A
educação oceânica: um caminho para a educação básica
O
Brasil é um país continental banhado por rios e oceanos. A orla atlântica cobre
cerca de 5,7 km quadrados, o que é por volta de 40% do território nacional. Nos
últimos anos, a área atlântica se transformou em lugar estratégico para a
soberania do país. Neste lugar, comporta-se por volta de 85% do petróleo, 75%
do gás natural e 45% do pescado produzido no país.
O
estudo dos oceanos, portanto, é parte fundamental para a aprendizagem dos
alunos nas escolas da educação básica. O Brasil aprovou o protocolo de
intenções de inserir a Cultura Oceânica em seus currículos da educação básica.
A ideia procura promover a uma visão integrada dos oceanos, fazendo o
reconhecimento de sua importância para a regulação do clima, e como fator
essencial para erradicar a pobreza, a promoção da saúde, da cultura, da
economia, dentre outros.
Assim,
o Brasil se torna pioneiro na inclusão do chamado “currículo azul”. Esta ação
se insere na chamada “Década oceânica”, articulada dentro dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) patrocinada pela ONU.
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O histórico do conceito de Cultura Oceânica
O
Brasil formalizou em 2025 a inclusão da Cultura Oceânica no currículo da
educação básica, consolidando um processo que se desenvolve há mais de duas
décadas e que conecta educação ambiental, ciência oceânica e políticas de
governança do território marítimo. A medida insere o país em uma agenda global
que reconhece os oceanos como eixo central das respostas às mudanças climáticas
e ao desenvolvimento sustentável.
A
origem desse movimento remonta à Conferência de Tbilisi, realizada em 1977 sob
coordenação da Unesco. O encontro estabeleceu os princípios da educação
ambiental moderna, defendendo a integração entre sociedade e natureza e a
formação de cidadãos críticos e participativos (Unesco, 1978). Esse marco
estruturou a base conceitual da educação ambiental contemporânea.
A
dimensão oceânica permaneceu pouco desenvolvida até o início dos anos 2000.
Entre 2002 e 2004, pesquisadores e educadores nos Estados Unidos estruturaram o
conceito de Ocean Literacy (Cultura Oceânica), definindo a compreensão do
oceano como essencial para entender sua influência sobre a vida humana e o
impacto das ações humanas sobre os mares (Coexploration, 2004).
A
partir da década de 2010, a agenda ganhou escala internacional com a atuação da
Unesco, por meio da incorporação do tema à Agenda 2030 e à Década da Ciência
Oceânica (2021-2030). Em 2020, a organização lançou o Kit Pedagógico “Ocean
Literacy for All”, referência global para implementação da cultura oceânica em
sistemas educacionais (Unesco, 2020; Unesco, 2018). No Brasil, a consolidação
da cultura oceânica ocorre por meio de uma rede crescente de universidades e
instituições de pesquisa que articulam ensino, extensão e produção científica.
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As iniciativas brasileiras na educação básica
Embora
o conceito de Ocean Literacy tenha surgido nos Estados Unidos em 2004, o termo
“Cultura Oceânica” foi introduzido e difundido no Brasil a partir da tradução
oficial do kit pedagógico da Unesco pela Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP). A partir de 2017, o grupo Maré de Ciência (UNIFESP), assim como
outros atores sociais comprometidos com essa temática, passou a atuar na
promoção da Cultura Oceânica por meio da formação de professores e da produção
de materiais didáticos voltados à educação oceânica. Nesse período, o tema
também foi incorporado a discussões mais amplas sobre educação e
sustentabilidade, com o apoio de universidades, da UNESCO e de órgãos
governamentais. Desde então, o Brasil tem estruturado a “Cultura Oceânica” como
uma abordagem educacional.
Outras
instituições como UFSC, UFPA, UFPE, UFPel, UFAL, FURG, IFPE, UECE, entre tantas
outras no Brasil, desenvolvem ações voltadas à integração da temática dos
oceanos em práticas pedagógicas e projetos de extensão, ampliando sua presença
no sistema educacional brasileiro.
No
propósito de difusão e interiorização dessas conquistas, vários atores que vêm
fortalecendo a difusão da cultura oceânica pelo país, destacando-se o Grupo
Biomas (Biodiversidade, Meio Ambiente e Sustentabilidade), vinculado ao
Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e o CEDEPEM (Centro de Estudos
Estratégicos e Planejamento Espacial Marinho), vinculado ao Programa de
Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e
ao INEST da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ambas as instituições atuam
como pontos relevantes de internalização e disseminação da pauta da cultura
oceânica, no campo da educação, formação docente e comunicação científica. Sua
atuação se insere em um esforço de articulação entre ciência, políticas
públicas e sociedade no interior do país. Essas iniciativas integram o projeto
FOrMar (Formação Marinha) que está difundindo a série Oceanos em Quadrinhos,
que utiliza linguagem gráfica popular para aproximar conteúdos científicos do
ambiente escolar. Utilizam-se de criação de materiais didáticos inovadores e
acessíveis, como atlas, vídeos e aplicativos interativos, para difundir o
conhecimento sobre a Educação Oceânica, sempre com a participação dos alunos e
professores.
Como
resultado desse conjunto de iniciativas, a educação oceânica consolida-se no
Brasil como um campo interdisciplinar em expansão, articulando educação,
ciência e extensão em diferentes níveis de ensino e regiões do país. Esse
movimento fortalece a compreensão do oceano como parte essencial da vida
social, econômica e ambiental brasileira, estimulando a formação de uma
cidadania mais crítica e comprometida com a sustentabilidade dos ecossistemas
marinhos e costeiros.
Fonte:
Por Danilo Sorato e Etiene Villela Marroni, no Le Monde

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