A
cortina de fumaça das empresas de tecnologia segundo Daniela da Silva
As
grandes empresas de tecnologia controlam a distribuição de informação no
ambiente digital, interferindo nas relações humanas e nos rumos da geopolítica.
Além de concentrarem um enorme volume de dados pessoais e de governos, essas
empresas estão sob a responsabilidade de CEOs que muitas vezes não escondem a
identificação com ideologias de extrema direita e buscam operar sem nenhum tipo
de regulamentação.
Aqui no
Brasil a legislação tem avançado com o ECA digital e com a decisão tomada pelo
Supremo Tribunal Federal (STF), que revisou o artigo 19 do Marco Civil da
Internet para definir novos parâmetros de responsabilização das plataformas.
Ainda assim, existe um longo caminho para regular e construir um ambiente
digital que seja seguro e democrático. Para falar sobre esses desafios e
alternativas para o enfrentamento do monopólio e abusos das Big Techs, Andrea
Dip recebeu Daniela da Silva no Pauta Pública desta semana.
Daniela
é ex-chefe de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil e fundadora da CTRL+Z,
organização dedicada ao enfrentamento do modelo de operação das Big Techs,
investigando abusos, mobilizando o Judiciário e os cidadãos. Ela destaca que o
nome inspirado no comando de desfazer, é para construir uma ideia de que o
sistema como ele foi feito, pode ser desfeito. “As empresas de tecnologia são
muito eficientes em jogar uma cortina de fumaça na nossa frente e nos fazer
acreditar que as suas tecnologias, da forma como elas foram criadas e a forma
como elas operam são coisas inevitáveis, o que não é verdade”, afirma.
Leia os
principais pontos da conversa:
• Como era sua atuação em Políticas
Públicas da Meta e por que você decidiu sair da empresa?
Como
profissional de políticas públicas numa empresa como a Meta, a gente tinha uma
função que misturava relações governamentais – como representar os produtos e
suas plataformas para entidades do governo, sociedade civil e academia – e
governança interna. Era um papel que refletia um pouco da porta para dentro e
um pouco da porta para fora, olhando para a governança, para as regras e para
como as plataformas e ferramentas da empresa funcionam em relação ao ponto de
vista do Estado brasileiro.
Em
janeiro de 2025 aconteceu um evento que foi muito marcante na minha história
dentro da empresa e acho que para a história da Meta, algo que se refletiu
também sobre outras Big Techs. Foi um vídeo do Mark Zuckerberg [CEO da Meta]
anunciando mudanças em diversas políticas de integridade e de qualidade da
informação dentro da empresa.
Ele
estava retrocedendo em relação a políticas que já tinham sido implementadas,
entre elas a checagem de notícias dentro das plataformas da Meta, que era um
dispositivo que existia para conter a desinformação que circula tão amplamente
nesses ambientes. Tinha também uma definição de circulação de maior conteúdo
político em relação a temas sensíveis, como imigração e gênero, o que, por um
lado, atende quem quer ver mais conteúdo publicado sobre esses temas, mas, por
outro lado, aumenta muito a possibilidade de ataques e discurso de ódio – o
que, antes das mudanças, se vinha tentando controlar nas plataformas.
Além
disso, Zuckerberg declara que vai se alinhar, que vai fazer uma parceria com o
governo dos Estados Unidos para evitar que a empresa seja regulada em outros
territórios, como nos países da América Latina, que, segundo ele, estavam
tentando moderar e censurar conteúdo. O que eu acho que é uma ameaça à
soberania dos países, a ideia de que a gente precisa adaptar os produtos para
que eles funcionem num contexto regulatório específico, democraticamente
decidido, e não o contrário.
Acho
que estava claro que havia um certo agravamento nesse alinhamento político com
a extrema direita, nesse discurso que coloca em lados opostos a ideia de
liberdade de expressão com a ideia de integridade da informação. Eu achei que
não fazia sentido trabalhar com políticas públicas dentro de uma Big Tech
naquele momento. Foi um pouco por causa disso que eu saí, em fevereiro de 2025.
• Em uma discussão que participei sobre
maneiras de enfrentar o fascismo, um dos principais pontos que surgiram é que
precisamos entender que a política institucional mudou com o poder, o dinheiro
e a influência cada vez maiores das Big Techs. Por isso também a forma de
enfrentamento precisa mudar em algum sentido. Na sua perspectiva, quais são
essas novas formas de reagir contra esses poderes?
A ideia
da Ctrl+Z, cujo nome é inspirado no comando de desfazer [do computador], é uma
ideia de que o sistema, como foi feito, pode ser desfeito. As empresas de
tecnologia são muito eficientes em jogar uma cortina de fumaça na nossa frente
e nos fazer acreditar que as suas tecnologias – da forma como foram criadas e a
forma como operam – são coisas inevitáveis, o que não é verdade. Esse sistema é
fruto de decisões humanas que respondem a interesses de grupos econômicos e
políticos específicos.
Tem
decisões por trás das tecnologias que a gente usa no nosso dia a dia, das
tecnologias que grandes instituições usam no dia a dia, como é o caso das
tecnologias da Palantir [empresa americana de software especializada em análise
de grandes volumes de dados, inteligência artificial e defesa militar]. E, se
essas decisões foram tomadas com alguns princípios em mente, elas podem ser
tomadas com outros princípios em mente. Não estou falando que isso vai ser
fácil, muito pelo contrário.
Eu
estou falando que isso é possível para que a gente tome, enquanto sociedade, a
responsabilidade de pressionar essas empresas nessa direção. Porque não é
automaticamente que o mercado vai se equilibrar e começar a responder a
interesses públicos. Isso não vai acontecer. Vai ser necessária muita pressão
social para que isso aconteça.
A
partir do momento que [essas empresas] se demonstram tão inclinadas ao
autoritarismo, eu acho que tem uma coisa muito grave acontecendo que precisa
ser enfrentada politicamente. Mas a gente tem que tomar cuidado para também não
cair no que essa empresa está vendendo a respeito do que ela é capaz de fazer.
Porque elas têm muito benefício em se mostrarem enquanto forças extremamente
poderosas que moldam o futuro da humanidade. E tem um certo exercício de venda
também.
A gente
tem que tomar um pouco de cuidado para não ecoar aquilo que é uma narrativa de
venda. Porque essas empresas são muito poderosas sim, mas elas não são
poderosas por conta das tecnologias que constroem, elas são poderosas por conta
do poder econômico e político que elas mobilizam. Às vezes a gente reforça elas
nesse ponto do ponto de vista de comprar esse discurso. Tem uma estratégia
importante que é a de desfazer esse truque de mágica que elas fazem com a
gente.
Isso
entra na construção das alternativas também. Porque quando essas empresas
entregam plataformas digitais, produtos que têm bilhões de usuários e fazem
esse truque de parecer que não conseguimos viver sem essas essas tecnologias,
do ponto de vista até narrativo e político, é muito importante que a gente
consiga sustentar outras formas de fazer.
[Na
CTRL+Z] a gente quer dar uma bagunçada nessas noções. Já que as Big Techs foram
construídas de maneira a responder a interesses econômicos muito específicos, a
gente pode desfazer a forma como esse sistema funciona. Tanto pressionando
essas empresas para tomarem decisões e construírem produtos melhores, como
juridicamente e politicamente, adotando outras tecnologias e abrindo caminho
para outras propostas.
• Nesta disputa de narrativas, tem gente
dizendo que no futuro a inteligência artificial vai ser vendida como um serviço
de utilidade pública. Há quem diga que o avanço dessas empresas é inevitável. É
possível desmistificar isso?
É sim.
Quando se fala do lobby das Big Techs, eu costumo dizer que é uma grande
revelação como essas empresas são engenhosas no sentido de influenciar
politicamente. Porque é o que vai parar no relatório de impacto do lobista. Ele
vai falar: olha como eu sou capaz de influenciar politicamente. A gente precisa
sempre considerar a malícia que tem desses dois lados.
Por
exemplo, a Meta, por causa do Instagram, e Google, por causa do YouTube,
passaram por aquele julgamento nos Estados Unidos a respeito das suas
tecnologias serem viciantes. [Atualização: em março de 2026, Meta e Google
foram condenadas por provocar vício em redes sociais]. E o argumento que as
empresas levaram no julgamento foi o de que as suas tecnologias não eram
viciantes, mas que elas entregam muito valor.
Tem
tanto investigações quanto vazamento de informação que demonstraram o que essas
empresas sabiam sobre as suas próprias tecnologias, em que tipo de evidência
elas estavam se baseando para construí-las e mostrar que o design é feito para
manipular as pessoas – não para entregar valor. Mas, na narrativa delas, são
tecnologias tão maravilhosas que é por isso que elas estão no papel que estão.
Sem
contar que essas empresas se apoiam em práticas monopolistas no mercado. Toda
vez que uma tecnologia adversária emerge, essas tecnologias são compradas,
descontinuadas ou incorporadas a produtos que já existiam. Usando práticas
monopolistas e práticas anticompetitivas, essas empresas foram se construindo
como grandes potências globais.
• Tem, às vezes, menos a ver com a
tecnologia que elas entregam do que o quanto elas conseguiram se impor
economicamente enquanto grandes corporações. Se esse é o caso, o que impede que
outras tecnologias melhores, que correspondam mais ao interesse das pessoas
possam emergir?
Eu sou
totalmente otimista em relação a isso. Por isso, eu criei a CTRL+Z junto com os
co-fundadores. Acho que em 10 anos a gente vai usar tecnologias muito melhores
do que as que a gente usa hoje. A gente vai precisar lutar muito por isso. Isso
é uma briga muito boa de se comprar. Se essa indústria seguir na direção que
ela está seguindo, isso não vai acontecer. A gente precisa brigar muito com
quem está capitaneando esses processos para que isso seja uma possibilidade.
Fonte:
Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto e Stela Diogo, da Agencia Pública

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