quarta-feira, 29 de abril de 2026

Chile e a geopolítica da exclusão: fronteiras seletivas em um mundo globalizado

A globalização, impulsionada pelo avanço da informática e das telecomunicações, consolidou uma promessa central: a compressão do espaço-tempo. Para David Harvey (1999), esse processo não é apenas um fenômeno tecnológico, mas uma etapa do desenvolvimento capitalista na qual inovações organizacionais permitem que o capital circule com velocidade inédita, ‘aniquilando o espaço por meio do tempo’ para maximizar sua acumulação e controle sobre a economia mundial.

Nunca foi tão fácil circular informações, capitais e mercadorias. Em milissegundos, dados atravessam oceanos; em segundos, bilhões de dólares são realocados entre mercados; em poucas horas, cadeias produtivas reorganizam-se em escala planetária.

No entanto, essa fluidez é profundamente assimétrica. A mesma ordem que dissolve fronteiras para o capital as reinstaura, com rigor ferrenho, para os corpos. O mundo contemporâneo é marcado por uma contradição estrutural: enquanto os fluxos digitais e financeiros operam sob a lógica da desterritorialização, a mobilidade humana é cada vez mais submetida a dispositivos de controle, vigilância e contenção.

Não por acaso, o número de barreiras físicas nas fronteiras internacionais explodiu nas últimas décadas. Segundo a pesquisadora em Geopolítica Élisabeth Vallet, no artigo The World Is Witnessing a Rapid Proliferation of Border Walls (O mundo está testemunhando uma rápida proliferação de muros de fronteira, em tradução livre), o inventário global de muros saltou de menos de cinco ao fim da Segunda Guerra para menos de uma dúzia após a queda do Muro de Berlim, atingindo 74 estruturas ativas no século 21, a maioria delas erguida nos últimos 20 anos. Esse movimento contradiz o otimismo do pós-Guerra Fria, que vislumbrava a obsolescência das fronteiras sob a égide do liberalismo triunfante. Hoje, pelo menos outros 15 projetos aguardam execução, consolidando uma arquitetura de exclusão que, embora mire o controle da imigração, revela-se mais eficaz como símbolo político do que como barreira técnica.

<><> O retorno dos muros como tecnologia de poder

Historicamente, os muros foram instrumentos de defesa territorial, das muralhas medievais às fortificações imperiais. Em sua forma mais elementar, tinham como finalidade resguardar o “dentro” contra ameaças externas. Ao delimitar territórios, ele impede o encontro indesejado com o outro, restringe a livre circulação e funciona como uma barreira de proteção. 

No mundo contemporâneo, contudo, essa função se reconfigura e torna-se mais complexa. Os muros deixam de ser apenas estruturas de contenção espacial para se tornarem dispositivos ativos de poder. Mais do que delimitar fronteiras, passam a produzir hierarquias globais, operando como filtros que definem quem pode circular e sob quais condições. Nesse sentido, a seletividade torna-se seu princípio central: enquanto mercadorias, capitais e turistas atravessam com relativa liberdade, migrantes, refugiados e outros sujeitos considerados indesejáveis encontram nesses mesmos muros um obstáculo quase intransponível.

A proliferação de muros no mundo contemporâneo não pode ser compreendida como um conjunto de iniciativas isoladas ou respostas circunstanciais a crises locais. Trata-se, antes, da expressão de uma racionalidade política na qual a fronteira se converte em instrumento ativo de gestão das desigualdades globais. Ao evidenciar a convergência de práticas estatais voltadas ao controle seletivo da mobilidade humana, esses dispositivos expõem a assimetria de uma ordem internacional que celebra a livre circulação de capitais e mercadorias, ao mesmo tempo em que fortalece seus limites diante do deslocamento de pessoas.

O exemplo mais visível dessa dinâmica pode ser representado pela barreira erguida entre Estados Unidos e México, conhecida como o ‘muro do Trump’. Mais do que um dispositivo físico de contenção, essa estrutura simboliza a consolidação de uma política que opera sob a lógica da securitização, entendida, conforme a internacionalista Clara Eroukhmanoff, não como mera reação a um perigo real, mas como um ‘ato de fala’ que associa a mobilidade humana a uma ameaça existencial à soberania.

Segundo o artigo Securitização da migração: o motor da xenofobia e do colapso dos direitos humanos, de Ling X. Liang e publicado no portal MigraMundo, essa abordagem converte o migrante em um “inimigo” ou risco, fomentando a xenofobia e restringindo direitos humanos em nome da proteção territorial.

Ao converter a fronteira em um espaço de vigilância permanente, o Estado retira a migração do campo do debate político e a desloca para o campo da emergência. Nesse caso, a securitização não apenas justifica a expansão da infraestrutura de controle e do aparato militar, mas também legitima a construção de uma narrativa na qual o migrante é percebido como um risco social e econômico que exige medidas excepcionais de defesa.

Essa lógica não se restringe a um único contexto. A arquitetura de exclusão geográfica materializa-se nos enclaves de Ceuta e Melilla, onde a fronteira europeia projeta-se sobre o território africano, operando como um filtro que materializa a separação entre Norte e Sul globais; na fronteira entre Grécia e Turquia, a União Europeia desloca o controle migratório para suas margens; no Oriente Médio, o muro na Cisjordânia redefine territorialidades e assimetrias políticas; e, na península coreana, barreiras altamente militarizadas evidenciam que, mesmo fora do campo migratório, a contenção espacial permanece central às estratégias contemporâneas de poder.

Tomados em conjunto, esses exemplos demonstram que os muros contemporâneos não são meras respostas técnicas a problemas de segurança, mas expressões de uma ordem internacional profundamente desigual. Ao selecionar quem pode atravessar e quem deve ser contido, essas barreiras tornam-se dispositivos centrais de uma geopolítica da exclusão, na qual a mobilidade, longe de ser um direito universal, é convertida em privilégio.

<><> Chile: o fosso como política de Estado

É nesse contexto que se insere o caso chileno. Diferentemente de outras experiências marcadas por grandes muros de concreto, o Chile aposta em uma solução aparentemente mais rudimentar, mas igualmente reveladora: a construção de valas (fossos) e barreiras físicas em sua fronteira norte, especialmente na região de Colchane, na divisa com a Bolívia.

A escolha do fosso não é trivial. Trata-se de uma tecnologia de contenção que opera tanto no plano físico quanto simbólico: impede a travessia de veículos, dificulta deslocamentos a pé e sinaliza, de forma visível, a tentativa estatal de retomar o controle territorial.

As justificativas apresentadas pelo Estado chileno para essa política articulam-se em torno de um conjunto de fatores que combinam dimensões humanitárias, de segurança e políticas. Em primeiro lugar, destaca-se o aumento da pressão migratória, impulsionado sobretudo pela intensificação da crise na Venezuela, que transformou o Chile em um dos principais destinos regionais. Em 2024, a população migrante no país ultrapassou 1,6 milhão de pessoas, com predominância de venezuelanos. Esse fluxo, visto pelo capital como força de trabalho desterritorializada, é lido pelo Estado sob a ótica da ameaça, levando o governo a adotar medidas voltadas ao controle mais rigoroso das entradas, sob o argumento de restabelecer a capacidade de gestão fronteiriça.

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A esse cenário soma-se a crescente preocupação com o avanço do crime organizado nas zonas de fronteira. Autoridades chilenas têm associado a permeabilidade territorial ao fortalecimento de redes ligadas ao tráfico de drogas e de pessoas, argumentando que a ausência de barreiras físicas facilitaria não apenas a circulação de mercadorias ilícitas, mas também a atuação de intermediários que exploram migrantes em trânsito. Nesse contexto, o fosso é apresentado como um instrumento de contenção que extrapola a questão migratória, inserindo-se em uma estratégia mais ampla de intensificação da vigilância e de reafirmação da presença estatal na região.

Outro elemento central reside na pressão da opinião pública interna. O aumento das percepções de insegurança, amplificado pela maior visibilidade do fenômeno migratório nas cidades do norte chileno, tem impulsionado a emergência de discursos políticos que reivindicam respostas mais rápidas e duras por parte do Estado. Nesse contexto, a construção de barreiras físicas ultrapassa sua função material e adquire um forte caráter simbólico: projeta a imagem de controle, autoridade e capacidade de ação governamental diante de um tema sensível e complexo. No entanto, essa resposta revela uma simplificação estratégica. Ao privilegiar soluções visíveis e de rápida execução, como muros e fossos, governos recorrem a expedientes que produzem efeito imediato no imaginário social, mas pouco enfrentam as causas estruturais da migração. Trata-se de uma prática política recorrente, frequentemente associada a estratégias populistas, nas quais a mobilização do medo e a construção do “outro” como ameaça funcionam como mecanismos de coesão, convertendo problemas complexos em respostas simples e politicamente rentáveis.

Por fim, o governo recorre a argumentos de ordem geográfica e humanitária. A travessia pelo deserto do Atacama, marcada por temperaturas extremas, escassez de água e longas distâncias, expõe migrantes a riscos severos, não raramente fatais. Ao propor canalizar esses fluxos para pontos oficiais de controle, a construção do fosso é apresentada como uma medida de proteção. No entanto, essa justificativa encerra uma ambiguidade central: ao invés de eliminar o risco, tais intervenções tendem a deslocá-lo, empurrando migrantes para rotas ainda mais precárias e perigosas.

Assim, mais do que respostas isoladas, essas justificativas revelam uma lógica integrada na qual segurança, política e gestão territorial se entrelaçam, convertendo a fronteira em um espaço privilegiado de intervenção estatal diante das tensões produzidas pela mobilidade contemporânea.

Resta, porém, uma provocação central: para além da superfície das justificativas oficiais, que dimensões mais profundas emergem quando os muros são compreendidos não como falhas, mas como engrenagens de uma economia global excludente, que redefine a soberania a partir do privilégio?

<><> Entre a integração econômica e a fragmentação territorial

O Chile figura entre os países mais integrados à economia global, sustentado por uma extensa rede de acordos de livre comércio e por uma forte dependência da circulação internacional de capitais e mercadorias. Sua inserção internacional, nesse sentido, está profundamente ancorada na lógica da abertura.

A construção do fosso, contudo, evidencia um paradoxo apenas aparente: o mesmo Estado que promove a fluidez dos fluxos econômicos impõe barreiras à mobilidade humana.

Longe de constituir uma contradição, essa dinâmica expressa uma coerência própria da globalização neoliberal, marcada por sua natureza seletiva. Enquanto amplia a circulação daquilo que gera valor e rentabilidade, restringe e frequentemente criminaliza fluxos associados à vulnerabilidade social e à pressão sobre direitos e políticas públicas.

Muitos desses migrantes são, na verdade, produto direto desse mesmo processo: resultam das dinâmicas de expansão e exclusão que caracterizam a atual fase do capitalismo global. Como argumenta a socióloga Saskia Sassen, trata-se de sujeitos expulsos por uma forma específica de “desenvolvimento econômico”, que os transforma em uma nova condição de deslocamento forçado. Ainda que classificados como migrantes, esses indivíduos frequentemente não dispõem de um “lugar de retorno”: são, em larga medida, despossuídos de pertencimento, configurando aquilo que a autora denomina ‘refugiados do desenvolvimento’. 

Nesse enquadramento, o migrante deixa de ser percebido como sujeito de mobilidade e passa a ser construído como risco, inscrito em uma lógica de segurança que legitima práticas de contenção e exclusão.

<><> A política do medo e a construção do inimigo

A expansão dessas barreiras físicas e simbólicas não pode ser dissociada do avanço de agendas políticas que instrumentalizam a mobilidade humana como uma ameaça existencial. Em um cenário global de erosão do Estado de Bem-Estar Social, setores conservadores e de extrema-direita operam uma manobra discursiva perversa: a construção do imigrante como o “bode expiatório”, no qual passa a ser associado ao desemprego e à precarização dos serviços públicos.

Essa narrativa cumpre uma função política e econômica central ao ocultar as contradições estruturais do capitalismo contemporâneo. Ao rotular o migrante como um “invasor”, questões como desigualdade, precarização do trabalho e erosão de direitos, que são o foco das falhas intrínsecas do modelo neoliberal, deixam de ser compreendidas como produtos de dinâmicas sistêmicas e passam a ser interpretadas como efeitos da presença indesejada de determinados grupos. 

Longe de constituir apenas uma retórica estatal, essa lógica produz efeitos concretos sobre os sujeitos que pretende regular. Conforme reportagem recente de Manoella Smith na Folha de S.Paulo, imigrantes no Chile relatam uma “rotina marcada por medo e incerteza”, acompanhada por um aumento perceptível da xenofobia e pela sensação de serem convertidos em “bodes expiatórios” das crises nacionais. A fronteira, nesse sentido, deixa de ser apenas um limite territorial e passa a operar como dispositivo difuso de controle social. O medo, nesse contexto, consolida-se como recurso político central, operando como instrumento de governo que legitima práticas de exclusão sob o argumento da proteção.

Essa dinâmica revela uma das faces mais perversas da globalização: longe de promover uma integração humana universal, a ampliação da abertura aos fluxos de capital pode, paradoxalmente, intensificar dinâmicas de isolamento e exclusão. Assim sendo, enquanto fluxos financeiros e mercadorias circulam de forma cada vez mais ampla, tanto digital quanto física, corpos considerados indesejados são progressivamente confinados em novos arquipélagos de exclusão.

O fosso e o muro tornam-se, assim, não apenas barreiras materiais, mas expressões de uma racionalidade política mais ampla, na qual a fronteira é convertida em dispositivo de gestão diferencial da mobilidade. Essas estruturas operam como mecanismos de produção e gestão da separação entre grupos sociais, conforme interesses políticos específicos. Trata-se, portanto, do que o cientista político Achille Mbembe define como gestão necropolítica: um exercício de poder que se manifesta na capacidade de determinar quem pode circular com segurança e quem será exposto a condições de risco extremo, inclusive à morte, em nome de uma soberania que se reafirma precisamente pela exclusão e pelo descarte do “outro” nos espaços fronteiriços.

Nesse sentido, mais do que proteger, essas barreiras materializam um regime que conecta mercados, mas fragmenta sociedades, convertendo a mobilidade em privilégio e o medo em instrumento de governo.

<><> A geografia da exclusão e a política da mobilidade seletiva

Apesar de sua aparência imponente, os muros do século 21 raramente conseguem interromper de forma absoluta os fluxos migratórios. Na prática, sua função se expressa por meio de uma reorganização perversa: ao invés de impedir a mobilidade, essas estruturas produzem deslocamentos mais perigosos e onerosos, fortalecendo redes ilegais de intermediação e aprofundando a vulnerabilidade humana. O fosso no norte do Chile, assim como tantas outras barreiras contemporâneas, não deve ser lido como um sinal de força estatal, mas como a tentativa desesperada de administrar, de forma seletiva e excludente, as tensões de um mundo profundamente desigual.

Nesse contexto, as fronteiras transformaram-se em dispositivos mais complexos, tecnológicos e, sobretudo, assimétricos. Elas já não se limitam a separar territórios; passam a segregar direitos e humanidades. O fosso chileno revela-se, portanto, como muito mais do que uma obra de engenharia rudimentar: ele é o símbolo concreto de uma ordem internacional em que a livre circulação tornou-se um privilégio de classe, e não um direito universal. Ao final, essas alterações na paisagem materializam a contradição definitiva de nossa era, um mundo que anseia pela conexão total dos mercados, mas que se entrincheira diante da presença do outro, convertendo a geografia em instrumento de punição para aqueles que ousam atravessar as linhas da exclusão.

 

Fonte: Por Maurício Alfredo, em Diálogos do Sul Global

 

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