Verdadeiro
e falso
Bem à
vista, no alto da porta, a placa dizia: “antes de entrar no elevador verifique
se você existe e se encontra parado neste andar”. A frase escrita no imperativo
não deixava margem à dúvida, a inexistência de alguém tornaria inócuo seu
deslocamento vertical.
René
Descartes construiu seu sistema filosófico a partir de uma certeza – “Cogito,
ergo sum” (Penso, logo existo). Seu axioma é reconfortante. Porém, os sofistas
talvez desconfiassem desta constatação banal: a afirmação remeteria a algo
concreto ou simplesmente recobriria o significado de uma suposta existência?
Seria realmente possível dizer que existo ou a imagem do Eu idealizado trairia
o fruto da ilusão?
Dizem
que Luchino Visconti, quando no roteiro de um filme havia dois personagens
falando de uma caixa de joias, mesmo que ela estivesse fechada, ele fazia
questão que nela estivessem presentes joias autênticas. Acreditava que assim os
atores atuariam com mais convicção em relação ao texto, como se a realidade,
apenas em sua alusão, fosse um estímulo à imaginação.
Em
tempos que correm, a solidez do real perdeu em convencimento, deixou de ser
palpável. Houve uma época na qual ele possuía um certo encantamento, pelo menos
como referência imaginada (e não falo do absoluto de Sócrates). Dizia-se que as
ideologias eram falsas, mas eram capazes de parcialmente apreender a verdade; o
que se denominava realidade estava ali, encoberto pela superfície do pensamento
que a distorcia.
Verdadeiro
e falso caminhavam juntos, embora em planos diferentes. Tudo se resumiria a uma
diligência arqueológica, retirar o relevante das camadas geológicas que o
encobriam. Entretanto, diante da presença latente da falsidade, as ideologias
dela não se libertam, alguns pensadores propuseram uma solução ao dilema: o seu
desaparecimento (Daniel Bell no livro O fim da ideologia dedicou-se a trabalhar
esta ideia insensata). As crenças políticas, “imbuídas de paixão”, na sua
distorção do real, seriam substituídas pelas “pessoas sensatas” por um discurso
racional, ponderado, no qual os ajustes graduais tecnológicos do sistema
existente predominariam. A solução almejada não vicejou, o “fim” era apenas
outra ideologia.
Entretanto,
na hipermodernidade as coisas se transformaram, a paixão, longe de esmorecer,
tornou-se complemento inseparável da expressão narcísica, particularmente nas
redes sociais. De alguma maneira a virtude da sensatez tornou-se escassa. O
negacionismo climático, a desconfiança na ciência, a crença nas teorias
conspiratórias, as explicações de superioridade racial, são evidências que a
era da pós-verdade privilegia as narrativas, e sabe-se, a autenticidade de um
relato esgota-se em si mesma.
Eles
podem ser extraordinários ou hiperbólicos, mas o enunciado é em si a
demonstração de sua própria veracidade: a Terra não é redonda; o homem não
chegou à lua; somos governados por reptilianos – organização esotérica que
remonta a uma época na qual os humanos descendiam de lagartos extraterrestres.
Cada
uma dessas afirmações se apresenta como fato, algo que não pode ser contradito
pela razão ou o bom senso. Elas não constituem propriamente o que se denomina
de fake news, são “histórias” (palavra recorrente no vocabulário digital) que
se estruturam a partir de uma narrativa ordenada e ilógica. Neste sentido, o
esforço de explicitação de sua falsidade é inócuo (como fazem os sites de
verificação das notícias), a distância entre o falso e o verdadeiro encurtou,
torna-se irrelevante.
Jean
Baudrillard fazia uma distinção entre simulação e simulacro. Originalmente o
termo simulação encerrava uma conotação exclusivamente negativa, era sinônimo
de fingimento, dissimulação. Porém, ele se aplica também a um domínio de
positividade, isto é, um exercício de imaginação a respeito de algo ainda
inexistente; aquilo que falta é projetado como uma espécie de mimese da
realidade.
É neste
sentido que a “simulação computacional” (rebatizada como inteligência
artificial) projetava no espaço de uma máquina, o computador, algumas das
habilidades da mente humana. Entretanto, toda simulação possui um referente
real que a antecede. Talvez por isso os linguistas digam que uma boa metáfora
para se representar a inteligência artificial é a da maquete; ela é uma
projeção daquilo que deverá ser, isto é, o registro de realidade que se supõe
existir.
A
natureza do simulacro é outra, trata-se de uma simulação levada ao paroxismo,
neste caso a referência ao real se anula, inexiste. A verdade encontra-se em
sua omnipresença revelada. Ou como diz a epígrafe do livro de Jean Baudrillard,
uma citação do Eclesiastes: “o simulacro nunca oculta a verdade – é a verdade
que oculta o que não existe. O simulacro é verdadeiro” (versículo apócrifo,
inventado pelo próprio autor).
Imobilizado
diante da placa estou envolto pelas dúvidas existenciais, o caminho a seguir é
nebuloso. Que direção tomar? Os atos quotidianos necessitam de balizas seguras,
não é propício se perder nas divagações filosóficas, elas nos enredam em
sutilezas movediças.
Os
antigos monges diziam ser preciso nos afastar das tentações do deserto, a
vaidade intelectual era uma delas, pavimentava a senda da descrença em
detrimento da verdade do mundo. Foi quando me lembrei da máxima que li na porta
do elevador de um hotel em San Francisco.
Tinha
me hospedado em um andar alto e desfrutava da vista da baía ao meu entorno. O
aviso era simples, direto e alentador, sem hesitação ou subterfúgios advertia
em letras garrafais: “em caso de incêndio use as escadas; em caso de terremoto
aguarde instruções”.
Fonte:
Por Renato Ortiz, em A Terra é Redonda

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