Para
entender a ideologia pecuarista
Há
livros que, mesmo escritos há meio século, continuam dizendo mais sobre o
presente do que sobre o passado. Desafio à Pecuária Brasileira (1970), de José
Bernardo de Medeiros Neto, é um desses documentos. Não pela atualidade de seus
dados, mas porque cristaliza um imaginário que moldou — e ainda molda — a forma
como as elites agrárias do Sul se percebem, se legitimam e se projetam como
protagonistas do país. O prefácio, escrito por Nicanor Kramer da Luz, então
presidente da Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul, anuncia
com entusiasmo a emergência de um novo paradigma político econômico capaz de
responder aos desafios do ruralismo nacional. A obra se apresenta como um
chamado às batalhas que a produção primária deveria travar para reafirmar se,
mais uma vez, como força econômica central do país. O fato de ser escrita por
um autor gaúcho reforça a narrativa de bravura, conquista e protagonismo
regional.
De
acordo com a narrativa, o eixo argumentativo que sustenta a importância
nacional da pecuária é a fome. Com base em dados da FAO, o autor insiste na
ideia de que “o mundo tem fome de carne”, articulando números sobre a produção
pecuária e sua insuficiência para alimentar a população brasileira. A pecuária,
assim, é apresentada como solução simultânea para a economia e para a
insegurança nutricional.
Essa
construção discursiva se articula à figura do pecuarista como aventureiro —
“resultado de seu espírito aventureiro” — aquele que teria defendido terras de
indígenas e outros “invasores”, legitimado por sesmarias concedidas pelo
governo português. Trata se de uma narrativa que naturaliza a violência
fundiária e a transforma em epopeia civilizatória. A terra aparece como
território conquistado, domado e, sobretudo, apropriado, o que dialoga com
análises contemporâneas sobre a formação das elites agrárias no Cone Sul.
Como
afirma Zanella (2024), a economia estancieira se consolidou articulando “largos
domínios fundiários privados com atividades de pecuária extensiva”, combinando
poder econômico, político e simbólico (p. 53). Essa leitura permite
reinterpretar o “espírito aventureiro” como mecanismo histórico de acumulação e
reprodução de classe.
Em uma
passagem emblemática, Medeiros Neto afirma: “Acreditamos, baseados em inúmeros
exemplos, inclusive modernamente no denominado milagre israelense, que o homem
tem condições de vencer a natureza, pela técnica e pela inteligência” (Medeiros
Neto, 1970, p. 72). Essa crença no domínio técnico da natureza antecipa a
lógica que, décadas depois, estruturaria o agronegócio no Cone Sul. Benítez e
Neumann (2015) mostram que, no Uruguai, o boom das commodities e a entrada de
capitais estrangeiros promoveram um salto tecnológico que aumentou a
produtividade, mas também expulsou pequenos produtores. Segundo os autores: “o
aumento do fluxo internacional de capitais […] permitiu incorporar tecnologias
que aumentassem mais ainda a produtividade do trabalho, gerando poupança de mão
de obra e necessidade de maiores escalas de produção” (Benítez; Neumann, 2015,
p. 358). Essa dinâmica evidencia que a modernização tecnocrática exaltada nos
anos 1970 não era apenas um ideal, mas parte de um processo histórico que, ao
se consolidar, aprofundou desigualdades e acelerou a concentração fundiária.
Nesse
mesmo sentido, Zanella (2024) reforça esse diagnóstico ao analisar o Rio Grande
do Sul contemporâneo: a partir dos anos 1990, observa-se a transição de uma
matriz baseada na pecuária extensiva para a expansão da soja e da silvicultura,
impulsionada por “ajustes liberais” e pela demanda internacional por
commodities (p. 52). Ou seja, essa reconfiguração parte de um processo
histórico de reestruturação capitalista que exigia escala, capital e
tecnificação — condições inacessíveis para a maioria dos produtores familiares.
Essa
leitura histórica ilumina a narrativa de Medeiros Neto: o “lutador” que
enfrenta secas e enchentes é também herdeiro de uma estrutura fundiária
construída sobre a expulsão de povos indígenas, negros escravizados, caboclos e
camponeses — processos marcados por “massacres, genocídios e apagamentos”
(Tricontinental, 2020, p. 8-9).
A obra
de Medeiros Neto também revela, ainda que de forma não problematizada, a
exploração estrutural do trabalhador rural. O autor observa que a pecuária
exige a permanência do empregado na estância durante toda a semana, afastando o
da família. Quando esta permanece na cidade, o trabalhador só pode visitá la
aos domingos; quando se muda para a fazenda, ocorre o inverso: “Por terem mais
bocas a alimentar, os fazendeiros reduzem, nessas condições, de maneira
significativa, o salário do empregado, porque de fato a alimentação da família
deste último encarece as despesas do estabelecimento.” (Medeiros Neto, 1970, p.
144).
Essa
passagem evidencia a lógica de precarização que sustenta o setor, reforçada
pela leitura de Benítez e Neumann sobre o caráter rentista da terra. Para os
autores, a terra é utilizada como “garantia para a obtenção de créditos […] e
como fonte de poder” (Benítez; Neumann, 2015, p. 365). Zanella (2024)
complementa ao mostrar que os estancieiros, mesmo diante de crises, mantêm sua
posição dominante por meio da articulação entre patrimônio fundiário,
influência política e acesso privilegiado a fundos públicos.
A
análise de Piccin (2016) aprofunda esse quadro ao mostrar que a elite
estancieira gaúcha, historicamente associada ao poder político e econômico,
enfrenta desde os anos 1990 um processo de recomposição forçada. A abertura
econômica e a queda do preço do gado “puseram fim à estratégia econômica de
controle dos preços praticada pelos grandes proprietários de terra” (Piccin,
2016, p. 151). O autor demonstra que o habitus estancieiro — marcado pelo
“desinteresse interessado” e pela distância em relação ao trabalho manual —
tornou-se mal adaptado às novas condições econômicas.
Piccin
(2016) mostra ainda que, diante da crise, muitos estancieiros passaram a
depender do arrendamento de terras, enquanto descendentes de colonos ascenderam
socialmente, adquirindo áreas antes inacessíveis. Essa inversão revela que a
estrutura fundiária não é estática, mas atravessada por disputas e
recomposições. O autor sintetiza essa transformação ao afirmar que: “a vaca não
paga mais a conta” (Piccin, 2016, p. 152), expressão que simboliza o colapso de
um modelo econômico baseado na pecuária extensiva e na renda fundiária.
Assim,
ao analisar Desafio à Pecuária Brasileira à luz das dinâmicas fundiárias do
Cone Sul e das lutas contemporâneas pela terra, torna se possível compreender a
mentalidade do pecuarista da década de 1970 como parte de um processo histórico
mais amplo: uma combinação de heroísmo autoproclamado, defesa de um projeto
modernizador tecnocrático e manutenção de práticas sociais profundamente
desiguais. A obra funciona como documento histórico de uma ideologia ruralista
que buscava se legitimar em meio às transformações políticas e econômicas do
período, projetando para o futuro uma pecuária que, para se fortalecer,
precisava antes reafirmar seus mitos fundadores — mitos que hoje são
contestados por movimentos sociais que reivindicam não apenas terra, mas outro
modelo de país.
Fonte:
Por Pamela Kenne, em Outras Palavras

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