Luís Nassif: A Rendição que Não Ousou Dizer Seu Nome
Lula
apontou, nas entrelinhas, para o percurso de boa parte da social-democracia
europeia nas últimas décadas:
• Aceitação da austeridade fiscal como
dogma
• Redução do papel do Estado na indução do
crescimento
• Perda de conexão com a base trabalhadora
• Tolerância à desindustrialização
Sem
dizer explicitamente, a crítica era clara: a social-democracia, ao tentar
parecer “responsável demais”, acabou ficando irrelevante para quem mais
precisava dela.
Há uma
ironia cruel no colapso da social-democracia nas últimas três décadas. Os
partidos que deveriam ser a muralha contra o avanço do capital financeiro sobre
o trabalho e o Estado tornaram-se, em boa medida, os arquitetos institucionais
desse avanço. Não por traição consciente — embora esta também tenha ocorrido —
mas por uma capitulação gradual, tática a tática, concessão a concessão, até
que o projeto original se tornasse irreconhecível.
O
resultado está à vista: enfraquecimento das políticas públicas, erosão da base
eleitoral trabalhista, ascensão de populismos de direita que ocuparam o espaço
deixado vazio pela esquerda moderada. A social-democracia ajudou a construir as
condições de sua própria irrelevância.
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O momento da virada: os anos 1990
A
capitulação tem uma data relativamente precisa: a década de 1990, quando a
social-democracia europeia internalizou o diagnóstico neoliberal sobre o papel
do Estado. Tony Blair no Reino Unido e Gerhard Schröder na Alemanha foram seus
símbolos mais acabados — mas o fenômeno foi continental.
O
argumento era de modernização: a globalização havia mudado as regras do jogo,
os mercados financeiros tinham poder de veto sobre as políticas nacionais, e a
esquerda precisava adaptar-se à nova realidade ou tornar-se irrelevante. A
Terceira Via blairiana foi a formulação mais sofisticada dessa rendição:
mantinha a retórica da justiça social enquanto abandonava os instrumentos que
historicamente a produziram.
O que
foi abandonado, concretamente? O controle sobre os fluxos de capital. A
capacidade de política industrial ativa. A progressividade tributária real. A
propriedade pública de setores estratégicos. A regulação do mercado de trabalho
como proteção estrutural — não como favor. Em suma: tudo aquilo que havia
transformado o capitalismo do pós-guerra num sistema capaz de redistribuir
riqueza de forma sustentada.
O que
permaneceu? A retórica da inclusão, agora financiada não por redistribuição de
renda, mas por crédito — democratização do endividamento apresentada como
democratização do consumo. As classes populares ganharam acesso ao crédito
barato no lugar do emprego estável e do serviço público de qualidade. Quando a
crise de 2008 chegou, a armadilha se fechou.
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O caso brasileiro: a herança da “Carta ao Povo Brasileiro”
No
Brasil, o episódio fundador da capitulação tem nome e data: a “Carta ao Povo
Brasileiro”, de junho de 2002, pela qual Lula comprometeu-se, antes mesmo de
ser eleito, a respeitar os contratos, manter o superávit primário e honrar os
compromissos com o FMI. Era um sinal ao mercado financeiro de que o novo
governo não perturbaria a arquitetura construída no período Fernando Henrique
Cardoso.
A carta
era politicamente compreensível — o terrorismo econômico da oposição e da mídia
havia criado uma crise cambial real no segundo semestre de 2002, com o dólar
superando os 3,50 reais. A sinalização de moderação era necessária para evitar
uma crise antes mesmo da posse.
O
problema não foi a carta. Foi que a postura nela contida tornou-se permanente,
quando deveria ter sido transitória. Lula não apenas respeitou os compromissos
— foi, como ele próprio definiria a partir de 2003, “mais responsável que a
direita”. A taxa Selic permaneceu em níveis absurdamente elevados por anos. A
política de superávit primário foi mantida com rigor que constrangeria qualquer
governo europeu de centro-direita. A abertura financeira herdada de FHC não foi
tocada.
O
argumento era pragmático: era preciso primeiro estabilizar para depois
distribuir. E de fato houve distribuição significativa — Bolsa Família, aumento
real do salário mínimo, expansão do crédito, políticas de inclusão que
retiraram dezenas de milhões da pobreza. O primeiro e o segundo mandatos de
Lula produziram resultados sociais inegáveis.
Mas o
núcleo duro do modelo financeiro permaneceu intacto. Os juros reais mais altos
do mundo continuaram transferindo renda do setor produtivo para o financeiro,
do trabalho para o capital, do orçamento público para os detentores de títulos.
A desindustrialização avançou silenciosamente, acelerada pela combinação de
câmbio apreciado e abertura comercial. A base produtiva que sustentaria um
desenvolvimento mais robusto foi sendo corroída justamente nos anos em que o
crescimento das commodities criava a ilusão de prosperidade.
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Dilma e o custo da tentativa heterodoxa sem base política
O
governo Dilma Rousseff tentou romper com partes desse arranjo — e a experiência
é instrutiva precisamente porque fracassou.
A
redução forçada da Selic no início do primeiro mandato, a desoneração de
setores industriais, a política de campeões nacionais, a contenção tarifária de
energia: eram tentativas reais de política industrial e de subordinação do
capital financeiro ao projeto produtivo. Algumas foram tecnicamente mal
executadas. Todas encontraram resistência violenta do setor financeiro, da
mídia e, eventualmente, de parcelas do próprio empresariado industrial que
havia sido beneficiado.
O que
faltou a Dilma não foi apenas habilidade técnica — faltou base política para
sustentar a heterodoxia sob pressão. A social-democracia brasileira havia
passado tantos anos cultivando a confiança dos mercados que não havia
construído a alternativa: um bloco de forças sociais e políticas capaz de
sustentá-la quando o capital financeiro reagisse.
É o
paradoxo clássico das concessões graduais ao adversário: ao tentar neutralizar
a oposição do mercado financeiro demonstrando responsabilidade, o PT foi
gradualmente abandonando os instrumentos e as alianças que lhe dariam
capacidade de agir quando necessário. Quando chegou o momento de agir, não
tinha nem os instrumentos nem as alianças.
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A consequência política: o espaço que a esquerda deixou vazio
A
social-democracia europeia aprendeu da pior forma o que acontece quando a
esquerda abandona as classes trabalhadoras como projeto — não como retórica,
mas como política concreta. Marine Le Pen na França, a AfD na Alemanha, Meloni
na Itália, Orbán na Hungria: todos eles se alimentaram do abandono das regiões
desindustrializadas, dos trabalhadores precarizados, das comunidades que
perderam serviços públicos e emprego estável e receberam em troca um discurso
sobre diversidade e inclusão sem nada que mudasse suas condições materiais.
O
Brexit britânico é o símbolo mais preciso desse processo. As regiões que
votaram por sair da União Europeia não eram majoritariamente racistas ou
xenófobas — eram regiões que a globalização havia destruído e que a
social-democracia blairiana havia abandonado. O voto pelo Brexit foi, em boa
medida, um voto de protesto de pessoas que não tinham mais nada a perder na
ordem existente.
No
Brasil, a dinâmica tem especificidades, mas a estrutura é semelhante. O
bolsonarismo não surgiu do nada — surgiu de um espaço político deixado vazio
pela incapacidade do PT de traduzir seus avanços sociais inegáveis em um
projeto de soberania econômica que protegesse duradouramente as classes que
havia incluído. Quando a crise de 2015-2016 chegou e o ajuste fiscal recaiu —
inevitavelmente — sobre os mais pobres, a desilusão estava posta.
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O que ficou de pé — e o que foi perdido
A
social-democracia, em suas versões europeia e brasileira, conseguiu preservar
muito. O Estado de bem-estar europeu, ainda que enfraquecido, continua sendo a
principal proteção das classes trabalhadoras contra a brutalidade do mercado.
No Brasil, o Bolsa Família, o SUS e os direitos trabalhistas — mesmo atacados —
permanecem como conquistas que o neoliberalismo puro nunca teria produzido.
Mas o
que foi perdido é estrutural: a capacidade de controlar o capital, de orientar
o investimento, de proteger a indústria, de subordinar a política monetária ao
desenvolvimento. Sem esses instrumentos, as políticas sociais ficam
permanentemente reféns do humor dos mercados financeiros — generosas nos
momentos de bonança das commodities, sacrificadas nos momentos de crise
cambial.
A
questão fundamental é que não existe redistribuição duradoura sem soberania
econômica. E não existe soberania econômica sem o controle sobre os fluxos de
capital que determinam o câmbio, os juros e, em última análise, o espaço fiscal
para qualquer política pública.
A
social-democracia que abriu mão desses instrumentos em nome da credibilidade
junto aos mercados descobriu, com atraso, que havia trocado a capacidade de
governar pela permissão de administrar. São coisas muito diferentes — e a
diferença tem nome: é a diferença entre política e gestão, entre projeto e
sobrevivência, entre democracia substantiva e democracia de procedimento.
• Brasil está no melhor dos mundos, diz
CEO da Siemens
O
Brasil vive um momento considerado estratégico no cenário internacional ao
reunir reservas de petróleo e potencial crescente em energias sustentáveis, o
que amplia sua relevância global no setor energético. A avaliação é do CEO da
Siemens no Brasil, Pablo Fava, que destaca a combinação de recursos naturais e
capacidade produtiva como diferencial competitivo do país. Em entrevista à
revista Exame, durante a feira industrial Hannover Messe, na Alemanha, o
executivo ressaltou que o Brasil ocupa uma posição singular ao avançar na
transição energética sem abrir mão de suas reservas fósseis. Segundo ele, esse
equilíbrio coloca o país em vantagem diante de outras economias.
Fava
citou declarações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a
promoção de energia sustentável no país, mesmo diante da abundância de
petróleo. “Nós temos petróleo, mas não temos energia sustentável. Como o
presidente Lula falou no domingo, nós estamos promovendo energia sustentável,
apesar de termos muito petróleo no Brasil”, afirmou.
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Alta do petróleo amplia oportunidades
O
executivo também destacou que o cenário internacional, com preços elevados do
petróleo, favorece ainda mais o Brasil. “O preço do barril de petróleo bruto
está muito alto, o que traz uma grande oportunidade de a gente explorar muito
mais, e o Brasil é muito competitivo e eficiente no setor agrícola”, disse.
Esse
contexto, segundo Fava, reforça a capacidade do país de ampliar sua produção
energética e fortalecer sua posição no comércio global, especialmente em áreas
que conectam energia e agricultura.
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Biocombustíveis e demanda europeia
Durante
a agenda internacional, outro ponto relevante foi o destaque dado à produção de
biocombustíveis no Brasil. O tema tem ganhado importância nas negociações com a
União Europeia, que impõe restrições ao uso de matérias-primas que possam
competir com a produção de alimentos.
Fava
explicou que o setor produtivo brasileiro já considera essas exigências e
trabalha para ampliar a produção de forma sustentável. “Quando você fala com os
especialistas, os que estão produzindo, eles dizem: ‘Para produzir mais, eu
preciso também recuperar a terra’. Vou ter que obrigatoriamente produzir mais
alimento para fazer a recuperação do solo”, afirmou.
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Europa pode abrir novas oportunidades
O
executivo também avaliou que mudanças regulatórias na Europa podem beneficiar
diretamente o Brasil. A Alemanha, por exemplo, defende o adiamento do fim dos
motores a combustão, atualmente previsto para 2035, desde que utilizem
combustíveis não poluentes.
Na
avaliação de Fava, essa possível flexibilização cria um cenário favorável para
o país. “É uma novidade interessante, pois posiciona o Brasil como forte
candidato a fornecer energia sustentável. É o parceiro praticamente ideal para
esse tipo de coisa”, declarou.
Com
esse conjunto de fatores, o Brasil se consolida como um dos protagonistas na
transição energética global, combinando recursos naturais, inovação e
capacidade produtiva para atender às novas demandas internacionais.
• Zema anuncia plano de destruição
nacional, com privatização do BB e da Petrobras
O
pré-candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) declarou que
pretende implementar um amplo programa de privatizações caso vença as eleições,
incluindo a venda da Petrobras e do Banco do Brasil. A proposta faz parte de um
plano econômico que prevê redução do tamanho do Estado, corte de despesas
públicas e diminuição da dívida nacional, com maior participação da iniciativa
privada na economia.
As
declarações foram divulgadas em vídeo publicado nas redes sociais. No material,
Zema apresenta o que chama de “plano implacável” para reorganizar as contas
públicas.
No
vídeo, o ex-governador de Minas Gerais critica a política fiscal do governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmando que há desequilíbrio entre
receitas e despesas. “Meu plano para fazer o Brasil prosperar é implacável. E
ele começa dizendo a você a verdade: o governo Lula gasta mais do que arrecada.
Para fechar a conta ele pega muito dinheiro emprestado, e isso cria uma dívida
que cresce sem parar”, disse.
Zema
também argumenta que o aumento da dívida pública está ligado ao pagamento de
juros elevados. Segundo ele, o governo atual paga “juros de agiota” e mantém
gastos considerados excessivos. Como alternativa, defende uma política de
austeridade combinada com privatizações e estímulo à poupança.
Entre
as medidas anunciadas, o pré-candidato foi direto ao mencionar a venda das
principais estatais do país. “Eu vou privatizar a Petrobras. Eu vou privatizar
o Banco do Brasil. E vou passar a faca nos super salários, mordomias e esquemas
que sustentam os intocáveis de Brasília”, afirmou.
O plano
apresentado não se limita às duas instituições. Zema indicou que pretende
ampliar o processo para outras empresas públicas e participações do governo em
companhias privadas. “Vamos vender também as estatais que só dão prejuízo, como
os Correios. E participações do governo em empresas privadas também”,
completou.
Ao
final do vídeo, Zema copia o bordão do ex-candidato presidencial Enéas
Carneiro: “Meu nome é Zema!”
Fonte:
Jornal GGN/Brasil 247

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