No
paraíso brasileiro, o forró que alucina estrangeiros
Nos
últimos dias de 2025, em pleno verão do Rio de Janeiro, uma cena contrastava
com as ruas vazias do centro da cidade, onde se concentram escritórios de
muitas empresas. Na ocasião, eu me juntei a um grupo de pessoas animadas com
seus mochilões e juntos aguardávamos o ônibus que nos levaria rumo à Itaúnas,
uma pequena vila do município de Conceição da Barra, no estado do Espírito
Santo. Do vozerio, destacavam-se expressões em inglês e francês, além de
sotaques estranhos ao chiado carioca. Dunas desenhadas pelo vento, um rio de
cor escura e ondas que se agitam no mar compõem o belo cenário em que
celebraríamos a chegada do novo ano, bem longe dos holofotes da tradicional e
suntuosa queima de fogos da praia de Copacabana, na zona sul da capital
fluminense. É que, além das belezas naturais, a pequena vila também carrega a
fama de ser o epicentro do forró no Sudeste do Brasil, atributo com o qual não
conta a princesinha do mar.
Já em
Itaúnas, após mais de 12 horas de estrada, moradores locais nos contaram que,
antes mesmo da década de 1980, realizava-se um baile ao som de discos de vinil,
muitos deles de forró. É possível que a presença do forró no território seja
ainda mais antiga, mas não há confirmação histórica desse período, quando os
moradores se concentravam do lado esquerdo do rio Itaúnas. À época, houve um
soterramento e a antiga vila sumiu com a formação das dunas, impulsionando seu
deslocamento para o lado direito do rio, conhecido por Itaúnas Nova. Na
migração forçada, o forró foi carregado no matulão dos moradores, ao lado de
manifestações como o ticumbi – muito presente na fala dos habitantes – e o
jongo, ambas atestando a forte presença da memória de negros escravizados
trazidos ao Brasil junto com suas danças e festas.
De lá
para cá, o forró tornou-se o principal atrativo de Itaúnas, movimentando a
economia local. Momento significativo nesse sentido foi a década de 1990,
quando explodiu o chamado forró universitário, marcado por bailes promovidos
por estudantes especialmente na cidade de São Paulo. A pesquisadora Fernanda
Celinga, que desenvolveu sua dissertação de mestrado sobre a região, conta que
data da época a criação, por um morador da vila, do Bar Varandão, onde os
frequentadores podiam apreciar, gratuitamente, bandas das cidades vizinhas. De
acordo com a dissertação Fronteiras entre as dunas: compreendendo a cultura
lúdica na Vila de Itaúnas (ES), em 1996, coube ao morador Tatu levar o Trio
Sabiá, de São Paulo, para se apresentar no seu bar, a primeira iniciativa rumo
ao intenso fluxo de bandas e artistas de grandes cidades observado atualmente.
Reduto
de importância nessa economia é o Bar Forró, que advoga para si a criação do
Festival Nacional de Itaúnas (FENFIT), no início dos anos 2000 – o mais famoso
festival de forró pé-de-serra do Brasil, realizado regularmente no mês de
julho. Atualmente, o Bar divide a cena com o Buraco do Tatu, estabelecimento
também histórico na produção de shows e na recepção de artistas de forró
espalhados pelo país. É do Buraco a criação do nome Paraíso Alucinado para se
referir ao evento que ocorre no final do ano.
As
casas, hoje localizadas lado a lado, oferecem ao público inúmeras atrações
simultâneas – de shows a oficinas de dança –, o que faz com que os ávidos por
forró passem as noites dedicados à tarefa de decidir entre os mais disputados
espetáculos do gênero. Já na alvorada, após horas dançando, forrozeiros se
juntam ao cortejo que sai do Bar Forró, sempre sob a batuta da última banda a
subir ao palco, rumo ao Café Brasil, onde desfrutam de uma manhã de mais forró.
Na
cartografia das atrações da vila, chama atenção a Padaria, uma espécie de
quintal a céu aberto com um pequeno palco, de onde se avistam os dizeres:
“padaria que não faz pão, mas abastece todo mundo”. Acontece que, desde 1999,
forrozeiros desfrutam de boa música sem cobrança de ingressos, tornando o Forró
da Padaria o espaço mais democrático da vila. Caso desejem um café da manhã, é
preciso atravessar a praça principal da vila rumo ao estabelecimento que, de
fato, faz pão. Os versos “forró não é comida, mas com ele eu me alimento”, da
canção do Trio Dona Zefa, parecem nunca ter feito tanto sentido.
A vila,
pequena em extensão, mas imensa em importância para a cena forrozeira, ainda
reserva para si a fama de ter gestado um estilo próprio de dançar forró: o
estilo Itaúnas, em que predomina o jogo de pernas, com pequenos breques e
caminhadas no salão, conforme pesquisado por Ciranilia Cardoso da Silva em sua
tese de doutorado, de título Tradição e modernidade no movimento roots de forró
pé-de-serra.
Criado
por nativos da vila, o estilo atraiu a atenção de outras regiões do Brasil, mas
também de estrangeiros apaixonados pelo forró. Com o passar dos anos, o Itaúnas
foi assimilado ao estilo roots, a despeito de suas diferenças, o que talvez
tenha contribuído para seu amplo alcance. Fala-se que o roots surgiu no
contexto do Rootstock, conhecido festival que acontece em Belo Horizonte,
respondendo por uma mistura do que turistas aprendiam com os nativos de Itaúnas
e a bagagem que traziam do forró dito universitário. A esse propósito,
Ciranilia constatou resistência por parte dos nativos quanto ao uso dessas
nomenclaturas por pessoas que negligenciam seu protagonismo na invenção do
estilo. Daí se constata uma preocupação em preservar o patrimônio do forró, na
tentativa de erigir barreiras à sua apropriação e à falta de merecido
reconhecimento aos pioneiros. Seja
como for, é digna de nota a procura de estrangeiros por esse estilo de dançar,
o que se oferece a ver em cada canto da vila.
Nascido
na França, Lucas de Staël é figura popular nos festivais itaunenses. O francês
já dançava salsa, mas foi à época da pandemia de COVID 19 que começou a fazer
aulas de forró em Paris, centradas no estilo roots, e desde então já esteve no
Brasil cerca de dez vezes. Na capital francesa, ele promove eventos de forró em
seu ateliê, especializado em design de óculos. Quanto ao estilo inventado pelos
nativos, Lucas explica que teve sua primeira aula no ano passado, no período do
Paraíso Alucinado. Tentei que conversássemos em francês, acreditando que assim
seria mais confortável para o entrevistado, mas Lucas fez questão de trocar
suas impressões em português. “Forró é amor”, concluiu.
A
paixão pelo gênero igualmente anima o olhar vibrante da cantora turca Fulya
Ozlem, que dançava por horas a fio sem perder o largo sorriso no rosto. O
encontro da artista com o forró se deu em 2015, em Istambul, cidade onde reside
e integra as atividades do coletivo Forró Istanbul. Nas redes sociais, uma
apresentação do grupo em inglês sugere a celebração de uma dança que
personifica liberdade e paixão. No caso da cantora, tal propósito de celebrar
já rendeu cinco viagens ao Brasil para estudar a dança – primeiro forró e agora
também o samba de gafieira – e ritmos musicais que brotam dos nossos
territórios.
Com um
português impecável, marcado pelo uso de expressões idiomáticas e gírias, Fulya
afirma que dançar é interpretar um sentimento, motivo pelo qual é tão
importante saber falar a língua e compreender os significados das letras ao som
das quais se dança. Quando perguntei se teria aprendido a dançar o estilo
Itaúnas, ela afirmou não conhecer como dançam os nativos, mas que, no momento,
está se empenhando em aulas de roots.
Também
foram em português as primeiras palavras que troquei com a italiana Chiara
Ceratti, em um dos inúmeros shows a que assistimos no Forró da Padaria.
Habitante de Milão, ela divide suas horas de trabalho entre o consultório
odontológico e a escola de dança, destino traçado em 2015, quando, a convite de
uma amiga, na cidade do Porto, em Portugal, conheceu o gênero. A forrozeira
italiana se interessa por diferentes tipos de dança desde a infância, mas o
encontro com o forró foi arrebatador. Ao retornar à sua casa, descobriu o Forró
em Milão, fundado em 2013, um dos coletivos pioneiros na Europa, do qual se
tornou sócia. Hoje em dia, o coletivo oferece aulas semanais de forró, além de
produzir shows e sets de DJ em vinil, prática comum em se tratando de bailes de
forró.
Ao
falar sobre sua paixão, Chiara carrega nas tintas poéticas: “a dança une as
pessoas em um abraço, mesmo sem se conhecerem, confiando uma na outra pelo
tempo de uma música”, prática que vai na contramão de relações mediadas pelas
redes sociais e falta de contato físico, tão naturalizadas na cultura atual. O
ritmo que veio do nordeste do Brasil fez com que ela visitasse Itaúnas quatro
vezes, onde aprendeu o estilo criado pelos nativos da vila. Quanto ao
português, a dançarina revela que, em festivais espalhados mundo afora, os
estrangeiros fazem questão de se comunicar em português. Segundo ela, saber a
língua é fundamental para adentrar a cultura brasileira.
Na
contramão de estrangeiros que chegam ao Brasil já dominando o português, o
israelense Daniel Cohen partiu de Portugal rumo ao Rio de Janeiro sem saber
muito mais do que letras de samba enredo meticulosamente estudadas por meio de
vídeos do YouTube. É que Daniel rege o BatuCactu, um grupo de 14 ritmistas que
incendeia a paisagem do deserto de Negev ao som de bossas e convenções de
escolas de samba cariocas. No avião que o trouxe pela primeira vez ao Brasil, o
músico conheceu uma brasileira que mencionou a existência do Paraíso Alucinado.
Seu encontro com o forró já havia se dado alguns anos antes, em 2022, quando se
deparou com a música Qui nem jiló na voz de Gonzagão, o que despertou seu
desejo de aprender a dançar o ritmo.
Nas
últimas horas de 2025, ele não demonstrava desenvoltura com a dança, tampouco
com o português. Nossas primeiras conversas foram entrecortadas por termos em
inglês, a despeito da minha insistência para que se forçasse a entabular
palavras em português, o que imaginava ser importante para que ele circulasse
mais entre ritmistas de escolas de samba, um dos seus objetivos. Enquanto
escrevo este texto, alguns meses depois, já podemos dizer que Daniel é versado
tanto na dança quanto na língua. Como todos os estrangeiros com os quais tive
contato na cena forrozeira, fez questão de responder às minhas questões em
português.
Incansável
na defesa do forró como patrimônio, o produtor Ayo Barbosa, mineiro radicado em
Berlim, na Alemanha, sustenta a importância da circulação do português no nicho
forrozeiro. Trata-se do nome por trás do festival Miudinho, consolidado em
território alemão desde sua primeira edição, em 2016. Miudinho é um termo
corrente no universo nigeriano, escolhido para imprimir ao evento o caráter de
espaço íntimo, onde se usufrui de segurança para se despir de inibições e
preconceitos, significado cuidadosamente explicado pelo produtor. Ele faz
questão de que os artistas que integram as lineups do seu evento possam falar
português com o público, o que se mostra também nas redes sociais do festival,
onde é possível encontrar legendas tanto em inglês como em português. Na edição
de 2025, Ayo instituiu, no quadro das atrações do festival, uma aula que nomeou
de interação linguística, em que os frequentadores aprendem a dançar ao som dos
nomes dos passos em português.
A
verdade é que, entre giros e rodopios, Itaúnas tem atraído cada vez mais
estrangeiros. É a impressão de Denise Silveira, guia de turismo à frente da Rio
no Forró, empresa responsável por excursões para festivais. Segundo Denise, o
aumento da busca de turistas de fora do Brasil por Itaúnas aumentou
vertiginosamente nos últimos anos, embora não tenha precisado em números tal
crescimento.
Luiz
Gonzaga, alheio aos mais variados estilos de dançar que surgiriam décadas após
a invenção do forró, deu o ar de sua graça no Velho continente, onde o gênero
faz morada hoje em inúmeros festivais e escolas de dança. A convite da cantora
amazonense Nazaré Pereira, então radicada na França, Gonzagão esteve em Paris,
pela primeira vez, em 1982, ocasião em que fez um memorável show no Teatro
Bobino, no famoso bairro de Montparnasse. O causo é narrado em detalhes por uma
francesa, a jornalista Dominique Dreyfus, responsável por escrever aquela que é
considerada a mais completa biografia do rei do baião, intitulada Vida do
viajante: a saga de Luiz Gonzaga.
Sabemos
que, desde os primórdios, o forró cativa e alucina brasileiros, mas também
estrangeiros. Se o movimento é importantíssimo para fazer girar a roda do
multifacetado mercado do nicho forrozeiro, coloca igualmente em pauta o debate
da defesa do gênero como patrimônio. Em 2021, após anos de luta por parte de
trabalhadoras e trabalhadores da cena forrozeira, as matrizes tradicionais do
forró foram reconhecidas como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O título é de suma
importância também para que sejam asseguradas ações de salvaguarda desse bem
cultural, o que se busca por meio de pesquisa e registro, mobilização de atores
da cena forrozeira, reconhecimento de mestres e mestras, articulação institucional,
difusão e valorização, eixos que compõem o Plano de Salvaguarda das Matrizes
Tradicionais do Forró, publicado pelo Iphan em 2024.
Ayo
Barbosa faz questão de afirmar, em muitos dos nossos dedinhos de prosa, que o
forró é porta de entrada para o Brasil. A imagem me parece oportuna ¬– e até
mesmo bonita – para que pensemos sobre como queremos abrir nossas portas e para
quais Brasis elas conduzirão. Quero acreditar que o forró é um convite para
conhecer a força da classe trabalhadora brasileira, marcada por fluxos
migratórios em busca de melhores condições materiais de existência, processo
que não se deu – e nem se dá – sem a resistência por meio da arte e da festa.
Nesse
sentido, saber português adquire centralidade, na medida em que as letras das
músicas narram uma história brasileira que nem sempre reluz na versão tornada
oficial: os flagelos da seca, a abundância das feiras, a fé que cuida do corpo
cansado e faminto, o duplo sentido a gingar entre os interditos, as invenções
(de ritmos, instrumentos e toda sorte de sabedoria), a saudade da terra natal,
o amor distante do romantismo eurocentrado, mas pertinho do coração que pulsa
quando bate o zabumba. História de um povo que, no miudinho, canta e dança não
como um recurso ingênuo, mas como arma de luta também em defesa do nosso
patrimônio.
Fonte:
Por Fernanda Canavêz, no Le Monde

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