terça-feira, 28 de abril de 2026

Gustavo Tapioca: O impasse das elites na eleição decisiva de 2026

O problema das elites brasileiras já não é apenas escolher um candidato. É evitar perder o controle num cenário em que o bolsonarismo colapsa, Flávio Bolsonaro não se firma como herdeiro político e Lula permanece como o único polo real de poder.Na política, os movimentos decisivos raramente são anunciados. Eles se acumulam, se insinuam e, quando aparecem, já estão consumados.É o que ocorre agora com Flávio Bolsonaro.O herdeiro político de Jair Bolsonaro tentou ocupar o vazio deixado pelo pai. Fracassou. Faltou densidade, faltou liderança, faltou projeto. Sobrou rejeição.O problema não é apenas eleitoral. É estrutural.Flávio não organiza maioria. Não estabiliza nem oferece previsibilidade. Para o establishment, isso basta.O que se vê, hoje, é um afastamento progressivo, ainda cuidadoso, mas cada vez mais nítido, de setores empresariais, financeiros, midiáticos e políticos que já compreenderam o óbvio: o bolsonarismo com ou sem Jair Bolsonaro perdeu sua principal função histórica.Deixou de ser instrumento de poder. Passou a ser fator de risco.

<><> O bolsonarismo sem Jair não se sustenta

O diagnóstico já está feito, ainda que nem sempre seja dito de forma direta.Sem Jair Bolsonaro no centro do tabuleiro, o bolsonarismo perde força gravitacional. A extrema direita brasileira foi construída em torno de um líder, de sua linguagem, de sua agressividade, de sua capacidade de mobilizar ressentimentos e produzir crise como método.Flávio não herdou esse capital político. Apenas carrega o sobrenome.E sobrenome, sozinho, não vence eleição presidencial.Editorial do Estadão, leituras da Folha, análises de Miriam Leitão, no Globo, e movimentos de bastidor no mundo empresarial convergem no essencial: há fadiga com o extremismo, cansaço com o ruído e demanda por previsibilidade.Mas há um problema maior.Nada disso produziu uma alternativa.

<><> Não existe “terceira via” — existe um vazio

Este é o ponto que reorganiza toda a eleição de 2026.As elites não querem Flávio. Mas também não têm quem colocar no lugar.Durante meses, parte do mercado, da mídia tradicional e do centro político alimentou a expectativa de que surgiria uma candidatura conservadora capaz de reunir direita, centro e setores antipetistas sob uma aparência de moderação institucional.Mas essa candidatura não apareceu.Nomes circulam. Ensaios acontecem. Testes são feitos. Nenhum se sustenta. Nenhum unifica a direita, nenhum organiza o centro, nenhum se impõe nacionalmente como alternativa real a Lula.Tarcísio de Freitas, antes tratado como hipótese preferencial por parte do establishment, saiu da equação presidencial ao não se desincompatibilizar no prazo exigido pela legislação eleitoral. Resta-lhe a disputa pelo governo de São Paulo. Não o Planalto.O resultado é raro — e perigoso: um campo político inteiro sem liderança funcional.

<><> O impasse: rejeitar não é governar

Diante disso, o comportamento das elites muda de natureza. Deixa de ser ofensivo e passa a ser defensivo.O objetivo já não é impor um projeto claro, muito menos apresentar ao país uma alternativa de poder. O objetivo, agora, é evitar o pior.E o pior, para as elites brasileiras, tem três faces: o bolsonarismo tosco, a fragilidade do bolsonarismo “moderado” e a força política de Lula.Elas rejeitam o bolsonarismo tosco porque ele desorganiza demais. Rejeitam o bolsonarismo “moderado” de Flávio porque ele não organiza nada. E rejeitam Lula porque ele representa, mesmo dentro dos limites da conciliação brasileira, um projeto de fortalecimento do Estado, redistribuição de renda e disputa com o poder absoluto do capital financeiro.As elites rejeitam os três por razões distintas.Mas só um deles tem viabilidade real.

<><> Lula é o único polo que organiza poder

Lula não é apenas candidato. É estrutura.É o único líder capaz de mobilizar base social, organizar maioria política, falar com os pobres, negociar com o Congresso, dialogar com empresários, enfrentar o sistema financeiro e ainda conservar densidade eleitoral nacional.Esse é o dado que incomoda seus adversários.Lula é, antes de tudo, um negociador de altíssimo nível. Talvez o mais habilidoso da história política brasileira recente. Sabe ceder sem desaparecer, compor sem se anular, recuar sem entregar o centro do projeto.É exatamente por isso que o establishment o teme — e, ao mesmo tempo, pode ser levado a negociar com ele.Não por confiança.Por falta de alternativa.

<><> A eleição de 2026 como ponto final de uma trajetória

Tudo indica que esta será a última disputa presidencial de Lula.Não é apenas mais uma eleição. É um encerramento histórico. Um acerto de contas com a própria biografia. Um ajuste final entre projeto político, legado pessoal e destino nacional.Lula não disputa apenas poder. Disputa memória. Disputa lugar na história.E não pode — nem vai — encerrar sua trajetória sendo derrotado por Flávio Bolsonaro. Um político sem densidade nacional, marcado por escândalos, associado ao submundo das rachadinhas, às sombras das milícias e a práticas que corroem a própria ideia de República.Esse desfecho não é uma hipótese política aceitável para Lula.É um limite histórico.Depois de ter derrotado a fome, enfrentado a prisão, sobrevivido à destruição judicial de sua biografia e voltado ao poder pelo voto popular, Lula não aceitará concluir sua vida pública derrotado por um herdeiro menor do bolsonarismo.Não por orgulho pessoal.Por sentido histórico.

<><> O movimento mais sutil: o recado das elites

Sem candidato competitivo, o establishment muda de estratégia.Não substitui. Tenta influenciar.O movimento é silencioso, mas reconhecível. Primeiro abandona Flávio. Depois constata que não tem alternativa. Por fim, passa a observar Lula como inevitável.A partir daí, o que emerge não é apoio. É recado.Não dito. Não formal. Mas perfeitamente legível.Estabilidade em troca de moderação. Aceitação em troca de limites. Governabilidade em troca de concessões.É a velha linguagem do poder brasileiro: quando não consegue derrotar o líder popular, tenta cercá-lo; quando não consegue impedi-lo de vencer, tenta reduzir seu alcance; quando não consegue bloquear o voto, tenta controlar o governo.Esse pode ser o sentido mais profundo da atual movimentação das elites.Não se trata de aderir a Lula.Trata-se de tentar condicionar o último Lula.

<><> Não é apoio — é contenção

Seria ingenuidade ler esse movimento como conversão democrática do establishment.Não é.As elites brasileiras não operam por afinidade. Operam por interesse.E o interesse, agora, é direto: evitar ruptura, preservar influência e limitar o alcance de um eventual novo ciclo lulista.Se não puderem derrotar Lula, tentarão moldá-lo.Se não puderem impedir sua vitória, tentarão negociar seus limites.Se não puderem evitar seu último mandato, tentarão transformá-lo num governo administrado sob vigilância permanente dos mercados, da mídia e do Congresso.É esse o verdadeiro jogo.A disputa não será apenas entre Lula e Flávio. Talvez nem seja mais principalmente isso.A disputa será entre Lula e as condições que tentarão impor a ele.

<><> Quando falta candidato, sobram condições

O Brasil entra em 2026 com um dado novo — e decisivo.As elites perderam seu principal instrumento político. O bolsonarismo, sem Jair, deixou de funcionar. Flávio Bolsonaro não conseguiu substituí-lo. E nenhuma alternativa se firmou.O resultado não é reorganização.É vazio.E, diante do vazio, o sistema recua para seu reflexo mais antigo: não escolhe — condiciona.Lula permanece como o único nome capaz de vencer, governar e organizar poder. Mas não chegará sozinho à disputa final. Chegará pressionado, testado, cercado.A eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral.Será uma definição.Não apenas de quem governa.Mas de quem impõe os limites do governo.E, no limite, de algo ainda mais decisivo: até onde Lula — no último movimento de sua trajetória — estará disposto a ir para vencer, governar e sair da história sem dever nada a ninguém.

•        Lula continua favorito e deve recuperar popularidade até julho, diz Eurasia. Por Leopoldo Vieira

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo leve favorito para vencer a eleição presidencial e deve recuperar sua popularidade até julho, mas o senador Flávio Bolsonaro provavelmente liderará as pesquisas por dois ou três pontos até o final de maio, na esteira da pressão inflacionária decorrente da guerra dos Estados Unidos contra o Irã e do noticiário envolvendo escândalos de corrupção, segundo análise do Eurasia Group (EG), em conferência com clientes nesta semana.

“Se a aprovação de Lula estiver na faixa dos 45% em meados de agosto, quando a campanha eleitoral começa oficialmente, espera-se que ela suba ainda mais, mantendo sua ligeira vantagem. No entanto, se seus índices de aprovação caírem abaixo das expectativas do Eurasia Group, ou se não se recuperarem após a queda prevista, as chances de vitória da oposição aumentarão” , disseram Christopher Garman, diretor-geral para as Américas, e Leonardo Reis, analista da companhia de risco político.

Nesse contexto, o senador Bolsonaro ainda não é considerado favorito porque, de acordo com dados globais de 500 eleições, incumbentes com aprovação em torno de 45% vencem em aproximadamente 75% dos casos. Os analistas ressaltam que os números do ex-presidente Jair Bolsonaro antes da campanha, em 2022, eram inferiores a 44%. Além disso, ele tinha 36% de aprovação e estava 20 pontos percentuais atrás nas intenções de voto em simulações de segundo turno, mas perdeu a disputa por apenas 1,5 ponto percentual. “A posição atual de Lula é significativamente mais forte”, avaliam.

VARIÁVEIS IMPORTANTES

Para auxiliar a recuperação do presidente, é muito provável que as tarifas da Seção 301 dos EUA sobre o Brasil cheguem perto de 40%, com as mesmas exceções previstas nas tarifas da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), que foi invalidada — aponta a EG, agora em relatório a empresários e investidores. Aliados de Flávio sinalizaram a seus homólogos americanos que novas tarifas poderiam impulsionar as chances de reeleição de Lula.

Em relação ao caso do Banco Master, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), vê-se em uma “missão divina” para levar as investigações adiante, segundo o EG, o que estaria gerando tensões com outros membros da Corte, interessados em protegê-la de desgastes. Isso indica que a disputa pela bandeira anticorrupção, em um cenário de reativação do sentimento antissistema, será praticamente inevitável.

Paralelamente, traders experientes consideram improvável que a guerra no Oriente Médio seja retomada, favorecendo a mitigação da pressão inflacionária nos próximos meses eleitorais brasileiros. Por ora, as chances de sucesso do presidente são de 55%, nos cálculos da consultoria internacional.

Em tempo: a estratégia da candidatura oposicionista, de tentar passar ao eleitorado uma imagem de moderação, aumenta o risco de banana republic associado a um estelionato eleitoral. Com o objetivo de se afastar dos estigmas do governo derrotado em 2022, o senador Bolsonaro tem sido aconselhado a defender o regime democrático, o respeito ao resultado eleitoral, políticas voltadas a grupos tradicionalmente atacados pela extrema-direita e a evitar a divulgação de propostas econômicas impopulares, o que sugere apenas uma operação de marketing político. Também voltaram à tona promessas de ajuste fiscal para “uma economia de até R$ 1,1 trilhão em dez anos”, já frustradas no governo Bolsonaro devido à erosão das condições políticas, provocada pela chamada ala ideológica, que ainda hoje é comandada pelos próprios filhos do ex-presidente.

•        Crise no bolsonarismo e avanço de Zema ameaçam Flávio Bolsonaro

A fragmentação do campo bolsonarista ganhou novos contornos nos últimos dias, evidenciando disputas internas e o fortalecimento de lideranças alternativas dentro da direita. O rompimento público do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) com figuras do núcleo ideológico, como Eduardo Bolsonaro (PL), Allan dos Santos, Kim Paim e Paulo Figueiredo, além de críticas direcionadas a Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), tornou visível um processo de desgaste que já vinha sendo observado. Nesse cenário, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta manter equilíbrio, mas enfrenta resistências dentro do próprio grupo, segundo a Folha de São Paulo.

O episódio mais recente é interpretado como parte de uma reconfiguração política em curso há meses, marcada por tensões entre alas ideológicas e quadros políticos do bolsonarismo. Desde o início de 2025, o crescimento de Nikolas Ferreira como liderança com base própria tem gerado atritos, enquanto a atuação de Eduardo Bolsonaro no exterior contribuiu para ampliar o distanciamento interno. Paralelamente, disputas regionais, como a concorrência entre Carlos Bolsonaro e Carol De Toni (PL-SC) por uma vaga no Senado em Santa Catarina, com críticas públicas de Ana Campagnolo à família Bolsonaro, reforçam a perda de coesão do grupo.

A ascensão de outros nomes também contribui para o enfraquecimento da unidade bolsonarista. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), passou a ser visto como possível candidato com estratégia própria, enquanto episódios envolvendo aliados próximos à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro indicam que parte da base já atua de forma independente do clã. Esse conjunto de movimentos aponta que o bolsonarismo deixou de funcionar como um bloco homogêneo.

Dados de monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp, conduzido pela Palver, mostram que essa divisão já repercute intensamente entre apoiadores. Flávio Bolsonaro aparece com avaliação dividida, registrando 50% de aprovação e 50% de rejeição nas mensagens analisadas. O equilíbrio sugere um limite implícito: ataques diretos ao senador são vistos como quebra de lealdade dentro do campo conservador, o que ajuda a explicar a cautela de lideranças em criticá-lo abertamente.

Já Nikolas Ferreira enfrenta cenário mais adverso, com mais de 68% de rejeição nas mensagens — índice que, segundo o levantamento, tem origem majoritária na própria direita bolsonarista. As críticas refletem o racha interno. Em uma das mensagens compartilhadas em diversos grupos, lê-se: "Nikolas não compartilha, não menciona nada do Flávio. Flávio chegou à liderança sozinho, sem a ajuda do Nikolas. Nikolas está sendo cobrado justamente por isso". Outra mensagem reforça a percepção de conflito: "Nikolas está impulsionando todos que odeiam o Flávio".

Enquanto isso, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), surge como alternativa em ascensão. Ele registra 53% de aprovação nas mensagens monitoradas, o melhor desempenho entre nomes do campo conservador. Além disso, o volume de menções ao governador cresce e se aproxima do registrado por Flávio Bolsonaro. Até recentemente visto como liderança regional, Zema passou a ganhar projeção nacional, impulsionado por ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Entre apoiadores, essa mudança de percepção já se traduz em comparações diretas. Uma das mensagens destaca: "Se fosse o Zema no 2º turno já estaria na frente do Lula". Outra aponta uma lacuna na atuação do senador: "O cara pelo menos tem um projeto, até hoje não vi um projeto do Flávio".

O avanço de Zema abre espaço para que setores dissidentes do bolsonarismo testem novos caminhos políticos sem romper formalmente com a família Bolsonaro. Apoios pontuais ao governador permitem avaliar a viabilidade de uma direita conservadora menos dependente do sobrenome Bolsonaro, ao mesmo tempo em que evitam confronto direto com a base tradicional.

No entanto, esse movimento exige cautela. Lideranças do núcleo ideológico mantêm forte influência sobre a base e tendem a reagir a qualquer tentativa de afastamento mais explícito. A poucos meses das eleições, um rompimento aberto pode aprofundar divisões internas e favorecer adversários, especialmente diante de um cenário em que o campo governista apresenta maior coesão política.

Nesse contexto, a dificuldade de Flávio Bolsonaro em consolidar apoio dentro do próprio grupo surge como um dos principais obstáculos para sua projeção eleitoral. A incapacidade de mobilizar integralmente sua base pode comprometer a formação de uma militância robusta, elemento considerado decisivo em disputas eleitorais acirradas.

 

Fonte: Brasil 247

 

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