'Rejeição
de Messias é vitória para Alcolumbre, mas ele vai ter que lidar com efeito
rebote disso', diz analista
Com 42
votos contra e 34 a favor e uma abstenção, a indicação de Jorge Messias para
o Supremo
Tribunal Fedral (STF) foi rejeitada pelo Senado.
Até
hoje, apenas cinco casos de nomes apresentados pela Presidência da República
não foram referendados pelo Congresso.
Todos
durante a gestão do segundo presidente da história da república, o militar
Floriano Peixoto (1839-1895), que governou o país de 1891 a 1894.
Messias
precisava de 41 votos para ser aprovado.
A
derrota histórica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva é um indicador de um
processo de longo prazo: a incapacidade do petista de ter uma maioria ou uma
base forte articulada no Congresso Nacional em seu terceiro mandato.
E
também representa uma vitória do presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP) em uma disputa com o Executivo.
A
avaliação é do cientista político Creomar de Souza, fundador da consultoria
Dharma e professor da Fundação Dom Cabral.
Os
efeitos podem ser duradouros. Segundo o analista, números positivos do governo
em votações anteriores na Câmara e no Senado nunca refletiram a real capacidade
de articulação do Planalto nas duas Casas legislativas.
"Apesar
da derrota e da rejeição do eleitor à figura de Jair Bolsonaro, o Congresso foi
povoado com uma fauna muito mais conservadora. E esse erro de leitura, somado a
outros elementos como, por exemplo, a própria dinâmica das emendas
parlamentares, deu aos senadores a maior capacidade de ação e de se posicionar
rejeitando o nome", disse.
A
avaliação é que a derrota na indicação ao STF deve marcar um ponto de inflexão
no governo.
"Ouvi
de uma pessoa que eu respeito muito aqui em Brasília que, caso o governo
perdesse a indicação do Messias, poderia se dizer que o governo Lula 3 acaba do
ponto de vista legislativo", diz.
"Obviamente
que no que diz respeito ao processo eleitoral é outra dinâmica, mas no ponto de
vista de apreciação e avanço de pautas importantes isso dá um recado muito
complicado, muito difícil de ser superado, ainda mais tendo em vista os
esforços e o gasto de recursos, inclusive financeiros, feito para tentar
avançar e aprovar o nome de Messias."
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'Situação de Alcolumbre é dúbia'
Nenhum
nome indicado ao STF havia sido rejeitado desde o século 19. Com isso, o
presidente terá que indicar outro nome para a vaga na Corte, que vai passar
novamente por votação no Senado. Não há prazo para que um outro nome seja
apresentado.
Há
ainda a possibilidade de que o Senado adie qualquer nova indicação até depois
das eleições de outubro.
Na
votação da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Messias havia
sido aprovado por 16 votos a 11, o placar mais apertado desde a
redemocratização.
A
derrota também reconfigura as forças no Senado, diz Creomar de Souza. Para ele,
o presidente do Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), sai com uma vitória parcial,
mas em posição delicada.
Contrário
à indicação de Messias, Alcolumbre chegou a recebê-lo na semana passada, mas
evitou assumir qualquer compromisso de apoio.
Nos
bastidores, o presidente do Senado pediu a pelo menos dois senadores que
votassem contra a indicação de Lula, de acordo com relatos deles à Folha de
S.Paulo. Alcolumbre tem relação estreita com Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que era
cotado para a vaga no Supremo.
Desde
novembro do ano passado, quando o governo federal ventilou pela primeira vez o
nome de Messias, o senador já dava sinais de que preferia a indicação de
Pacheco.
"Me
parece que a situação do Alcolumbre é dúbia", afirma o cientista político.
"Ao mesmo tempo em que ele trabalhou contrariamente ao nome de Messias
desde sempre, por uma preferência explícita ao senador Rodrigo Pacheco, não
necessariamente ele vai ser benquisto pela base bolsonarista no Senado
Federal."
"Ele
tem essa vitória que é a não entrada do Messias no STF, mas em algum sentido
ele vai ter que lidar com o efeito rebote disso — que provavelmente será a
perda de algumas indicações que ele possui na estrutura do governo federal e a
necessidade de observar o jogo eleitoral com muita tranquilidade para entender
o que fazer."
No STF,
o episódio tende a elevar a pressão institucional. O cientista político aponta
que parte da Corte atuou nos bastidores em favor da indicação, e a derrota cria
um ambiente de incerteza.
"O
que sei de conversas aqui em Brasília é que a disposição do Alcolumbre é não
apreciar nenhum novo nome que venha antes do resultado das eleições de outubro.
Isso já coloca já dá um recado para o STF que segue numa posição defensiva de
um lado. E dá um recado para o Planalto, que vai ter que se refazer porque
amanhã já tem apreciação de dosimetria e outras votações que são importantes
para o governo."
O PL da
Dosimetria foi vetado por Lula, mas a expectativa é que o veto seja derrubado
nesta quinta-feira (30/4).
Caso
isso ocorra, é possível que o STF seja provocado a avaliar a
constitucionalidade da redução das penas, em novo ponto de tensão com o
Congresso e o campo bolsonarista.
¨
Oposição celebra rejeição de Messias ao STF enquanto
governo atribui derrota a 'chantagem política'
A rejeição no
Senado do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para
o cargo de ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF), marcou uma derrota histórica para o
governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) nesta quarta-feira (29/4).
Messias
recebeu 42 votos contra e 34 a favor de sua indicação. A votação foi secreta,
ou seja, não é possível saber como os senadores votaram.
A
rejeição no plenário veio após uma longa sabatina com Messias durante esta
quarta-feira, realizada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
A
última vez que um nome indicado por um presidente para a Corte foi rejeitado
pelo Senado ocorreu há
132 anos — o que fez com que parlamentares da oposição
celebrassem o resultado.
Um
deles foi o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), que participou da sabatina de Messias. Ele
publicou uma mensagem no X afirmando que a rejeição do indicado de Lula mostra
que "o Brasil tem futuro".
"Por
42 votos a 34, o Senado fez história e evitou que a esquerda e o PT
aparelhassem ainda mais o Estado e a Justiça. Podemos dizer com confiança que o
Brasil tem futuro", escreveu.
Assim
como ele, o senador Sergio Moro (PL-PR), que durante a sabatina fez críticas à
indicação de Messias, alegando "que não era o momento para preenchimento
da vaga no STF", também comemorou a rejeição.
"O
AGU Jorge Messias foi rejeitado. Queremos um STF independente de Lula e do
Poder Executivo, vinculado apenas à lei e à Constituição", escreveu Moro.
Já os
senadores Marcio Bittar (PL-AC) e Jorge Seif (PL-SC) ressaltaram a derrota
histórica imposta pelo Senado ao governo.
"Pela
primeira vez na história da República, o Senado rejeita um indicado do
presidente ao STF. Não era só sobre um nome, era sobre limite. Hoje mostramos
que nem tudo passa", disse Bittar.
"Hoje
mostramos que temos voto para 'impichar'", afirmou Seif, em um vídeo
gravado ao lado do deputado federal Mario Frias (PL-RJ).
Por
outro lado, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) lamentou o resultado da
votação e elogiou Messias como "profissional sério e qualificado".
Mas deixou um recado aos ministros do Supremo Tribunal: "Que sirva de
combustível para a faxina necessária no tribunal", escreveu no X.
Na base
do governo, a rejeição de Messias foi atribuída a uma "chantagem
política" e "pressão do processo eleitoral".
Em uma
publicação no X, Guilherme Boulos (PT-SP), ministro da Secretaria-Geral da
Presidência, criticou o resultado e disse que o Senado "sai menor"
desse episódio.
"A
aliança entre bolsonarismo e chantagem política venceu na rejeição ao nome de
Jorge Messias ao STF. O Senado sai menor desse episódio lamentável",
escreveu.
Em
coletiva de imprensa após a votação, parlamentares de esquerda elogiaram Jorge
Messias e também lamentaram a rejeição do nome dele.
O líder
do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou que o
resultado não representa a opinião do povo e que foi influenciado pelo
"processo eleitoral".
"É
uma decisão dos senadores, não é uma decisão do povo brasileiro. O povo
brasileiro vai eleger o Lula em outubro", afirmou o petista.
"O
processo eleitoral funcionou, teve uma pressão, tiveram vários fatores do
processo eleitoral que acabaram impactando nessa decisão."
Já o
ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE),
afirmou que agora "cabe ao Senado explicar as razões da rejeição" da
indicação de Messias.
Messias
também falou com a imprensa e disse que era preciso "saber perder".
"Cumpri
meu desígnio, participei de forma íntegra durante todo esse processo...A vida é
assim, tem dias de vitória, tem dias de derrota. O plenário é soberano. Faz
parte do processo democrático saber ganhar, saber perder."
Fonte:
BBC News Brasil

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