. Disputa lugar na
história.E não pode — nem vai — encerrar sua trajetória sendo derrotado por
Flávio Bolsonaro. Um político sem densidade nacional, marcado por escândalos,
associado ao submundo das rachadinhas, às sombras das milícias e a práticas que
corroem a própria ideia de República.Esse desfecho não é uma hipótese política
aceitável para Lula.É um limite histórico.Depois de ter derrotado a fome,
enfrentado a prisão, sobrevivido à destruição judicial de sua biografia e
voltado ao poder pelo voto popular, Lula não aceitará concluir sua vida pública
derrotado por um herdeiro menor do bolsonarismo.Não por orgulho pessoal.Por
sentido histórico.
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O movimento mais sutil: o recado das elites
Sem
candidato competitivo, o establishment muda de estratégia.Não substitui. Tenta
influenciar.O movimento é silencioso, mas reconhecível. Primeiro abandona
Flávio. Depois constata que não tem alternativa. Por fim, passa a observar Lula
como inevitável.A partir daí, o que emerge não é apoio. É recado.Não dito. Não
formal. Mas perfeitamente legível.Estabilidade em troca de moderação. Aceitação
em troca de limites. Governabilidade em troca de concessões.É a velha linguagem
do poder brasileiro: quando não consegue derrotar o líder popular, tenta
cercá-lo; quando não consegue impedi-lo de vencer, tenta reduzir seu alcance;
quando não consegue bloquear o voto, tenta controlar o governo.Esse pode ser o
sentido mais profundo da atual movimentação das elites.Não se trata de aderir a
Lula.Trata-se de tentar condicionar o último Lula.
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Não é apoio — é contenção
Seria
ingenuidade ler esse movimento como conversão democrática do establishment.Não
é.As elites brasileiras não operam por afinidade. Operam por interesse.E o
interesse, agora, é direto: evitar ruptura, preservar influência e limitar o
alcance de um eventual novo ciclo lulista.Se não puderem derrotar Lula,
tentarão moldá-lo.Se não puderem impedir sua vitória, tentarão negociar seus
limites.Se não puderem evitar seu último mandato, tentarão transformá-lo num
governo administrado sob vigilância permanente dos mercados, da mídia e do
Congresso.É esse o verdadeiro jogo.A disputa não será apenas entre Lula e
Flávio. Talvez nem seja mais principalmente isso.A disputa será entre Lula e as
condições que tentarão impor a ele.
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Quando falta candidato, sobram condições
O
Brasil entra em 2026 com um dado novo — e decisivo.As elites perderam seu
principal instrumento político. O bolsonarismo, sem Jair, deixou de funcionar.
Flávio Bolsonaro não conseguiu substituí-lo. E nenhuma alternativa se firmou.O
resultado não é reorganização.É vazio.E, diante do vazio, o sistema recua para
seu reflexo mais antigo: não escolhe — condiciona.Lula permanece como o único
nome capaz de vencer, governar e organizar poder. Mas não chegará sozinho à
disputa final. Chegará pressionado, testado, cercado.A eleição de 2026 não será
apenas uma disputa eleitoral.Será uma definição.Não apenas de quem governa.Mas
de quem impõe os limites do governo.E, no limite, de algo ainda mais decisivo:
até onde Lula — no último movimento de sua trajetória — estará disposto a ir
para vencer, governar e sair da história sem dever nada a ninguém.
• Lula continua favorito e deve recuperar
popularidade até julho, diz Eurasia. Por Leopoldo Vieira
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo leve favorito para vencer a
eleição presidencial e deve recuperar sua popularidade até julho, mas o senador
Flávio Bolsonaro provavelmente liderará as pesquisas por dois ou três pontos
até o final de maio, na esteira da pressão inflacionária decorrente da guerra
dos Estados Unidos contra o Irã e do noticiário envolvendo escândalos de
corrupção, segundo análise do Eurasia Group (EG), em conferência com clientes
nesta semana.
“Se a
aprovação de Lula estiver na faixa dos 45% em meados de agosto, quando a
campanha eleitoral começa oficialmente, espera-se que ela suba ainda mais,
mantendo sua ligeira vantagem. No entanto, se seus índices de aprovação caírem
abaixo das expectativas do Eurasia Group, ou se não se recuperarem após a queda
prevista, as chances de vitória da oposição aumentarão” , disseram Christopher
Garman, diretor-geral para as Américas, e Leonardo Reis, analista da companhia
de risco político.
Nesse
contexto, o senador Bolsonaro ainda não é considerado favorito porque, de
acordo com dados globais de 500 eleições, incumbentes com aprovação em torno de
45% vencem em aproximadamente 75% dos casos. Os analistas ressaltam que os
números do ex-presidente Jair Bolsonaro antes da campanha, em 2022, eram
inferiores a 44%. Além disso, ele tinha 36% de aprovação e estava 20 pontos
percentuais atrás nas intenções de voto em simulações de segundo turno, mas
perdeu a disputa por apenas 1,5 ponto percentual. “A posição atual de Lula é
significativamente mais forte”, avaliam.
VARIÁVEIS
IMPORTANTES
Para
auxiliar a recuperação do presidente, é muito provável que as tarifas da Seção
301 dos EUA sobre o Brasil cheguem perto de 40%, com as mesmas exceções
previstas nas tarifas da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional
(IEEPA), que foi invalidada — aponta a EG, agora em relatório a empresários e
investidores. Aliados de Flávio sinalizaram a seus homólogos americanos que
novas tarifas poderiam impulsionar as chances de reeleição de Lula.
Em
relação ao caso do Banco Master, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal (STF), vê-se em uma “missão divina” para levar as investigações
adiante, segundo o EG, o que estaria gerando tensões com outros membros da
Corte, interessados em protegê-la de desgastes. Isso indica que a disputa pela
bandeira anticorrupção, em um cenário de reativação do sentimento antissistema,
será praticamente inevitável.
Paralelamente,
traders experientes consideram improvável que a guerra no Oriente Médio seja
retomada, favorecendo a mitigação da pressão inflacionária nos próximos meses
eleitorais brasileiros. Por ora, as chances de sucesso do presidente são de
55%, nos cálculos da consultoria internacional.
Em
tempo: a estratégia da candidatura oposicionista, de tentar passar ao
eleitorado uma imagem de moderação, aumenta o risco de banana republic
associado a um estelionato eleitoral. Com o objetivo de se afastar dos estigmas
do governo derrotado em 2022, o senador Bolsonaro tem sido aconselhado a
defender o regime democrático, o respeito ao resultado eleitoral, políticas
voltadas a grupos tradicionalmente atacados pela extrema-direita e a evitar a
divulgação de propostas econômicas impopulares, o que sugere apenas uma
operação de marketing político. Também voltaram à tona promessas de ajuste
fiscal para “uma economia de até R$ 1,1 trilhão em dez anos”, já frustradas no
governo Bolsonaro devido à erosão das condições políticas, provocada pela
chamada ala ideológica, que ainda hoje é comandada pelos próprios filhos do
ex-presidente.
• Crise no bolsonarismo e avanço de Zema
ameaçam Flávio Bolsonaro
A
fragmentação do campo bolsonarista ganhou novos contornos nos últimos dias,
evidenciando disputas internas e o fortalecimento de lideranças alternativas
dentro da direita. O rompimento público do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG)
com figuras do núcleo ideológico, como Eduardo Bolsonaro (PL), Allan dos
Santos, Kim Paim e Paulo Figueiredo, além de críticas direcionadas a Jair Renan
Bolsonaro (PL-SC), tornou visível um processo de desgaste que já vinha sendo
observado. Nesse cenário, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta manter
equilíbrio, mas enfrenta resistências dentro do próprio grupo, segundo a Folha
de São Paulo.
O
episódio mais recente é interpretado como parte de uma reconfiguração política
em curso há meses, marcada por tensões entre alas ideológicas e quadros
políticos do bolsonarismo. Desde o início de 2025, o crescimento de Nikolas
Ferreira como liderança com base própria tem gerado atritos, enquanto a atuação
de Eduardo Bolsonaro no exterior contribuiu para ampliar o distanciamento
interno. Paralelamente, disputas regionais, como a concorrência entre Carlos
Bolsonaro e Carol De Toni (PL-SC) por uma vaga no Senado em Santa Catarina, com
críticas públicas de Ana Campagnolo à família Bolsonaro, reforçam a perda de
coesão do grupo.
A
ascensão de outros nomes também contribui para o enfraquecimento da unidade
bolsonarista. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos),
passou a ser visto como possível candidato com estratégia própria, enquanto
episódios envolvendo aliados próximos à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro
indicam que parte da base já atua de forma independente do clã. Esse conjunto
de movimentos aponta que o bolsonarismo deixou de funcionar como um bloco
homogêneo.
Dados
de monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp, conduzido pela
Palver, mostram que essa divisão já repercute intensamente entre apoiadores.
Flávio Bolsonaro aparece com avaliação dividida, registrando 50% de aprovação e
50% de rejeição nas mensagens analisadas. O equilíbrio sugere um limite
implícito: ataques diretos ao senador são vistos como quebra de lealdade dentro
do campo conservador, o que ajuda a explicar a cautela de lideranças em
criticá-lo abertamente.
Já
Nikolas Ferreira enfrenta cenário mais adverso, com mais de 68% de rejeição nas
mensagens — índice que, segundo o levantamento, tem origem majoritária na
própria direita bolsonarista. As críticas refletem o racha interno. Em uma das
mensagens compartilhadas em diversos grupos, lê-se: "Nikolas não
compartilha, não menciona nada do Flávio. Flávio chegou à liderança sozinho,
sem a ajuda do Nikolas. Nikolas está sendo cobrado justamente por isso".
Outra mensagem reforça a percepção de conflito: "Nikolas está
impulsionando todos que odeiam o Flávio".
Enquanto
isso, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), surge como
alternativa em ascensão. Ele registra 53% de aprovação nas mensagens
monitoradas, o melhor desempenho entre nomes do campo conservador. Além disso,
o volume de menções ao governador cresce e se aproxima do registrado por Flávio
Bolsonaro. Até recentemente visto como liderança regional, Zema passou a ganhar
projeção nacional, impulsionado por ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre
apoiadores, essa mudança de percepção já se traduz em comparações diretas. Uma
das mensagens destaca: "Se fosse o Zema no 2º turno já estaria na frente
do Lula". Outra aponta uma lacuna na atuação do senador: "O cara pelo
menos tem um projeto, até hoje não vi um projeto do Flávio".
O
avanço de Zema abre espaço para que setores dissidentes do bolsonarismo testem
novos caminhos políticos sem romper formalmente com a família Bolsonaro. Apoios
pontuais ao governador permitem avaliar a viabilidade de uma direita
conservadora menos dependente do sobrenome Bolsonaro, ao mesmo tempo em que
evitam confronto direto com a base tradicional.
No
entanto, esse movimento exige cautela. Lideranças do núcleo ideológico mantêm
forte influência sobre a base e tendem a reagir a qualquer tentativa de
afastamento mais explícito. A poucos meses das eleições, um rompimento aberto
pode aprofundar divisões internas e favorecer adversários, especialmente diante
de um cenário em que o campo governista apresenta maior coesão política.
Nesse
contexto, a dificuldade de Flávio Bolsonaro em consolidar apoio dentro do
próprio grupo surge como um dos principais obstáculos para sua projeção
eleitoral. A incapacidade de mobilizar integralmente sua base pode comprometer
a formação de uma militância robusta, elemento considerado decisivo em disputas
eleitorais acirradas.
Fonte:
Brasil 247

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