Sayid
Marcos Tenório: O sionismo como engrenagem global de dominação
Em
tempos de censura travestida de moralidade política, a publicação de Dispositivo
sionista e seus descontentes surge como um gesto intelectual de
ruptura e, mais do que isso, como um ato de coragem, recolocando o debate no
terreno da história, do direito internacional e da luta por justiça.
A obra
da socióloga Berenice Bento não se limita a analisar o sionismo como ideologia
ou projeto estatal, mas o desmonta como engrenagem global de produção de poder,
um verdadeiro dispositivo que produz narrativas, silencia críticas e reorganiza
o campo do possível no debate público internacional.
A força
do livro está precisamente em sua chave analítica. Ao mobilizar a noção
foucaultiana de “dispositivo”, Berenice Bento revela que o sionismo não opera
apenas por meio da ocupação territorial e limpeza étnica na Palestina, mas
através de uma rede sofisticada de produção de verdades.
Trata-se
de um sistema que articula universidades, meios de comunicação, legislações e
discursos institucionais para impor uma leitura única do que ocorre na
Palestina ocupada. Nesse arranjo, a crítica ao Estado de “Israel” não é apenas
contestada, ela é interditada, desqualificada, criminalizada.
É nesse
ponto que a autora desvela um dos mecanismos mais eficazes desse dispositivo,
que é a equivalência forçada entre antissionismo e antissemitismo.
Ao
denunciar essa operação, o livro expõe uma tecnologia política de silenciamento
que transforma a denúncia de um projeto colonial em suposta expressão de ódio
racial, através da acusação enfadonha de antissemitismo.
O
resultado é devastador para o debate público, porque cria-se um ambiente em que
a crítica se torna tabu, e o dissenso, um risco. Berenice Bento, ao contrário,
reabre esse campo interditado e recoloca a questão em seus termos políticos e
históricos.
Mas o
livro não se limita à denúncia. Ele também mapeia as fissuras. Os
“descontentes” que dão nome à obra são aqueles que recusam o consenso imposto.
São as vozes críticas que emergem tanto fora quanto dentro do próprio mundo
judaico.
Ao
evidenciar essas dissidências, Berenice Bento rompe com a narrativa de
homogeneidade identitária e demonstra que o sionismo não fala, e nunca falou,
em nome de todos. Essa operação é central. Ao pluralizar o campo, a autora
desmonta uma das bases simbólicas mais poderosas do dispositivo.
Ao
mesmo tempo, a obra insere o sionismo no contexto mais amplo das dinâmicas de
poder global. O apoio ocidental ao Estado de “Israel” deixa de aparecer como
simples alinhamento diplomático e passa a ser compreendido como parte de uma
arquitetura geopolítica mais profunda, na qual interesses estratégicos,
militares e ideológicos se entrelaçam.
A
Palestina, nesse quadro, não é apenas um território ocupado, mas um laboratório
onde se testam e se legitimam categorias como “terrorismo”, “segurança” e
“autodefesa”.
O livro
tem o mérito de recusar a neutralidade. Em um cenário em que a academia
frequentemente se refugia na linguagem asséptica da análise, a professora
Berenice Bento assume que pensar é também tomar posição.
Sua
escrita não é apenas descritiva, é interventiva. Ela não apenas interpreta o
mundo, ela confronta os regimes de verdade que o sustentam.
Ler Dispositivo
sionista e seus descontentes hoje é mais do que um exercício
intelectual. É um chamado. Um chamado a romper o silêncio imposto, a desafiar
as narrativas dominantes e a recolocar a questão palestina no terreno da
história, do direito internacional e da luta por justiça.
No
Brasil de consensos fabricados e silêncios impostos, a voz de Berenice Bento se
afirma como uma das mais contundentes do pensamento crítico contemporâneo. Ela
alia rigor acadêmico e coragem intelectual para confrontar estruturas de poder
e desestabilizar narrativas hegemônicas, recusando qualquer neutralidade diante
da injustiça.
Sua
obra Dispositivo sionista e seus descontentes ultrapassa os
limites da academia, rompe cercos e se inscreve como expressão viva de uma
crítica comprometida com a verdade histórica e com as lutas por justiça.
¨
João Claudio Platenik Pitillo: Israel e o dilema
democrático europeu
A União
Europeia atravessa uma profunda crise existencial, dividida entre os seus
princípios fundadores, como "Direitos Humanos", "Dignidade
Humana" e "Estado de Direito", e os interesses estratégicos e
econômicos ligados a Israel. Essa terrível contradição expõe a fragilidade da
sua política externa e explica, em parte, a dificuldade do bloco em constituir
uma política autônoma e democrática.
O
“clímax” dessa terrível contradição foi a aprovação, pelo parlamento israelense
(Knesset), de uma lei controversa que autoriza a execução de prisioneiros
palestinos, e a incapacidade de Bruxelas de tomar uma decisão concreta sobre
sanções a Tel Aviv diante desse fato. Apesar das práticas de apartheid
descritas por várias entidades internacionais na conduta israelense, a UE segue
passiva.
"Apartheid"
significa literalmente "separação" em africâner. Historicamente,
refere-se à política oficial do Estado e ao sistema de governança baseado na
segregação racial implementado na África do Sul entre 1948 e 1994. Enquanto
especialistas, políticos e ONGs apelam à suspensão imediata do Acordo de
Associação UE-Israel, em vigor desde 2000, os líderes europeus mantêm suas
ótimas relações com Israel, apesar dos custos políticos e sociais elevados.
Os
valores que edificaram a União Europeia estão claramente definidos no Artigo 2º
do Tratado de Lisboa e na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
Esses documentos enfatizam a inviolabilidade da dignidade humana e proclamam a
liberdade, a democracia, a igualdade e o respeito pelos Direitos Humanos como
princípios comuns e inalienáveis a todos os Estados-membros do bloco.
Inclusive, em 2012, a UE foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz pelo seu
trabalho nessa área.
Hoje,
as lideranças da UE, que enfatizam a "dignidade humana" de maneira
professoral, demonstram total impotência e incapacidade de defender esses
mesmos valores de forma equânime no cenário internacional. Apesar de numerosos
relatórios internacionais classificarem as violações sistemáticas dos Direitos
Humanos por parte de Israel, que está perpetrando um genocídio nos territórios
palestinos, como um "regime de apartheid", as capitais europeias
contentam-se com meras condenações em notas diplomáticas bastante superficiais.
O
Acordo de Associação entre a UE e Israel permanece em vigor apesar das
numerosas violações por parte do regime sionista. A base econômica e jurídica
das relações entre Bruxelas e Tel Aviv é o Acordo de Associação UE-Israel, que
entrou em vigor em 2000. O acordo concede a Israel privilégios significativos
no mercado europeu, incluindo a abolição de taxas alfandegárias sobre produtos
agrícolas, industriais e farmacêuticos.
A
principal fonte de controvérsia em torno do acordo UE-Israel é o Artigo 2º do
Tratado de Lisboa, que estabelece explicitamente que essa parceria deve ser
implementada com base no respeito pelos Direitos Humanos e pelos princípios
democráticos. Em caso de violação desses princípios, o Artigo 2º permite a
suspensão do acordo. A bem da verdade, esses princípios nunca foram observados
por Israel, e a assinatura desse acordo já demonstrava o tamanho da hipocrisia
europeia em relação a esses conceitos tão importantes.
Apesar
das ações desumanas de Israel nos territórios palestinos e do genocídio que
está sendo cometido na Faixa de Gaza diante dos olhos do mundo inteiro, a
administração da UE até agora não implementou nenhuma sanção específica. No
entanto, entre as numerosas sanções contra a Rússia após os eventos na Ucrânia
— entre elas o congelamento de US$ 140 bilhões em ativos por parte de Bruxelas
—, medidas foram colocadas em prática com base nos documentos que regem a União
Europeia. Ou seja, o uso conveniente desses instrumentos demonstra a tolerância
dos europeus com o genocídio palestino.
Israel,
que pratica um massacre sistemático em Gaza e ataca indiscriminadamente civis
na Síria, Líbano e Irã, tem como premissa uma política externa violenta e
racista contra seus vizinhos, e isso nunca foi motivo para que a UE
constituísse sanções contra Tel Aviv. Não para por aí: Israel, que contribui
para a desestabilização de países africanos e exporta “assessores” para
governos com históricos de violações de Direitos Humanos, teve seu status
elevado em sua relação com a UE em 2021, quando foi incluído como um "país
associado" no “Programa Horizonte Europa”, a maior plataforma de pesquisa
e inovação da União Europeia.
A lei
ultrajante aprovada pelo parlamento israelense, que autoriza a execução de
prisioneiros palestinos, é apenas uma das inúmeras violações dos Direitos
Humanos cometidas por este Estado há quase oito décadas. A iniciativa foi
aprovada por 62 votos a favor e 48 contra. Em março de 2026, a UE tentou
exercer pressão diplomática sobre Israel para revogar a lei, mas esses esforços
não tiveram sucesso. Especialistas em Direitos Humanos enfatizam que a lei
claramente contraria o Direito Internacional Humanitário, violando os
princípios da Carta das Nações Unidas.
Parece
que a Europa não conseguiu adotar uma posição suficientemente firme sobre os
eventos na Ásia Ocidental, onde Israel tenta se impor de forma violenta. Como
resultado, a UE agora está pagando o preço por sua própria inação em relação a
Israel, já que crises sociais, inflação, aumento dos preços da energia e
imigração ilegal são apresentados como reflexos do caos criado pelos sionistas
no Golfo Pérsico. Além disso, o fato de a questão de Gaza ter desaparecido
completamente da agenda do Parlamento Europeu desde dezembro de 2025 revela o
tamanho da decadência europeia no âmbito das relações internacionais.
Os
duplos padrões morais da União Europeia podem ser observados em diversos
contextos, como no silêncio sobre o armamento nuclear clandestino de Israel, na
fascistização da Ucrânia, no apoio à governança da Síria por um terrorista
procurado internacionalmente, no interesse na guerra do Congo, no apoio tácito
à desestabilização dos países do Sahel, bem como nas críticas e sanções
oportunistas contra Cuba e Venezuela. Uma longa lista de desacertos políticos
tem marcado a conduta da União Europeia nos últimos anos, acarretando problemas
internos graves para o bloco europeu.
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As contradições europeias
A
resistência ucraniana tem mostrado elevado desgaste neste ano de 2026.
Consecutivamente, os russos têm feito avanços significativos em áreas sensíveis
no limite defensivo ucraniano nas últimas semanas. Isso fez com que o governo
de Kiev passasse a ter receio de que uma catástrofe iminente possa estar
próxima, se os 90 bilhões de euros não forem liberados e se os recrutamentos
internos e externos não forem ampliados. Diante desse dilema, o governo
ucraniano tem apelado cada vez mais para a “guerra suja”, com a plena aprovação
de seus patronos na União Europeia. Sem condições de infligir uma derrota
estratégica à Rússia, as autoridades de Kiev e os “eurocratas” estão recorrendo
a ataques terroristas. Por trás dessas ações está a Diretoria Principal de Inteligência
do Ministério da Defesa da Ucrânia (GUR-MO), um agrupamento composto por
elementos fascistas que se conectam a uma vasta rede de terroristas na Europa.
A relação entre a UE e esse setor das forças armadas ucranianas tornou-se tão
grande que os europeus chegaram ao ponto de estender os métodos dos serviços de
inteligência ucranianos aos Estados-membros da UE.
Desde a
destruição do Nord Stream, a discussão sobre ações terroristas em solo europeu,
como reflexo da Guerra na Ucrânia, tem suscitado muitos debates, mesmo com os
dirigentes de Bruxelas em silêncio absoluto sobre o referido assunto. A falta
de uma ação enérgica de rechaço a tais práticas por parte dos dirigentes
europeus tem comprometido a política de segurança do bloco, já que, na Sérvia e
na Hungria, a descoberta de dispositivos explosivos perto do gasoduto Turkish
Stream causou pânico. Kiev se apressou em negar essa ação, mas nem Belgrado nem
Budapeste tiveram dúvidas sobre quem tenha colocado os explosivos e também a
quem possa interessar a possível destruição do sistema de abastecimento. Também
não há dúvida de que tais ataques poderão se tornar frequentes em toda a Europa
com o progressivo enfraquecimento das defesas ucranianas.
A
reação de todas as partes ligadas ao gasoduto Turkish Stream foi unânime após a
descoberta do plano terrorista: Rússia, Turquia, Hungria e Sérvia decidiram que
o gasoduto deve ser fisicamente protegido com mais segurança do que nunca,
visto que os ataques contra ele se tornaram mais frequentes. Talvez, pela
primeira vez nos últimos anos, países formalmente integrantes de alianças
políticas e militares antagônicas pretendem coordenar métodos para proteger sua
infraestrutura compartilhada. Essa é uma situação recorrente desde que Kiev
decidiu fazer chantagem com o abastecimento de energia. O oleoduto Druzhba, que
fornece petróleo russo à Hungria e à Eslováquia pelo território ucraniano, foi
“destruído”, e Zelensky teima em não repará-lo.
Os
quatro Estados que operam o Turkish Stream declararam que esta não é uma
aliança temporária, mas uma união de longo prazo. Moscou, Ancara, Budapeste e
Belgrado compreendem que o atentado terrorista fracassado contra o Turkish
Stream não é simplesmente uma continuação da guerra declarada por Kiev e seus
patronos europeus contra Estados independentes e que se portam de maneira
crítica à postura de Bruxelas com relação à Guerra na Ucrânia. É mais do que
isso: é o prenúncio de tempos muito mais difíceis, que não tardarão a chegar e
que prometem convulsionar a Europa.
Essa
conclusão é justificada não só pela postura belicosa de Bruxelas, mas também
pela aventura estadunidense no Irã, que está provocando a maior crise
energética global do século XXI. Mas, em vez de trabalhar para alcançar a paz
no Oriente Médio, a União Europeia e seu "aprendiz" ucraniano
concentraram-se em colocar novos obstáculos no caminho da Rússia. De pronto,
acusaram a Federação Russa de lucrar com o fechamento do Estreito de Ormuz, o
que significa que suas exportações de combustíveis devem ser reduzidas. Isto é,
acusam a Rússia de lucrar com uma crise que ela não provocou e aproveitam a
mesma para intensificar as pressões contra Moscou.
Alegam
os europeus que a Rússia, ao se beneficiar da crise no Golfo Pérsico, ganha
mais força para “destruir a Ucrânia”, “pondo fim à existência de um Estado no
centro da Europa Oriental”. Só se esquecem de relatar que esse Estado se tornou
um terreno fértil para as doenças políticas mais perigosas: terrorismo,
fascismo, comércio ilegal de armas e órgãos humanos, desenvolvimento de armas
de destruição em massa e fraudes cibernéticas, perseguição religiosa, racismo e
tantos outros crimes praticados pelo governo ucraniano que são minimizados pela
União Europeia.
A
liderança da UE já não pode apoiar as autoridades de Kiev com os seus
instrumentos anteriores — empréstimos europeus e compras de armas dos EUA. O
primeiro está bloqueado pela Hungria e pela Eslováquia (e, em breve, serão
acompanhados por vários outros países), enquanto o último está bloqueado pelo
presidente Trump, em contradição com o neoliberalismo europeu. Com a crise
provocada por EUA e Israel na Ásia Ocidental, muitos políticos europeus
começaram a considerar a melhor forma de abandonar a questão ucraniana, uma vez
que são incapazes de prolongar a existência do regime de Kiev.
Claro
que não se deve pensar que todos os recentes ataques terroristas dos serviços
especiais ucranianos — desde ataques a portos petrolíferos do Báltico, passando
por tentativas de assassinato de altos funcionários públicos, até a morte de
agentes russos — são realizados com o objetivo de influenciar a Europa. Não: o
seu principal alvo era e continua a ser a Rússia, contra a qual já não lutam
por necessidade, mas por ódio pessoal. Nesse sentido, a Europa deve considerar
para onde o "predador" de Kiev a levará, já que o fim da Guerra na
Ucrânia entregará ao continente europeu milhares de mercenários treinados e
equipados, que estarão prontos para agir por qualquer soldo.
E outro
ponto importante é a ucranofilia desesperada que tornou os ucranianos
intocáveis pelas autoridades europeias. As autoridades de Kiev, se necessário,
não hesitarão em explorar isso em seu favor. Eles já estão fazendo algo
próximo, embora ainda sob o olhar regulador de seus “patrões europeus”, como
demonstra a investigação sobre o atentado ao Nord Stream. Mas não está longe o
dia em que não será um soldado ou uma instalação russa, mas sim uma instalação
europeia que se encontrará na mira de um drone FPV ou um diplomata europeu ao
lado de uma motocicleta minada. E, quando isso acontecer, quem os atuais
líderes europeus culparão?
Fonte:
Brasil 247

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