'Língua
dos anjos': a fervorosa maneira como pentecostais oram
"Mesmo
que eu fale em línguas, a dos homens e a dos anjos, se me falta o amor, sou um
metal que ressoa, um címbalo retumbante."
Assim
escreveu o apóstolo cristão Paulo, em carta enviada ao povo de Corinto,
histórica cidade da Grécia antiga.
No
mesmo documento, ele afirmou que "há diversidade de dons da graça, mas o
Espírito é o mesmo". E quando enumerou, pontuou "a outro, o dom de
falar em línguas".
"Graças
a Deus eu falo em línguas mais do que todos vós", acrescentou Paulo. E
anotou ainda que "aquele que fala em línguas não fala aos homens, mas a
Deus".
Estes
são alguns dos trechos que costumam ser usados com mais frequência para
justificar biblicamente o fenômeno da glossolalia, manifestação religiosa comum
nos meios cristãos de viés pentecostal, tanto em denominações evangélicas como
no movimento da Renovação Carismática Católica (RCC).
No
evangelho atribuído a Marcos, o relato das aparições de Jesus aos seus
seguidores após a morte inclui um trecho em que ele ordenaria que aquele grupo
original se espalhasse pelo mundo pregando "a todas as criaturas".
"E
eis os sinais que acompanharão os que houverem crido: em meu nome, expulsarão
os demônios, falarão novas línguas, pegarão serpentes com as mãos e, se beberem
algum veneno mortal isto não lhes causará mal algum", registrou o
evangelista.
Por
fim, também há referências sobre essas línguas estranhas no livro dos Atos dos
Apóstolos, que no cânone bíblico sucede os quatros evangelhos e traz os relatos
dos primeiros trabalhos empreendidos pelos cristãos no esforço de
cristianização.
No
segundo capítulo do livro, no episódio chamado de Pentecostes, os primeiros
seguidores de Jesus estão reunidos e, segundo o texto, recebem o Espírito
Santo.
Uma das
consequências foi que "se puseram a falar outras línguas, conforme o
Espírito lhes concedia exprimirem-se".
Bem
mais adiante, no mesmo livro, há o relato da chegada de Paulo à comunidade de
Éfeso, na atual Turquia. Ele teria convertido um grupo de cerca de 12 pessoas.
"Paulo
lhes impôs as mãos, e o Espírito Santo veio sobre eles; falavam em línguas e
profetizavam."
Na
interpretação cristã fundamentalista contemporânea, o fenômeno é chamado de
"língua dos anjos".
Há
nuances de interpretação um pouco diferente conforme os grupos, mas em geral
entende-se essa manifestação fervorosa de fé como uma das consequências do
chamado batismo no Espírito Santo, ou seja, de uma conversão genuína em que a
pessoa recebe o próprio Deus em sua forma espiritual e assume uma mudança
radical de vida, a serviço de um propósito sagrado.
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Modelo americano
Essa
busca mais espiritualizada da experiência religiosa cristã se intensificou no
fim do século 19 e início do século 20, sobretudo em algumas comunidades
protestantes dos EUA.
O
episódio conhecido como Avivamento da Rua Azusa, ocorrido há 120 anos, em abril
de 1906, é considerado o marco fundador do pentecostalismo cristão como
vertente que existe hoje.
No
catolicismo, movimento semelhante foi chamado de Renovação Carismática. Nasceu
também nos Estados Unidos, mas apenas em 1967, e chegou ao Brasil dois anos
depois.
As
orações em línguas ocorrem de forma similar tanto no meio evangélico quanto no
meio católico.
Uma das
principais divergências, contudo, é que enquanto os católicos entendem que o
fruto desse batismo do Espírito Santo seja o desejo de uma mudança de vida — e
a oração em línguas seja vista como uma possível experiência pessoal — há
vertentes evangélicas que definem as línguas como primeiro sinal do batismo.
"As
igrejas pentecostais interpretam o fenômeno da glossolalia como evidência do
batismo com o Espírito Santo na vida de uma pessoa convertida a Jesus. Para a
tradição pentecostal, esse é um fenômeno pós-conversão, uma espécie de segunda
bênção recebida pelo crente em Jesus, que fica evidenciada com a experiência de
falar em línguas, a glossolalia", explica o teólogo e psicólogo Daniel
Guanaes, autor do livro Cuidar de Si e pastor na Igreja Presbiteriana do
Recreio, no Rio de Janeiro.
Guanaes
explica que a busca por essa experiência é incentivada aos fiéis,
"sobretudo por meio da prática da oração, dos jejuns, vigílias e
cultos". Ele reconhece, contudo, que há abordagens diferentes conforme a
denominação.
"No
pentecostalismo clássico, as línguas geralmente são entendidas como a evidência
inicial do batismo no Espírito Santo e costumam ser tratadas como centrais para
a vida espiritual", comenta.
"Já
no movimento carismático, as línguas são reconhecidas como um dom espiritual
legítimo, mas não como evidência obrigatória. Elas podem acontecer, são
valorizadas, mas não definem o grau de espiritualidade de alguém nem são
esperadas de todos."
O
teólogo Huanderson Leite, fundador da Comunidade Católica Ruah Adonai e
coordenador estadual da Comissão da Unidade da RCC São Paulo, contextualiza que
há divergências dentro da Igreja Católica e, embora com pontos de conexão,
algumas diferenças em relação à prática realizada por católicos e por
evangélicos.
"A
graça que denominamos dentro do movimento carismático de batismo no Espírito é
uma experiência pessoal com o amor de Deus. Tem como primeiro e principal fruto
o desejo de uma mudança de vida", afirma, opondo-se à visão evangélica que
entende a oração em línguas como consequência necessária desse batismo.
De
qualquer forma, ambas as vertentes valorizam a glossolalia.
"Para
os fiéis é uma experiência catártica", afirma o teólogo e historiador
Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Moraes
acredita, entretanto, que haja um "problema histórico gigantesco" — o
hiato entre as descrições do fenômeno na Bíblia e a explosão do movimento
pentecostal pouco mais de 100 anos atrás.
"Quer
dizer que o Espírito Santo ficou 1800 anos praticamente sem utilizar esse
recurso?", provoca ele.
Os
casos de glossolalila entre os relatos bíblicos e a contemporaneidade realmente
renderam raríssimos registros.
Conforme
lembra o teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), na tradição cristã há textos atribuídos aos
pensadores cristãos e religiosos antigos Irineu de Lyon (130-202), Tertuliano
(160-220), Hilário de Poitiers (300-368), Cirilo de Jerusalém (313-386) e
Agostinho de Hipona (364-430) indicando que eles vivenciavam o fenômeno.
"De
alguma forma eles mencionam um carisma, uma manifestação às vezes chamada de
oração em júbilo", pontua.
"Da
mesma forma, escritos da patrística falam em manifestação e forma de orar que
produz palavras não compreensíveis por aqueles presentes na comunidade."
O frade
e pensador Tomás de Aquino (1225-1274) também seria um adepto.
"Há
uma fala dele que diz sobre a mente ser estimulada pela devoção e, quando
oramos, nos rompemos espontaneamente em lágrimas, gemidos, choros de júbilo e
outros ruídos. Aqui também haveria uma relação", diz Leite.
Mais
recentemente, a freira carmelita Teresa d'Ávila (1515-1582) também teria esse
tipo de experiência.
"Na
tradição mística ela dizia que o Senhor dava uma oração estranha que não pode
ser compreendida e que parece uma linguagem sem nexo", conta Leite.
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Leão 13 e Concílio
O
teólogo Araujo explica que a fundamentação católica do fenômeno considera
várias camadas. Em primeiro lugar, os textos bíblicos. Mas também se consideram
esses registros de teólogos antigos.
Para
ele, a RCC é depositária dessas tradições e de dois contextos. Em primeiro
lugar, o foco que a religiosa italiana Elena Guerra (1835-1914) e o papa Leão
13 (1810-1903) deram ao Espírito Santo.
"Ela
foi uma freira muito sensível e um pouco mística. E ele foi um papa que
consagrou ou século 20 como o século do Espírito Santo", contextualiza
Araujo.
O
segundo elemento foi, no entendimento de Araujo, o Concílio Vaticano 2º, série
de encontros da cúpula do catolicismo ocorrida entre 1962 e 1965 para
modernizar a Igreja Católica.
Entre
as pautas, estava a abertura para movimentos de leigos — os encontros da RCC,
em geral, têm um protagonismo de católicos leigos, ou seja, que não são
religiosos consagrados como padres ou freiras.
Araujo
lembra que muitos católicos desconhecem que tal manifestação ocorra na Igreja
que seguem.
"Porque
é uma experiência que acontece no espaço do grupo de oração, principalmente.
Aquele católico que só frequenta missa ou casamentos, por exemplo, muitas vezes
desconhece esse carisma", comenta.
É
inegável que o pentecostalismo evangélico também teve grande influência sobre a
RCC. Nos anos 1960, a ênfase em fenômenos como oração em línguas já era intensa
em muitas denominações protestantes.
Araujo
lembra ainda que entre os fundadores da RCC, nos Estados Unidos, o best-seller
A Cruz e o Punhal, obra biográfica do pastor pentecostal David Wilkerson
(1931-2011) era fonte de inspiração.
No meio
evangélico a glossolalia também não é unanimidade.
"Há
tradições no campo evangélico que divergem moderadamente e outras que divergem
significativamente dessa compreensão. Ou seja, há igrejas que reconhecem a
possibilidade dos dons, mas não os colocam como centrais nem como evidência
normativa da ação do Espírito", ressalta.
"E
há igrejas que adotam uma leitura cessacionista, entendendo que certos dons
extraordinários tiveram uma função específica na igreja primitiva, como
descrito em Atos dos Apóstolos, e não se repetem da mesma forma hoje",
explica o pastor Guanaes.
Teologicamente,
diz Guanaes, o pentecostalismo costuma entender esse tipo de oração como um dom
"concedido ao crente como sinal e meio de edificação espiritual".
"Em
muitas correntes, elas indicam uma experiência de maior capacitação para a vida
cristã e para o serviço. A explicação parte da ideia de que, ao falar em
línguas, o fiel ora 'no Espírito', ultrapassando os limites da linguagem
racional e permitindo que a própria oração seja conduzida por Deus",
salienta o pastor.
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Psicologia da fé
Do
ponto de vista humano, a psicologia também oferece sua compreensão sobre o
fenômeno.
Na
posição dupla de pastor e psicólogo, Guanaes busca separar essas duas facetas
ao lembrar que "a competência da psicologia não é avaliar a genuinidade da
experiência religiosa", mas sim "entender o que está
acontecendo" com o indivíduo "sem recorrer necessariamente a uma
explicação sobrenatural".
"De
uma perspectiva neuropsicológica, a glossolalia é vista como um fenômeno humano
possível dentro de estados emocionais e cognitivos específicos. Em geral, ela é
associada a estados alterados de consciência, nos quais há uma diminuição do
controle racional e um aumento da expressão automática da fala", explica.
"Nesses
momentos, áreas do cérebro ligadas à linguagem estruturada tendem a reduzir sua
atividade, enquanto regiões associadas à emoção, à experiência religiosa e à
espontaneidade ganham mais protagonismo. Isso ajuda a explicar, por exemplo,
por que a fala em línguas soa fluida para quem pratica, mas não segue uma
estrutura linguística convencional."
Para
outras vertentes, há outras explicações. Autora do livro Voz da Alma, a
psicóloga Gabriela Picciotto estudou relações entre espiritualidade e a psiquê
humana em seu doutorado realizado na Universidade do Porto, em Portugal.
Ela
explica a glossolalia como "um estado alterado de expressão e consciência,
no qual a pessoa acessa um fluxo vocal que não segue a lógica da linguagem
estruturada mas que está profundamente conectado a uma vivência emocional e
interna".
"A
pessoa não está 'fora de si', mas em um estado diferente do habitual, menos
racional e mais conectado ao sentir", diz ela.
"Do
ponto de vista psicológico, podemos entender como uma forma de expressão que
emerge quando o pensamento lógico cede espaço para camadas mais profundas da
experiência psíquica."
Uma
linha mais psicanalítica pode entender o fenômeno como "uma forma de
expressão simbólica do inconsciente", comenta Guanaes.
Já a
psicologia social e da religião costumam entender o fenômeno como reflexo dos
estímulos dos ambientes religiosos que valorizam tal prática — portanto,
facilitam sua ocorrência.
É a
abordagem do psicólogo Victor Richarte, por exemplo. Para ele, como na
linguagem de determinados grupos religiosos a glossolalia tem um aspecto de
diferenciação, a manifestação serve de validação para o crente.
"Aquele
que fala línguas ininteligíveis se destaca no grupo", comenta. "É um
marco que confere certa identidade. E tem validação pela comunidade como um
momento especial e de destaque."
Richarte
acredita que em determinados contextos o fenômeno demonstra uma ascensão do
fiel.
"Uma
certa promoção na hierarquia religiosa, uma forma da pessoa se destacar naquele
meio", diz.
"A
glossolalia se configura como uma prática complexa, situada na interface entre
corpo, cultura e experiência subjetiva, podendo também funcionar como mecanismo
de pertencimento e expressão da consciência religiosa", contextualiza a
psicóloga Mariana Malvezzi, professora na Escola Superior de Propaganda e
Marketing (ESPM).
Com um
viés psicanalítico, Malvezzi argumenta que a experiência pode ser compreendida
como uma forma de expressão relacional profunda, "em que o sujeito se
conecta com algo que simultaneamente o transcende e o constitui".
Picciotto
ressalta que a oração em línguas, embora não seja uma comunicação "no
sentido tradicional", é dos pontos de vista "emocional e
simbólico".
"Do
ponto de vista psicológico, o importante é reconhecer que nem toda comunicação
precisa ser racional para ser significativa", defende ela.
Fonte:
BBC News Brasil

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