Jorge
Messias: a trajetória do evangélico indicado por Lula ao STF que ficou famoso
na Lava Jato
Indicado
pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a uma vaga de ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado-geral da União, Jorge Messias, foi
sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado nesta
quarta-feira (29/04). Essa é uma etapa decisiva do processo: Messias precisa do
aval da CCJ e, em seguida, do plenário do Senado — onde precisará da maioria
absoluta dos votos — para assumir o cargo na corte. A indicação de Messias
ocorreu em novembro do ano passado para ocupar a cadeira deixada pelo ministro
Luís Roberto Barroso, que se aposentou em outubro. Ele é o terceiro nome
indicado por Lula ao STF neste mandato.
Jorge
Rodrigo Araújo Messias tem 45 anos, é graduado em Direito e tem mestrado e
doutorado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional pela Universidade de
Brasília. Ele é procurador da Fazenda Nacional desde 2007 e ocupou diversos
cargos em gestões petistas, como subchefe para Assuntos Jurídicos da
Presidência da República, secretário de regulação e supervisão da educação
superior do Ministério da Educação e consultor jurídico dos ministérios da
Educação e da Ciência. Quando a presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment,
em 2016, Jorge Messias entendeu que se tratava de uma "dolorosa
derrota" de um projeto político, conforme escreveu em sua tese de
doutorado. Ele avaliou no texto que os mandatos petistas, entre 2003 e 2016,
tinham sido "um templo de planos generosos", mas cuja "fantasia
logo seria desfeita".
O
trabalho, apresentado em 2024 na UnB (Universidade de Brasília), é centrado no
papel da instituição por ele dirigida, a Advocacia-Geral da União (AGU). O
título do trabalho é O Centro do Governo e a AGU: estratégias de
desenvolvimento do Brasil na sociedade de risco global, e busca responder à
pergunta sobre como o núcleo do governo e a Advocacia-Geral da União
"podem contribuir para a implementação de uma estratégia de
desenvolvimento moderna, centrada não apenas na convergência econômica, mas também
no enfrentamento e adaptação aos riscos globais".
Segundo
fontes ouvidas pela BBC News Brasil, Messias é alguém de perfil técnico, mas
que soube transitar no mundo político desde cedo. "Quem vive em Brasília
sabe que existe um abismo gigantesco entre o mundo político e o dos
concursados, mesmo trabalhando ao lado deles. Existem rituais muito
particulares de cada um", diz um servidor que já trabalhou com ele.
"O Messias faz bem esse trânsito de quem chega em Brasília pela
burocracia, mas entra para o mundo da política", diz outro servidor. Foi
em um desses cargos que Messias ganhou projeção nacional, justamente em uma
situação que envolvia Lula e a ex-presidente Dilma.
No dia
16 de março de 2016, o então juiz federal Sérgio Moro, responsável por julgar
os casos da Lava Jato na primeira instância da Justiça, tornou pública a
gravação de uma conversa telefônica entre Lula e a então presidente da
República Dilma Rousseff.
Dilma
diz a Lula que o advogado Jorge Messias, então assessor palaciano, levaria a
ele um documento para que Lula pudesse tomar posse como ministro-chefe da Casa
Civil. Para os investigadores, tratava-se de uma manobra para dar a Lula foro
privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF), retardando as investigações
contra ele - o que Dilma e Lula sempre negaram. Mais tarde, o próprio Moro
reconheceu que errou ao aceitar a gravação como prova, já que a conversa
aconteceu fora do horário determinado pelo então juiz para a interceptação
telefônica feita pela PF. A gravação ganhou também sua própria sequência de
"memes" já que a pronúncia do nome de Messias soava como
"Bessias" na voz da então presidente — nos bastidores, comentou-se
que ela estaria resfriada naquele momento.
Relembre
o diálogo:
DILMA:
Alô.
LULA:
Alô.
DILMA:
LULA, deixa eu te falar uma coisa.
LULA:
Fala querida.
DILMA:
Seguinte, eu tô mandando o "BESSIAS" junto com o PAPEL pra gente ter
ele, e só usa em caso de necessidade, que é o TERMO DE POSSE, tá?!
LULA:
"Uhum". Tá bom, tá bom.
DILMA:
Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.
LULA:
Tá bom, eu tô aqui, eu fico aguardando.
DILMA:
Tá?!
LULA:
Tá bom.
DILMA:
Tchau
LULA:
Tchau, querida.
"Esse
cargo que ele ocupava na época da ligação já era de quem está completamente
inserido no mundo político. É uma demonstração pública da confiança que Lula
tem nele", diz uma pessoa que tem contatos frequentes com o chefe da AGU.
Para esta fonte, a proximidade com Lula e o PT não significa, necessariamente,
que isso se traduziria em votos favoráveis ao governo no Supremo. "Ele
seria um ministro que sabe jogar, tomar decisões ponderando questões políticas.
A lealdade, que foi conveniente até o momento, não é necessariamente absoluta e
cega. Tem algo muito positivo a favor dele, que é conhecer a máquina
pública", diz a professora da UNB Magda de Lima Lúcio, que foi sua
orientadora no mestrado e no doutorado. A orientadora avalia que Messias
"dá respostas rápidas" e costuma "encontrar alternativas para
problemas que conseguem apaziguar o ambiente e trazer elementos relevantes para
uma solução."
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'Eu caminho com Deus há 40 anos'
"Eu
caminho com Deus há 40 anos. Foi a partir dos ensinamentos que eu tive na
Bíblia, de amar ao próximo, de perdoar, de repartir o pão. Ora, Jesus com cinco
pães e dois peixinhos multiplicou para a multidão e não teve desperdício."
Assim começa um vídeo com Messias, divulgado pela Fundação Perseu Abramo, no
ano passado, com o objetivo de apresentar pessoas ligadas ao Partido dos
Trabalhadores que são cristãos evangélicos. Messias é ligado à Igreja Batista.
Em
outubro, o presidente Lula recebeu duas lideranças evangélicas no Palácio do
Planalto, o bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira, e o
deputado federal Cezinha de Madureira (PSD-SP), e posou para foto. Junto dele
estava Messias.
"Um
encontro especial, de emoção e fé, compartilhado com o advogado-geral da União,
Jorge Messias, e a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann",
escreveu Lula em suas redes sociais. Lula disse que a conversa envolveu o
crescimento da igreja e o acolhimento aos fiéis. "Pude reiterar a relação
de respeito que tenho pela Assembleia de Deus e o relevante trabalho espiritual
e social promovido pela igreja."
Esse
lado religioso é tido como uma vantagem de indicar Messias, que poderia ser
visto como um aceno de Lula a uma importante parcela do eleitorado. No vídeo da
Fundação, Messias ressalta que tem formação jurídica, mas que enxerga valores
cristãos ao defender serviços públicos como saúde, educação e moradia digna.
"O cristão verdadeiro é o primeiro a defender a família. Eu não consigo,
como cristão que sou, conceber um mundo em que a gente possa ter visão de
Justiça Social, combate à desigualdade, criação de oportunidade... nós vivemos
em um país profundamente desigual. Entre homens e mulheres, entre raças, entre
regiões do país. Não temos como praticar a fé cristã e não olhar pra tudo
isso."
Um
assessor que trabalhou com Messias diz que esse lado religioso não era tão
visto no dia a dia. "Não que ele esconda, mas não é algo que se destaca
muito. Sabemos mais disso pelo que a imprensa vem falando. Eu nunca ouvi nada a
respeito nem nunca houve nenhum tipo de conversa nesse sentido. Fiquei sabendo
anos depois que ele era evangélico", diz a professora da UNB Magda de Lima
Lúcio, que foi orientadora de Messias no mestrado e no doutorado. "Nunca
houve comentário ou decisão fundamentada nessa crença."
Messias
também aproveitou o contexto das falas sobre sua religião para sair em defesa
de Lula e Dilma no vídeo da Fundação, ao dizer que são infundadas as ideias de
que o PT fecharia igrejas e que tanto Lula quanto Dilma teriam ajudado a
aumentar a liberdade religiosa no Brasil. "A grande verdade é que foi o
presidente Lula que criou a lei de liberdade religiosa, garantindo o pleno
acesso às muitas denominações."
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Mensalão e Lava Jato
Messias
também faz menção, no mesmo texto de sua tese de doutorado, a outros momentos
de derrotas ao petismo, como o julgamento do mensalão. Embora não faça críticas
diretas ao Supremo Tribunal Federal, ele argumenta em sua tese que
"multiplicaram-se críticas da esquerda sobre o conservadorismo e
autoritarismo do judiciário e do STF, que estariam atuando de maneira
partidarizada em detrimento dos interesses do Partido dos Trabalhadores e dos
próprios trabalhadores e movimentos sociais". Diz também que "a própria
prisão do ex-presidente Lula, bem como a negação do registro de sua candidatura
em 2018, reforçaram as censuras."
Para
Messias, no entanto, a autoridade do STF estava sendo "solapada por
movimentos sociais autoritários e por instâncias inferiores do Judiciário que,
em última instância, buscavam reverter a própria ordem constitucional de
1988".
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Doador em campanhas eleitorais
Messias
foi doador em diversas campanhas petistas pelo menos desde 2010. Em 2022, doou
R$ 3,5 mil a Lula e R$ 2 mil à campanha para deputado federal de Paulo
Teixeira, atual ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar de
Lula. Em 2018 foram R$ 500 para Marivaldo Pereira, então candidato ao Senado
pelo Distrito Federal e hoje secretário nacional de assuntos legislativos no
Ministério da Justiça e da Segurança Pública (MJSP). Também fez doações à
campanha da ex-presidente Dilma, em 2014 (R$ 500), e ao ex-governador do
Distrito Federal Agnelo Queiroz, em 2010 (R$ 500).
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R$ 1 milhão em honorários advocatícios
Messias
foi alvo de críticas por pagamentos que ele recebeu em honorários advocatícios,
verbas que são pagas a integrantes de carreira da AGU. Esses valores são
pagamentos que a parte vencida de um processo judicial deve fazer ao advogado
da parte vencedora, como compensação pelos custos de atuação jurídica.
Advogados públicos federais têm direito a receber o recurso em processos em que
União, autarquias e fundações federais forem vitoriosas. Um levantamento feito
pela BBC News Brasil nos dados do Portal de Transparência identificou cerca de
R$ 1 milhão em pagamentos a Messias entre janeiro de 2023 e agosto de 2025
nesta categoria. Os valores são brutos e não consideram eventuais impostos e
outros descontos.
A AGU
lançou, no mês passado, um painel que permite ver informações sobre esses
pagamentos de forma facilitada. Segundo o site Jota, Messias disse, em um
evento da AGU, que tem feito esforços para que os pagamentos sejam feitos
"em linha com a moralidade e com a legalidade" e que eles são
importantes para "ganhos de eficiência" da instituição. A AGU, em
nota, diz que a constitucionalidade desses pagamentos é reconhecida pelo STF e
que os honorários não são custeados com recursos da União. Afirmou que
"não há individualização, privilégio ou discricionariedade" sobre
esses pagamentos. "Portanto, os valores recebidos pelo advogado-geral da
União, Jorge Messias, no período citado, corresponde ao rateio ordinário dos
honorários distribuídos a todos os membros das carreiras da AGU: advogados da
União, procuradores federais, procuradores da Fazenda Nacional e procuradores
do Banco Central. Como membro da carreira de procurador da Fazenda Nacional,
Jorge Messias tem, como os demais advogados públicos federais, direito ao
recebimento dos honorários de sucumbência." A instituição destacou ainda
que o valor inclui também o pagamento de verbas indenizatórias (complementação
de auxílio-alimentação e de auxílio-saúde) e pagamento de verbas atrasadas, a
exemplo do pagamento de férias.
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Indicado ao STF pode defender interesses do governo na Corte?
Dentre
os requisitos para ocupar uma cadeira no STF está que candidatos devem ter
"notável saber jurídico e reputação ilibada". Mas o que se enquadra
como notável saber jurídico — e como um indicado ao STF se encaixa ou não nessa
definição?
Embora
tenha vínculos com a academia, Messias "não chega à candidatura por sua
trajetória acadêmica, como ocorreu, por exemplo, com o ministro Luís Roberto
Barroso", afirma Álvaro Palma de Jorge, professor fundador da FGV Direito
Rio. Segundo ele, o "notável saber jurídico" exigido para o cargo não
deve ser confundido com títulos acadêmicos e nem tem sido adotado como critério
decisivo nas nomeações. "O conceito de notável saber jurídico é analisado
de forma discricionária pelo presidente e pelo Senado. Ambos precisam fazer
esse julgamento, e não há regra objetiva. Há ministros que são doutores e
outros que não são. Vinculação acadêmica e publicações não são critérios
definitivos para se reconhecer o saber jurídico."
O
professor discorda da ideia de que as indicações visam favorecer o governo na
Corte. "O nome precisa da indicação do presidente, mas também da aprovação
do Senado. Isso já impõe um constrangimento à escolha. Um nome que não tenha
adesão do Senado nem adianta indicar, porque não será aprovado." Ele
lembra o episódio em que o ex-presidente Jair Bolsonaro cogitou nomear o filho
Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil em Washington — cargo que também
dependia da aprovação do Senado. "O nome não foi nem levado adiante porque
o presidente recebeu, de imediato, o feedback institucional de que não seria
aprovado."
Para o
professor, o mesmo princípio vale para o Supremo. "Não é qualquer escolha
que é palatável. O critério usado pelo presidente precisa ter adesão do Senado,
sob risco de a indicação não prosperar." Jorge reconhece que a proximidade
pessoal do indicado tem sido apontada como um critério de Lula. "Tem sido
muito comentada essa história da proximidade. O presidente Lula teve uma
experiência pessoal. Foi preso, apresentou seguidos recursos, entre eles um
habeas corpus que acabou no Supremo. E ministros de quem se esperava
proximidade simplesmente aplicaram a jurisprudência da Corte contra os
interesses do presidente." Ele pondera que essa busca por afinidade é
natural. "Naturalmente o presidente tenta indicar alguém que tem uma visão
de mundo mais próxima à dele", diz.
E
conclui que a independência tende a prevalecer depois da nomeação. "Há
muitos exemplos de ministros do Supremo que tomam decisões contrárias aos
interesses do presidente que os indicou. E é bom que isso aconteça. Ministro do
Supremo não é empregado do presidente da República; recebe um conjunto de
prerrogativas justamente para poder julgar de forma independente. No momento da
campanha, seja qual for o critério, o candidato segue um script. Mas depois que
senta na cadeira, enfrenta outros constrangimentos institucionais e passa a
conviver com seus pares."
• Como pensa Jorge Messias sobre STF, big
techs e tamanho do Estado
Além de
já ter ocupado diferentes cargos em governos petistas, como o de subchefe para
assuntos jurídicos da Presidência no governo de Dilma Rousseff, sua produção
acadêmica recente também defende uma versão da história em consonância com a
esquerda. Messias defendeu no ano passado, em sua tese de doutorado em
Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional, pela Universidade de
Brasília (UnB), a ideia de que o Brasil passou por um período de
"ultraliberalismo" do ex-presidente Jair Bolsonaro e avalia que há,
agora, "possibilidades de reconstrução ensejadas" com a volta de Lula
ao poder. Também repercutiu críticas à própria Corte sobre o partido, embora
reconheça a importância da instituição. Afirmou que "multiplicaram-se
críticas da esquerda sobre o conservadorismo e autoritarismo do Judiciário e do
STF, que estariam atuando de maneira partidarizada em detrimento dos interesses
do Partido dos Trabalhadores e dos próprios trabalhadores e movimentos
sociais". Há ainda críticas explícitas ao que chama de monopólio das
empresas que operam as redes sociais. A leitura do trabalho pode dar pistas de
como Messias poderá se posicionar em assuntos de interesse da Corte.
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O que escreveu Jorge Messias sobre Lula, Bolsonaro, PT e o STF
Messias
apresentou no ano passado sua tese de doutorado na UnB. O trabalho é centrado
no papel da instituição por ele dirigida, a Advocacia-Geral da União (AGU). O
título do trabalho é "O Centro do Governo e a AGU: estratégias de
desenvolvimento do Brasil na sociedade de risco global." Evangélico, ele
começa o trabalho com um agradecimento religioso: "Em primeiro lugar,
expresso minha mais profunda gratidão a Deus, cuja presença constante em minha
vida me concede a força e a coragem necessárias para enfrentar os desafios
diários, culminando na conclusão deste projeto". Messias diz que a tese
tenta responder à pergunta de como o núcleo do governo e a Advocacia-Geral da
União "podem contribuir para a implementação de uma estratégia de
desenvolvimento moderna, centrada não apenas na convergência econômica, mas
também no enfrentamento e adaptação aos riscos globais".
No
trabalho, o conceito de "risco global" se refere a ameaças
compartilhadas por todos os países, como mudanças climáticas, pandemias, crises
financeiras, guerras e desigualdade tecnológica. Citando autores como o
sociólogo Ulrich Beck, Messias defende a necessidade de um Estado forte, capaz
de responder a esses desafios. Em uma passagem autobiográfica, ele afirma que o
período entre 2003 e 2016, durante os governos de Lula e Dilma Rousseff,
"foi um tempo de planos generosos", mas cuja "fantasia logo
seria desfeita". Messias escreve que "a necessidade de refletir sobre
a dolorosa derrota daquele projeto político" o motivou a retornar à
academia.
Nos
capítulos voltados ao Brasil recente, a tese traz críticas aos governos pós-PT,
especialmente ao "ultraliberalismo" e à "desestruturação
institucional" dos anos seguintes, bem como à condução do governo
Bolsonaro em relação à pandemia do coronavírus, quando foi "possível
verificar, de maneira clara, os custos trazidos pelo negacionismo ambiental e
sanitário." Ele faz também um diagnóstico das ações do terceiro mandato de
Lula, apresentadas como esforços para "superar a armadilha da estagnação
econômica e lidar com os riscos globais, até então ignorados pelo governo
anterior."
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O que ele pensa sobre o STF?
"Entre
2012 e 2018, multiplicaram-se críticas da esquerda sobre o conservadorismo e
autoritarismo do judiciário e do STF, que estariam atuando de maneira
partidarizada em detrimento dos interesses do Partido dos Trabalhadores e dos
próprios trabalhadores e movimentos sociais", escreve Messias em um trecho
sobre a Corte. "A própria prisão do ex-presidente Lula, bem como a negação
do registro de sua candidatura em 2018 reforçaram as censuras." Messias
avalia, no entanto, que, "na verdade", a autoridade do STF estava
sendo "solapada por movimentos sociais autoritários e por instâncias
inferiores do Judiciário que, em última instância, buscavam reverter a própria
ordem constitucional de 1988".
Ele diz
que a corte "logrou estancar os abusos da Lava Jato, reverter decisões
injustas de instâncias inferiores e fazer frente às ameaças golpistas que
ganharam ímpeto renovado com a chegada de Bolsonaro à Presidência."
Messias prevê uma continuidade do protagonismo do Judiciário no país e diz que
dada a polarização ideológica e o processo de judicialização, "é provável
que as medidas mais importantes deverão ter sua legalidade/constitucionalidade
questionadas perante o Judiciário, seja no STF ou em instâncias
inferiores".
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Críticas às big techs e redes sociais
Quando
avalia o que chama de riscos globais, Messias dedica um trecho sobre
"riscos digitais" e cita a relação da sociedade com plataformas como
Twitter (atual X), Google e Tiktok. Para ele, "a internet diminuiu também
o custo da desinformação, o que facilitou o emprego sistemático da mentira como
arma política". O autor diz que o engajamento nas redes se dá pelos afetos
e pelo viés de confirmação, o que reforçou — ou até gerou — a polarização
política. "Google, Facebook, Instagram são monopólios que não só impedem a
competição econômica, como empregam seus vastos recursos para financiar
estratégias políticas a fim de manter suas posições privilegiadas",
escreveu ele. Ele cita algumas iniciativas de regulamentação pelo mundo
"para combater a concentração econômica do setor e o vale-tudo na
internet."
"Se
não há acordo para responsabilizar as plataformas pela desinformação difundida,
os Estados Unidos caminham rapidamente para fazer da internet mais um campo da
competição estratégica com a China."
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O 'ultraliberalismo' de 2016 a 2022
Ao
falar da história recente do país, Messias categorizou o período entre 2016 e
2022 como "ultraliberalismo". Ele avalia que o neoliberalismo ganhou
densidade eleitoral "talvez pela primeira vez" e que governos
"lograram desregular o mercado de trabalho, reformar de maneira profunda a
previdência social (o que ele chamou de "reforma draconiana"),
enfraquecer os sindicatos", dentre outros.
Messias
diz que o Estado brasileiro chegou a 2022 "com baixa capacidade fiscal,
política e institucional para intervir na economia, seja para regular ou
fomentar atividades mais promissoras, seja para transformá-la
diretamente." Para ele, o período foi marcado por colocar a acumulação
primitiva como eixo estruturador da economia do país. "Atividades
agropecuárias e mineradoras passaram a operar, com ainda mais intensidade, na
lógica colonial, com a aceleração e/ou intensificação das taxas de
desmatamento, do uso de agrotóxicos, da violação de direitos das populações
tradicionais, de grandes acidentes ambientais e de desrespeito no
encaminhamento de reparações."
O
trabalho usa, então, um diagnóstico feito pela equipe de transição, coordenado
pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que trata do que chama de "desmonte
do Estado brasileiro e das políticas públicas durante os quatro anos do governo
Bolsonaro." Para o autor, "não há dúvidas de que a proposta do
governo Lula traz mudanças significativas em relação à ação estatal que vinha
sendo implementada desde 2016, e sobretudo a partir de 2019."
Fonte:
BBC News Brasil

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