Antonio
Martins: Lula, sua última eleição e seus demônios
O homem
à minha frente, no caixa de supermercado, aceita constrangido que a funcionária
tire da balança quase a metade dos tomates que pretendia levar. Ficam os que
pode pagar com a cédula rosada que traz em suas mãos. Feita a transação, ele
exibe à fila o pacote minguado que restou e exclama, entre lamento e revolta:
“Seis tomates por dez reais!”. Dezenas de milhões de brasileiros viveram sufuco
semelhante nas últimas semanas – e é provável que o drama persista. A agressão
de Trump ao Irã provocou, numa economia mundial já em desarranjo, um novo surto
de tremores financeiros, ruptura das cadeias produtivas (em especial de
petróleo, gás e fertilizantes) e inflação, particularmente de alimentos. Em
março, os preços dispararam no Brasil. Em algumas regiões, a cesta básica subiu 7,12% em 30 dias,
chegando próxima ao patamar recorde de abril de 2025.
O
impacto eleitoral da alta é evidente. Num governo que não ousou reformas
estruturais, e colocou em si mesmo a camisa-de-força do “ajuste fiscal”, a
popularidade depende de melhoras no padrão de vida e de consumo (a proverbial
“picanha com cerveja”). Se não for detida, a alta da comida corroerá
rapidamente a pequena elevação dos salários e os ganhos obtidos por parte dos
trabalhadores com a isenção do Imposto de Renda. Mas os ordenados sobem uma vez
por ano e o benefício fiscal ocorre uma vez na vida. Já o espinho da carestia
espeta todos os dias. Além disso, há 74 milhões de inadimplentes (45% da
população adulta) e os juros consomem 29,3% da renda das famílias. A
fila na concessão de aposentadorias ultrapassou 3 milhões de prejudicados
e o repasse básico do Bolsa-Família está congelado em R$ 600 há mais de três
anos. A pouco mais de cinco meses do pleito, Lula parece estar numa enrascada.
O plano de assegurar o quarto mandato sem estabelecer choque de projetos, confiando
apenas no impulso de aprovação pós-junho de 2025, vacila. Flávio Bolsonaro
avança. O governo ainda tem em mãos trunfos poderosos, como a luta contra a
jornada 6×1, uma possível (porém ainda desconhecida) salvação dos endividados e
a campanha pela tarifa zero nos transportes públicos. Mas não está sendo capaz
de costurá-los num discurso claro e mobilizador. Ainda poderá fazê-lo?
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Das cordas ao contra-ataque
É
possível reverter uma derrocada?
Para
compreender o contrapé de Lula e os possíveis caminhos para revertê-lo é útil
examinar o gráfico de aprovação do presidente – em especial,
as duas reviravoltas notáveis verificadas num curto período de seis meses. Os
dados são da pesquisa Genial/Quaest. Lula3 atinge o ápice da popularidade por
volta de setembro de 2023, ao final do intervalo 1. Nove meses
depois de iniciar seu mandato, ele havia sido capaz até mesmo de dissipar, em
parte, a polarização áspera que marca a política institucional brasileira desde
a segunda eleição de Dilma, em 2014. É possível que o desgaste da ultradireita
após o golpe de 8 de janeiro tenha contribuído. Seja como for, Lula tinha 60%
de aprovação contra 25% de rejeição, uma margem folgada de 35 pontos positivos.
Para comparação, Donald Trump tinha, à mesma altura de
seu atual período, – 16 e o alemão Friedrich Merz tem hoje – 69. Segue-se,
porém, um período de corrosão lenta e constante do apoio ao presidente, que se
prolonga por 21 meses. Ocorre por etapas. Lula desgasta-se primeiro entre os
homens, os brancos, as faixas de maior renda, os sulistas e sudestinos. Mas a
desilusão é contínua. Por volta de maio de 2025, está em minoria entre as
mulheres, os negros e em todas as faixas de renda – exceto a dos que ganham até
1 salário mínimo. Das regiões, só o Nordeste ainda o apoia majoritariamente. A
conclusão é óbvia. A frustração com o descumprimento das promessas de mudança
vai se espalhando em ondas, até chegar ao coração do lulismo. Mas deve-se
considerar um fator adicional, que pode estar se repetindo agora. Entre outubro
de 2024 e maio de 2025, há um surto inflacionário. A cesta básica dispara:
12,8% em São Paulo, segundo o Dieese. A partir de janeiro de 2025, o apoio ao
presidente entra em território negativo e cai com maior velocidade. Mas a partir de junho ocorre a primeira
reviravolta, que impressiona pela rapidez com que se desenrola. Em 25/6, sem
apoio também no Congresso, o presidente é emparedado pelo Centrão, que
questiona até mesmo seu direito legal a alterar as alíquotas do Imposto sobre
Operações Financeiras (IOF). Lula reage, aceita o confronto e parte para a
ofensiva. O mote é a injustiça fiscal. Afrontado no campo tributário, o
presidente denuncia as leis que praticamente isentam os mais ricos de pagar
impostos. Uma campanha vibrante de memes, que viraliza e
forma uma rede espontânea de criadores e difusores em todo o país, acrescenta
novo elemento à disputa: aponta a cumplicidade do Legislativo com a mamata. Na
avenida aberta por sua investida, o governo pressiona pelo Projeto de Lei 1087/25, que isenta de IR as
rendas até R$ 5 mil e estabelece alguma tributação sobre os mais ricos. Em
julho, a escalada prossegue. O Brasil é agredido por um “tarifaço” de Trump,
que tenta impor sobretaxa aduaneira de 50% sobre as exportações nacionais, Lula
não recua, ao contrário do que fizeram dirigentes de países e blocos mais
poderosos – União Europeia, Japão e Coreia, por exemplo. Aponta “chantagem
inaceitável”, recorre à OMC e, mais importante, ameaça retaliar por meio
da Lei de Reciprocidade Econômica. Ficam expostos os
enormes interesses das “big techs” norte-americanas no país
A
contraofensiva se amplia em 21 de setembro. Um passo em falso do Centrão, que
tenta aprovar a “PEC da Blindagem”, leva multidões às ruas, em protestos que se
espalham pelo país. São convocados essencialmente por movimentos sociais e
artistas (com alguma participação dos partidos de esquerda). Abrem a
perspectiva de um enfrentamento popular e politizado à ultradireita e às
maiorias conservadoras do Congresso. Lula recupera sua popularidade. Já no
início de outubro, pouco mais de três meses depois de reagir, explicitar
diferenças políticas e aceitar o confronto, o presidente vê a mudança de
postura aprovada pela população. O saldo de aprovação sobe dos 17 negativos a neutro, em óbvia tendência
de alta, como se vê, no gráfico, ao final do intervalo 3. Os
setores mais fiéis ao lulismo são os que retornam mais rapidamente, o que
amplia as possibilidades de mobilização. Nas sondagens sobre a intenção de voto
em 2026, o presidente lidera com ampla folga. Tem doze pontos à frente do governador
de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que àquele momento é seu adversário melhor
posicionado. A primeira reviravolta político-eleitoral está completa.
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Ressurge o Conciliador
A
ofensiva popular frustrada a meio-caminho
Mas,
tal como ocorreu desde 2003, os planos de Lula não incluíam um estímulo a mais
mobilização social, a tensionar a institucionalidade conservadora ou a
sustentar o choque de projetos. Todos os gestos do presidente sugerem que ele
concebeu, entre outubro e novembro, a estratégia que orienta até aqui sua
campanha ao quarto mandato. Significa arrancar pequenos espaços fiscais,
recusando-se, ao mesmo tempo, a questionar a “austeridade” e a destinação
prioritária do dinheiro público aos rentistas. O Estado brasileiro continuará
pagando R$ 1 trilhão ao ano (3,5 vezes o orçamento do SUS) ao 0,1% que se
beneficia com a maior taxa de juros do planeta. O país permanecerá regredido.
Mas o recuo do Centrão rendeu ao governo algum espaço. Além de abandonar a PEC
da Blindagem, o Congresso aprovou medidas que representaram um pequeno alívio no Orçamento de 2026.
O presidente pensa que contará, no ano eleitoral, com “programas sociais” como
o “Vale-gás”, o “Pé-de-meia” e algum reforço ao “Minha Casa, Minha Vida”. Satisfeito,
Lula prepara um acomodamento. No plano interno, as tensões com o Centrão são
esquecidas pouco a pouco. Na primeira semana de novembro, Câmara e Senado aprovam, ambos
por unanimidade, o projeto que altera o Imposto de Renda. Pouco mais de uma
semana antes, o presidente havia se encontrado com Trump na Malásia.
Obtivera a promessa de revisão do “tarifaço” contra o Brasil. Em contrapartida,
imaginara o fim das tensões entre os dois países: “O Brasil tem interesse de
ter uma relação extraordinária com os Estados Unidos. Não há nenhuma razão para
qualquer desavença entre Brasil e Estados Unidos”, dissera.
O breve
tempo de luta havia se encerrado com vitória. Era hora de assumir de novo o
figurino do Lula conciliador, o que governa para todos. A reeleição viria
naturalmente – não a partir da disputa de visões de país e de projetos de
futuro, mas de uma política de alianças ainda mais ampla. No plano externo, uma
relação “normalizada” com a Casa Branca supostamente ajudaria a minar as forças
dos Bolsonaro. Neste ponto, o presidente cometeu seu grande engano. Passados
cinco meses, não dá mostras de tê-lo compreendido. Há um claro abismo entre a
formação de Lula e as características da política no século XXI. É útil
explorá-lo, para entender por que se dá, a partir de novembro de 2025, uma
segunda reviravolta na curva de apoio popular ao presidente – desta vez,
francamente desfavorável e ele e até o momento não contida. Examinado a fundo
por pensadores como Wolfgang Streek, Chantal Mouffe e Ernesto
Laclau, o colapso do antigo centro (não confundir com o
Centrão, que expressa a direita fisiológica) é um dos fenômenos cruciais de
nossa época. As respostas das elites à crise iniciada em 2008 acirraram como
nunca a desigualdade e resultaram em desencanto disseminado com a democracia
liberal. Produziram-se mudanças dramáticas e inesperadas. A convergência do
eleitorado para posições tidas como “moderadas”, que havia marcado o Ocidente
desde o pós-II Guerra, dissipou-se. Abriu-se um vácuo propício a alternativas
de sentido oposto.
À
direita, emergiu uma vasta constelação de (pós-)fascismos de várias estirpes –
as mais recentes, como de Elon Musk, Milei, Bukele e, no Brasil, Renan Santos e
o Missão, de tendência ultraliberais. Professam, em essência, a descrença na
política (e em especial, na redistribuição da riqueza), o salve-se-quem-puder e
a revalorização do patriarcado e da branquitude. À esquerda, surgiu um
populismo progressista, que já não busca enxergar os conflitos sociais apenas a
partir do trabalho e procura constituir novos sujeitos políticos, capazes de
enfrentar a radicalização do capital. Sua força política não se compara à da
ultradireita, mas sua existência indica a possibilidade de novos caminhos.
Expressa-se em Lopez Obrador e Cláudia Sheinbaum (México), Gustavo Petro
(Colômbia), Bernie Sanders, Alexandra Ocasio e Zohran Mamdani (EUA). Na África,
produz apoio popular aos militares que tomaram o poder pelas armas, com
discurso anticolonial.
A
trajetória de Lula é, ao contrário, marcada pela busca de convergências entre
os desiguais e pelo esforço de evitar ao máximo os conflitos. Esta natureza
acompanha-o desde os tempos de sindicalista, como notou há poucas semanas seu
biógrafo. “O Lula já era paz e amor antes de isso virar slogan (…) Talvez tenha
emergido [na presidência] um personagem que já era. O Lula já era um
negociador, um homem capaz de fazer conciliações”, disse Fernando Moraes a Carta
Capital, no início de abril. Partindo desta perspectiva, é provável
que o presidente não tenha compreendido a necessidade de manter a denúncia do
parasitismo das elites e a disputa com o Centrão, após os primeiros êxitos.
Pode ter julgado, ao contrário, que o sucesso se deu graças a sua inteligência
e habilidade políticas incomuns; e que o eterno exercício de alternar acenos à
direita e à esquerda poderia ser retomado e mantido até o pleito. Os eleitores
não parecem ter pensado da mesma forma. Quando Lula abandonou a tensão com as
institucionalidade conservadora, sua recuperação não se sustentou. Um outro
fator passou a pesar: o desgaste a que estão submetidos os governos, em tempos
de crise. Há governantes que denunciam as elites e a desigualdade (como Gustavo
Petro), ou que se comunicam permanentemente com o país, para ditar a pauta
política (como Cláudia Sheinbaum). Ambos constroem vínculos de solidariedade.
Mas os que não agem, quando as condições de vida se deterioram, correm o risco
de ser vistos como cúmplices das circunstâncias que infernizam o cotidiano das
maiorias. A carestia aprofunda esta erosão. O que pensará de Lula o trabalhador
humilhado por deixar seus tomates no caixa do supermercado? Ou o que deixa
quase um terço de sua renda minguada com os bancos? Que ressentimentos serão
disparados pelo gatilho da frustração?
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De como se perdem oportunidades
Em
2023, o governo vestiu camisa-de-força. Agora sentem-se os efeitos
O mais
preocupante é que, perdida a dinâmica do confronto com as injustiças, o governo
parece incapaz de lançar uma ação coordenada, que projete à maioria dos
brasileiros um futuro melhor. Sem orientação clara da presidência, os ministros
adequam as prioridades do Palácio do Planalto a seus próprios interesses e
relações com o mundo dos negócios e a política institucional. Lula prometeu
medidas de alívio ao hiperendividamento da população, provocado por taxas de
juros indecentes. Em 2/4, o ministro Dario Durigan, que substitui Haddad na
Fazenda, previu um programa “em dez dias”.
Em 27/4, mais de duas semanas depois de vencido o prazo, seguia em longas
negociações com a Febraban. Num claro desvirtuamento da ideia original,
aventava a hipótese de “liberar” os endividados a queimar seus depósitos no FGTS, para satisfazer o
apetite dos banqueiros. Se a fórmula prosperasse, equivaleria a desfinanciar o
BNDES e a quebrar a poupança dos assalariados para alimentar a fornalha dos
rentistas – sem obrigá-los a rever a agiotagem e os abusos.
Na luta
contra a escala 6×1, que assumiu tardiamente, o governo está às voltas com dois
percalços. Como mostrou o sociólogo Rudá Ricci, a campanha – que
começou em ação espontânea de Rick Azevedo, do movimento Vida Além do Trabalho
(VAT) e da deputa Érika Hilton, repercutiu rapidamente e poderia ter enorme
efeito mobilizador. Mas assumiu, depois de encampada pelo Planalto, ares de
chapa branca. Despreza o apelo à mobilização social. Pode terminar identificada
(e nesse caso, neutralizada) como mera bandeira eleitoral. Além disso, o
governo está no momento impedido de assumir seu protagonismo no plano
institucional, devido a hesitações. O ministro Guilherme Boulos insistiu, por
muito tempo, que Lula enviasse um projeto próprio ao Congresso, reduzindo a
jornada de trabalho. Estava claro que o Centrão, aliado às confederações
empresariais, protelava a tramitação de proposta de emenda constitucional (PEC)
sobre o tema, postergando-a ao máximo – se possível, até depois das eleições.
As alas institucionalistas do governo, porém, adiaram a decisão, buscando
acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta. Em 14/4, quando o projeto do
governo foi finalmente apresentado, Motta já havia
levado a PEC a um ponto em que ela passará a concentrar as atenções do
noticiário político, escanteando e obscurecendo a iniciativa governamental.
Em
28/4, não há também sinais de redução da fila das aposentadorias, porque o
“arcabouço” de Fernando Haddad continua retendo os parcos recursos necessários
a contratar mais servidores e honrar as obrigações do Estado junto aos
trabalhadores. O governo também parecia ter desistido de apresentar a tarifa zero com proposta
legislativa em 2025. Até mesmo os R$ 20 bilhões que reforçariam o Minha Casa
Minha vida foram liberados apenas em 15/4, tarde demais para
produzir efeito eleitoral relevante. O subprograma voltado à reforma de
residências saiu com intermediação dos bancos privados, e juros tão abusivos
(1,99% ao mês, ou 26,7% ao ano) que, em meio aos baixos salários e à carestia,
menos de 10% dos recursos disponíveis foram solicitados. A mesma aversão à
disputa repete-se na arena externa. Aqui, as oportunidades político-eleitorais
desperdiçadas são tão óbvias que sugerem um Lula, de algum modo, alheio aos
fatos. Estão em pauta as terras raras e os minerais críticos, essenciais às
tecnologias do século 21. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta. A US
Rare Earth avança sobre ela, adquirindo a Serra Verde, única mina
brasileira em atividade. Dois expoentes da ultradireita – Flávio Bolsonaro e
Ronaldo Caiado – assumem posição claramente entreguista. O governo tem um
cardápio de alternativas à mão; das mais políticas e ousadas (estabelecer por
Medida Provisória a Terrabrás e propor por lei o monopólio estatal) às
mobilizadoras (expor, com a capacidade comunicativa de Lula, a importância da
riqueza e os riscos de sua perda) e às meramente defensivas (questionar
judicialmente a operação). Bem ao contrário de sua reação altiva ao “tarifaço”,
há poucos meses, Lula opta agora pelo silêncio. E o governo adota a conivência:
nem criar a estatal, nem judicializar, “para manter comunicação de alto nível
com a Casa Branca”, segundo teriam dito funcionários
graduados à mídia. Em meio a uma disputa acirrada, a ousadia de Flávio e Caiado
pode passar impune. Haverá maior sinal da impotência política a que o recuo de
outubro-novembro conduz?
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Voo em céu de tempestade
Alternativas
para cinco meses turbulentos
É
possível superar a maré desfavorável? A resposta, evidentemente, é sim! Os
contrapés do goleiro e do político igualam-se no desenho, mas diferem no tempo.
No futebol, o atleta calcula mal a trajetória do chute e escolhe o pé de apoio
errado, para constatar tarde demais o engano e assistir em desconsolo à
impossibilidade de correção e defesa. A agonia dura as frações de segundo do
deslocamento da bola. Na política, em especial nos dias acelerados e na memória
curta era digital, os erros se esquecem rápido e as recuperações improváveis
são possíveis. Exercendo o governo, e prestes a uma derrota certa nas eleições
parlamentares de abril de 2025, o Partido Liberal do Canadá inverteu o
resultado em três meses, entre janeiro e abril de 2024. Embora de centro-direita,
Mark Carney, seu líder, soube denunciar a submissão do Partido Conservador (seu
adversário) à Casa Branca, que também ameaçava o país com um tarifaço. Em
poucas semanas, uma desvantagem de 25 pontos (20% x 45%) converteu-se numa
liderança estreita porém vitoriosa (43,7% x 41,3%). Mesmo em viés de baixa,
Lula parte de uma posição muito menos desconfortável que a de Mark Carney. Falta
corrigir os rumos, rápido. Mas qual o escopo de uma possível nova virada?
Não se
deve esperar do presidente que, aos 80 anos, lidere a reconstrução do Brasil em
novas bases – pós-capitalistas e anticoloniais. Esta é uma trama histórica, a
ser tecida no médio e longo prazos (embora precise começar já). Vai requerer
reconexão com as bases populares, consciência política, formulação teórica,
mobilização social e mesmo alianças internacionais inéditas. Não pode depender
de um só homem – menos ainda de quem jamais abandonou a lógica sindicalista que
leva a lutar por um quinhão maior da riqueza produzida, e não por um novo modo
de produzir. O que se espera de Lula (e o que só ele pode oferecer, a pouco
mais de cinco meses das eleições) são ações e narrativas que permitam à maioria
dos brasileiros compreender o que se passa à sua volta num mundo em transe –
sem sucumbir, em desespero, ao ressentimento, à rejeição da política e à
ultradireita. Há caminhos claros e viáveis para isso, que talvez possam ser
resumidos em quatro pontos.
A
luta contra a Escala 6×1 precisa ser resgatada das mãos traiçoeiras de
Hugo Motta e do Centrão. Há uma fórmula certeira para tanto. O núcleo da
batalha deve ser deslocado do Parlamento para as ruas e locais de trabalho.
Instrumentos simples, que fazem parte há muito do repertório dos movimentos
sociais, podem ser úteis novamente – turbinados, agora, pela comunicação em
rede. Imagine, como ferramenta básica, um abaixo-assinado difundido em todo o
país, dirigido ao Parlamento, reivindicando a aprovação, anterior às eleições,
da redução da jornada e do direito a dois dias de descanso semanal. Imagine
também oferecer, a milhões de brasileiros que se sentem oprimidos pela 6×1, a
oportunidade de criar um comitê em sua seção de fábrica, loja ou escritório;
coletar assinaturas; gravar vídeos ou postar textos relatando experiências
pessoais e coletivas relacionadas à campanha; vê-los compartilhados e
comentados. Imagine, por fim que, uma vez por mês, estes comitês articulem-se
em cada cidade, em manifestações públicas. Ao abraçar – com recursos
infinitamente menores – esta bandeira, Rick Azevedo passou do anonimato
absoluto a um dos vereadores mais votados do Rio. Por que seria impossível
alcançar agora dimensão nacional?
Livrar
os brasileiros do hiper-endividamento não pode, por motivos escancaradamente
óbvios, ser uma agenda subordinada a um acerto com a Febraban. A federação dos
banqueiros representa o núcleo do problema, não a solução. Enquanto insistir
nessa grotesca “parceria”, a ação do governo resultará em medidas tímidas,
precárias e fugazes – quando não contraproducentes, como a transferência dos
saldos de FGTS para os credores. A aposta errada do acordo com os rentistas foi
feita no programa Desenrola, de 2023, apenas para que as dívidas saltassem a
novo patamar, três anos depois. A alternativa óbvia, por produzir resultados e
consciência, é acionar os bancos públicos (BB e Caixa, especialmente),
permitindo-lhes assumir os créditos das instituições privadas, oferecer
descontos e reduzir drasticamente as taxas. Colocará a agiotagem em xeque e
significará, por certo, desafio a um setor muito poderoso – mas como governar
sem correr riscos? Revelará pedagogicamente, a captura da riqueza social pelo
rentismo e a possibilidade real de revertê-la. Do ponto de vista prático e
imediato, reduzirá a parcela da renda das famílias sequestrada pelo pagamento
dos juros e as colocará diante de um presidente que age para aliviar seus
dramas.
É
possível enfrentar a carestia questionando e começando a reverter o
desmonte e a captura da Petrobras pelos grandes fundos internacionais. A
inflação estão sendo pressionada, essencialmente, por dois itens: combustíveis
e fertilizantes. No primeiro caso, os subsídios podem ser medida emergencial
válida. Mas a recriação, mesmo que muito embrionária, de uma rede de postos de
abastecimento estatal evidenciará os lucros extorsivos que as redes privadas
obtêm, quando compram barato da Petrobras e vendem com margens de oligopólio.
Permitirá falar em reestatização da BR Distribuidora. Pense no efeito de um
pequeno número de postos por capital, vendendo combustíveis a preços
substancialmente inferiores aos demais.No segundo, abre-se a brecha para
abordar dois temas cruciais: por um lado, o desmonte do setor de fertilizantes
da Petrobras e a dependência dos produtos importados, que se estabeleceu num
setor essencial. Por outro, os potenciais de agroecologia, e do uso de adubos
orgânicos. Também aqui, a eventual concessão de benefícios fiscais, para
minorar o sofrimento atual, precisa ser acompanhada de ações sinalizadoras de
que não se trata de “enxugar gelo”, mas construir um futuro mais justo e
seguro.
A
fila na concessão de aposentadorias, quase duas vezes maior que no fim do
governo Bolsonaro, não é apenas uma brecha gigantesca nas pretensões eleitorais
de Lula. É também um emblema das injustiças sociais produzidas pelo “arcabouço
fiscal” e dos constrangimentos absurdos a que o governo se submeteu, sem que
isso resultasse em benefício algum. O presidente tem meios para zerar a fila
nos próximos meses. Se necessário, pode, para cumprir a meta legal de
“resultado primário” no Orçamento, propor ao Congresso que as despesas
correspondentes sejam excluídas do arcabouço – como se já se fez, em novembro de
2025, para destinar R$ 30 bilhões ao reequipamento das Forças Armadas. Ainda que não se
reverta, por enquanto, uma política de “austeridade” anacrônica e concentradora
de renda ao extremo, o gesto sinalizará que gastos públicos essenciais não
podem continuar submetidos à lógica do rentismo. Se as eleições são normalmente
complexas e imprevisíveis, em 2026 estas características serão mais agudas. As
últimas pesquisas, divulgadas em 28/4, mantêm empate técnico, no segundo turno,
entre Lula e Flávio Bolsonaro. A rejeição muito alta dos dois candidatos
permite que outros – como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e até Ciro Gomes –
mantenham esperanças. Há, mais do que isso, fatores imponderáveis. Que rumos
tomará a agressão dos EUA ao Irã? Trump, cujo poder bélico descomunal vê-se em
apuros diante de um adversário muito menor, tentará a invasão terrestre? Até
quanto irão os preços do barril de petróleo, que se mantêm em torno de 100
dólares (mais de 50% acima do patamar pré-ataque) e podem subir? O Brasil
seguirá com acesso reduzido aos fertilizantes? De que forma tudo isso pesará
sobre a carestia e os tomates na balança? Qual será a estratégia das big
techs norte-americanas, que são atores centrais no espaço
público brasileiro, têm ligações notórias e assumidas com a ultradireita global
e sabotam abertamente as tentativas de regulação do Estado brasileiro? O
bolsonarismo, que tem importante capacidade de mobilização popular e histórico
de intentonas golpistas, tentará repeti-las? Como reagirão as Forças Armadas? Diante
de tantas eventualidades possíveis e potencialmente desestabilizadoras, Lula e
a esquerda permanecerão desarmados politicamente? Confiará apenas na manutenção
da normalidade e nos instrumentos “de mercado”? Em que momento recorrerá a seus
trunfos históricos: a consciência popular e o poder de lançar, a partir do
governo, ações que alteram o status quo e mobilizam as
maiorias?
Os
próximos cinco meses serão um voo em meio tempestade, contra inimigos ardilosos
e com poder. O piloto, e os que esperam sua vitória, precisam conhecer as armas
de que dispõem – e estar prontos a empregá-las.
Fonte: Outras Palavras

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