quinta-feira, 30 de abril de 2026

Reacionarismo e progressismo na escola

Aqueles que trabalham com a pesquisa sobre a juventude na sociedade contemporânea têm sido cada vez mais confrontados com o cenário preocupante de crise que afeta de maneira particularmente intensa esse segmento da população. Esse quadro inclui indicadores alarmantes relacionados ao sofrimento psíquico e à saúde mental, além de desdobramentos político-ideológicos que têm suscitado crescente atenção e inquietação no debate público e acadêmico.

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) comentados por Pochmann, vivemos uma severa crise da saúde psíquica em que a instabilidade, o sofrimento psíquico, o senso de não-pertencimento significam o “colapso das expectativas sociais” para toda uma geração. Os mais jovens, em especial, sofrem pelas tendências neoliberais da pressão por desempenho, da concorrência, da precarização, das baixas perspectivas e da interiorização do fracasso.

Os adolescentes, ao contrário da ingenuidade infantil e dos repertórios de ocultação adultos, amadurecem já tendo de lidar com a hostilidade e a violência da nova gramática social, resultando numa crescente histórica do senso de não-pertencimento, da depressão, dos casos de automutilação, da agressividade e do suicídio. Eles também se tornam público-alvo para a desinformação e propaganda fascista que espalha as ideias de hierarquia, violência, misoginia e racismo.

Seria a lógica reacionária hegemônica entre os jovens? Se tal for o caso, estaríamos diante de um cenário mais sombrio do que aquele imaginado pelos frankfurtianos, a derradeira conciliação entre integração e colapso. Em tal hipótese, a crise político-econômica seria acompanhada pela pauperização e adesão ideológica aos discursos extremistas e autoritários de forma inconteste. Vejamos mais de perto alguns dados que podem nos ajudar a captar a tensão entre reacionarismo e progressismo no ambiente escolar.

A pesquisa “A literacia digital como prática para a desconstrução de subjetividades autoritárias na educação básica brasileira”, coordenada por Débora Messemberg, Sayonara Leal, Haydée Caruso e Paulo Lima Jr., da qual também participo, buscou levantar dados quantitativos e qualitativos acerca das disposições autoritárias entre jovens do 1º ano do Ensino Médio nas escolas públicas do Distrito Federal.

A etapa quantitativa da pesquisa aplicou 1154 questionários a estudantes de 9 escolas, levantando dados que vão desde as expectativas com relação à política até aquelas relacionadas à família, à religião, à ciência e às perspectivas de emprego. Enumeraremos aqui apenas alguns dados que nos ajudam a responder a pergunta acima, mas uma visão bem mais completa pode ser obtida pela consulta ao relatório da pesquisa referida.

Uma primeira aproximação acerca da posição política dos participantes poderia confirmar nossos receios, porque, em sintonia com tendências gerais da sociedade, o rótulo de “esquerda” parece ter perdido prestígio quando constatamos que apenas aproximadamente 1 em cada 5 dos estudantes a reivindica (19%), enquanto quase o dobro deles se pretende de direita (37,4%) e mais do que o dobro se reivindica de centro (43,6%).

Posicionamento político.

Se observarmos outros resultados da pesquisa, no entanto, poderemos perceber um cenário mais contraditório em que se imbricam progressismo e reacionarismo, autoritarismo e tolerância, conservadorismo e crítica social. Devemos compreender que, na batalha identitária que presenciamos, “ser de direita” é associar-se à tradição, à religião e a figuras como Jair Bolsonaro ou Nikolas Ferreira; a esquerda é compreendida a partir de formas de pensamento inclusivas e liberais (nos costumes), ao estatismo, à defesa dos direitos das minorias e a figuras como Lula ou Érica Hilton.

O mal-estar neomalthusiano, a corrosão dos valores partilhados, a formação de uma população sobrante e a precarização laboral e das condições de vida são sentidos por todos. No entanto, a solução imaginária para tais contradições reais parece ser sintetizada pelos indivíduos da amostra em ideologias, slogans e bandeiras que não expressam um sistema coerente de ideias, não têm compromisso com a concatenação política nos termos em que pensam os acadêmicos e podem ser flexibilizadas de acordo com temas, contextos e interlocutores.

Dessa maneira, no quesito econômico, os respondentes se inclinam para leituras críticas com relação ao capitalismo neoliberal de forma bastante nítida, expressando a percepção de um conflito de interesses entre empresários e classe trabalhadora. Os estudantes concordam em 53,6% que “a exploração dos mais pobres pelos mais ricos” é o principal motivo para a desigualdade social no Brasil, enquanto somente 29,9% acham que os patrões devem ter liberdade para determinar o salário dos empregados.

Dessa maneira, a percepção ou a intuição acerca dos processos de exploração se sobrepõe largamente aos argumentos meritocráticos da direita, os quais os inclinaria a aceitar as ideias de diferença inata entre as pessoas (14,6%) ou de “falta de esforço” (8,3%). A percepção de injustiça econômica e espoliação também supera em mais de duas vezes a temática dominante dos progressismos contemporâneos acerca da centralidade da discriminação racial e de gênero (23,5%).

Coerentemente, 70,9% e 61% dos estudantes concordam que os ricos devem pagar mais impostos e que os impostos são importantes para o desenvolvimento econômico e social.

Sobre a desigualdade no Brasil.

Não deveria parecer incongruente que os mesmos estudantes sejam seduzidos pela ideologia do empreendedorismo quando se comparam esses dados com os dados do Datafolha de que 68% dos brasileiros entre 16 e 24 anos preferem trabalhar por “conta própria” do que estruturas empresariais tradicionais. A recusa da figura do patrão e o apelo à liberdade nos processos de uberização fazem com que o desejo de liberdade seja cooptado pelo “leviatã em pele de cordeiro” do mercado.

A ideologia em questão envolve limitar a crítica ao modelo CLT, estigmatizando as leis trabalhistas e mascarando a lógica interna do capitalismo, que produz estruturalmente a desigualdade e precarização. Como Boltanski e Chiapello argumentaram sobre o “novo espírito do capitalismo”, a crítica à burocracia se tornou dominante à medida que a ideologia da autonomia pessoal, flexibilidade e liberdade foi se consolidando como justificativa e legitimação capitalista. Por outro lado, nota-se que para os respondentes, a igualdade continua a ser o valor mais desejado (66,4%), o mais importante para uma sociedade justa.

Valores considerados importantes para uma sociedade justa.

Apesar de as condições materiais fornecerem indicadores contundentes acerca da ambivalência da juventude em questões políticas, percebem-se contradições igualmente importantes nos campos morais e religiosos. Se 70,5% dos respondentes concordam que “O modelo tradicional de família, com pai, mãe e filhos, é a base da sociedade e deve ser protegido”, 65,2% admitem que a “família pode assumir diversas formas, além do casamento tradicional” e o mesmo percentual concorda que “pessoas do mesmo sexo devem ter o direito de se casar e constituir família”. Além disso, 82% afirmam que a escola deve ensinar o direito à diferença de identidades e orientações sexuais.

Assim sendo, os jovens em nossa pesquisa parecem conciliar um senso de normatividade bastante conservador com posições abstratamente universalistas em matéria de direitos e diversidade. Embora aqui pese a tendência dos indivíduos a se adequarem a padrões morais considerados aceitáveis, dados qualitativos de momentos posteriores da pesquisa parecem sugerir que as ideologias reacionárias encontram limitações práticas muito significativas em sua pretensão de responder à frustração dos indivíduos.

Creio que o caráter defensivo imposto pela concorrência universal, pela luta no mercado de identidades, reflete aquilo que Vladimir Safatle recentemente nomeou como “militarização da subjetividade”. Porém, a insensibilidade e a indiferença com relação aos demais que a autopreservação impõe nesse contexto estão em contradição com a experiência concreta de alteridade na comunidade escolar – por exemplo, os colegas próximos que dão carne ao outro ideológico.

Essa experiência cotidiana continua a ser um entrave para a chamada “polarização” (que sempre foi bastante assimétrica) e parece ser o que explica o predomínio do “centrismo” e o dado de que 66,6% dos participantes declaram não se interessar por política, apesar do ambiente escolar ser atravessado pela política. Se a experiência dos estudantes mais politizados é uma batalha “marcada por posicionamentos reativos, individualizados e moralizantes, produtores de autocensura, vigilância e medo de represálias entre estudantes e professores”, para a maioria centrista, “o desinteresse político surge como estratégia de proteção diante do ambiente político hostil”.

O autoritarismo se apresenta como solução para um grande número de jovens porque é a afirmação da vontade num mundo em colapso, a força como solução imaginária para a desesperança. O prognóstico para o próximo período é que o apelo neofascista continue a pressionar os jovens a abandonar as trincheiras do desinteresse político, porque a guerra de atrito cede espaço para a guerra de movimento.

A tarefa de quem se opõe ao fascismo é contribuir para o mapeamento cognitivo do mal-estar social, ou seja, nomear e organizar melhor do que o inimigo a frustração coletiva.

 

Fonte: Por Thomas Amorim, em A Terra é Redonda

 

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