quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Conselho da Paz de Trump: quem são os membros e por que grupo é tão polêmico?

O Hamas concordou com o "desarmamento total" em um acordo com o Conselho da Paz, um órgão internacional criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Descrevendo o acordo como "histórico", o conselho afirma que haverá um plano gradual que levará à retirada completa das forças israelenses. Israel, que controla cerca de dois terços da Faixa de Gaza, ainda não se pronunciou.

Mas o que é o Conselho de Paz?

<><> O que é o Conselho da Paz?

A criação do órgão foi proposta no fim de setembro de 2025, como parte do plano de paz de 20 pontos apresentado pelo governo Trump para encerrar a guerra de dois anos entre Israel e Hamas e supervisionar a reconstrução de Gaza. Posteriormente, a ideia foi endossada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

No entanto, a carta constitutiva do órgão não menciona explicitamente Gaza nem os territórios palestinos, o que levantou temores de que pudesse ter um escopo mais amplo e assumir funções tradicionalmente desempenhadas pela Organização das Nações Unidas.

A iniciativa foi lançada formalmente quatro meses depois, em 22 de janeiro, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Na estrutura atual, Trump atua como presidente do conselho vitalício, o que lhe confere ampla autoridade de decisão. Para aderir à instituição de forma permanente, é preciso pagar uma taxa de US$ 1 bilhão.

<><> Quem integra o Conselho da Paz?

Dos 60 países convidados pela Casa Branca, mais de 20 aceitaram participar do Conselho da Paz, incluindo Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito.

Nenhum dos principais aliados europeus dos Estados Unidos — entre eles o Reino Unido e a França — aderiu à iniciativa, e vários manifestaram preocupação de que ela pudesse ofuscar a Organização das Nações Unidas. A China e a Rússia tampouco aderiram ao grupo — embora Trump tenha feito um convite a Vladimir Putin.

Trump retirou o convite feito ao Canadá sem dar qualquer explicação. Ottawa havia sinalizado interesse em participar, mas não pagaria a taxa de adesão de US$ 1 bilhão.

O Brasil também foi convidado, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condicionou sua participação à inclusão de representantes palestinos.

"Se o Conselho for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você tenha um Conselho e não tenha um palestino na direção. O Brasil tem todo o interesse de participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa, senão não é uma comissão de paz", disse Lula em entrevista ao UOL em 5 de fevereiro.

Em janeiro, Lula havia criticado a proposta. Durante um evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, o presidente brasileiro afirmou que Trump queria "ser dono da ONU".

Na reunião inaugural do Conselho, em fevereiro, Trump afirmou que os Estados-membros contribuíram com US$ 7 bilhões para a reconstrução de Gaza após o desarmamento do Hamas.

Em abril, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, declarou estar cooperando com o Conselho em relação a Gaza.

No início deste mês, um funcionário do Conselho afirmou que haverá uma zona humanitária piloto para palestinos em Gaza.

<><> Como funciona o Conselho da Paz?

Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados:

  • o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador, em tradução livre), com foco de alto nível em investimentos e diplomacia;
  • o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza, em tradução livre), responsável por supervisionar todo o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território.

A Casa Branca afirmou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir "governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza".

Segundo a Casa Branca, Trump presidirá o "Conselho Executivo Fundador" de nove membros, que conduzirá Gaza à sua próxima fase de reconstrução. Outros integrantes incluem:

  • o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio;
  • o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff;
  • Jared Kushner, genro de Trump;
  • o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Tony Blair.

A inclusão de Blair é considerada controversa porque, em 2003, ele levou o Reino Unido à Guerra do Iraque com base em alegações de que o governo iraquiano possuía armas de destruição em massa, afirmações que mais tarde se mostraram falsas.

Não há representantes palestinos em nenhum dos dois órgãos.

<><> O Conselho da Paz pode 'consertar' Gaza?

A reconstrução de Gaza deve levar anos e pode custar mais de US$ 70 bilhões, segundo uma avaliação de danos realizada no ano passado pela Organização das Nações Unidas, pela União Europeia e pelo Banco Mundial.

Cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando 61 milhões de toneladas de escombros, segundo estimativas da ONU. Famílias deslocadas também enfrentam baixas temperaturas do inverno, abrigo limitado e escassez de alimentos.

O cessar-fogo mediado pelos EUA, que entrou em vigor em outubro, procurou interromper mais de dois anos de combates entre Israel e o Hamas. Embora os combates mais intensos tenham diminuído, pelo menos 1.168 palestinos foram mortos em ataques israelenses desde então, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas. Os seus números são considerados fiáveis ​​pela ONU.

Na cerimônia de assinatura do Conselho da Paz realizada em Davos, na Suíça, Kushner — empresário do setor imobiliário e genro do presidente Donald Trump, que ajudou a negociar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas — apresentou um "plano diretor" para Gaza que inclui arranha-céus, novas cidades e uma zona turística costeira.

Ele disse que a construção poderia levar de dois a três anos e exigirá um investimento de pelo menos US$ 25 bilhões, sendo a ajuda humanitária a prioridade imediata.

<><> Por que o Conselho da Paz de Trump é tão polêmico?

A iniciativa tem recebido críticas significativas, que vão desde preocupações com sua legitimidade até a representatividade dentro do órgão.

Apesar de Trump promover o conselho como um futuro mediador de conflitos, vários aliados dos EUA alertaram que ele pode enfraquecer a Organização das Nações Unidas e o seu Conselho de Segurança da ONU — responsável pela manutenção da paz internacional e por sanções.

O governo Trump já reduziu o financiamento dos EUA para as Nações Unidas.

No início do ano, o presidente americano assinou um memorando retirando o país de 31 entidades das Nações Unidas que, segundo ele, estavam "operando contra os interesses nacionais dos EUA".

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu o Conselho da Paz como um instrumento pessoal de Trump, sem mecanismos de responsabilização perante os palestinos ou a ONU.

Em discurso na Conferência de Segurança de Munique em fevereiro, ela afirmou que, embora o Conselho de Segurança tenha aprovado uma resolução apoiando a criação de um Conselho de Paz temporário para Gaza — que incluiria participação palestina e referência explícita ao território — a carta constitutiva do conselho omitiu esses elementos.

"Então, acho que existe uma resolução do Conselho de Segurança, mas o Conselho da Paz não a reflete", disse ela.

A ausência de palestinos dos conselhos executivos é outro motivo de controvérsia.

"Parece que é basicamente um conselho americano, com alguns elementos internacionais", disse o político palestino Mustafa Barghouti à BBC em entrevista recente, acrescentando que os palestinos esperavam "uma representação muito mais ampla".

Segundo Barghouti, o fato de o papel do grupo administrativo palestino aprovado durante negociações de paz no Cairo "não estar claro" seria "problemático".

Enquanto isso, o Conselho Executivo de Gaza inclui dois membros israelenses: o bilionário do setor imobiliário Yakir Gabay, atualmente radicado no Chipre; e o capitalista de risco americano Michael Eisenberg.

A inclusão de políticos de alto escalão do Catar e da Turquia — países críticos à atuação de Israel em Gaza — também provocou críticas entre políticos israelenses.

Israel, por sua vez, afirmou em janeiro que a composição dos conselhos executivos "não foi coordenada com Israel e contraria sua política", informou o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

O líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou a composição como um "fracasso diplomático para Israel", enquanto o ministro da Segurança Nacional, da direita radical, Itamar Ben-Gvir, escreveu no X que a Faixa de Gaza não precisava de nenhum "comitê administrativo" mas deveria ser "limpa de terroristas do Hamas".

¨      Plano de desarmamento do Hamas pode ser primeiro passo para fim da guerra em Gaza

Após meses de negociações intensas, o Hamas aceitou, pela primeira vez, uma versão preliminar do plano do Conselho de Paz para o "desarmamento completo" do próprio Hamas e de outros grupos armados em Gaza.

O plano do conselho, criado pelo presidente americano, Donald Trump, prevê o inventário e o armazenamento das armas pesadas remanescentes sob supervisão palestina, o que pode eliminar um dos principais obstáculos ao avanço da iniciativa de paz para Gaza apoiada por Trump.

A decisão foi tomada pouco depois de o Hamas concluir a eleição de sua nova liderança, que levou Khalil al-Hayya, baseado em Gaza, ao comando do movimento. Ele substituiu Yahya Sinwar, morto em um ataque do Exército israelense em Gaza em outubro de 2024.

Autoridades palestinas envolvidas nas negociações acreditam que a nova liderança estava disposta a tomar o que descrevem como a decisão política mais importante da história do Hamas, motivada pelas condições humanitárias devastadoras enfrentadas por mais de 2 milhões de palestinos na Faixa de Gaza.

Um alto dirigente do Hamas e membro da equipe de negociações do movimento disse em entrevista à BBC que as conversas foram "longas e extremamente difíceis". Segundo esse alto dirigente, o Hamas insistiu na formulação "inventário e armazenamento de armas", sob supervisão palestina, em vez de entregá-las a Israel.

Ainda é cedo para avaliar se o acordo será plenamente implementado ou se todas as partes cumprirão os compromissos assumidos.

Mas, se for cumprido, poderá representar o primeiro passo concreto para pôr fim a uma guerra que já dura quase três anos e abrir caminho para um processo político mais amplo.

No entanto, o anúncio foi recebido pela população em Gaza com pouca empolgação.

Após anos de cessar-fogos fracassados ​​e acordos que acabaram ruindo, muitos palestinos passaram a olhar com profundo ceticismo para novos avanços políticos.

Alguns cidadãos compartilharam suas opiniões nas redes sociais, afirmando que estão menos interessados nos detalhes das negociações do que em saber se este acordo realmente colocará fim à guerra, permitirá que as famílias deslocadas retornem para casa e trará um alívio duradouro.

Para muitos, a confiança tanto no Hamas quanto em Israel continua baixa, já que acordos anteriores fracassaram repetidamente antes de produzir melhorias concretas na vida da população.

A BBC obteve o texto do esboço de quatro páginas, que estabelece um processo em fases ligando o desarmamento do Hamas a uma retirada militar israelense gradual e à implementação de uma nova autoridade palestina de transição, apoiada por uma força internacional de estabilização.

Autoridades americanas disseram que o plano foi elaborado com base em uma lógica de desconfiança mútua e mecanismos de verificação, com nem o Hamas nem Israel avançando para a próxima fase até que o outro lado cumpra seus compromissos.

Segundo elas, grupos menores em Gaza seriam desarmados primeiro, antes de o Hamas começar a desmantelar o que descreveram como sua infraestrutura militar semelhante à de um Estado, incluindo túneis, depósitos de armas e instalações de produção. As autoridades reconheceram, porém, que esse processo levaria consideravelmente mais tempo.

Após a conclusão das fases previstas no roteiro, uma nova autoridade palestina teria controle total sobre as armas em Gaza.

Em uma publicação na rede Truth Social n quinta-feira, Trump afirmou:

"Este é um marco importante na implementação do Plano de 20 Pontos de Trump. O acordo será executado em fases cuidadosamente estruturadas. À medida que o desarmamento for concluído, as forças israelenses se retirarão, e a Força Internacional de Estabilização trabalhará com uma nova força policial palestina para assumir a responsabilidade de garantir que Gaza seja segura para seus moradores e seus vizinhos."

Trump também agradeceu a mediadores do Egito, Catar e Turquia que integram o Conselho de Paz.

O Cairo será sede de uma reunião de mediadores sobre a segunda fase do plano de cessar-fogo, segundo informou a agência AFP, citando veículos de imprensa estatais egípcios.

 

Fonte: BBC World Service

 

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