Chile
e a geopolítica da exclusão: fronteiras seletivas em um mundo globalizado
A
globalização, impulsionada pelo avanço da informática e das telecomunicações,
consolidou uma promessa central: a compressão do espaço-tempo. Para David
Harvey (1999), esse processo não é apenas um fenômeno tecnológico, mas uma
etapa do desenvolvimento capitalista na qual inovações organizacionais permitem
que o capital circule com velocidade inédita, ‘aniquilando o espaço por meio do
tempo’ para maximizar sua acumulação e controle sobre a economia mundial.
Nunca
foi tão fácil circular informações, capitais e mercadorias. Em milissegundos,
dados atravessam oceanos; em segundos, bilhões de dólares são realocados entre
mercados; em poucas horas, cadeias produtivas reorganizam-se em escala
planetária.
No
entanto, essa fluidez é profundamente assimétrica. A mesma ordem que dissolve
fronteiras para o capital as reinstaura, com rigor ferrenho, para os corpos. O
mundo contemporâneo é marcado por uma contradição estrutural: enquanto os
fluxos digitais e financeiros operam sob a lógica da desterritorialização, a
mobilidade humana é cada vez mais submetida a dispositivos de controle,
vigilância e contenção.
Não por
acaso, o número de barreiras físicas nas fronteiras internacionais explodiu nas
últimas décadas. Segundo a pesquisadora em Geopolítica Élisabeth Vallet, no artigo The
World Is Witnessing a Rapid Proliferation of Border Walls (O mundo
está testemunhando uma rápida proliferação de muros de fronteira, em
tradução livre), o inventário global de muros saltou de menos de cinco ao fim
da Segunda Guerra para menos de uma dúzia após a queda do Muro de Berlim,
atingindo 74 estruturas ativas no século 21, a maioria delas erguida nos
últimos 20 anos. Esse movimento contradiz o otimismo do pós-Guerra Fria, que
vislumbrava a obsolescência das fronteiras sob a égide do liberalismo
triunfante. Hoje, pelo menos outros 15 projetos aguardam execução, consolidando
uma arquitetura de exclusão que, embora mire o controle da imigração, revela-se mais
eficaz como símbolo político do que como barreira técnica.
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O retorno dos muros como tecnologia de poder
Historicamente,
os muros foram instrumentos de defesa territorial, das muralhas medievais às
fortificações imperiais. Em sua forma mais elementar, tinham como finalidade
resguardar o “dentro” contra ameaças externas. Ao delimitar territórios, ele
impede o encontro indesejado com o outro, restringe a livre circulação e
funciona como uma barreira de proteção.
No
mundo contemporâneo, contudo, essa função se reconfigura e torna-se mais
complexa. Os muros deixam de ser apenas estruturas de contenção espacial para
se tornarem dispositivos ativos de poder. Mais do que delimitar fronteiras,
passam a produzir hierarquias globais, operando como filtros que definem quem
pode circular e sob quais condições. Nesse sentido, a seletividade torna-se seu
princípio central: enquanto mercadorias, capitais e turistas atravessam com
relativa liberdade, migrantes, refugiados e outros sujeitos considerados
indesejáveis encontram nesses mesmos muros um obstáculo quase intransponível.
A
proliferação de muros no mundo contemporâneo não pode ser compreendida como um
conjunto de iniciativas isoladas ou respostas circunstanciais a crises locais.
Trata-se, antes, da expressão de uma racionalidade política na qual a fronteira
se converte em instrumento ativo de gestão das desigualdades globais. Ao
evidenciar a convergência de práticas estatais voltadas ao controle seletivo da
mobilidade humana, esses dispositivos expõem a assimetria de uma ordem
internacional que celebra a livre circulação de capitais e mercadorias, ao
mesmo tempo em que fortalece seus limites diante do deslocamento de pessoas.
O
exemplo mais visível dessa dinâmica pode ser representado pela barreira erguida
entre Estados Unidos e México, conhecida como o ‘muro do Trump’. Mais do que um
dispositivo físico de contenção, essa estrutura simboliza a consolidação de uma
política que opera sob a lógica da securitização, entendida, conforme a
internacionalista Clara Eroukhmanoff, não como mera reação a um perigo real, mas
como um ‘ato de fala’ que associa a mobilidade humana a uma ameaça existencial
à soberania.
Segundo
o artigo Securitização da
migração: o motor da xenofobia e do colapso dos direitos humanos, de Ling X. Liang e
publicado no portal MigraMundo, essa abordagem converte o migrante em um
“inimigo” ou risco, fomentando a xenofobia e restringindo direitos humanos em
nome da proteção territorial.
Ao
converter a fronteira em um espaço de vigilância permanente, o Estado retira a
migração do campo do debate político e a desloca para o campo da emergência.
Nesse caso, a securitização não apenas justifica a expansão da infraestrutura
de controle e do aparato militar, mas também legitima a construção de uma
narrativa na qual o migrante é percebido como um risco social e econômico que
exige medidas excepcionais de defesa.
Essa
lógica não se restringe a um único contexto. A arquitetura de exclusão
geográfica materializa-se nos enclaves de Ceuta e Melilla, onde a fronteira
europeia projeta-se sobre o território africano, operando como um filtro que
materializa a separação entre Norte e Sul globais; na fronteira entre Grécia e
Turquia, a União Europeia desloca o controle migratório para suas margens; no
Oriente Médio, o muro na Cisjordânia redefine territorialidades e assimetrias
políticas; e, na península coreana, barreiras altamente militarizadas
evidenciam que, mesmo fora do campo migratório, a contenção espacial permanece
central às estratégias contemporâneas de poder.
Tomados
em conjunto, esses exemplos demonstram que os muros contemporâneos não são
meras respostas técnicas a problemas de segurança, mas expressões de
uma ordem internacional profundamente desigual. Ao selecionar quem pode
atravessar e quem deve ser contido, essas barreiras tornam-se dispositivos
centrais de uma geopolítica da exclusão, na qual a mobilidade, longe de ser um
direito universal, é convertida em privilégio.
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Chile: o fosso como política de Estado
É nesse
contexto que se insere o caso chileno. Diferentemente de outras experiências
marcadas por grandes muros de concreto, o Chile aposta em uma solução
aparentemente mais rudimentar, mas igualmente reveladora: a construção de valas
(fossos) e barreiras físicas em sua fronteira norte, especialmente na região de
Colchane, na divisa com a Bolívia.
A
escolha do fosso não é trivial. Trata-se de uma tecnologia de contenção que
opera tanto no plano físico quanto simbólico: impede a travessia de veículos,
dificulta deslocamentos a pé e sinaliza, de forma visível, a tentativa estatal
de retomar o controle territorial.
As
justificativas apresentadas pelo Estado chileno para essa política articulam-se
em torno de um conjunto de fatores que combinam dimensões humanitárias, de
segurança e políticas. Em primeiro lugar, destaca-se o aumento da pressão
migratória, impulsionado sobretudo pela intensificação da crise na Venezuela,
que transformou o Chile em um dos
principais destinos regionais. Em 2024, a população migrante
no país ultrapassou 1,6 milhão de pessoas, com predominância de venezuelanos.
Esse fluxo, visto pelo capital como força de trabalho desterritorializada,
é lido pelo Estado sob a ótica da ameaça, levando o governo a adotar medidas
voltadas ao controle mais rigoroso das entradas, sob o argumento de
restabelecer a capacidade de gestão fronteiriça.
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A esse
cenário soma-se a crescente preocupação com o avanço do crime organizado nas
zonas de fronteira. Autoridades chilenas têm associado a permeabilidade
territorial ao fortalecimento de redes ligadas ao tráfico de drogas e de
pessoas, argumentando que a ausência de barreiras físicas facilitaria não
apenas a circulação de mercadorias ilícitas, mas também a atuação de
intermediários que exploram migrantes em trânsito. Nesse contexto, o fosso é
apresentado como um instrumento de contenção que extrapola a questão
migratória, inserindo-se em uma estratégia mais ampla de intensificação da
vigilância e de reafirmação da presença estatal na região.
Outro
elemento central reside na pressão da opinião pública interna. O aumento das
percepções de insegurança, amplificado pela maior visibilidade do fenômeno
migratório nas cidades do norte chileno, tem impulsionado a emergência de
discursos políticos que reivindicam respostas mais rápidas e duras por parte do
Estado. Nesse contexto, a construção de barreiras físicas ultrapassa sua função
material e adquire um forte caráter simbólico: projeta a imagem de controle,
autoridade e capacidade de ação governamental diante de um tema sensível e
complexo. No entanto, essa resposta revela uma simplificação estratégica. Ao
privilegiar soluções visíveis e de rápida execução, como muros e fossos,
governos recorrem a expedientes que produzem efeito imediato no imaginário
social, mas pouco enfrentam as causas estruturais da migração. Trata-se de uma
prática política recorrente, frequentemente associada a estratégias populistas,
nas quais a mobilização do medo e a construção do “outro” como ameaça funcionam
como mecanismos de coesão, convertendo problemas complexos em respostas simples
e politicamente rentáveis.
Por
fim, o governo recorre a argumentos de ordem geográfica e humanitária. A
travessia pelo deserto do Atacama, marcada por temperaturas extremas, escassez
de água e longas distâncias, expõe migrantes a riscos severos, não raramente
fatais. Ao propor canalizar esses fluxos para pontos oficiais de controle, a
construção do fosso é apresentada como uma medida de proteção. No entanto, essa
justificativa encerra uma ambiguidade central: ao invés de eliminar o risco,
tais intervenções tendem a deslocá-lo, empurrando migrantes para rotas ainda
mais precárias e perigosas.
Assim,
mais do que respostas isoladas, essas justificativas revelam uma lógica
integrada na qual segurança, política e gestão territorial se entrelaçam,
convertendo a fronteira em um espaço privilegiado de intervenção estatal diante
das tensões produzidas pela mobilidade contemporânea.
Resta,
porém, uma provocação central: para além da superfície das justificativas
oficiais, que dimensões mais profundas emergem quando os muros são
compreendidos não como falhas, mas como engrenagens de uma economia global
excludente, que redefine a soberania a partir do privilégio?
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Entre a integração econômica e a fragmentação territorial
O Chile
figura entre os países mais integrados à economia global, sustentado por uma
extensa rede de acordos de livre comércio e por uma forte dependência da
circulação internacional de capitais e mercadorias. Sua inserção internacional,
nesse sentido, está profundamente ancorada na lógica da abertura.
A
construção do fosso, contudo, evidencia um paradoxo apenas aparente: o
mesmo Estado que promove a fluidez dos fluxos econômicos impõe barreiras à
mobilidade humana.
Longe
de constituir uma contradição, essa dinâmica expressa uma coerência própria da
globalização neoliberal, marcada por sua natureza seletiva. Enquanto amplia a
circulação daquilo que gera valor e rentabilidade, restringe e frequentemente
criminaliza fluxos associados à vulnerabilidade social e à pressão sobre
direitos e políticas públicas.
Muitos
desses migrantes são, na verdade, produto direto desse mesmo processo: resultam
das dinâmicas de expansão e exclusão que caracterizam a atual fase do
capitalismo global. Como argumenta a
socióloga Saskia Sassen, trata-se de sujeitos expulsos por uma forma específica
de “desenvolvimento econômico”, que os transforma em uma nova condição de
deslocamento forçado. Ainda que classificados como migrantes, esses indivíduos
frequentemente não dispõem de um “lugar de retorno”: são, em larga medida,
despossuídos de pertencimento, configurando aquilo que a autora denomina
‘refugiados do desenvolvimento’.
Nesse
enquadramento, o migrante deixa de ser percebido como sujeito de
mobilidade e passa a ser construído como risco, inscrito em uma lógica de
segurança que legitima práticas de contenção e exclusão.
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A política do medo e a construção do inimigo
A
expansão dessas barreiras físicas e simbólicas não pode ser dissociada do
avanço de agendas políticas que instrumentalizam a mobilidade humana como uma
ameaça existencial. Em um cenário global de erosão do Estado de Bem-Estar
Social, setores conservadores e de extrema-direita operam uma
manobra discursiva perversa: a construção do imigrante como o “bode
expiatório”, no qual passa a ser associado ao desemprego e à precarização dos
serviços públicos.
Essa
narrativa cumpre uma função política e econômica central ao ocultar
as contradições estruturais do capitalismo contemporâneo.
Ao rotular o migrante como um “invasor”, questões como desigualdade,
precarização do trabalho e erosão de direitos, que são o foco das falhas
intrínsecas do modelo neoliberal, deixam de ser compreendidas como produtos de
dinâmicas sistêmicas e passam a ser interpretadas como efeitos da presença
indesejada de determinados grupos.
Longe
de constituir apenas uma retórica estatal, essa lógica produz efeitos concretos
sobre os sujeitos que pretende regular. Conforme reportagem recente
de Manoella Smith na Folha de S.Paulo, imigrantes no Chile relatam uma “rotina
marcada por medo e incerteza”, acompanhada por um aumento perceptível da
xenofobia e pela sensação de serem convertidos em “bodes expiatórios” das
crises nacionais. A fronteira, nesse sentido, deixa de ser apenas um limite
territorial e passa a operar como dispositivo difuso de controle social. O
medo, nesse contexto, consolida-se como recurso político central, operando como
instrumento de governo que legitima práticas de exclusão sob o argumento da
proteção.
Essa
dinâmica revela uma das faces mais perversas da globalização: longe de promover
uma integração humana universal, a ampliação da abertura aos fluxos de capital
pode, paradoxalmente, intensificar dinâmicas de isolamento e exclusão. Assim
sendo, enquanto fluxos financeiros e mercadorias circulam de forma cada vez
mais ampla, tanto digital quanto física, corpos considerados indesejados são
progressivamente confinados em novos arquipélagos de exclusão.
O fosso
e o muro tornam-se, assim, não apenas barreiras materiais, mas expressões de
uma racionalidade política mais ampla, na qual a fronteira é convertida em
dispositivo de gestão diferencial da mobilidade. Essas estruturas operam como
mecanismos de produção e gestão da separação entre grupos sociais,
conforme interesses políticos específicos. Trata-se, portanto, do que o
cientista político Achille Mbembe define como gestão necropolítica: um
exercício de poder que se manifesta na capacidade de determinar quem pode
circular com segurança e quem será exposto a condições de risco extremo,
inclusive à morte, em nome de uma soberania que se reafirma precisamente pela
exclusão e pelo descarte do “outro” nos espaços fronteiriços.
Nesse
sentido, mais do que proteger, essas barreiras materializam um regime que
conecta mercados, mas fragmenta sociedades, convertendo a mobilidade em
privilégio e o medo em instrumento de governo.
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A geografia da exclusão e a política da mobilidade seletiva
Apesar
de sua aparência imponente, os muros do século 21 raramente conseguem
interromper de forma absoluta os fluxos migratórios. Na prática, sua função se
expressa por meio de uma reorganização perversa: ao invés de impedir a
mobilidade, essas estruturas produzem deslocamentos mais perigosos e onerosos,
fortalecendo redes ilegais de intermediação e aprofundando a vulnerabilidade
humana. O fosso no norte do Chile, assim como tantas outras barreiras
contemporâneas, não deve ser lido como um sinal de força estatal, mas como a
tentativa desesperada de administrar, de forma seletiva e excludente, as
tensões de um mundo profundamente desigual.
Nesse
contexto, as fronteiras transformaram-se em dispositivos mais complexos,
tecnológicos e, sobretudo, assimétricos. Elas já não se limitam a separar
territórios; passam a segregar direitos e humanidades. O fosso chileno
revela-se, portanto, como muito mais do que uma obra de engenharia rudimentar:
ele é o símbolo concreto de uma ordem internacional em que a livre circulação
tornou-se um privilégio de classe, e não um direito universal. Ao final, essas
alterações na paisagem materializam a contradição definitiva de nossa era, um
mundo que anseia pela conexão total dos mercados, mas que se entrincheira
diante da presença do outro, convertendo a geografia em instrumento de punição
para aqueles que ousam atravessar as linhas da exclusão.
Fonte:
Por Maurício Alfredo, em Diálogos do Sul Global

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