Heitor
Scalambrini Costa: Escala 6X1 ou 5X2 e os neoescravocratas
O mês
de abril conta com mais uma data histórica para o povo trabalhador. No dia 13 o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou mensagem presidencial encaminhada
ao Congresso Nacional, que na prática acaba com a escala 6x1, reduzindo o
limite da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, mantendo as 8 horas
diárias, garantindo dois dias de descanso remunerado, e proibindo qualquer
redução salarial.
Esta
medida aproxima o Brasil de um movimento mundial. Países vizinhos como o Chile
aprovou a redução de 45 para 40 horas semanais até 2029, a Colômbia, de 48 para
42 horas até 2026. Na Europa, a jornada de 40 horas ou menos ocorre na França
que adotou 35 horas semanais desde os anos 2000. Outros países como Alemanha e
Holanda têm médias inferiores a 40 horas.
O
Projeto de Lei 1838/2026 estabelece uma nova referência para o mercado de
trabalho brasileiro, com impacto direto sobre milhões de trabalhadores,
promovendo uma das maiores mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)
em décadas.
Hoje,
segundo dados oficiais, cerca de 14 milhões de brasileiros trabalham na escala
6x1, com apenas um dia de descanso, incluindo 1,4 milhão de trabalhadoras e
trabalhadores domésticos. Sem contar os 26,3 milhões de celetistas que não
recebem horas extras, o que indica jornadas frequentemente mais longas na
prática.
As
jornadas mais extensas estão concentradas entre trabalhadores de menor renda,
menor escolaridade, negros e pardos; o que faz da proposta também uma medida de
redução de desigualdades no mercado de trabalho. No caso da população negra com
menor rendimento por hora, é forçada a trabalhar mais tempo para garantir o
sustento.
São
inúmeros os benefícios com a implantação da jornada 5X2. Os de maior relevância
diz respeito a mais dignidade no trabalho com a modernização das leis
trabalhistas, o aumento do tempo de descanso e convívio familiar refletindo na
qualidade de vida do trabalhador, a manutenção da remuneração, a melhoria na
saúde física e mental, a segurança jurídica protegendo o trabalhador contra
acordos individuais que flexibilizam direitos. Visto o que já acontece em
outros países, o maior descanso do trabalhador levará a um aumento na produção
com qualidade, o que beneficiará as empresas, e a economia nacional.
Todavia,
tal medida modernizadora para o atual mundo do trabalho que teve avanços
tecnológicos consideráveis, sofre resistência de setores da classe empresarial
e de políticos de extrema direita. E, infelizmente, tal visão ultrapassada,
retrógrada, tem seguidores de uma parcela da população, cidadãos desinformados,
que se alimentam de “fake news”, e cuja visão de mundo, coincide com a do
ex-presidente presidiário que amarga 27 anos de pena por tentativa de golpe de
Estado.
Neste
debate, os contrários a escala 5X2, se posicionam adeptos de uma sociedade
neoescravocrata, cujo sistema social e econômico baseia na propriedade do tempo
da vida de um ser humano por outro, imposto pela violência de uma grande
reserva de mercado de mão de obra não organizada, que espera conseguir
trabalhar, e que acaba aceitando situações inóspitas, degradantes, sem
dignidade e de baixa remuneração. Algo que poderíamos denominar de
“escravagismo moderno”.
Um fato
que chamou atenção neste debate foi a proposta do deputado federal Nikolas
Ferreira (PL/MG), um dos líderes da extrema direita, que defende o reembolso
empresarial (bolsa patrão), focada na modificação para um modelo 5x2. Ele
propôs uma emenda para que “o governo compense empresas por possíveis aumentos
de custos, temendo desemprego e informalidade”. Em estudo realizado pelo
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a redução da jornada de
trabalho de 44 horas para 40 horas semanais pode elevar em média, o custo a
7,84%; e que para os maiores empregadores, o efeito total da redução da jornada
sobre os custos não chega a 1%. Valores estes que podem ser plenamente
absorvidos pelo aumento da produtividade e pelos avanços tecnológicos adotados.
Esta
indigna proposta do deputado se assemelha àquela dos políticos do Partido
Conservador, e elites da época que antecedeu a abolição da escravatura em 1888,
a de indenizar os ex-proprietários de escravos, com o argumento de que os
escravizados eram propriedades legítimas e, portanto, sua libertação sem
compensação violaria o “direito sagrado” à propriedade.
A
proposta do governo federal encaminhada em regime de urgência constitucional,
significa que os parlamentares terão 45 dias para votar, ou seja, até início de
junho. Não votar significa paralisar o funcionamento do parlamento, impedindo
novas votações.
Com a
aprovação da admissibilidade da redução da jornada de trabalho pela Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ), o mérito agora será analisado e debatido por uma
Comissão Especial de 37 membros titulares, e de igual número de suplentes,
criada com esta finalidade. Se aprovado na comissão o projeto de lei segue para
a votação no plenário, com quórum exigido de três quintos dos votos dos
deputados, o que corresponde a 308, em dois turnos.
Uma
movimentação da extrema direita, do Partido Liberal (PL), aliado com partidos
do famigerado Centrão (que de centro não tem nada), já discute barrar o projeto
governamental, como propaga o Deputado Júlio Lopes (PP/RJ) presidente da Frente
Parlamentar pelo Brasil Competitivo.
A
atuação de uma parcela majoritária do Congresso Nacional tem se mostrado
claramente inimiga do povo, priorizando “privilégios e retrocessos”, com
votações prejudiciais à população e com o avanço de agendas da extrema direita,
em vez de pautas populares. É hora de lutar pelo fim da escala 6x1.
A
pressão popular junto aos parlamentares é o caminho para a mudança na
legislação trabalhista. Caberá aos trabalhadores, cidadãos, eleitores,
juntamente com seus órgãos de classe, sindicatos, centrais sindicais,
associações, aliado aos defensores dos legítimos interesses da classe laboral,
manifestarem nas ruas, cobrando dos seus parlamentares a votarem pela jornada
semanal de 5 horas trabalhadas e 2 descansadas remuneradas, sem redução de
salário. E que nas próximas eleições a(o) eleitor(a) escolha seu representante
entre aquele(a) que tenha lado, o do trabalhador. Não se deixe enganar.
• ‘Fim da escala 6x1 vai favorecer
empreendedorismo’, prevê ministro
A
redução da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso terá impacto
positivo não apenas para a qualidade de vida das pessoas, favorece também a
economia, estimulando iniciativas empreendedoras para novos negócios, segundo o
ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte,
Paulo Pereira.
Pereira
participou, nesta terça-feira (28/04), do programa Bom Dia, Ministro, produzido
pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
“Objetivamente
falando, a redução é boa para o empreendedorismo. Ela vai criar mais tempo
livre para as pessoas, mais autonomia para consumir e, inclusive, para
empreender”, avalia.
Paulo
Pereira não vê incompatibilidades entre a redução da escala 6 x 1 e o mundo
É
exatamente este “espírito da autonomia”, da liberdade de escolha sobre o que
fazer com o próprio tempo, o que está por trás da proposta de redução da
jornada, defende o ministro.
“O que
estimula o empreendedorismo é, muitas vezes, a busca por autonomia”, reforçou.
“Estou
convencido disso. Se a nova escala [com dois dias de folga semanal] for
aprovada, vamos aumentar o empreendedorismo no Brasil. Teremos um monte de
gente usando esse tempo novo para fazer mais renda, seja com aplicativo, com um
serviço novo, ou para se preparar para uma mudança de carreira”, acrescentou.
Segundo
o ministro, o impacto na economia pode ser positivo, tanto para o
fortalecimento do nosso mercado interno como para a geração de novos negócios e
novas forças de trabalho.
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Base da pirâmide
Para
Paulo Pereira a redução da jornada afetará positivamente de forma especial os
trabalhadores de menor renda. Pessoas que, em geral, segundo disse, moram mais
longe e dedicam mais tempo da vida ao trabalho.
“São
pessoas que têm mais dificuldades”, argumentou.
O
ministro reiterou que muitas das críticas à redução da jornada são apenas
repetições de discursos históricos de uma elite que, em outros tempos, foi
contrária ao fim da escravidão e, depois, contrária aos direitos trabalhistas.
“Esse
medo já existiu quando a gente implementou o salário mínimo, quando a gente
implementou as férias, o décimo terceiro. Até quando acabaram com a escravidão
existiu muito desse discurso”, disse.
“Toda
vez que a gente apresenta uma nova gama de direitos aos trabalhadores, surge o
medo de que o aumento de custo vai afetar a produtividade brasileira e que a
economia brasileira vai acabar. E ela nunca acaba. Continua forte”,
acrescentou.
Paulo
Pereira disse que o governo estará atento para, se necessário, adotar medidas
de forma a amenizar eventuais impactos que a mudança poderá trazer, “mas em
situações específicas, ainda a serem avaliadas”.
Na
avaliação do governo, entre 10% e 15% dos empreendedores poderão sentir algum
efeito, algo que, segundo o ministro, “é pouca gente” em um universo de quase
45 milhões de pessoas.
“Estamos
falando de quatro ou cinco milhões de pessoas que podem ter algum impacto caso
a escala 6 por 1 seja aprovada. Mas o governo está se esforçando para criar
mecanismos de suavização desse impacto”, disse.
“Pode
ser um benefício fiscal, pode ser mais apoio, mais crédito. Vamos criar uma
regra que seja boa para todo mundo. O governo não vai deixar ninguém para trás.
Vamos cuidar daqueles que possam ter algum impacto e criar soluções específicas
para eles”, afirmou.
• Fim da escala 6x1: propostas entram em
fase decisiva de discussão na Câmara
A
Câmara dos Deputados instalou nesta quarta-feira (29/4) a comissão especial que
vai analisar as propostas de emenda à Constituição (PECs) que preveem a redução
da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 — modelo em que o funcionário
trabalha seis dias por semana e tem apenas um de descanso.
Os
textos tiveram a constitucionalidade aprovada na semana passada pela Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ). Agora, a comissão especial vai discutir o
mérito, ou conteúdo das PECs, e poderá sugerir alterações no texto.
Líderes
no Congresso esperam que o texto seja aprovado na comissão especial até o fim
de maio — passando em seguida para votação no Plenário da Câmara e Senado.
Atualmente,
existem duas PECs na Câmara sobre o fim da escala 6X1: uma apresentada em 2025
pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) — que propõe uma jornada reduzida
combinada com a adoção da escala 4x3 — e outra apresentada em 2019 pelo
deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) — que prevê a redução gradual da jornada
semanal de 44 para 36 horas ao longo de dez anos.
Por
tratarem do mesmo tema, as PECs foram apensadas, ou seja, agrupadas para
tramitar em conjunto.
A
comissão especial será formada por 37 membros titulares e o mesmo número de
suplentes — além de um titular e um suplente adicionais.
Nesta
terça-feira (28/4), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), designou
os deputados Leo Prates (Republicanos-BA) e Alencar Santana (PT-SP),
respectivamente, relator e presidente do colegiado.
A
expectativa, segundo Motta, é que o texto seja aprovado na comissão até o fim
de maio. Ele afirmou que o cronograma está sendo seguido e defendeu que o
debate ocorra com equilíbrio, ouvindo trabalhadores, setor produtivo,
empregadores, governo e o Judiciário.
"Para
que, ao final, a Câmara tenha o melhor texto possível para conceder a redução
da jornada de trabalho sem a redução salarial. Para que os trabalhadores possam
ter um tempo de qualidade para convívio familiar, para cuidar de sua saúde,
para ter mais tempo de lazer", afirmou o presidente.
"É
a vontade majoritária da população brasileira, e é a vontade majoritária desta
Casa", disse Motta.
Caso
sejam aprovadas, as PECs seguem para votação no plenário da Câmara, onde
precisam de pelo menos 308 votos favoráveis em dois turnos. Os textos ainda
terão de ser analisados pelo Senado, também em dois turnos, com exigência
mínima de 49 votos.
Após
ser designado relator das propostas, o deputado Leo Prates disse que a Câmara
está discutindo um rearranjo do trabalho no Brasil e o tipo de família que está
sendo construído.
"O
nosso trabalho não é contra ninguém, é a favor das pessoas. Então, vamos tentar
mitigar ao máximo os arranjos produtivos, os receios", afirmou.
Na
terça-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) entregou um manifesto a
Hugo Motta contra as mudanças na jornada de trabalho. Uma pesquisa da CNI
calcula queda de 0,7% no PIB brasileiro e de 1,2% na indústria com a redução da
jornada das atuais 44 para 40 horas.
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Projeto de lei do governo
O fim
da escala 6x1 também mobiliza o governo federal, em meio a uma disputa política
por protagonismo na pauta a meses das eleições.
No dia
14 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviou à Câmara um
projeto de lei sobre o tema. A proposta foi encaminhada com urgência
constitucional, o que obriga o Legislativo a analisá-la em até 45 dias — prazo
que se encerra no fim de maio.
O texto
do Executivo, que tramita paralelamente às PECs, prevê a redução da jornada
semanal de trabalho de 44 para 40 horas, garante dois dias de descanso
remunerado e proíbe qualquer redução salarial em decorrência da mudança.
A
redução da jornada de trabalho tem forte apelo popular. Em entrevista à BBC em
dezembro de 2025, o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador do
instituto de pesquisas Quaest, avaliou que o fim da escala 6x1 e a
flexibilização da jornada seriam temas centrais nas eleições deste ano.
"As
pessoas estão muito cansadas, trabalhando demais, frustradas e querendo uma
vida mais flexível. Por isso, a escala 6x1 é um debate que, na minha visão, vai
ser fundamental para a eleição de 2026", afirmou à época.
Apesar
disso, a proposta enfrenta resistência de uma parcela dos parlamentares no
Congresso.
Pesquisa
Genial/Quaest publicada em dezembro do ano passado mostrou que, embora 72% da
população seja favorável ao fim da escala 6x1, entre os deputados apenas 42%
apoiam a medida, enquanto 45% são contrários — os demais não souberam ou não
responderam.
Fonte:
IHU/Opera Mundi/BBC News Brasil

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