quinta-feira, 30 de abril de 2026

Sayid Marcos Tenório: O sionismo como engrenagem global de dominação

Em tempos de censura travestida de moralidade política, a publicação de Dispositivo sionista e seus descontentes surge como um gesto intelectual de ruptura e, mais do que isso, como um ato de coragem, recolocando o debate no terreno da história, do direito internacional e da luta por justiça.

A obra da socióloga Berenice Bento não se limita a analisar o sionismo como ideologia ou projeto estatal, mas o desmonta como engrenagem global de produção de poder, um verdadeiro dispositivo que produz narrativas, silencia críticas e reorganiza o campo do possível no debate público internacional.

A força do livro está precisamente em sua chave analítica. Ao mobilizar a noção foucaultiana de “dispositivo”, Berenice Bento revela que o sionismo não opera apenas por meio da ocupação territorial e limpeza étnica na Palestina, mas através de uma rede sofisticada de produção de verdades. 

Trata-se de um sistema que articula universidades, meios de comunicação, legislações e discursos institucionais para impor uma leitura única do que ocorre na Palestina ocupada. Nesse arranjo, a crítica ao Estado de “Israel” não é apenas contestada, ela é interditada, desqualificada, criminalizada.

É nesse ponto que a autora desvela um dos mecanismos mais eficazes desse dispositivo, que é a equivalência forçada entre antissionismo e antissemitismo. 

Ao denunciar essa operação, o livro expõe uma tecnologia política de silenciamento que transforma a denúncia de um projeto colonial em suposta expressão de ódio racial, através da acusação enfadonha de antissemitismo. 

O resultado é devastador para o debate público, porque cria-se um ambiente em que a crítica se torna tabu, e o dissenso, um risco. Berenice Bento, ao contrário, reabre esse campo interditado e recoloca a questão em seus termos políticos e históricos.

Mas o livro não se limita à denúncia. Ele também mapeia as fissuras. Os “descontentes” que dão nome à obra são aqueles que recusam o consenso imposto. São as vozes críticas que emergem tanto fora quanto dentro do próprio mundo judaico.

Ao evidenciar essas dissidências, Berenice Bento rompe com a narrativa de homogeneidade identitária e demonstra que o sionismo não fala, e nunca falou, em nome de todos. Essa operação é central. Ao pluralizar o campo, a autora desmonta uma das bases simbólicas mais poderosas do dispositivo.

Ao mesmo tempo, a obra insere o sionismo no contexto mais amplo das dinâmicas de poder global. O apoio ocidental ao Estado de “Israel” deixa de aparecer como simples alinhamento diplomático e passa a ser compreendido como parte de uma arquitetura geopolítica mais profunda, na qual interesses estratégicos, militares e ideológicos se entrelaçam. 

A Palestina, nesse quadro, não é apenas um território ocupado, mas um laboratório onde se testam e se legitimam categorias como “terrorismo”, “segurança” e “autodefesa”.

O livro tem o mérito de recusar a neutralidade. Em um cenário em que a academia frequentemente se refugia na linguagem asséptica da análise, a professora Berenice Bento assume que pensar é também tomar posição. 

Sua escrita não é apenas descritiva, é interventiva. Ela não apenas interpreta o mundo, ela confronta os regimes de verdade que o sustentam.

Ler Dispositivo sionista e seus descontentes hoje é mais do que um exercício intelectual. É um chamado. Um chamado a romper o silêncio imposto, a desafiar as narrativas dominantes e a recolocar a questão palestina no terreno da história, do direito internacional e da luta por justiça.

No Brasil de consensos fabricados e silêncios impostos, a voz de Berenice Bento se afirma como uma das mais contundentes do pensamento crítico contemporâneo. Ela alia rigor acadêmico e coragem intelectual para confrontar estruturas de poder e desestabilizar narrativas hegemônicas, recusando qualquer neutralidade diante da injustiça.

Sua obra Dispositivo sionista e seus descontentes ultrapassa os limites da academia, rompe cercos e se inscreve como expressão viva de uma crítica comprometida com a verdade histórica e com as lutas por justiça.

¨      João Claudio Platenik Pitillo: Israel e o dilema democrático europeu

A União Europeia atravessa uma profunda crise existencial, dividida entre os seus princípios fundadores, como "Direitos Humanos", "Dignidade Humana" e "Estado de Direito", e os interesses estratégicos e econômicos ligados a Israel. Essa terrível contradição expõe a fragilidade da sua política externa e explica, em parte, a dificuldade do bloco em constituir uma política autônoma e democrática.

O “clímax” dessa terrível contradição foi a aprovação, pelo parlamento israelense (Knesset), de uma lei controversa que autoriza a execução de prisioneiros palestinos, e a incapacidade de Bruxelas de tomar uma decisão concreta sobre sanções a Tel Aviv diante desse fato. Apesar das práticas de apartheid descritas por várias entidades internacionais na conduta israelense, a UE segue passiva.

"Apartheid" significa literalmente "separação" em africâner. Historicamente, refere-se à política oficial do Estado e ao sistema de governança baseado na segregação racial implementado na África do Sul entre 1948 e 1994. Enquanto especialistas, políticos e ONGs apelam à suspensão imediata do Acordo de Associação UE-Israel, em vigor desde 2000, os líderes europeus mantêm suas ótimas relações com Israel, apesar dos custos políticos e sociais elevados.

Os valores que edificaram a União Europeia estão claramente definidos no Artigo 2º do Tratado de Lisboa e na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Esses documentos enfatizam a inviolabilidade da dignidade humana e proclamam a liberdade, a democracia, a igualdade e o respeito pelos Direitos Humanos como princípios comuns e inalienáveis a todos os Estados-membros do bloco. Inclusive, em 2012, a UE foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho nessa área.

Hoje, as lideranças da UE, que enfatizam a "dignidade humana" de maneira professoral, demonstram total impotência e incapacidade de defender esses mesmos valores de forma equânime no cenário internacional. Apesar de numerosos relatórios internacionais classificarem as violações sistemáticas dos Direitos Humanos por parte de Israel, que está perpetrando um genocídio nos territórios palestinos, como um "regime de apartheid", as capitais europeias contentam-se com meras condenações em notas diplomáticas bastante superficiais.

O Acordo de Associação entre a UE e Israel permanece em vigor apesar das numerosas violações por parte do regime sionista. A base econômica e jurídica das relações entre Bruxelas e Tel Aviv é o Acordo de Associação UE-Israel, que entrou em vigor em 2000. O acordo concede a Israel privilégios significativos no mercado europeu, incluindo a abolição de taxas alfandegárias sobre produtos agrícolas, industriais e farmacêuticos.

A principal fonte de controvérsia em torno do acordo UE-Israel é o Artigo 2º do Tratado de Lisboa, que estabelece explicitamente que essa parceria deve ser implementada com base no respeito pelos Direitos Humanos e pelos princípios democráticos. Em caso de violação desses princípios, o Artigo 2º permite a suspensão do acordo. A bem da verdade, esses princípios nunca foram observados por Israel, e a assinatura desse acordo já demonstrava o tamanho da hipocrisia europeia em relação a esses conceitos tão importantes.

Apesar das ações desumanas de Israel nos territórios palestinos e do genocídio que está sendo cometido na Faixa de Gaza diante dos olhos do mundo inteiro, a administração da UE até agora não implementou nenhuma sanção específica. No entanto, entre as numerosas sanções contra a Rússia após os eventos na Ucrânia — entre elas o congelamento de US$ 140 bilhões em ativos por parte de Bruxelas —, medidas foram colocadas em prática com base nos documentos que regem a União Europeia. Ou seja, o uso conveniente desses instrumentos demonstra a tolerância dos europeus com o genocídio palestino.

Israel, que pratica um massacre sistemático em Gaza e ataca indiscriminadamente civis na Síria, Líbano e Irã, tem como premissa uma política externa violenta e racista contra seus vizinhos, e isso nunca foi motivo para que a UE constituísse sanções contra Tel Aviv. Não para por aí: Israel, que contribui para a desestabilização de países africanos e exporta “assessores” para governos com históricos de violações de Direitos Humanos, teve seu status elevado em sua relação com a UE em 2021, quando foi incluído como um "país associado" no “Programa Horizonte Europa”, a maior plataforma de pesquisa e inovação da União Europeia.

A lei ultrajante aprovada pelo parlamento israelense, que autoriza a execução de prisioneiros palestinos, é apenas uma das inúmeras violações dos Direitos Humanos cometidas por este Estado há quase oito décadas. A iniciativa foi aprovada por 62 votos a favor e 48 contra. Em março de 2026, a UE tentou exercer pressão diplomática sobre Israel para revogar a lei, mas esses esforços não tiveram sucesso. Especialistas em Direitos Humanos enfatizam que a lei claramente contraria o Direito Internacional Humanitário, violando os princípios da Carta das Nações Unidas.

Parece que a Europa não conseguiu adotar uma posição suficientemente firme sobre os eventos na Ásia Ocidental, onde Israel tenta se impor de forma violenta. Como resultado, a UE agora está pagando o preço por sua própria inação em relação a Israel, já que crises sociais, inflação, aumento dos preços da energia e imigração ilegal são apresentados como reflexos do caos criado pelos sionistas no Golfo Pérsico. Além disso, o fato de a questão de Gaza ter desaparecido completamente da agenda do Parlamento Europeu desde dezembro de 2025 revela o tamanho da decadência europeia no âmbito das relações internacionais.

Os duplos padrões morais da União Europeia podem ser observados em diversos contextos, como no silêncio sobre o armamento nuclear clandestino de Israel, na fascistização da Ucrânia, no apoio à governança da Síria por um terrorista procurado internacionalmente, no interesse na guerra do Congo, no apoio tácito à desestabilização dos países do Sahel, bem como nas críticas e sanções oportunistas contra Cuba e Venezuela. Uma longa lista de desacertos políticos tem marcado a conduta da União Europeia nos últimos anos, acarretando problemas internos graves para o bloco europeu.

<><> As contradições europeias

A resistência ucraniana tem mostrado elevado desgaste neste ano de 2026. Consecutivamente, os russos têm feito avanços significativos em áreas sensíveis no limite defensivo ucraniano nas últimas semanas. Isso fez com que o governo de Kiev passasse a ter receio de que uma catástrofe iminente possa estar próxima, se os 90 bilhões de euros não forem liberados e se os recrutamentos internos e externos não forem ampliados. Diante desse dilema, o governo ucraniano tem apelado cada vez mais para a “guerra suja”, com a plena aprovação de seus patronos na União Europeia. Sem condições de infligir uma derrota estratégica à Rússia, as autoridades de Kiev e os “eurocratas” estão recorrendo a ataques terroristas. Por trás dessas ações está a Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia (GUR-MO), um agrupamento composto por elementos fascistas que se conectam a uma vasta rede de terroristas na Europa. A relação entre a UE e esse setor das forças armadas ucranianas tornou-se tão grande que os europeus chegaram ao ponto de estender os métodos dos serviços de inteligência ucranianos aos Estados-membros da UE.

Desde a destruição do Nord Stream, a discussão sobre ações terroristas em solo europeu, como reflexo da Guerra na Ucrânia, tem suscitado muitos debates, mesmo com os dirigentes de Bruxelas em silêncio absoluto sobre o referido assunto. A falta de uma ação enérgica de rechaço a tais práticas por parte dos dirigentes europeus tem comprometido a política de segurança do bloco, já que, na Sérvia e na Hungria, a descoberta de dispositivos explosivos perto do gasoduto Turkish Stream causou pânico. Kiev se apressou em negar essa ação, mas nem Belgrado nem Budapeste tiveram dúvidas sobre quem tenha colocado os explosivos e também a quem possa interessar a possível destruição do sistema de abastecimento. Também não há dúvida de que tais ataques poderão se tornar frequentes em toda a Europa com o progressivo enfraquecimento das defesas ucranianas.

A reação de todas as partes ligadas ao gasoduto Turkish Stream foi unânime após a descoberta do plano terrorista: Rússia, Turquia, Hungria e Sérvia decidiram que o gasoduto deve ser fisicamente protegido com mais segurança do que nunca, visto que os ataques contra ele se tornaram mais frequentes. Talvez, pela primeira vez nos últimos anos, países formalmente integrantes de alianças políticas e militares antagônicas pretendem coordenar métodos para proteger sua infraestrutura compartilhada. Essa é uma situação recorrente desde que Kiev decidiu fazer chantagem com o abastecimento de energia. O oleoduto Druzhba, que fornece petróleo russo à Hungria e à Eslováquia pelo território ucraniano, foi “destruído”, e Zelensky teima em não repará-lo.

Os quatro Estados que operam o Turkish Stream declararam que esta não é uma aliança temporária, mas uma união de longo prazo. Moscou, Ancara, Budapeste e Belgrado compreendem que o atentado terrorista fracassado contra o Turkish Stream não é simplesmente uma continuação da guerra declarada por Kiev e seus patronos europeus contra Estados independentes e que se portam de maneira crítica à postura de Bruxelas com relação à Guerra na Ucrânia. É mais do que isso: é o prenúncio de tempos muito mais difíceis, que não tardarão a chegar e que prometem convulsionar a Europa.

Essa conclusão é justificada não só pela postura belicosa de Bruxelas, mas também pela aventura estadunidense no Irã, que está provocando a maior crise energética global do século XXI. Mas, em vez de trabalhar para alcançar a paz no Oriente Médio, a União Europeia e seu "aprendiz" ucraniano concentraram-se em colocar novos obstáculos no caminho da Rússia. De pronto, acusaram a Federação Russa de lucrar com o fechamento do Estreito de Ormuz, o que significa que suas exportações de combustíveis devem ser reduzidas. Isto é, acusam a Rússia de lucrar com uma crise que ela não provocou e aproveitam a mesma para intensificar as pressões contra Moscou.

Alegam os europeus que a Rússia, ao se beneficiar da crise no Golfo Pérsico, ganha mais força para “destruir a Ucrânia”, “pondo fim à existência de um Estado no centro da Europa Oriental”. Só se esquecem de relatar que esse Estado se tornou um terreno fértil para as doenças políticas mais perigosas: terrorismo, fascismo, comércio ilegal de armas e órgãos humanos, desenvolvimento de armas de destruição em massa e fraudes cibernéticas, perseguição religiosa, racismo e tantos outros crimes praticados pelo governo ucraniano que são minimizados pela União Europeia.

A liderança da UE já não pode apoiar as autoridades de Kiev com os seus instrumentos anteriores — empréstimos europeus e compras de armas dos EUA. O primeiro está bloqueado pela Hungria e pela Eslováquia (e, em breve, serão acompanhados por vários outros países), enquanto o último está bloqueado pelo presidente Trump, em contradição com o neoliberalismo europeu. Com a crise provocada por EUA e Israel na Ásia Ocidental, muitos políticos europeus começaram a considerar a melhor forma de abandonar a questão ucraniana, uma vez que são incapazes de prolongar a existência do regime de Kiev.

Claro que não se deve pensar que todos os recentes ataques terroristas dos serviços especiais ucranianos — desde ataques a portos petrolíferos do Báltico, passando por tentativas de assassinato de altos funcionários públicos, até a morte de agentes russos — são realizados com o objetivo de influenciar a Europa. Não: o seu principal alvo era e continua a ser a Rússia, contra a qual já não lutam por necessidade, mas por ódio pessoal. Nesse sentido, a Europa deve considerar para onde o "predador" de Kiev a levará, já que o fim da Guerra na Ucrânia entregará ao continente europeu milhares de mercenários treinados e equipados, que estarão prontos para agir por qualquer soldo.

E outro ponto importante é a ucranofilia desesperada que tornou os ucranianos intocáveis pelas autoridades europeias. As autoridades de Kiev, se necessário, não hesitarão em explorar isso em seu favor. Eles já estão fazendo algo próximo, embora ainda sob o olhar regulador de seus “patrões europeus”, como demonstra a investigação sobre o atentado ao Nord Stream. Mas não está longe o dia em que não será um soldado ou uma instalação russa, mas sim uma instalação europeia que se encontrará na mira de um drone FPV ou um diplomata europeu ao lado de uma motocicleta minada. E, quando isso acontecer, quem os atuais líderes europeus culparão?

 

Fonte: Brasil 247

 

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