Lenacapavir:
o lucro vale mais que a vida?
Um
medicamento revolucionário capaz de impedir a infecção pelo HIV e também de
ampliar opções terapêuticas para pessoas que vivem com HIV multirresistente
está no centro de uma polêmica internacional. O lenacapavir, antirretroviral
injetável de ação prolongada aprovado recentemente pela Anvisa para prevenção,
promete transformar a prevenção da infecção pelo HIV: basta uma aplicação
subcutânea a cada seis meses para proteger contra o vírus que ainda mata
milhares de pessoas todos os anos. Ao mesmo tempo, a molécula também representa
uma alternativa importante para pessoas em tratamento com poucas opções
disponíveis devido à resistência a outros antirretrovirais.
Mas há
um problema central: o preço. A farmacêutica Gilead está cobrando o equivalente
a R$ 150 mil por ano (US$ 28 mil). Para o tratamento de pessoas que vivem com
HIV multirresistente, o mesmo medicamento foi lançado por US$ 42.250 nos EUA,
algo em torno de R$ 211 mil. O valor é tão alto que inviabiliza o acesso mesmo
em países ricos e, na prática, exclui países como o Brasil, onde vivem milhares
de pessoas que seguem em situação de vulnerabilidade para o HIV. Com preços
nesse nível, a inovação deixa de ser uma conquista da saúde pública e passa a
funcionar como privilégio de mercado.
Enquanto
isso, estudos apontam1 que o custo real de produção do medicamento com margem
de lucro de 30%, seria de apenas US$ 25 a US$ 40 por ano. A distância entre
esse custo estimado de produção e o preço praticado hoje pela Gilead escancara
o verdadeiro problema: não se trata de um limite científico ou produtivo, mas
de uma inovação aprisionada por barreiras patentárias e por uma lógica de
mercado que transforma um avanço com potencial de salvar vidas em um produto de
luxo.
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O lucro acima da vida
Embora
o lenacapavir tenha sido desenvolvido com apoio de investimentos públicos e de
doadores internacionais, a Gilead segue mantendo controle quase exclusivo sobre
sua fabricação e distribuição. Em acordo anunciado com o Global Fund, a empresa
se comprometeu inicialmente a fornecer o medicamento em volume suficiente para
alcançar até 2 milhões de pessoas, ao longo de três anos, sem lucro para a
companhia, em países apoiados pelo Fundo. Em abril de 2026, esse compromisso
foi ampliado para 3 milhões de pessoas até 2028. Trata-se de uma oferta
claramente insuficiente diante da escala da epidemia e do potencial
transformador da tecnologia.
Diante
da magnitude da epidemia, alcançar 3 milhões de pessoas até 2028 está muito
aquém do necessário. A UNAIDS estima que 1,3 milhão de pessoas contraíram HIV
em 2024 e que cerca de 630 mil morreram por causas relacionadas à AIDS no mesmo
ano. Nesse contexto, a oferta limitada de lenacapavir já seria insuficiente por
si só. Mas a situação é ainda mais grave diante do desmonte da ajuda
internacional: estudos recentes alertam que os cortes de financiamento podem
empurrar o mundo para milhões de novas infecções e até milhões de mortes
adicionais relacionadas ao HIV até 2030. Um medicamento com potencial
transformador não pode permanecer restrito justamente quando a resposta global
mais precisa dele.
Países
de renda média como Brasil, África do Sul e Índia, centrais para o
enfrentamento global da epidemia, foram deixados de fora dos acordos de
licenciamento voluntário. A exclusão atinge de forma especialmente grave a
América Latina, uma das regiões do mundo em que as novas infecções por HIV
seguem em crescimento: segundo a UNAIDS, houve aumento de 13% entre 2010 e
2024. Ainda assim, países latino-americanos que participaram dos ensaios
clínicos do lenacapavir – como Brasil, Argentina, México e Peru – foram
excluídos do processo. Em vez de uma estratégia ampla, imediata e orientada
pela equidade, prevaleceu uma política seletiva, que fragmenta o acesso, exclui
países que participaram dos estudos clínicos e transfere para os sistemas
públicos de saúde o custo (proibitivo) de proteger suas populações.
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Patente: barreira invisível do acesso
A crise
do lenacapavir não é um caso isolado. O atual regime de patentes, reforçado por
regras comerciais internacionais, tem produzido barreiras recorrentes ao acesso
a medicamentos essenciais, inclusive quando estão em jogo tecnologias capazes
de salvar vidas. No Brasil, cresce a pressão para que o Estado adote uma
resposta concreta. Organizações da sociedade civil, ativistas e especialistas
em saúde pública defendem que o país utilize todos os instrumentos legais
disponíveis para enfrentar o monopólio sobre o lenacapavir, inclusive a licença
compulsória.
Trata-se
de uma medida legal e legítima, prevista em acordos internacionais e na lei
brasileira. Não seria novidade, o precedente existe. Em 2007, ao decretar a
licença compulsória do efavirenz, o Brasil demonstrou que a proteção da saúde
pública pode prevalecer sobre interesses privados: o medicamento passou a ser
adquirido por uma fração do preço antes praticado pela multinacional, com
impacto direto sobre a sustentabilidade do tratamento no SUS.
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Quebrar patentes é legal, justo e salva vidas
O
Brasil já provou, como no caso do efavirenz, que pode exercer soberania em nome
da saúde pública. A licença compulsória, conhecida como quebra de patentes,
prevista em tratados internacionais como o Acordo TRIPS da Organização Mundial
do Comércio e reafirmada pela Declaração de Doha sobre TRIPS e Saúde Pública, é
um instrumento legal que permite enfrentar monopólios quando o interesse
público exige ampliar o acesso a medicamentos.
A
urgência desse debate aumentou com os cortes recentes no financiamento
internacional da resposta ao HIV. Modelagens publicadas no Lancet HIV indicam
que a retração da ajuda externa pode resultar em 770 mil a 2,9 milhões de
mortes relacionadas ao HIV e em milhões de novas infecções adicionais até 2030.
Em paralelo, um estudo mais amplo publicado no The Lancet estimou que o
desmonte da ajuda humanitária dos Estados Unidos pode provocar mais de 14
milhões de mortes evitáveis até 2030, incluindo 4,5 milhões de crianças menores
de cinco anos.
Em
paralelo, um artigo publicado no The BMJ sustenta que a atual política dos
Estados Unidos está alimentando uma emergência de saúde pública de importância
internacional, que reforça a gravidade do cenário global e o argumento de que
países podem precisar recorrer à licença compulsória para proteger suas
populações.
Nesse
cenário, países como o Brasil precisam demonstrar autonomia para proteger suas
populações. Diante da combinação entre crises globais, retração do
financiamento internacional e persistência de barreiras patentárias, a licença
compulsória deixa de ser uma hipótese abstrata e passa a se afirmar como medida
concreta de saúde pública.
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O que podemos fazer para mudar esse cenário
Em 14
de abril de 2026, a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial
da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública sobre a implementação do
lenacapavir no SUS. O debate evidenciou que, embora o país tenha participado
dos estudos clínicos e já exista registro sanitário na Anvisa, seguem em aberto
questões decisivas sobre preço, incorporação no SUS, produção local e
transferência de tecnologia.
Esse
tipo de discussão mostra, de forma concreta, como é possível atuar desde já
para ampliar a equidade no acesso e garantir que a inovação chegue, de fato, a
quem mais precisa. A boa notícia é que há instrumentos disponíveis desde já.
Cabe ao Estado brasileiro decidir se vai apenas assistir à reprodução da
desigualdade ou agir para transformar uma tecnologia promissora em direito
efetivo.
A
aprovação do lenacapavir marca uma nova era na prevenção do HIV. Mas se o
acesso continuar restrito aos que podem pagar, esse avanço será apenas mais um
símbolo da desigualdade que ainda marca a saúde global. Não basta celebrar a
ciência. É preciso garantir que suas descobertas cheguem a quem mais precisa. O
lenacapavir pode evitar milhões de novas infecções – mas para isso, precisa
deixar de ser um privilégio e se tornar um direito.
A
sociedade civil, a academia e os movimentos sociais já vêm cumprindo seu papel
ao denunciar exclusões, produzir evidências e pressionar por alternativas.
Agora, cabe ao Estado brasileiro agir com coragem – como já fez no passado – e
lutar pela equidade no acesso à saúde. Porque nenhuma patente vale mais que uma
vida.
Fonte:
Por Fernanda Rick, em Outra Saúde

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