quinta-feira, 30 de abril de 2026

A educação oceânica: um caminho para a educação básica

O Brasil é um país continental banhado por rios e oceanos. A orla atlântica cobre cerca de 5,7 km quadrados, o que é por volta de 40% do território nacional. Nos últimos anos, a área atlântica se transformou em lugar estratégico para a soberania do país. Neste lugar, comporta-se por volta de 85% do petróleo, 75% do gás natural e 45% do pescado produzido no país.

O estudo dos oceanos, portanto, é parte fundamental para a aprendizagem dos alunos nas escolas da educação básica. O Brasil aprovou o protocolo de intenções de inserir a Cultura Oceânica em seus currículos da educação básica. A ideia procura promover a uma visão integrada dos oceanos, fazendo o reconhecimento de sua importância para a regulação do clima, e como fator essencial para erradicar a pobreza, a promoção da saúde, da cultura, da economia, dentre outros.

Assim, o Brasil se torna pioneiro na inclusão do chamado “currículo azul”. Esta ação se insere na chamada “Década oceânica”, articulada dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) patrocinada pela ONU.

<><> O histórico do conceito de Cultura Oceânica

O Brasil formalizou em 2025 a inclusão da Cultura Oceânica no currículo da educação básica, consolidando um processo que se desenvolve há mais de duas décadas e que conecta educação ambiental, ciência oceânica e políticas de governança do território marítimo. A medida insere o país em uma agenda global que reconhece os oceanos como eixo central das respostas às mudanças climáticas e ao desenvolvimento sustentável.

A origem desse movimento remonta à Conferência de Tbilisi, realizada em 1977 sob coordenação da Unesco. O encontro estabeleceu os princípios da educação ambiental moderna, defendendo a integração entre sociedade e natureza e a formação de cidadãos críticos e participativos (Unesco, 1978). Esse marco estruturou a base conceitual da educação ambiental contemporânea.

A dimensão oceânica permaneceu pouco desenvolvida até o início dos anos 2000. Entre 2002 e 2004, pesquisadores e educadores nos Estados Unidos estruturaram o conceito de Ocean Literacy (Cultura Oceânica), definindo a compreensão do oceano como essencial para entender sua influência sobre a vida humana e o impacto das ações humanas sobre os mares (Coexploration, 2004).

A partir da década de 2010, a agenda ganhou escala internacional com a atuação da Unesco, por meio da incorporação do tema à Agenda 2030 e à Década da Ciência Oceânica (2021-2030). Em 2020, a organização lançou o Kit Pedagógico “Ocean Literacy for All”, referência global para implementação da cultura oceânica em sistemas educacionais (Unesco, 2020; Unesco, 2018). No Brasil, a consolidação da cultura oceânica ocorre por meio de uma rede crescente de universidades e instituições de pesquisa que articulam ensino, extensão e produção científica.

<><> As iniciativas brasileiras na educação básica

Embora o conceito de Ocean Literacy tenha surgido nos Estados Unidos em 2004, o termo “Cultura Oceânica” foi introduzido e difundido no Brasil a partir da tradução oficial do kit pedagógico da Unesco pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). A partir de 2017, o grupo Maré de Ciência (UNIFESP), assim como outros atores sociais comprometidos com essa temática, passou a atuar na promoção da Cultura Oceânica por meio da formação de professores e da produção de materiais didáticos voltados à educação oceânica. Nesse período, o tema também foi incorporado a discussões mais amplas sobre educação e sustentabilidade, com o apoio de universidades, da UNESCO e de órgãos governamentais. Desde então, o Brasil tem estruturado a “Cultura Oceânica” como uma abordagem educacional.

Outras instituições como UFSC, UFPA, UFPE, UFPel, UFAL, FURG, IFPE, UECE, entre tantas outras no Brasil, desenvolvem ações voltadas à integração da temática dos oceanos em práticas pedagógicas e projetos de extensão, ampliando sua presença no sistema educacional brasileiro.

No propósito de difusão e interiorização dessas conquistas, vários atores que vêm fortalecendo a difusão da cultura oceânica pelo país, destacando-se o Grupo Biomas (Biodiversidade, Meio Ambiente e Sustentabilidade), vinculado ao Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e o CEDEPEM (Centro de Estudos Estratégicos e Planejamento Espacial Marinho), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e ao INEST da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ambas as instituições atuam como pontos relevantes de internalização e disseminação da pauta da cultura oceânica, no campo da educação, formação docente e comunicação científica. Sua atuação se insere em um esforço de articulação entre ciência, políticas públicas e sociedade no interior do país. Essas iniciativas integram o projeto FOrMar (Formação Marinha) que está difundindo a série Oceanos em Quadrinhos, que utiliza linguagem gráfica popular para aproximar conteúdos científicos do ambiente escolar. Utilizam-se de criação de materiais didáticos inovadores e acessíveis, como atlas, vídeos e aplicativos interativos, para difundir o conhecimento sobre a Educação Oceânica, sempre com a participação dos alunos e professores.

Como resultado desse conjunto de iniciativas, a educação oceânica consolida-se no Brasil como um campo interdisciplinar em expansão, articulando educação, ciência e extensão em diferentes níveis de ensino e regiões do país. Esse movimento fortalece a compreensão do oceano como parte essencial da vida social, econômica e ambiental brasileira, estimulando a formação de uma cidadania mais crítica e comprometida com a sustentabilidade dos ecossistemas marinhos e costeiros.

 

Fonte: Por Danilo Sorato e Etiene Villela Marroni, no Le Monde

 

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