A
cidade com quase 80% dos pacientes do SUS acima do peso
A
possível chegada ao Sistema Único de Saúde (SUS) de medicamentos à base de
semaglutida, como o Ozempic, abriu uma nova frente no debate sobre o tratamento
da obesidade no Brasil. A discussão ocorre no momento em que dados oficiais
indicam que o problema já atingiu níveis críticos em parte do interior do país.
A
urgência aparece nos dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional
(SISVAN), do Ministério da Saúde, que reúne informações de pessoas acompanhadas
pela rede pública. Em Viradouro, no interior de São Paulo, por exemplo, 77,41%
dos pacientes acompanhados pela rede pública estão com sobrepeso ou obesidade —
uma das maiores taxas encontradas no levantamento feito pela DW entre
municípios paulistas.
Embora
o indicador se refira à população atendida pelo SUS, ele revela onde a
obesidade é mais intensa: entre os grupos mais vulneráveis, em cidades pequenas
e médias, inclusive no estado mais rico do país, segundo especialistas.
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Interiorização da obesidade
Localizada
a quase 400 km da capital paulista, Viradouro tem cerca de 17 mil habitantes e
uma rotina típica de cidade pequena do interior: comércio concentrado no
centro, vida em torno da praça principal e encontros aos domingos na igreja.
É neste
ambiente pacato e comum do Brasil profundo que emerge um contraste silencioso e
preocupante sobre a saúde do brasileiro. De acordo com dados do SISVAN, 30,04%
da população atendida pelo sistema público na cidade está com sobrepeso; 24,05%
está com obesidade nível 1; 14,92% com obesidade nível 2; e 8,4% com obesidade
nível 3 — um total de 77,41%.
Segundo
o Ministério da Saúde, a obesidade é definida com base no Índice de Massa
Corporal (IMC), calculado pela divisão do peso, em quilos, pela altura ao
quadrado. Valores abaixo de 18,5 indicam baixo peso; entre 18,5 e 24,9
correspondem ao peso normal; de 25 a 29,9 caracterizam sobrepeso; e, a partir
de 30, configuram obesidade, que ainda é dividida em três graus conforme a
gravidade.
"O
sobrepeso e a obesidade aumentam muito o risco de várias doenças importantes. A
gente está falando desde diabetes tipo 2, colesterol alto, gordura no fígado e
doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, até alguns tipos de câncer. Além
disso, existem impactos mecânicos, como dor nas articulações, apneia do sono,
refluxo, e também consequências emocionais, como estigma, baixa autoestima e
depressão", enumera Luiza Vercelli, médica residente em Medicina do
Esporte no IAMSPE (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público
Estadual).
Para
além dos problemas, Viradouro representa, portanto, um fenômeno maior: o da
interiorização da obesidade. E isso, longe de ser um fato aleatório, é reflexo
de uma mudança estrutural no ambiente em que as pessoas vivem, afirma Rafael
Appel Flores, doutor em Ciências Fisiológicas e pesquisador no Laboratório de
Neuroendocrinologia na USP em Ribeirão Preto.
"O
impacto de viver em municípios menores vai muito além da questão de acesso, ele
interfere diretamente na progressão da obesidade", explica.
Segundo
ele, a falta de estrutura e equipes especializadas nessas cidades limita o
tratamento da obesidade.
"Quando
há menor estrutura de saúde e prevenção, o que vemos na prática é um atraso
sistemático no diagnóstico e no início do tratamento. Muitas pessoas sequer têm
conversas estruturadas sobre peso com profissionais de saúde, o que faz com que
a obesidade evolua de forma silenciosa e contínua."
Sem
prevenção e acompanhamento contínuo, o problema se agrava e o risco de doenças
aumenta e se perpetua entre gerações, especialmente em contextos de maior
vulnerabilidade social, aponta.
Flores,
que vive na região, aponta ainda para a expansão dos alimentos
ultraprocessados. "Esses alimentos são desenhados para
hiperpalatabilidade, facilitando a hiperfagia [ingestão excessiva] ao modular
negativamente sinais de saciedade e ativar circuitos de recompensa. Na prática,
o indivíduo não está apenas comendo mais, ele está sendo biologicamente
induzido a comer mais, em um ambiente que favorece esse comportamento de forma
contínua", explica.
Procurada,
as secretarias de Saúde municipal e estadual não responderam aos
questionamentos da DW.
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A desigualdade por trás do excesso de peso
Os
dados também revelam um padrão claro: a obesidade se concentra mais onde a
renda é menor, sugerindo que isso interfere na qualidade da alimentação e
saúde.
Em
Viradouro, onde a renda média por pessoa gira em torno de R$ 1,6 mil mensais,
de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
praticamente oito em cada dez atendidos pelo SUS têm excesso de peso.
Já em
cidades paulistas mais ricas, como São Caetano do Sul, onde a renda média
ultrapassa R$ 3,5 mil por pessoa, o número cai para cinco em cada dez.
Segundo
Flores, estudos mais representativos da população brasileira como um todo
mostram que essa tendência se mantém: a obesidade tem crescido mais justamente
entre os mais pobres.
"O
que isso revela, na prática, é uma mudança no padrão da doença: a obesidade
deixa de ser apenas uma questão individual e passa a refletir desigualdades
estruturais. Hoje, ela está fortemente associada a fatores como renda, acesso a
alimentos, escolaridade e contexto social, além de recortes importantes de
gênero e raça. O problema é amplo, mas socialmente desigual", pontua o
pesquisador.
Por
isso, ele diz que para entender a obesidade é preciso "olhar menos para
escolhas individuais e mais para o ambiente em que essas escolhas são
feitas".
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Os limites da resposta farmacológica
Uma das
soluções para o problema da obesidade pode estar nos novos medicamentos
popularmente conhecidos como "canetas emagrecedoras". O tratamento,
que virou febre no Brasil, pode custar milhares de reais.
De
acordo com o Ministério da Saúde, a quebra de patente de medicamentos à base de
semaglutida, como o Ozempic, que ocorreu no mês passado, deve fazer com que os
preços também caiam — fator "determinante para a análise da possível
incorporação de uma nova tecnologia ao SUS", informou o órgão em nota à
DW.
"Visando
a futura produção nacional de medicamentos que simulam o hormônio GLP-1, o
Ministério da Saúde solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos
com esses princípios ativos para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo
2. Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da
concorrência, os preços devem cair de forma significativa — em média, estudos
apontam que os genéricos induzem queda de 30% nos preços", declarou a
pasta.
A
semaglutida é um medicamento que reproduz a ação de um hormônio naturalmente
liberado pelo intestino após a alimentação. Seu principal efeito ocorre no
cérebro, onde reduz o apetite. Além disso, ela desacelera o esvaziamento do
estômago, prolongando a sensação de saciedade.
"Na
prática, a pessoa sente menos fome, come menos e consegue manter esse padrão ao
longo do tempo. Além disso, ela melhora o controle da glicose, da insulina e
reduz inflamação e gordura visceral. Os estudos mostram uma perda de peso
bastante significativa, em torno de 15% em média, além de benefícios
cardiovasculares", afirma Vercelli, do IAMSPE.
Mas a
médica pontua que, embora a semaglutida oferecida pelo SUS possa ser uma
ferramenta importante no enfrentamento da obesidade, ela não é uma solução
simples.
"O
tratamento precisa ser contínuo, porque quando o paciente para, existe uma
tendência de recuperar o peso. Então, para ser viável no sistema público,
provavelmente seria necessário definir critérios bem claros, priorizando
pacientes de maior risco, como aqueles com obesidade mais grave ou com doenças
associadas, além de negociar preços e sempre associar com mudanças de estilo de
vida. Não é um tratamento que substitui alimentação adequada e exercício
físico", completa.
Fonte:
DW Brasil

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