Heba
Ayyad: A Casa Branca em tempos de absurdo - o império estadunidense entrou em
declínio?
Quando
o indivíduo se sobrepõe ao Estado, o humor à instituição e a improvisação à
estratégia, o império não se encontra no auge de seu poder, como imagina, mas
em um dos limiares de sua grande confusão. Os Estados Unidos não eram apenas um
arsenal militar formidável, nem meramente uma economia capaz de absorver
mercados e redesenhar mapas de influência, mas também uma imagem cuidadosamente
construída de uma nação cujo segredo mais profundo de poder residia, dizia-se,
em suas instituições: em sua capacidade de refrear os caprichos dos indivíduos,
controlar a tomada de decisões e impedir que a paixão se transformasse em
destino global.
Essa
era a grande narrativa estadunidense: um presidente pode chegar e outro pode
partir, mas o Estado permanece mais profundo do que o ocupante da Casa Branca,
mais duradouro do que os caprichos do momento e mais capaz de transformar o
poder em ordem, e não em caos.
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No
entanto, o que o mundo vê hoje em Washington mina completamente essa imagem.
Não estamos apenas diante de um presidente barulhento, narcisista e
exibicionista, mas de um cenário que revela, com rara crueldade, que o Estado
que por tanto tempo se apresentou como o ápice do institucionalismo, às vezes,
age como se fosse governado pelo ritmo dos caprichos pessoais, e não pela
lógica das instituições.
Um
presidente acorda de manhã, toma seu café e publica uma mensagem que inflama os
mercados, a política e as alianças; algumas horas depois, envia outro sinal que
contradiz o primeiro ou o esvazia de significado, como se o mundo inteiro
tivesse se tornado refém entre a paixão da manhã e os caprichos da noite.
Aqui, a
questão não se resume mais às excentricidades do homem, mas ao significado do
que está acontecendo no próprio âmago do império. Em sua essência, a questão
não é meramente um problema de comunicação desenfreada, mas uma exposição
política e histórica de uma nação em que o indivíduo começou a rivalizar com a
instituição, a improvisação com o planejamento e o clamor com a serenidade que,
por muito tempo, foi alardeada como um dos segredos da supremacia
estadunidense.
Quando
isso ocorre em um país comum, trata-se de uma crise de governança; mas, quando
ocorre na potência que ainda detém a mais ampla rede de influência militar,
financeira e política do mundo, transforma-se em uma questão global, capaz de
afetar o destino de povos e continentes inteiros.
A cena,
na realidade, transcende a política e beira o absurdo. Mas esse absurdo não
está inscrito nos textos de Beckett, Genet ou Adamov, nem mesmo nas imaginações
de Tawfiq al-Hakim sobre um mundo em que a lógica se perdeu. Pelo contrário:
está inscrito diretamente nos mapas mundiais. É um absurdo que emana do centro
do império, e não de sua periferia; um absurdo que confunde não apenas o
cenário interno estadunidense, mas também aliados, adversários, mercados e
campos de batalha, simultaneamente.
Quando
a maior potência mundial atinge esse nível de contradição diária entre seus
pronunciamentos e seus opostos, entre ameaças e retratações, não estamos apenas
testemunhando uma confusão política, mas uma fragmentação da própria imagem do
centro.
Uma
parte fundamental do prestígio dos Estados Unidos residia no fato de que suas
decisões, mesmo em seus momentos mais brutais, pareciam emanar de um aparato
estatal, e não do capricho de um indivíduo. O mundo lidava com Washington não
como uma entidade justa ou moral, mas como uma potência cujas regras eram
compreensíveis e, no mínimo, previsíveis.
Hoje,
uma das mudanças mais perigosas é que essa previsibilidade está se erodindo, e
a imagem de “um Estado que sabe o que quer” está dando lugar a outra: a de um
Estado que possui poder excessivo, mas que, gradualmente, perde a disciplina e
o significado desse poder.
Aqui
reside a essência do dilema imperial. Os impérios não iniciam seu declínio
apenas quando são derrotados militarmente ou vencidos por seus adversários;
esse declínio também começa quando deixam de se governar com a mesma
inteligência que forjou sua glória. Começa quando as demonstrações de poder
substituem seu uso eficaz, quando o ruído suplanta a coerência e quando a
distância entre o Estado e o indivíduo se erode a ponto de as decisões
estratégicas se assemelharem a reações impulsivas ou respostas caprichosas.
É
precisamente nesse ponto que a arrogância imperial deixa de ser uma marca de
domínio e se transforma em sinal de disfunção.
Os
Estados Unidos continuam sendo, sem dúvida, uma potência formidável. Ninguém em
sã consciência pode negar seu peso militar, financeiro ou tecnológico, nem a
profundidade de suas redes de alianças. Mas a questão aqui não é negar o poder,
e sim compreender a natureza do momento. Um império pode ser muito poderoso e,
ainda assim, entrar em uma fase de declínio.
Talvez
a tragédia dos grandes impérios seja que eles continuam a agir como se seu auge
de glória ainda estivesse presente justamente no momento em que começam a
perder seu equilíbrio interno. É isso que torna o cenário estadunidense atual
tão significativo: Washington tenta agir como a única superpotência
incontestável em um momento em que as fissuras se multiplicam em seu núcleo e a
distinção entre política de Estado e impulsividade presidencial se torna cada
vez mais tênue. Dessa perspectiva, falar sobre a erosão da unipolaridade não é
apenas um desejo ideológico dos adversários de Washington, mas uma leitura
ditada pela própria realidade. O mundo não vive mais um momento puramente
estadunidense como aquele que se seguiu ao colapso da União Soviética. A China
está em ascensão, a Rússia luta para definir sua posição, as potências
regionais ampliam sua margem de manobra, e os aliados tradicionais dos Estados
Unidos se tornam menos convictos e mais preocupados com as oscilações das
decisões estadunidense.
A
multipolaridade ainda não se estabilizou, mas o que parece certo é que a era do
excepcionalismo estadunidense confiante chegou ao fim.
O que é
ainda mais perigoso é que essa transformação não decorre apenas da ascensão de
outros atores, mas também da própria turbulência interna dos Estados Unidos.
Quando o centro do poder vacila, o mundo não precisa assistir à queda de um
império para perceber que uma era inteira está chegando ao fim. Basta que um
império perca a capacidade de convencer os outros de que ainda é capaz de
autocontrole para que estes comecem a reavaliar suas posições e para que seu
prestígio decaia antes mesmo que seus instrumentos de poder se enfraqueçam.
O poder
não se sustenta apenas em armas, mas também em imagem, confiança,
previsibilidade e capacidade de produzir sentido. Todos esses elementos estão
sendo corroídos no âmago do cenário estadunidense.
Provavelmente,
não estamos testemunhando o fim da hegemonia estadunidense, mas, sim, o fim de
sua antiga imagem: a de uma nação que, por décadas, pareceu maior do que os
caprichos de seus presidentes e mais capaz de conter o extremismo dentro de uma
rede coesa de instituições. Agora, porém, o que se revela gradualmente é que a
própria instituição já não está imune a convulsões, e que o império que por
tanto tempo alegou ser governado por mentes ponderadas agora está ameaçado de
ser comandado por nervos à flor da pele.
É
precisamente aqui que o momento adquire seu significado histórico. Quando o
indivíduo se sobrepõe ao Estado, o capricho à instituição e a improvisação à
estratégia, o império não está no auge de seu poder, como imagina, mas, sim, em
um dos limiares de sua maior desordem.
Este é
o momento em que o excesso de poder se torna uma máscara que oculta uma crise
mais profunda, e o clamor se transforma em uma tentativa desesperada de adiar o
reconhecimento de que o mundo está mudando e de que o centro que por tanto
tempo ditou seu ritmo já não pode mais monopolizar a definição desse ritmo.
Esta, portanto, não é meramente uma crise presidencial. É uma crise de modelo,
de um Estado que construiu grande parte de seu projeto hegemônico sobre uma
imagem de institucionalismo, disciplina e liderança, apenas para se ver, em um
momento histórico crucial, refém de um presidente que escreve o mundo na forma
de uma publicação digital, deixando aliados, adversários e mercados lidarem,
cada um à sua maneira, com o significado do próximo sinal.
E é
assim que começam as grandes transformações: não apenas quando os adversários
batem às portas do império, mas quando o próprio império, em seu âmago, começa
a ouvir as vozes crescentes da dissidência vindas de dentro.
• A civilização diante da arrogância
Aquele
que hoje ameaça fazer com que outros retornem à “Idade da Pedra” pode não estar
revelando um excesso de poder, mas, sim, declarando, de forma involuntária, um
profundo abalo nas estruturas do próprio império. Quanto mais estridente se
torna a ameaça estadunidense, mais o vazio por trás dela se expõe. Nações
autoconfiantes não precisam recorrer à retórica da “Idade da Pedra” nem a
tamanha fanfarronice para ocultar a ambiguidade de seus objetivos e sua
incapacidade de traduzir ameaças em políticas concretas.
Enquanto
a primeira parte abordou a ameaça estadunidense sob a perspectiva da ignorância
acerca da civilização e da história, a segunda parte vai direto ao ponto
central: o que essa retórica revela sobre os próprios Estados Unidos? A questão
não se resume mais ao Irã, nem apenas aos limites da escalada militar, mas à
própria natureza de uma potência que se expressa com tamanha grosseria e à
disfunção que aflige os impérios quando perdem a capacidade de distinguir entre
dissuasão e neurose, entre política e impulsividade, entre Estado e capricho.
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Quando o poder perde sua linguagem
Nações
autoconfiantes não se expressam dessa maneira. Grandes potências, quando
verdadeiramente controlam seus impulsos e objetivos, não precisam elevar a voz
a esse ponto, nem substituir a linguagem das instituições pela linguagem da
humilhação cultural. Elas sabem o que querem, definem o que podem fazer e
traçam a linha de chegada antes mesmo de discutir o custo da jornada.
Mas,
quando o discurso degenera em uma mistura de ameaças abertas, vanglória nervosa
e na promessa de destruir o adversário não apenas militarmente, mas também
simbolicamente e culturalmente, isso revela não confiança no poder, mas, sim,
ansiedade em relação a ele.
Aqui, o
império não se expressa a partir de uma posição de complacência, mas de uma
perspectiva limitada, de cálculos confusos e da necessidade constante de
compensar sua visão imprecisa com uma linguagem grosseira. Portanto, essa
escalada verbal não parece ser tanto uma evidência de excesso de poder, mas,
sim, uma tentativa desesperada de ocultar uma fissura em sua própria certeza
política.
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A ambiguidade do objetivo e o ruído das ameaças
O
aspecto mais perigoso da retórica de Trump não é apenas sua agressividade
verbal, mas seu vazio estratégico. O homem afirma que a “missão principal” está
quase concluída, mas não a define. Fala em vitória decisiva e, em seguida, abre
espaço para a escalada. Brande o espectro de um fim e, depois, prolonga o
conflito com novas escaladas. Essa contradição não costuma emanar de uma
potência que tomou sua decisão, mas, sim, de uma potência que tenta mascarar
sua confusão inflando seu vocabulário ameaçador.
Portanto,
a ameaça de fazer o Irã retornar à “Idade da Pedra” não parece refletir clareza
de visão, mas, sim, confusão, que constantemente exige uma linguagem mais
estridente, mais ruído e insultos mais flagrantes para encobrir seu vazio
estratégico. Quanto mais ausente a definição política precisa de vitória, maior
o clamor utilizado para sugerir sua existência.
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Quando o império fala com nervos
Neste
momento, a questão não se resume mais ao presidente, embora sua personalidade
faça parte do quadro, mas, sim, à estrutura que permite que o temperamento de
um indivíduo arraste consigo a imagem do Estado para esse nível de volatilidade
emocional. Aqui, Trump não parece ser apenas um presidente exagerado ou
impulsivo, mas, sim, um sintoma intenso de um mal-estar mais profundo: uma
inflação da propaganda, uma erosão da distância entre decisão e espetáculo e
uma confusão entre a imagem do poder e seu significado.
Os
Estados Unidos ainda possuem armas, bases, frotas e a capacidade de infligir
danos. Mas possuir as ferramentas da opressão não é o mesmo que possuir a
capacidade de traduzi-las em políticas eficazes, em uma visão coerente ou em um
objetivo claro. Os impérios não começam a declinar apenas quando são derrotados
no campo de batalha; eles também começam a declinar quando sua retórica se
torna maior do que sua visão, sua imagem mais exagerada do que sua substância e
seu ruído mais intenso do que sua certeza.
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O prestígio se transforma em fragilidade
Ironicamente,
esse tipo de retórica, que deveria gerar prestígio, pode acabar expondo
fragilidade. O prestígio na política internacional não é medido apenas pela
capacidade de destruição de um Estado, mas também por sua habilidade de
controlar o ritmo de seu poder e de fazer com que seus adversários e aliados
acreditem que ele sabe o que está fazendo, por que o faz e quando parar.
Quando
o chefe da maior potência se torna uma fonte constante de mensagens
contraditórias — entre falar na conclusão da missão e defender a expansão do
banco de alvos, entre insinuar uma saída e renovar abertamente as ameaças —, a
própria imagem do Estado começa a ruir. O que parece, superficialmente, uma
demonstração de força pode, na realidade, ser evidência de uma autoconfiança
abalada e de uma necessidade constante de elevar o tom para compensar a falta
de certeza.
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O poder que vê apenas o que pode ser bombardeado
Então
surge o dilema mais profundo: a retórica estadunidense atual revela não apenas
confusão na condução da guerra, mas também uma pobreza na compreensão do
próprio mundo. Quando se reduz uma nação com a história do Irã, suas
contribuições civilizacionais e seu peso geopolítico a um alvo que deve ser
“retornado” a um estado pré-civilizacional, revela-se não apenas crueldade, mas
também uma incapacidade de compreender a diferença entre um adversário e o
vazio.
Essa é
uma mentalidade que vê o mundo apenas como algo que pode ser bombardeado,
destruído ou chantageado. Trata-se de uma mentalidade perigosa não apenas para
o Irã, mas para toda a ordem internacional, pois significa que o poder, quando
perde suas restrições políticas e morais, transforma-se de um instrumento a
serviço do equilíbrio em uma máquina de produzir caos, e de um elemento de
dissuasão em uma fábrica de pânico global, que ameaça tanto a região quanto o
mundo.
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Os Estados Unidos diante de seu cruel espelho
Nesse
sentido, a retórica de Trump revela não tanto a verdadeira natureza do Irã,
mas, sim, a verdadeira natureza do próprio momento estadunidense. Estamos
diante de uma potência ainda capaz de atacar, mas menos capaz de convencer o
mundo de que sabe para onde está indo. Estamos diante de um presidente que
confunde a linguagem das campanhas eleitorais com a linguagem da guerra, a
propaganda midiática com a definição de interesses e a ostentação da força com
a formulação de políticas.
Esses
não são apenas traços pessoais repulsivos, mas, sim, sintomas políticos
perigosos quando emanam do chefe da maior potência mundial. Alguém que ameaça
destruir pontes e usinas de energia, enquanto, simultaneamente, fala de uma
vitória iminente não se apresenta como um líder que controla o curso da guerra,
mas, sim, como um homem que persegue a imagem da vitória enquanto seus
fundamentos políticos e morais se corroem ao seu redor.
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Os limites da agressão e os limites do poder
Portanto,
o que está acontecendo hoje não deve ser interpretado apenas como uma agressão
contra o Irã e o Líbano, mas também como um espetáculo revelador dos limites do
próprio poder sionista - estadunidense. Trata-se de um poder capaz de
destruição em larga escala, de expandir seu alcance e de escalar o conflito a
níveis catastróficos. No entanto, até agora não apresentou uma definição
convincente do que acontecerá depois, nem da configuração da região que
pretende subjugar, nem da ordem regional mais estável que poderá emergir dessa
conflagração.
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Quando um império treme
A
questão fundamental é que aqueles que hoje ameaçam levar outros de volta à
“Idade da Pedra” podem não estar revelando um excesso de poder, mas, sim,
inadvertidamente, um tremor profundo nos próprios alicerces do império. Aviões
podem lançar fogo, mas não concedem sabedoria. Ameaças podem criar ruído, mas
não fazem história.
As
verdadeiras civilizações, contudo, perduram e permanecem capazes, mesmo sob
fogo, de expor a fragilidade do poder quando este se expressa na linguagem da
arrogância e do pânico.
Fonte:
Brasil 247

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