Estratégias
do tabuleiro e vidas deslocadas: poder, energia e desumanização no Oriente
Médio contemporâneo
Há
momentos na história em que os documentos estratégicos dizem mais sobre o mundo
do que as próprias batalhas. Não porque determinem de forma mecânica os
acontecimentos, mas porque revelam a imaginação política que os torna
possíveis. Neles fica explícita a maneira como certos centros de poder pensam
territórios, populações e futuros. Ao lê-los, vemos menos um plano fechado do
que uma gramática do poder.
Um
desses documentos é o relatório A Clean Break: A New Strategy for Securing the
Realm, publicado em 1996. Elaborado por um grupo de estrategistas liderados por
Richard Perle para aconselhar Benjamin Netanyahu, que também então era o
primeiro-ministro israelense, o texto propunha uma ruptura explícita com a
lógica diplomática dominante nos anos 1990, marcada pelo processo iniciado
pelos Acordos de Oslo.
A
proposta era abandonar a fórmula que estruturava aquelas negociações — “terra
por paz” — e substituí-la por uma estratégia baseada na supremacia militar e na
transformação do equilíbrio regional. Entre os autores do relatório estavam
figuras que posteriormente ocupariam posições relevantes na política externa
dos Estados Unidos, como Douglas Feith e David Wurmser.
O
documento sugeria uma série de mudanças profundas na estratégia regional. Em
vez de manter o paradigma diplomático inaugurado pelos Acordos de Oslo,
defendia o abandono dessa lógica e a adoção de uma abordagem baseada na
supremacia estratégica. Nesse sentido, propunha a manutenção do direito de
perseguição militar em territórios palestinos, a adoção de medidas destinadas a
enfraquecer ou remover regimes considerados hostis na região e, de forma mais
ampla, a reconfiguração do equilíbrio geopolítico do Oriente Médio de modo a
favorecer os interesses de Israel.
Um dos
pontos mais notáveis do relatório era a sugestão de que a remoção do regime de
Saddam Hussein no Iraque poderia transformar profundamente o ambiente
estratégico regional. Não por acaso, as ideias contidas nesse relatório
ganharam nova relevância após os atentados de 11 de setembro de 2001, quando
muitos de seus autores e aliados passaram a ocupar posições de destaque no
governo de George W. Bush e a agenda de mudança de regime no Oriente Médio
tornou-se o centro do debate estratégico em Washington.
Nesse
contexto, foi amplamente citado o relato do general americano Wesley Clark de
que teria sido informado, por oficiais do Pentágono, sobre discussões
envolvendo figuras como Paul Wolfowitz e Donald Rumsfeld a respeito de um plano
estratégico que previa a derrubada sucessiva de governos em diversos países do
Oriente Médio e do Norte da África. Segundo ele, a sequência discutida
incluiria intervenções ou mudanças de regime no Iraque, na Síria, no Líbano, na
Líbia, na Somália, no Sudão e no Irã. Embora esse plano nunca tenha sido
formalmente confirmado como política oficial, ele se tornou um elemento
recorrente em análises críticas da política externa americana do pós-11/9,
sugerindo uma lógica mais ampla de reengenharia geopolítica regional.
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Fragmentação como estratégia
A
lógica estratégica subjacente a essas propostas pode ser compreendida a partir
de três princípios centrais. O primeiro diz respeito à fragmentação de
adversários regionais. Estados fortes e considerados hostis — como Iraque,
Síria e Irã — eram vistos como ameaças estratégicas relevantes e, nesse
sentido, sua fragmentação política ou institucional poderia reduzir a
capacidade desses países de confrontar Israel ou os Estados Unidos. Essa
perspectiva aparece também em outro texto frequentemente citado em debates
estratégicos, o chamado “Yinon Plan”, que discutia a possibilidade de
fragmentar grandes Estados árabes em entidades menores, estruturadas a partir
de divisões étnicas ou religiosas.
O
segundo princípio consiste na substituição da diplomacia pela supremacia
militar. O relatório A Clean Break rejeita explicitamente a lógica de
concessões territoriais e propõe, em seu lugar, uma estratégia baseada na
preempção militar, na dissuasão agressiva e na mudança de regime. Nessa
perspectiva, a segurança não seria alcançada por meio de negociações
diplomáticas, mas antes pela transformação do ambiente regional através do uso
da força.
Por
fim, o documento afirma que Israel deveria “transcender” o conflito
árabe-israelense. Isso não significaria resolvê-lo necessariamente por meio de
acordos diplomáticos, mas alterar de maneira estrutural e irreversível a
configuração de poder no Oriente Médio.
O
debate estratégico frequentemente se cruza com uma discussão ideológica mais
antiga sobre o conceito de “Grande Israel”. Esse imaginário aparece em
diferentes correntes do sionismo e foi associado, em distintos momentos
históricos, a pensadores como Theodor Herzl, Vladimir Jabotinsky e o rabino
Abraham Isaac Kook. No entanto, seu significado não é unívoco, e os analistas
de política internacional costumam distinguir pelo menos três interpretações
principais: uma primeira, que entende o “Grande Israel” como uma expansão
territorial literal baseada em fronteiras bíblicas; uma segunda, que o
interpreta como uma forma de hegemonia regional, não necessariamente baseada em
anexação territorial, mas em supremacia estratégica; e uma terceira, centrada
na ideia de profundidade de segurança, associada à criação de um cinturão de
Estados fracos ou aliados ao redor de Israel. De modo geral, a maioria dos
especialistas considera que as estratégias contemporâneas se aproximam mais
dessas duas últimas interpretações do que de um projeto de expansão territorial
direta.
Quando
observamos a evolução do Oriente Médio desde o início dos anos 2000, alguns
acontecimentos parecem dialogar com essa lógica estratégica. Entre eles estão a
invasão do Iraque em 2003, a Guerra Civil Síria, o colapso do Estado líbio após
a intervenção na Líbia de 2011, a fragilização institucional do Iraque e os
conflitos recorrentes envolvendo o Hezbollah no Líbano. Todos esses processos
contribuíram para uma crescente fragmentação regional, embora muitas das
consequências fossem imprevisíveis. Um dos resultados mais significativos foi
justamente o fortalecimento regional do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica
e da influência estratégica do Irã. A geopolítica, afinal, raramente segue o
roteiro imaginado pelos estrategistas; ela se comporta mais como uma reação em
cadeia, na qual cada intervenção dá início a novas dinâmicas e rearranjos de
poder difíceis de antecipar.
Além
das dimensões militares e estratégicas, o conflito também envolve importantes
disputas energéticas. Em 1999, um consórcio liderado pela empresa British Gas
descobriu um campo de gás natural ao largo da costa da Faixa de Gaza. O
depósito, conhecido como Gaza Marine gas field, contém reservas estimadas em
cerca de 1 trilhão de pés cúbicos de gás natural. Para os palestinos, o
desenvolvimento desse campo poderia representar um recurso estratégico
significativo, capaz de proporcionar independência energética, gerar receitas
fiscais relevantes e financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento. No
entanto, o campo jamais pôde ser explorado comercialmente. Entre os fatores que
contribuíram para isso estão o controle e o bloqueio naval impostos por Israel
após a vitória eleitoral do Hamas, em 2006; a divisão política entre o Hamas,
em Gaza, e a Autoridade Palestina, na Cisjordânia; além da transformação do
cenário energético do Mediterrâneo oriental após novas descobertas de gás na
região.
Nas
últimas duas décadas, a descoberta de grandes reservas de gás natural
transformou o Mediterrâneo oriental em uma nova fronteira energética global.
Entre os principais depósitos identificados estão o Leviathan gas field e o
Tamar gas field, que alteraram significativamente o equilíbrio energético da
região. Segundo estimativas do United States Geological Survey, a Bacia do
Levante pode conter cerca de 122 trilhões de pés cúbicos de gás natural, além
de aproximadamente 1,7 bilhão de barris de petróleo. Esse novo cenário
energético abriu caminho para acordos regionais envolvendo Israel, Egito e
Jordânia, além de projetos voltados à exportação de gás para a Europa.
Em
2023, um documento de trabalho do Ministério da Inteligência de Israel analisou
possíveis cenários para o futuro da Faixa de Gaza. Entre as alternativas
consideradas estavam o retorno da Autoridade Palestina ao controle do
território, a criação de uma nova administração local ou a possibilidade de
transferência populacional para a Península do Sinai. Embora o documento não
representasse uma política oficial adotada pelo governo, a simples menção à
hipótese de deslocamento populacional em larga escala provocou forte reação
internacional e reacendeu debates sobre os riscos de novas ondas de
deslocamento forçado na região.
Outra
camada desse debate envolve interpretações religiosas e suas implicações
políticas. O pensamento do rabino Abraham Isaac Kook exerceu grande influência
no desenvolvimento do sionismo religioso, embora suas ideias sejam
interpretadas de maneiras bastante diversas no interior do judaísmo
contemporâneo. Apenas correntes minoritárias estabelecem uma ligação direta
entre os conflitos regionais e expectativas messiânicas ou apocalípticas,
segundo a qual eventos ocorridos no Oriente Médio são frequentemente associados
a narrativas teológicas sobre o fim dos tempos (fenômenos semelhantes podem ser
observados em determinadas correntes escatológicas do cristianismo evangélico).
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Geopolítica e desumanização
Quando
analisadas em conjunto, essas dinâmicas revelam uma dimensão frequentemente
invisível da política internacional. Estratégias geopolíticas tendem a tratar
sociedades inteiras como variáveis estratégicas. Territórios tornam-se zonas de
influência; Estados, peças de tabuleiro; e populações aparecem apenas como
externalidades. As consequências humanas — guerras civis, deslocamentos
massivos, destruição social — surgem como efeitos colaterais de decisões
tomadas em centros distantes de poder.
Nas
últimas décadas, o Oriente Médio tornou-se um dos principais epicentros globais
de deslocamento forçado. Milhões de pessoas foram empurradas para o exílio por
guerras, colapsos estatais e catástrofes humanitárias. Se os documentos
estratégicos revelam a lógica do poder, as rotas de migração revelam o seu
custo.
É nesse
ponto que a geopolítica encontra a questão da desumanização: quando sociedades
inteiras deixam de ser vistas como mundos vividos e passam a ser tratadas como
territórios administráveis.
Talvez
seja justamente aí que começa o trabalho crítico — lembrar que, por trás das
estratégias, existem vidas. E que nenhuma engenharia geopolítica é capaz de
apagar completamente as memórias das catástrofes que produz.
Fonte:
Por Rima Awada Zahra, no Blog da Boitempo

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