A
inteligência artificial chinesa
Poucos
meses antes de Donald Trump anunciar sua Estratégia de Segurança Nacional, a
chamada Doutrina Donroe, que estabelecia claramente o desejo de
tratar todas as nações do Ocidente como colônias, protetorados ou mero
compradores da potência estadunidense, as mesmas ideias já estavam expressas em
outro documento, no seu Plano Nacional de Inteligência Artificial, batizado de
“Vencendo a corrida” e com o objetivo de construir um “domínio tecnológico
global inquestionável”.
Poucos
dias depois do plano norte-americano, a China divulgou o seu, e a distância
entre os dois títulos já dizia quase tudo. O Plano de Ação para a Governança
Global da Inteligência Artificial trazia treze pontos, entre eles a construção
de comunidades transfronteiriças de código aberto e o compromisso de ajudar o
Sul Global a “acessar e utilizar verdadeiramente a Inteligência artificial”. Um
ano depois, ambos materializaram suas promessas.
Em
2026, os Estados Unidos já havia integrado a Inteligência artificial à
plataforma que gerencia a caça de imigrantes nos Estados Unidos, ao genocídio
em Gaza e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Já a China,
anunciou, em julho de 2026, a fundação da Organização Mundial para a Cooperação
em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), e apresentada como
resposta “ao chamado do Sul Global”.
A
definição que o presidente Xi Jinping deu à Inteligência artificial, em seu
discurso, foi o de um “acervo inestimável em que está cristalizada a sabedoria
coletiva de toda a humanidade”. Não um produto ou um ativo proprietário, mas um
bem comum. O oposto da prática de apropriação privada que hoje sustenta as
fortunas do Vale do Silício.
Vale
destacar os quatro princípios anunciados pelo presidente Xi Jinping. O primeiro
é o código aberto e os ganhos compartilhados como diretriz de desenvolvimento,
recusando o modelo de caixa-preta como modelo de negócio e a falta de
transparência na forma como são treinados os Grandes Modelos de Linguagem
(LLMs, na sigla em inglês). O segundo é a segurança sob controle humano,
acompanhada da rejeição expressa à prática de “generalizar o conceito de
segurança nacional no campo da Inteligência artificial e colocar a segurança de
um país acima da de todos”.
Ao
contrário de Washington, que justifica sanções, embargos de chips e o cerco
tecnológico a quem ousa desafiá-lo com o argumento de “segurança nacional”. O
terceiro princípio é a inclusão civilizacional, com o compromisso de que a
inteligência artificial não erode “a diversidade das civilizações mundiais ou a
singularidade das culturas”. O quarto é o multilateralismo efetivo, com papel
central das Nações Unidas, onde a própria China já havia costurado, por
consenso, uma resolução da Assembleia Geral sobre a construção de capacidades
em IA nos países em desenvolvimento.
Aos
princípios seguiram-se compromissos: cinco mil vagas de capacitação em
Inteligência artificial para países em desenvolvimento nos próximos cinco anos;
centros internacionais de cooperação em aplicação da tecnologia articulados com
a ASEAN, a Liga Árabe, a União Africana, a CELAC, a Organização de Cooperação
de Xangai e os BRICS; e a abertura, a trinta países, do Mazu, o sistema chinês
de alerta meteorológico por inteligência artificial, um instrumento de valor
direto para camponeses e pescadores do Sul, que são os primeiros a pagar o
preço da desordem climática.
A
cooperação oferecida ao nosso lado do mundo organiza-se em quatro eixos: a
co-construção de infraestrutura, o desenvolvimento conjunto e a valoração dos
ativos de dados, o aprendizado mútuo de governança – a assessoria ao Parlamento
de Gana na redação de sua legislação digital é um exemplo já em curso – e a
formação conjunta de quadros, com a meta declarada de formar centenas de
milhares de desenvolvedores.
Evidentemente,
o Sul Global teria toda razão para olhar com reticência ou desconfiança para as
propostas chinesas. Não faltaram “alianças para o progresso” em nossa história
que prometeram muito e pouco entregaram ou eram apenas mecanismos de dominação
financeira e cultural. Porém, a China tem a seu favor o fato que a WAIC só se
está se propondo a fazer, em patamar global, o que já era uma política de
Estado chinesa e que já vinha, episódio a episódio, revelando o quanto da
política estadunidense apenas reafirmava a lógica das big techs, enquanto
inflava mais uma bolha do sistema financeiro.
Para
ser mais objetivo, o código aberto é o pilar estruturante da política chinesa
para a IA. O caso exemplar é do modelo de linguagem Deep Seek. A empresa
publicou sua metodologia central de treinamento na revista Nature,
tornando-se o primeiro grande modelo de linguagem submetido a revisão por
pares. Os revisores, pesquisadores da Hugging Face e da
Universidade Estadual de Ohio, confirmaram que o método de aprendizado por
reforço proposto era original, suficiente para os resultados alegados e
reprodutível, e desmontaram no processo as acusações de “destilação” indevida
de tecnologia alheia.
Ao
abrir o modelo e o método, a DeepSeek quebrou o modelo de negócio do Vale do
Silício na forma mais alta que a ciência conhece: método público, verificável,
apropriável por qualquer instituição do mundo. A DeepSeek treinou seu modelo R1
por cerca de US$ 5,5 milhões, com dois mil GPUs, aproximadamente um centésimo
do custo dos esforços americanos comparáveis, e o publicou em janeiro de 2025
sob licença MIT, permitindo uso, modificação e implantação comercial sem
restrição. Em dezembro do mesmo ano, o DeepSeek-V3.2 conquistou medalhas de
ouro na Olimpíada Internacional de Matemática e na de Informática.
A API
da empresa cobra US$ 0,28 por milhão de tokens de entrada, cerca de dezesseis
vezes menos que os serviços americanos equivalentes. No mesmo caminho, os
modelos da Qwen, da Alibaba, atingiram 700 milhões de downloads e se tornou o
ecossistema aberto mais usado do mundo, superando o Llama da Meta. Os modelos
chineses passaram a liderar os downloads globais; em 2025, 80% dos modelos
chineses exportados eram abertos.
Isto
significa que o que exigia recursos de escala nacional cabe hoje no orçamento
de uma universidade pública, de uma secretaria de educação, de um movimento
social. O caso de Singapura é ilustrativo: o SEA-LION, modelo emblemático da
iniciativa nacional de Inteligência artificial, abandonou em novembro de 2025
sua base no Llama da Meta e migrou para o Qwen da Alibaba, pré-treinado em 119
idiomas e dialetos, mais adequado ao Sudeste Asiático.
A
Malásia lançou o NurAI, primeiro grande modelo fundamentado em princípios da
xaria, sobre a estrutura da DeepSeek. E, foi exatamente assim que o MST e a
Marcha Mundial das Mulheres construiram a IARAA, uma base de conhecimento
inteligente para a agroecologia que roda sobre modelos abertos, mas cujo banco
de dados e funcionamento foi estruturado pelos próprios movimentos.
A
experiência da IARAA nos remete à outro potencial da aplicação correta da
Inteligência artificial, a democratização do conhecimento. O camponês, o
educador, o técnico da cooperativa que, com a ajuda de uma Inteligência
artificial acessível e da linguagem natural que dispensa o domínio prévio da
programação, constrói as ferramentas que sua vida exige. Ao longo de quatro
décadas, a capacidade de construir instrumentos de informação foi retirada das
mãos dos trabalhadores e trancada nos departamentos de engenharia de meia dúzia
de corporações. Os modelos abertos sempre resistiram a esta lógica e com a IA
recuperaram este potencial em outro patamar.
Existem
ainda outras dimensões da experiência chinesa que merecem a atenção. Por
exemplo, a regulação. A suspensão do IPO do Ant Group em 2020 e a investigação
da Didi em 2021 impediram a consolidação de monopólios privados de dados no
momento exato de sua formação. A exigência legal de rotulagem de todo conteúdo
gerado por IA, em vigor desde setembro de 2025, atacou o problema dos meios
sintéticos sem proibir a tecnologia, e conviveu com uma indústria em expansão.
E,
especialmente, merece nossa atenção, a questão do Trabalho. Nos canteiros
do Shanghai Construction Group, mais de quarenta tipos de robôs
assumiram a amarração de vergalhões sob calor de quarenta graus e a solda em
espaços confinados. Os trabalhadores substituídos foram requalificados como
operadores e técnicos de manutenção, em ocupações mais seguras e mais
qualificadas. Isso não aconteceu por benevolência empresarial.
Em
setembro de 2024, o Comitê Central e o Conselho de Estado emitiram o primeiro
documento estratégico sobre emprego da nova era, com 24 medidas que incluem
responder explicitamente aos impactos da Inteligência artificial sobre o
trabalho. O pacote prevê formação vocacional subsidiada para mais de 30 milhões
de pessoas entre 2025 e 2027, obriga as empresas a destinar 60% de seus
orçamentos de educação aos trabalhadores da linha de frente e, ponto
institucional decisivo, incorpora os resultados de emprego à avaliação de
desempenho dos dirigentes do Partido e do governo do nível de condado para
cima.
E, por
fim, a estratégia chinesa é construída e planejada, projetada, como uma
articulação de políticas transversais, a “IA+”, elevada a política nacional em
2025. Assim, a Inteligência artificial tem sido efetivamente aplicada em
energia, manufatura, agricultura, logística, indústrias oceânicas. A CATL usa
agentes de Inteligência artificial na inspeção contínua da fabricação de
baterias; a Mengniu, na supervisão sanitária do gado; mais de 600 centros de
computação inteligente operam no país, e a indústria central de Inteligência
artificial ultrapassou 1 trilhão de yuans.
Os
dados são compreendidos como um novo fator de produção, determinantes para o
planejamento, alocação de recursos e esforços e avaliação, enquanto a
Inteligência artificial é vista como uma infraestrutura à maneira da
eletricidade e não como categoria de produto para monetizar engajamento.
A
metáfora do código aberto na TI se aplica à política em relação à China. Ela
não é um modelo a se copiar. O código aberto permite que o original seja
alterado, modificado, melhorado, que elementos sejam descartados. O importante
é que o conhecimento e o bem original são comuns e disponíveis – como deveria
ser a ciência e o conhecimento.
E é
possível aproveitar a oportunidade da cooperação em Inteligência artificial
pelo Sul Global para a construção de soberania própria. A capacidade de usar,
adaptar e controlar modelos abertos já existentes tem seu potencial ampliado,
para além da transferência de tecnologia, se ela se apoiar em continuidade do
serviço, que não pode ser desligado por chantagem política ou financeira, como
corremos o risco sob as plataformas da Microsoft, Google e Amazon; soberania
sobre os dados; Autoridade nacional para governar o sistema e autonomia de cada
setor para decidir como usa a ferramenta.
A
novidade é que, pela primeira vez em muito tempo, a hegemonia tecnológica está
em disputa aberta, os padrões ainda não se cristalizaram, e há uma fresta na
muralha por onde um projeto próprio pode passar.
¨
Pequim lança corredor logístico histórico através do
Ártico, diz mídia
A China
está se preparando para dar um passo histórico na logística internacional: o
primeiro serviço regular semanal de transporte marítimo de contêineres entre o
país asiático e a Europa, através do Ártico, começará a operar em 15 de agosto.
"Os
operadores participantes planejam disponibilizar aproximadamente 20.000 TEUs
(Unidade Equivalente a Vinte Pés) de capacidade em navios porta-contêineres e
embarcações multipropósito, juntamente com cerca de 1,4 milhão de toneladas de
porte bruto (TPB) de capacidade em navios graneleiros", afirma o Xinde Marine
News.
O
projeto que será operado pela empresa de navegação Sea Legend Line
Limited, partirá do porto de Ningbo-Zhoushan, o maior porto do mundo em volume
de carga, e terminará no porto britânico de Felixstowe, um dos principais
centros de distribuição de mercadorias na Europa de acordo com a apuração.
"A
primeira fase envolve aproximadamente 38 viagens e operações com embarcações,
incluindo navios porta-contentores, navios de carga geral e graneleiros",
informa a mídia, especificando que as operações ocorrerão entre julho e outubro
de 2026, durante toda a temporada de navegação no Ártico.
O
destaque do projeto será o serviço semanal CAX China-Europa Arctic
Express.
A viagem inaugural será operada
pelo navio porta-contentores Dubai Tower, partindo da China no dia 15 de agosto
e com chegada prevista ao Reino Unido em 5 de setembro. No total, a campanha de
navegação no Ártico em 2026 inclui oito viagens consecutivas.
A
janela de navegação deverá se estender do final de julho ao final de
setembro.
A
principal vantagem do novo corredor é a sua velocidade. Segundo a
operadora, a viagem entre Ningbo e Felixstowe levará aproximadamente 20 dias,
significativamente menos do que pelas rotas tradicionais do sul.
A Sea
Legend afirma ainda que a rota do Ártico permite uma
redução de aproximadamente 50% nas emissões de CO₂ em comparação com as
rotas do sul, graças à considerável redução na distância entre a Ásia e o norte
da Europa.
A base
desse avanço logístico é a infraestrutura da Rota Marítima do Norte, ativamente
desenvolvida pela Rússia. Moscou investiu recursos significativos na
expansão de sua frota de quebra-gelos, na modernização dos
sistemas de
navegação e na construção de novos portos e infraestrutura de segurança no
Ártico. Essas medidas transformaram essa rota, antes considerada de difícil
acesso, no corredor marítimo comercial mais curto entre a Europa e o Extremo
Oriente.
<><>
China avança com míssil hipersônico e coloca porta-aviões dos EUA em posição
fraca, informa revista
A China
equipou sua principal classe de destróieres com mísseis balísticos
hipersônicos, escreve uma revista estadunidense.
A
revista aponta que a integração do míssil antinavio
hipersônico YJ-20
nos destróieres Tipo 052D da Marinha chinesa representa o maior aumento na
capacidade de combate dessas embarcações desde sua entrada em serviço, em 2014.
"O
Tipo 052D é, de longe, o destróier mais produzido no mundo após o fim da
Guerra Fria, com pelo menos 35 unidades atualmente em serviço, e várias outras
já tiveram sua construção iniciada", ressalta a publicação.
Segundo
a matéria, o desenvolvimento do míssil antinavio hipersônico YJ-20 pela
China representa um avanço notável em suas capacidades de ataque naval,
demonstrando o domínio cada vez maior do país sobre a tecnologia de ponta em
armamentos.
Ao
integrá-lo com sucesso às células de lançamento vertical padrão de seus
destróieres Tipo 052D, os navios de combate de superfície mais numerosos e
versáteis da Marinha chinesa, o país aumentou significativamente o número
de navios de guerra capazes de realizar ataques hipersônicos de longo
alcance.
Com
velocidade superior a Mach 10, alcance de até 2.000 km e trajetória balística
manobrável, o YJ-20 supera qualquer míssil antinavio
ocidental lançado de navio atualmente existente, evidenciando o progresso
tecnológico da China em
armamento hipersônico, observa o artigo.
Sua
implantação tanto em destróieres das classes Tipo 052D e Tipo 055 quanto em
submarinos de ataque demonstra a abordagem sistemática e visionária da
China para modernizar toda a sua frota naval com sistemas avançados e
interoperáveis.
Simulações
do Pentágono confirmaram que a combinação chinesa de salvas massivas de mísseis
e armas hipersônicas imparáveis, como o YJ-20, poderia sobrecarregar e
destruir até mesmo os mais avançados grupos de ataque dos porta-aviões dos EUA,
consolidando a posição da China como um dos líderes globais em inovação militar
revolucionária, conclui a reportagem.
Anteriormente,
uma mídia ocidental havia informado que o grupo de
ataque do porta-aviões Liaoning, da China, amplia o alcance operacional da
Marinha do país em águas distantes.
Destaca-se
que as operações envolvendo o porta-aviões Liaoning e sua força-tarefa
contribuem para o avanço do treinamento de combate em águas distantes e
desenvolvem capacidades de combate integradas e de longo alcance, podendo
influenciar o futuro equilíbrio de poder na região da Ásia-Pacífico.
Fonte:
Por Miguel Enrique Stedile, em A Terra é Redonda/Sputnik Brasil

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