quinta-feira, 30 de abril de 2026

Para entender a ideologia pecuarista

Há livros que, mesmo escritos há meio século, continuam dizendo mais sobre o presente do que sobre o passado. Desafio à Pecuária Brasileira (1970), de José Bernardo de Medeiros Neto, é um desses documentos. Não pela atualidade de seus dados, mas porque cristaliza um imaginário que moldou — e ainda molda — a forma como as elites agrárias do Sul se percebem, se legitimam e se projetam como protagonistas do país. O prefácio, escrito por Nicanor Kramer da Luz, então presidente da Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul, anuncia com entusiasmo a emergência de um novo paradigma político econômico capaz de responder aos desafios do ruralismo nacional. A obra se apresenta como um chamado às batalhas que a produção primária deveria travar para reafirmar se, mais uma vez, como força econômica central do país. O fato de ser escrita por um autor gaúcho reforça a narrativa de bravura, conquista e protagonismo regional.

De acordo com a narrativa, o eixo argumentativo que sustenta a importância nacional da pecuária é a fome. Com base em dados da FAO, o autor insiste na ideia de que “o mundo tem fome de carne”, articulando números sobre a produção pecuária e sua insuficiência para alimentar a população brasileira. A pecuária, assim, é apresentada como solução simultânea para a economia e para a insegurança nutricional.

Essa construção discursiva se articula à figura do pecuarista como aventureiro — “resultado de seu espírito aventureiro” — aquele que teria defendido terras de indígenas e outros “invasores”, legitimado por sesmarias concedidas pelo governo português. Trata se de uma narrativa que naturaliza a violência fundiária e a transforma em epopeia civilizatória. A terra aparece como território conquistado, domado e, sobretudo, apropriado, o que dialoga com análises contemporâneas sobre a formação das elites agrárias no Cone Sul.

Como afirma Zanella (2024), a economia estancieira se consolidou articulando “largos domínios fundiários privados com atividades de pecuária extensiva”, combinando poder econômico, político e simbólico (p. 53). Essa leitura permite reinterpretar o “espírito aventureiro” como mecanismo histórico de acumulação e reprodução de classe.

Em uma passagem emblemática, Medeiros Neto afirma: “Acreditamos, baseados em inúmeros exemplos, inclusive modernamente no denominado milagre israelense, que o homem tem condições de vencer a natureza, pela técnica e pela inteligência” (Medeiros Neto, 1970, p. 72). Essa crença no domínio técnico da natureza antecipa a lógica que, décadas depois, estruturaria o agronegócio no Cone Sul. Benítez e Neumann (2015) mostram que, no Uruguai, o boom das commodities e a entrada de capitais estrangeiros promoveram um salto tecnológico que aumentou a produtividade, mas também expulsou pequenos produtores. Segundo os autores: “o aumento do fluxo internacional de capitais […] permitiu incorporar tecnologias que aumentassem mais ainda a produtividade do trabalho, gerando poupança de mão de obra e necessidade de maiores escalas de produção” (Benítez; Neumann, 2015, p. 358). Essa dinâmica evidencia que a modernização tecnocrática exaltada nos anos 1970 não era apenas um ideal, mas parte de um processo histórico que, ao se consolidar, aprofundou desigualdades e acelerou a concentração fundiária.

Nesse mesmo sentido, Zanella (2024) reforça esse diagnóstico ao analisar o Rio Grande do Sul contemporâneo: a partir dos anos 1990, observa-se a transição de uma matriz baseada na pecuária extensiva para a expansão da soja e da silvicultura, impulsionada por “ajustes liberais” e pela demanda internacional por commodities (p. 52). Ou seja, essa reconfiguração parte de um processo histórico de reestruturação capitalista que exigia escala, capital e tecnificação — condições inacessíveis para a maioria dos produtores familiares.

Essa leitura histórica ilumina a narrativa de Medeiros Neto: o “lutador” que enfrenta secas e enchentes é também herdeiro de uma estrutura fundiária construída sobre a expulsão de povos indígenas, negros escravizados, caboclos e camponeses — processos marcados por “massacres, genocídios e apagamentos” (Tricontinental, 2020, p. 8-9).

A obra de Medeiros Neto também revela, ainda que de forma não problematizada, a exploração estrutural do trabalhador rural. O autor observa que a pecuária exige a permanência do empregado na estância durante toda a semana, afastando o da família. Quando esta permanece na cidade, o trabalhador só pode visitá la aos domingos; quando se muda para a fazenda, ocorre o inverso: “Por terem mais bocas a alimentar, os fazendeiros reduzem, nessas condições, de maneira significativa, o salário do empregado, porque de fato a alimentação da família deste último encarece as despesas do estabelecimento.” (Medeiros Neto, 1970, p. 144).

Essa passagem evidencia a lógica de precarização que sustenta o setor, reforçada pela leitura de Benítez e Neumann sobre o caráter rentista da terra. Para os autores, a terra é utilizada como “garantia para a obtenção de créditos […] e como fonte de poder” (Benítez; Neumann, 2015, p. 365). Zanella (2024) complementa ao mostrar que os estancieiros, mesmo diante de crises, mantêm sua posição dominante por meio da articulação entre patrimônio fundiário, influência política e acesso privilegiado a fundos públicos.

A análise de Piccin (2016) aprofunda esse quadro ao mostrar que a elite estancieira gaúcha, historicamente associada ao poder político e econômico, enfrenta desde os anos 1990 um processo de recomposição forçada. A abertura econômica e a queda do preço do gado “puseram fim à estratégia econômica de controle dos preços praticada pelos grandes proprietários de terra” (Piccin, 2016, p. 151). O autor demonstra que o habitus estancieiro — marcado pelo “desinteresse interessado” e pela distância em relação ao trabalho manual — tornou-se mal adaptado às novas condições econômicas.

Piccin (2016) mostra ainda que, diante da crise, muitos estancieiros passaram a depender do arrendamento de terras, enquanto descendentes de colonos ascenderam socialmente, adquirindo áreas antes inacessíveis. Essa inversão revela que a estrutura fundiária não é estática, mas atravessada por disputas e recomposições. O autor sintetiza essa transformação ao afirmar que: “a vaca não paga mais a conta” (Piccin, 2016, p. 152), expressão que simboliza o colapso de um modelo econômico baseado na pecuária extensiva e na renda fundiária.

Assim, ao analisar Desafio à Pecuária Brasileira à luz das dinâmicas fundiárias do Cone Sul e das lutas contemporâneas pela terra, torna se possível compreender a mentalidade do pecuarista da década de 1970 como parte de um processo histórico mais amplo: uma combinação de heroísmo autoproclamado, defesa de um projeto modernizador tecnocrático e manutenção de práticas sociais profundamente desiguais. A obra funciona como documento histórico de uma ideologia ruralista que buscava se legitimar em meio às transformações políticas e econômicas do período, projetando para o futuro uma pecuária que, para se fortalecer, precisava antes reafirmar seus mitos fundadores — mitos que hoje são contestados por movimentos sociais que reivindicam não apenas terra, mas outro modelo de país.

 

Fonte: Por Pamela Kenne, em Outras Palavras

 

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