Maria
Luiza Falcão: A ilusão cambial - por que a valorização do real não é uma
vitória econômica
A
valorização recente do real frente ao dólar tem sido celebrada como um sinal de
força da economia brasileira. A leitura parece simples — e sedutora: o câmbio
cai, o país ganha estabilidade, o governo acerta.
Mas
essa interpretação, embora politicamente conveniente, é economicamente frágil.
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A taxa
de câmbio, isoladamente, não é um indicador confiável de solidez estrutural. Em
economias periféricas como a brasileira, ela frequentemente reflete movimentos
financeiros de curto prazo — e não transformações profundas na capacidade
produtiva ou no padrão de desenvolvimento.
Mais do
que isso: a atual valorização do real repousa sobre um mecanismo que, longe de
ser virtuoso, carrega custos elevados e riscos conhecidos.
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O motor oculto: juros altos e capital especulativo
O
principal fator por trás da valorização do real não é um salto de
produtividade, nem uma mudança estrutural na economia brasileira. É o
diferencial de juros.
O Banco
Central do Brasil mantém uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Isso
transforma o país em destino privilegiado para operações de curto prazo — o
chamado carry trade.
O
mecanismo é conhecido: investidores captam recursos em moedas com juros baixos
— como o dólar — e aplicam em ativos denominados em reais, capturando o
diferencial. Esse fluxo aumenta a demanda por reais e pressiona o câmbio para
baixo.
Mas há
um problema fundamental: esse tipo de entrada de capital não está comprometido
com o país. Não financia investimento produtivo, não amplia capacidade
industrial, não gera transformação tecnológica. É capital volátil, sensível a
qualquer mudança nas condições globais.
Celebrar
esse movimento como uma conquista econômica é confundir atração de rentismo com
desenvolvimento.
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O preço interno da “moeda forte”
A
valorização do real, quando sustentada por juros elevados, cobra um preço alto
dentro da economia.
Ela
reduz a competitividade da indústria nacional, encarece exportações e favorece
importações. O resultado é conhecido: desindustrialização progressiva,
fragilização do setor produtivo e maior dependência de commodities.
Além
disso, os juros elevados que sustentam esse arranjo comprimem o crescimento
doméstico.
• encarecem o crédito
• desestimulam investimento
• travam o consumo
Ou
seja: o mesmo mecanismo que valoriza o real é o que limita a expansão da
economia real.
Há,
portanto, uma contradição evidente: a moeda se fortalece enquanto a base
produtiva permanece estagnada.
Há
ainda um efeito menos debatido, mas economicamente relevante: a valorização do
real desorganiza a dinâmica do turismo, com impactos diretos sobre o PIB. Ao
baratear viagens internacionais, estimula-se o deslocamento de brasileiros para
o exterior, transferindo renda, consumo e emprego para outras economias.
Simultaneamente, o Brasil torna-se relativamente mais caro para estrangeiros,
reduzindo a atratividade do turismo receptivo. O resultado é duplo:
enfraquecimento do setor de serviços — intensivo em mão de obra — e
deterioração de uma fonte importante de entrada de divisas. Em vez de operar
como vetor de dinamização econômica interna, o turismo passa a funcionar como
canal de vazamento de demanda, contribuindo para limitar o crescimento
doméstico.
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Entre o curto prazo e a armadilha estrutural
O
problema se agrava quando se considera a natureza cíclica desses fluxos.
O mesmo
capital que entra rapidamente pode sair com igual velocidade. Basta uma mudança
na política monetária do Federal Reserve (Banco Central estadunidense), uma
deterioração do cenário internacional ou aumento da percepção de risco.
Quando
isso ocorre, o movimento rapidamente se inverte: o real se desvaloriza
abruptamente, os preços sobem e a instabilidade retorna.
Esse
padrão não é novo. Ele define, há décadas, a inserção financeira de economias
emergentes e do Brasil.
A
valorização atual, portanto, não é sinal de ruptura com esse modelo — é mais um
episódio dentro dele.
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O equívoco político
Há um
risco adicional, que é político.
Ao
tratar a valorização do real como evidência de sucesso, o governo acaba
legitimando um arranjo macroeconômico que opera contra seus próprios objetivos
de crescimento, reindustrialização e inclusão.
Não se
trata de negar avanços pontuais, nem de ignorar ganhos no controle
inflacionário. Trata-se de reconhecer que o instrumento utilizado — juros
persistentemente elevados — produz efeitos colaterais profundos.
A
questão central não é se o real está mais forte hoje. É a que custo — e para
quem.
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Uma moeda forte não é, por si só, um projeto de país
Ao
contrário do que sugere o entusiasmo atual com uma moeda valorizada, a própria
trajetória de industrialização brasileira mostra que o câmbio desempenhou, em
diversos momentos, papel ativo como instrumento de desenvolvimento.
Durante
fases decisivas — do processo de substituição de importações no pós-guerra aos
ajustes adotados após crises externas — a desvalorização cambial foi utilizada
para proteger e impulsionar a indústria nascente, encarecendo importações,
ampliando a competitividade das exportações e criando espaço para o adensamento
produtivo interno.
Não se
tratava de um efeito colateral, mas de uma estratégia deliberada de política
econômica, em que o câmbio operava como variável de coordenação do crescimento.
Ao
abandonar esse instrumento em favor de uma valorização sustentada por juros
elevados e fluxos financeiros de curto prazo, o país não apenas perde margem de
manobra, como também se afasta de uma experiência histórica que foi central
para a construção de sua base industrial.
A
história econômica mostra que países que se desenvolveram não o fizeram
ancorados em moedas valorizadas por fluxos financeiros de curto prazo.
Fizeram-no
com investimento, política industrial, expansão da capacidade produtiva e
coordenação macroeconômica.
Uma
taxa de câmbio apreciada, sustentada por juros elevados, pode até produzir
alívio momentâneo — especialmente via inflação menor. Mas não substitui
estratégia de desenvolvimento.
Confundir
esse alívio com vitória é um erro analítico.E, mais do que isso, um risco
político.
Porque
transforma um sintoma em conquista — e uma fragilidade em narrativa de sucesso.
• PEC 65 é um deboche oportunista e
contrário aos interesses do país, diz Maria Lucia Fattorelli
Um
Banco Central que recebe, do Tesouro Nacional, trilhões de reais em títulos
públicos sem ter que pagar por eles, e ainda ganha, de graça, todo ano,
centenas de bilhões de reais de juros sobre esses títulos que recebe de
presente, pode ser considerado independente?
Um
Banco Central que, quando apura prejuízos de centenas de bilhões de reais, não
tem que se virar para cobrir seus maus negócios, e transfere esses prejuízos
para o Tesouro Nacional, pode ser considerado independente?
É muito
fácil se dizer independente quando se tem sustento garantido e não se tem que
assumir a responsabilidade pelos danos que causa.
E o
Banco Central tem provocado inúmeros danos à economia brasileira! Não só por
suas decisões sobre a taxa básica de juros Selic, exorbitante e completamente
injustificável sob todos os aspectos – econômico, financeiro, jurídico ou
técnico –, mas, também, pela prática de mecanismos que amarram a economia do
país, como a Bolsa-Banqueiro, mediante a qual remunera diariamente a sobra de
caixa dos bancos, pagando-lhes elevados juros sobre dinheiro, que sequer
pertence a eles. Prática que causa uma falsa escassez de moeda no mercado, que
leva à explosão dos juros e à quebra das indústrias e demais empresas,
aumentando o desemprego e travando o nosso desenvolvimento socioeconômico e
ambiental.
Além
disso, essa benesse aos bancos ainda aumenta a chamada dívida pública em quase
R$ 3 trilhões, reforçando o falacioso discurso de que teria que cortar
investimentos públicos, privatizar patrimônio público e realizar
contrarreformas para transferir mais e mais recursos ao que denominamos Sistema
da Dívida.
Nesse
sentido, a chamada “independência” tem sido uma retórica para dizer ao mercado
financeiro que o Banco Central continuará atuando em favor dos interesses de
bancos nacionais e estrangeiros, e essa linha será mantida, sem alteração,
qualquer que seja o projeto político-econômico eleito pelo povo.
A Lei
Complementar 179/2021, que concedeu “autonomia” ao Banco Central, aumentou
ainda mais o seu desatrelamento ao Poder Executivo eleito, mas o mercado
financeiro quer muito mais: quer que a completa independência esteja garantida
na Constituição Federal! Esse é o objetivo da PEC 65/2023, que tramita no
Senado Federal, sob a relatoria do senador Plinio Valério (aquele que havia
dito que queria enforcar a Ministra Marina Silva).
O
relatório apresentado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado na última
quinta-feira, 16 de abril, diz que a atual denominação do Banco Central
(autarquia de natureza especial) “tem se mostrado um óbice à plena eficácia
da autonomia administrativa e financeira prevista em lei. A literatura
econômica e jurídica internacional é clara: a independência financeira é o
alicerce que sustenta as demais dimensões da autonomia.”
Ora, o
referido senador precisa responder à sociedade se o Banco Central completamente
independente que ele defende irá deixar de receber do Tesouro Nacional os
trilhões em títulos públicos, e as centenas de bilhões em juros anualmente; se
vai continuar empurrando seus prejuízos para o Tesouro Nacional, além de não se
responsabilizar pelos danos decorrentes de sua desastrosa política monetária,
com taxas de juros extorsivas, Bolsa-Banqueiro, sigilosos e escandalosos
contratos de swap, entre vários outros mecanismos.
O
senador não esconde a quem seu relatório se submete e coloca, em negrito, que a
sua proposta está “em linha com os Códigos de Transparência do FMI e com as
diretrizes de governança do Banco de Compensações Internacionais (BIS)”,
organismos que têm historicamente interferido em nossa soberania financeira e
na geração de dívida pública sem qualquer contrapartida, tornando o rico Brasil
um dos países mais injustos do mundo!
O
parecer de Plínio Valério usa o eufemismo de “entidade pública de natureza
especial” para despistar a grande rejeição relacionada à transformação do Banco
Central em empresa independente da administração pública e, contraditoriamente,
reforça a desvinculação do Banco Central a qualquer ministério, além de não se
subordinar hierarquicamente à administração direta.
Dessa
forma, com tais disposições na Constituição Federal, o Banco Central continuará
ainda mais independente para tomar as decisões sobre juros, moeda, reservas
internacionais, mecanismos financeiros e supervisão do sistema financeiro, sem
ter que dar satisfações ou assumir os danos que provoca, sempre com o discurso
infame de “manter a credibilidade institucional necessária para a ancoragem
das expectativas inflacionárias”.
Já está
mais que provado que aumentar juros não serve para controlar o tipo de inflação
que temos no Brasil, e que a “política monetária” exercida pelo Banco Central
tem sido uma desculpa para transferir volumes cada vez maiores para bancos e
atender às suas expectativas de lucro, como desenvolvemos em recente artigo.
Justamente
quando a atuação do Banco Central é fortemente questionada pela demora em agir
no escândalo do Master, permitindo que um banco de capital de apenas R$ 1,5
bilhão provocasse um rombo ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de mais de R$
50 bilhões (até agora), além de prejuízos bilionários em diversos fundos de
pensão de trabalhadores, a PEC 65/2023 pretende dar mais opacidade ainda à sua
atuação.
O
Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) também critica a
PEC 65/2023, a falta de transparência, e alerta para o risco de aprofundamento
das crises: “Quando a governança interna é flexibilizada, abre-se espaço para
decisões superiores sem o devido contrapeso do corpo funcional estável. A
autonomia do BC deve ser institucional, não um cheque em branco para ocupantes
temporários.”
O
sindicato também afirma que “a PEC fragiliza o controle externo da autoridade
monetária e os checks and balances, e diz que centralização decisória somada à
falta de transparência pode pavimentar o caminho para que crises localizadas
escalem para ameaças sistêmicas à estabilidade financeira.”
A
independência já concedida ao Banco Central (por meio da LC 179/2021) tem se
revelado um erro, sob vários aspectos, como escancara o escândalo Master, e
precisa ser revista sob olhar estadista e não especulador! A PEC 65/2023 faz o
contrário, aprofunda o erro e ainda pretende lacrá-lo no texto constitucional!
Um verdadeiro deboche oportunista e contrário aos interesses do país.
As
pessoas podem opinar contra essa proposta de PEC 65/2023 no site do Senado.
Vamos pressionar!
Fonte:
Brasil 247/Extra Classe

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