Ana
Paula Rocha: Os “Rockefellers de Sergipe”
“Costumo
os intitular de ‘os Rockefellers de Sergipe’”, disse em e-mail à Agência
Pública o doutor em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Igor
Salmeron sobre a família Franco. Ele é o biógrafo de um dos mais proeminentes
membros vivos do clã, o empresário e ex-deputado estadual sergipano Walter
Franco, hoje presidente da TV Atalaia, afiliada da Record no estado.
Com
registros em documentos oficiais do Brasil desde o século 18, os Franco são uma
das “grandes famílias” de Sergipe que influenciaram e ainda influenciam o
destino político estadual, mesmo que em menor intensidade comparado ao seu
auge, no século 20.
Como
muitas outras famílias nordestinas de proeminência, os Franco começaram a
acumular poder econômico explorando mão de obra afro-indígena em canaviais e
usinas, recebendo terras públicas e outros incentivos estatais. Esta foi uma
das constatações do mestre em Geografia Bruno Vieira na sua dissertação,
defendida em 2023.
Sua
pesquisa levantou dados inéditos sobre o poder financeiro dos Franco a partir
da análise do patrimônio que adquiriram. Em entrevista para a reportagem, o
pesquisador explicou que, apesar da família possuir terras antes do século 20,
foi a partir da década de 1930 que sua fortuna ganhou tração.
Primeiro,
houve o fomento do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), fundado por Getúlio
Vargas em 1933 na esteira da crise de 1929. Depois, veio o Programa Nacional do
Álcool (Proálcool), criado em 1975 para tentar lidar com os efeitos da crise do
petróleo e responsável por colocar de vez o etanol como opção corrente de
combustível de automóveis, já que o aumento da produção andou em paralelo com o
desenvolvimento de motores que aceitam maiores porcentagens de etanol
misturadas à gasolina, os chamados motores flex.
Em
conversa com a Pública, Vieira explica que “O poder dos Franco vem das terras.
Uma vez que eles já tinham terras, eles tinham os meios de produção – e
conseguiram esses benefícios do Estado [fomentos do IAA e Proálcool] por serem
empregadores”.
Ele
ressalta a contradição entre o argumento de que essas duas políticas públicas
foram fundamentais para a autonomia industrial do Brasil – como defendido pelo
Ministério de Minas e Energia – quando o principal efeito gerado foi, na sua
avaliação, a valorização de propriedades rurais de empresários do setor
sucroalcooleiro, aumentando a concentração de grandes áreas nas mãos de poucas
famílias.
Apesar
da dificuldade para precisar a extensão das terras que os Franco possuem hoje,
Vieira conseguiu contabilizar, por meio do cruzamento de dados do Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e do IBGE, 3.970 hectares em
nome da Usina São José do Pinheiro. Esse é o principal empreendimento da
família e produz açúcar, álcool hidratado e anidro, além de energia elétrica
para consumo próprio. A área durante a pesquisa equivale a 5.560 campos de
futebol e, de acordo com o geógrafo, trata-se de apenas uma parte das
propriedades rurais que os Franco possuem.
A
reportagem procurou por Walter Franco e outros membros da família para
entrevistas e respostas, mas não obteve retorno.
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Denúncia de condições insalubres no corte de cana
As
várias fazendas rastreadas por Vieira e que compõem a usina estão distribuídas
em cinco municípios sergipanos.
Em um
deles, Areia Branca, a cerca de 24 km da capital sergipana, o geógrafo relata
ter encontrado, em 2022, um prédio escolar às margens da BR-235 servindo de
estalagem improvisada para cerca de 40 trabalhadores do corte de cana, que
prestariam serviço para cinco fazendas dos Franco. As condições insalubres do
local – fotografadas pelo pesquisador – e os relatos dos trabalhadores
sugeriram um cenário de total descumprimento da legislação trabalhista.
“Muitas
das vezes, eles não têm carteira assinada, ganham por produção. Pessoas que
disseram trabalhar 12h em um dia e ganhar R$ 18”, detalhou. Segundo ele, o
espaço era “sem ventilação, [com] banheiros impróprios, camas e colchões
amontoados, panelas dentro dos quartos, um refeitório improvisado – tudo
improvisado”.
Em suas
visitas às plantações de cana entre setembro e novembro de 2022, o pesquisador
disse que os trabalhadores com quem conversou eram, em sua maioria, homens
negros do interior dos estados da Bahia e Alagoas, recrutados em suas cidades
natais pelos chamados “gatos”, a quem os trabalhadores ficavam devendo o
transporte para Sergipe, materiais de trabalho e alimentação. “É doído você
chegar num ambiente e ainda ver os seus trabalhando como em 1600”.
Outra
situação que também encontrou foi a de trabalhadores e suas famílias fixadas em
vilas localizadas nos arredores de canaviais dos Franco, às vezes há mais de
uma década.
A
reportagem tentou contato com a assessoria da usina para saber das condições de
trabalho oferecidas aos cortadores de cana, mas não houve resposta.
A
Pública também questionou o Ministério Público do Trabalho sobre todos os
processos ativos ou com trânsito em julgado contra a Usina e as outras
principais empresas da família, que não respondeu.
Ainda
que os negócios do açúcar e álcool tenham atravessado gerações da família,
atualmente os Franco têm outros tipos de empreendimentos que também são
rentáveis e estão diretamente relacionados a “empurrões” do Estado.
Sua
cartela de investimentos inclui um shopping; fábricas têxteis, uma delas
ex-fornecedora de fardamento para o Comando das Forças Armadas brasileiras;
oito veículos de comunicação, dentre eles as duas principais emissoras de TV do
estado, cujas concessões foram conseguidas durante a ditadura militar
(1964-1985); além de empresas em outros setores.
Para
Salmeron, que há anos estuda a história dos Franco, o estado de Sergipe não foi
o mesmo depois das ações da família. Em um de seus artigos, mencionado na troca
de e-mails com a reportagem, a epígrafe afirma que “Deus criou Sergipe, os
Francos, o organizou”.
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Dinheiro da cana e o abraço na ditadura
Os
Franco entraram no século 20 já ricos, em grande medida pelas fazendas de
cana-de-açúcar nos municípios sergipanos de Laranjeiras e Riachuelo, mas também
com empresas como a Sergipe Industrial Têxtil, mais conhecida como SISA, aberta
em 1882.
O
Coronel Albano Pimentel do Prado Franco (nascido no século 19), fundador do
Engenho São José, foi quem estruturou as bases do salto financeiro da família
via incentivos do Instituto do Açúcar e Álcool.
Para
modernizar a indústria da cana no Brasil e conter a preocupação dos donos de
engenho com a crise do final da década de 1920, o Instituto distribuiu recursos
públicos por meio de financiamentos para que estruturassem usinas, dessa forma
dando aos Franco o dinheiro necessário para a fundação da Usina São José do
Pinheiro, segundo a dissertação de Vieira.
Mesmo
antes dos investimentos do Instituto, Sergipe já figurava como importante
produtor nordestino de açúcar, registrando 70 usinas em 1920, bem à frente do
segundo lugar, Pernambuco, com 56, segundo a pesquisa de Vieira.
O
impulso estatal deu destaque a um dos filhos do Coronel Albano, o médico,
empresário e político Augusto do Prado Franco (1912-2003). Em 1939, junto com
os irmãos José, Walter e Flávio Franco, Augusto fundou o Banco Comércio e
Indústria de Sergipe S/A, por muito tempo por ele administrado. Foi também
Augusto quem abriu caminho para a família na mídia, com a criação da Atalaia
AM, Rádio Cidade no município sergipano de Simão Dias, TV Atalaia, Atalaia FM,
Jornal da Cidade, TV Sergipe e FM Sergipe.
Em
1967, filiado ao partido pró-ditadura ARENA, Augusto Franco assumiu como
deputado federal, e em 1971, como senador. Terminado o mandato no Senado, se
torna governador biônico de Sergipe em 1979, enquanto Albano Franco, um de seus
nove filhos, ascendia a deputado estadual naquele mesmo ano. Nesse período,
troca o ARENA pelo PSD, também pró-regime, e deixa o governo de Sergipe para se
eleger deputado federal novamente, cargo que ocupou até 1987.
Até sua
morte, em 2003, Augusto Franco veria Albano tomar posse na Assembleia
Legislativa de Sergipe, depois no Senado por duas legislaturas e então no
governo de Sergipe também por dois mandatos (1995-2003). Do cargo de governador
ele foi para o de deputado federal. Tentou se eleger ao Senado pelo PSDB em
2010, mas perdeu e não se candidatou mais. Paralelamente aos cargos eletivos e
atividades empresariais, Albano foi presidente da mais poderosa instituição do
setor industrial do Brasil, a Confederação Nacional das Indústrias, entre 1980
e 1994.
Os
cientistas sociais Fernanda Petrarca e Wilson José Oliveira, respectivamente
coordenadora e vice-coordenador do Laboratório de Estudos do Poder e da
Política (LEPP) da Universidade Federal de Sergipe e docentes do Departamento
de Ciências Sociais da mesma instituição, atribuem a longevidade da família na
esfera pública sergipana à sua alta adaptabilidade na escolha de aliados
políticos.
Segundo
os pesquisadores, eles combinam poder econômico, presença em cargos eletivos e
ascensão a postos chave de instituições patronais, além de ocuparem posições de
liderança em entidades que representam profissões de áreas como Medicina e
Justiça.
Em
entrevista à Pública, a professora Fernanda Petrarca, coordenadora do
Laboratório de Estudos do Poder e da Política (LEPP) da Universidade Federal de
Sergipe e docente do Departamento de Ciências Sociais da mesma instituição,
explicou que o estado tem uma peculiaridade. “Diferentemente da Bahia e de
Pernambuco, que se constituíram grandes propriedades de terra, você vai
observar que na história de Sergipe não tem uma família que tenha dominado
sequer um único município sozinha. Ela só consegue dominar na condição de
aliada a outras família”, afirma.
É por
apresentar essa peculiaridade que os pesquisadores do LEPP optam pelo termo
“agrupamento de base familiar” para se referir a grupos de proeminência na
política estadual sergipana, caso dos Franco, Amorim, Moura e Mitidieri, do
qual vem o atual governador, Fábio Mitidieri (PSD). “Não se pode dizer que há
em Sergipe domínio familiar. O que há, e isso varia conforme os contextos, é o
domínio de base familiar de alguns agrupamentos. Em alguns momentos um
agrupamento domina mais, em alguns momentos ele domina menos”, explica a
professora.
Com a
abertura do regime militar a partir da década de 1980, os Franco se adequaram
ao novo cenário político e embarcaram na defesa da Constituinte. O rebranding
democrático passa pela reescrita da história pública de alguns nomes por meio
de obras biográficas. Um exemplo recente é o do livro Walter Franco – o homem
das diretas, sobre um dos irmãos de Albano Franco, publicado por Igor Salmeron
em 2025 e mencionado anteriormente.
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Desonerações e impostos municipais não pagos
Em
décadas recentes, o papel do Estado na manutenção da fortuna dos Franco
continua. De acordo com dados da Controladoria Geral da União (CGU), entre 2015
e 2023, a Usina São José do Pinheiro, da qual Albano Franco é um dos sócios e
cujo capital social é de R$ 245 milhões, ficou isenta de pagar mais de R$ 42,3
milhões em impostos. A isenção foi concedida graças a um benefício fiscal da
Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que reduz em 75% o
Imposto de Renda e adicionais das empresas calculados com base no lucro da
exploração.
Também
segundo a CGU, a TV Sergipe, afiliada da Globo no estado e administrada pela
filha e a viúva de César Franco (irmão de Albano e Walter Franco), teve
renúncias fiscais por exibição de horário eleitoral: em 2023 foram R$ 2,98
milhões e no anterior, R$ 6,45 milhões.
Os
canais de TV dos Franco também aparecem na lista que o ex-ministro da Fazenda
Fernando Haddad liberou em 2024 com a relação de empresas contempladas pelo
governo federal na Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades
de Natureza Tributária (Dirbi). Entre janeiro e agosto daquele ano, a TV
Sergipe e a TV Atalaia somaram R$ 2,5 milhões em isenções.
Na
mesma relação está a SISA, uma das duas empresas têxteis das quais Marcos Leite
Franco Sobrinho, filho de Antônio Carlos Franco, é sócio. Ela recebeu R$ 1,6
milhão em subvenção de investimento nos oito primeiros meses de 2024. Marcos,
que foi eleito deputado estadual de Sergipe em 1998, aos 21 anos, e reeleito em
2002, ocupou o cargo de secretário estadual de turismo de Sergipe entre janeiro
de 2023 e dezembro de 2025. Hoje ele é presidente do conselho administrativo do
estado e deu entrevistas falando sobre candidatar-se para a Câmara Federal pelo
PSB nas eleições de outubro deste ano.
Junto
com o irmão mais novo, Osvaldo Franco, Marcos administra também a ACF
Participações LTDA, que consta em 41º lugar na lista dos 200 maiores devedores
da Dívida Ativa do Município de Aracaju em 2024, com débito que supera R$ 7,4
milhões. Seis posições depois está a mãe dos empresários, Tereza Augusta
Miranda Franco, cuja dívida foi calculada em R$ 6,43 milhões. Tentamos contato
com os irmãos e Tereza Augusta Franco por meio de suas empresas, mas não houve
retorno.
A
Prefeitura de Aracaju foi perguntada sobre como é feita a cobrança das dívidas,
se há punições para os devedores e se alguma punição está sendo aplicada à ACF
Participações e a Tereza Augusta Miranda Franco. Até a publicação da
reportagem, nenhum esclarecimento foi enviado.
O
relatório da dívida ativa do município de Aracaju em 2024 informa haver quase
R$ 3 bilhões em valores não pagos de IPTU, ISS (Imposto Sobre Serviços) e
outras tributações. Segundo o documento, quase metade dessa cifra refere-se à
cobrança de juros.
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Fardas militares e aluguéis milionários para órgãos da justiça
Nem só
de isenções fiscais e dívidas em aberto com o poder público vivem as principais
empresas da família Franco. Entre 2012 e 2020, a filial da SISA no município de
Riachuelo recebeu R$ 50,9 milhões em recursos federais para a manutenção e
fornecimento de fardamento para o Comando do Exército – que concentrou os
pagamentos – Marinha e Aeronáutica. A empresa declarou à Receita Federal
capital social de R$ 157,4 milhões.
Já a
matriz da SISA, localizada em Aracaju, recebeu um total de R$ 359 mil em
recursos federais referentes a seis licitações entre 2018 e 2019 com foco no
suprimento de fardamento para o Centro de Obtenção da Marinha no Rio de
Janeiro.
Outra
fonte de renda dos irmãos Marcos e Osvaldo Franco relacionada a órgãos da
segurança pública é o aluguel, desde 2005, do prédio que abriga a sede da
Superintendência da Polícia Federal em Sergipe, que está em nome da empresa
Comercial Nortista LTDA. O termo aditivo mais recente (Extrato de Termo Aditivo
Nº 9/2025 – UASG 200344, registrado no Diário Oficial da União), de 01 outubro
de 2025, é no valor de R$ 7,5 milhões por seis meses, sendo que o imediatamente
anterior, com duração de um ano, foi no valor de R$ 1,5 milhão.
Questionada
sobre a desproporcionalidade no valor pago por seis meses de aluguel à
Comercial Nortista, a assessoria da Superintendência da Polícia Federal em
Sergipe não respondeu.
Já o
Extrato de Contrato nº 14/2025 – UASG 200344, assinado em 02 de outubro de
2025, tem como objeto a locação de imóvel “para abrigar as instalações da
Superintendência Regional da Polícia Federal em Sergipe” de 02 de outubro de
2025 a 02 outubro de 2028 por R$ 6.447.168,00, o que dá R$ 179 mil mensais.
A
Pública tentou contato com Marcos Franco inclusive por redes sociais, mas ele
não respondeu sobre se possui outros imóveis em Sergipe alugados para órgãos da
segurança e o porquê de valores mensais tão altos.No início de 2023, foi
impetrado um pedido de recuperação judicial para a SISA e a Comercial Nortista
devido a uma “curva descendente de faturamento […] com perda de capital de giro
e dificuldade na aquisição de insumos, ocasionada pelo aumento do preço do
algodão”. Segundo dados da Junta Comercial de Sergipe atualizados em abril de
2026, as duas empresas continuam em recuperação judicial.
Fonte:
Agência Pública

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