Reacionarismo
e progressismo na escola
Aqueles
que trabalham com a pesquisa sobre a juventude na sociedade contemporânea têm
sido cada vez mais confrontados com o cenário preocupante de crise que afeta de
maneira particularmente intensa esse segmento da população. Esse quadro inclui
indicadores alarmantes relacionados ao sofrimento psíquico e à saúde mental,
além de desdobramentos político-ideológicos que têm suscitado crescente atenção
e inquietação no debate público e acadêmico.
De
acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) comentados
por Pochmann, vivemos uma severa crise da saúde psíquica em que a
instabilidade, o sofrimento psíquico, o senso de não-pertencimento significam o
“colapso das expectativas sociais” para toda uma geração. Os mais jovens, em
especial, sofrem pelas tendências neoliberais da pressão por desempenho, da
concorrência, da precarização, das baixas perspectivas e da interiorização do
fracasso.
Os
adolescentes, ao contrário da ingenuidade infantil e dos repertórios de
ocultação adultos, amadurecem já tendo de lidar com a hostilidade e a violência
da nova gramática social, resultando numa crescente histórica do senso de
não-pertencimento, da depressão, dos casos de automutilação, da agressividade e
do suicídio. Eles também se tornam público-alvo para a desinformação e
propaganda fascista que espalha as ideias de hierarquia, violência, misoginia e
racismo.
Seria a
lógica reacionária hegemônica entre os jovens? Se tal for o caso, estaríamos
diante de um cenário mais sombrio do que aquele imaginado pelos frankfurtianos,
a derradeira conciliação entre integração e colapso. Em tal hipótese, a crise
político-econômica seria acompanhada pela pauperização e adesão ideológica aos
discursos extremistas e autoritários de forma inconteste. Vejamos mais de perto
alguns dados que podem nos ajudar a captar a tensão entre reacionarismo e
progressismo no ambiente escolar.
A
pesquisa “A literacia digital como prática para a desconstrução de
subjetividades autoritárias na educação básica brasileira”, coordenada por
Débora Messemberg, Sayonara Leal, Haydée Caruso e Paulo Lima Jr., da qual
também participo, buscou levantar dados quantitativos e qualitativos acerca das
disposições autoritárias entre jovens do 1º ano do Ensino Médio nas escolas
públicas do Distrito Federal.
A etapa
quantitativa da pesquisa aplicou 1154 questionários a estudantes de 9 escolas,
levantando dados que vão desde as expectativas com relação à política até
aquelas relacionadas à família, à religião, à ciência e às perspectivas de
emprego. Enumeraremos aqui apenas alguns dados que nos ajudam a responder a
pergunta acima, mas uma visão bem mais completa pode ser obtida pela consulta
ao relatório da pesquisa referida.
Uma
primeira aproximação acerca da posição política dos participantes poderia
confirmar nossos receios, porque, em sintonia com tendências gerais da
sociedade, o rótulo de “esquerda” parece ter perdido prestígio quando
constatamos que apenas aproximadamente 1 em cada 5 dos estudantes a reivindica
(19%), enquanto quase o dobro deles se pretende de direita (37,4%) e mais do
que o dobro se reivindica de centro (43,6%).
Posicionamento
político.
Se
observarmos outros resultados da pesquisa, no entanto, poderemos perceber um
cenário mais contraditório em que se imbricam progressismo e reacionarismo,
autoritarismo e tolerância, conservadorismo e crítica social. Devemos
compreender que, na batalha identitária que presenciamos, “ser de direita” é
associar-se à tradição, à religião e a figuras como Jair Bolsonaro ou Nikolas
Ferreira; a esquerda é compreendida a partir de formas de pensamento inclusivas
e liberais (nos costumes), ao estatismo, à defesa dos direitos das minorias e a
figuras como Lula ou Érica Hilton.
O
mal-estar neomalthusiano, a corrosão dos valores partilhados, a formação de uma
população sobrante e a precarização laboral e das condições de vida são
sentidos por todos. No entanto, a solução imaginária para tais contradições
reais parece ser sintetizada pelos indivíduos da amostra em ideologias, slogans
e bandeiras que não expressam um sistema coerente de ideias, não têm
compromisso com a concatenação política nos termos em que pensam os acadêmicos
e podem ser flexibilizadas de acordo com temas, contextos e interlocutores.
Dessa
maneira, no quesito econômico, os respondentes se inclinam para leituras
críticas com relação ao capitalismo neoliberal de forma bastante nítida,
expressando a percepção de um conflito de interesses entre empresários e classe
trabalhadora. Os estudantes concordam em 53,6% que “a exploração dos mais
pobres pelos mais ricos” é o principal motivo para a desigualdade social no
Brasil, enquanto somente 29,9% acham que os patrões devem ter liberdade para
determinar o salário dos empregados.
Dessa
maneira, a percepção ou a intuição acerca dos processos de exploração se
sobrepõe largamente aos argumentos meritocráticos da direita, os quais os
inclinaria a aceitar as ideias de diferença inata entre as pessoas (14,6%) ou
de “falta de esforço” (8,3%). A percepção de injustiça econômica e espoliação
também supera em mais de duas vezes a temática dominante dos progressismos
contemporâneos acerca da centralidade da discriminação racial e de gênero
(23,5%).
Coerentemente,
70,9% e 61% dos estudantes concordam que os ricos devem pagar mais impostos e
que os impostos são importantes para o desenvolvimento econômico e social.
Sobre a
desigualdade no Brasil.
Não
deveria parecer incongruente que os mesmos estudantes sejam seduzidos pela
ideologia do empreendedorismo quando se comparam esses dados com os dados do
Datafolha de que 68% dos brasileiros entre 16 e 24 anos preferem trabalhar por
“conta própria” do que estruturas empresariais tradicionais. A recusa da figura
do patrão e o apelo à liberdade nos processos de uberização fazem com que o
desejo de liberdade seja cooptado pelo “leviatã em pele de cordeiro” do
mercado.
A
ideologia em questão envolve limitar a crítica ao modelo CLT, estigmatizando as
leis trabalhistas e mascarando a lógica interna do capitalismo, que produz
estruturalmente a desigualdade e precarização. Como Boltanski e Chiapello
argumentaram sobre o “novo espírito do capitalismo”, a crítica à burocracia se
tornou dominante à medida que a ideologia da autonomia pessoal, flexibilidade e
liberdade foi se consolidando como justificativa e legitimação capitalista. Por
outro lado, nota-se que para os respondentes, a igualdade continua a ser o
valor mais desejado (66,4%), o mais importante para uma sociedade justa.
Valores
considerados importantes para uma sociedade justa.
Apesar
de as condições materiais fornecerem indicadores contundentes acerca da
ambivalência da juventude em questões políticas, percebem-se contradições
igualmente importantes nos campos morais e religiosos. Se 70,5% dos
respondentes concordam que “O modelo tradicional de família, com pai, mãe e
filhos, é a base da sociedade e deve ser protegido”, 65,2% admitem que a
“família pode assumir diversas formas, além do casamento tradicional” e o mesmo
percentual concorda que “pessoas do mesmo sexo devem ter o direito de se casar
e constituir família”. Além disso, 82% afirmam que a escola deve ensinar o
direito à diferença de identidades e orientações sexuais.
Assim
sendo, os jovens em nossa pesquisa parecem conciliar um senso de normatividade
bastante conservador com posições abstratamente universalistas em matéria de
direitos e diversidade. Embora aqui pese a tendência dos indivíduos a se
adequarem a padrões morais considerados aceitáveis, dados qualitativos de
momentos posteriores da pesquisa parecem sugerir que as ideologias reacionárias
encontram limitações práticas muito significativas em sua pretensão de
responder à frustração dos indivíduos.
Creio
que o caráter defensivo imposto pela concorrência universal, pela luta no
mercado de identidades, reflete aquilo que Vladimir Safatle recentemente nomeou
como “militarização da subjetividade”. Porém, a insensibilidade e a indiferença
com relação aos demais que a autopreservação impõe nesse contexto estão em
contradição com a experiência concreta de alteridade na comunidade escolar –
por exemplo, os colegas próximos que dão carne ao outro ideológico.
Essa
experiência cotidiana continua a ser um entrave para a chamada “polarização”
(que sempre foi bastante assimétrica) e parece ser o que explica o predomínio
do “centrismo” e o dado de que 66,6% dos participantes declaram não se
interessar por política, apesar do ambiente escolar ser atravessado pela
política. Se a experiência dos estudantes mais politizados é uma batalha
“marcada por posicionamentos reativos, individualizados e moralizantes,
produtores de autocensura, vigilância e medo de represálias entre estudantes e
professores”, para a maioria centrista, “o desinteresse político surge como
estratégia de proteção diante do ambiente político hostil”.
O
autoritarismo se apresenta como solução para um grande número de jovens porque
é a afirmação da vontade num mundo em colapso, a força como solução imaginária
para a desesperança. O prognóstico para o próximo período é que o apelo
neofascista continue a pressionar os jovens a abandonar as trincheiras do
desinteresse político, porque a guerra de atrito cede espaço para a guerra de
movimento.
A
tarefa de quem se opõe ao fascismo é contribuir para o mapeamento cognitivo do
mal-estar social, ou seja, nomear e organizar melhor do que o inimigo a
frustração coletiva.
Fonte:
Por Thomas Amorim, em A Terra é Redonda

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