Indústria
de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS
O
diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanon
Ghebreyesus, acusa as Big Food, indústrias gigantes do setor da alimentação, de
tentar dificultar esforços internacionais no combate à obesidade e na promoção
de dietas mais saudáveis, obstruindo políticas de saúde pública e elevando em
bilhões de dólares os custos aos cofres públicos das nações. A declaração foi
feita após a publicação do especial O Povo contra as Big Food, uma investigação
transnacional feita pela Agência Pública junto a veículos e universidades de 9
países, capitaneada pela Lighthouse Reports.
Ao
menos 239 ações judiciais foram movidas contra órgãos governamentais no México,
Colômbia, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia entre 2010 e 2025 e,
ainda que quase 80% delas tenham representado derrotas para a indústria,
serviram para enfraquecer órgãos regulamentadores e postergar o início de
regulações já aprovadas. O exemplo mais longevo de disputa judicial do gênero
se deu no Brasil, em que a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 24, da
Anvisa, que definiria os parâmetros para publicidade de alimentos no país,
segue sem efeitos práticos há 16 anos, devido a múltiplos questionamentos na
Justiça.
“Esses
atrasos custam bilhões aos países em despesas com saúde e custos legais e criam
um ‘resfriamento regulatório’ que desencoraja governos de adotar proteções
essenciais”, declarou Tedros em entrevista ao The Guardian, um dos parceiros da
investigação transnacional.
“[A
investigação] Não causa surpresa, mas é recebida com um reconhecimento sombrio.
Quando o dano e o lucro estão vinculados ao mesmo produto, surge um padrão
familiar de interferência da indústria: semear dúvidas e obstruir a
regulamentação.”
O
diretor-geral da OMS ressalta que a imposição de rotulagens nutricionais em
embalagens, restrições à publicidade de alimentos não saudáveis e impostos
sobre bebidas açucaradas são algumas das recomendações que vêm se mostrando
eficazes no trabalho de promoção à saúde pública e no combate à obesidade, mas
lamenta que muitas das medidas tenham avançado de forma mais significativa em
países desenvolvidos de maior renda.
“Isso
reflete uma inequidade mais ampla, não apenas no crescente ônus das doenças,
mas também na capacidade dos governos de responder — uma inequidade que os
litígios agravam, ao atrasar ações justamente onde a necessidade é maior.”
Em
2024, quase um bilhão de pessoas, uma em cada sete no mundo, viviam com
obesidade. Dietas não saudáveis permanecem como um importante fator de risco
prevenível para doenças não transmissíveis (DNTs), como doenças cardíacas,
diabetes e câncer, que causaram pelo menos 43 milhões de mortes em 2021. Mais
de sete em cada dez dessas mortes ocorreram em países de baixa e média renda. O
custo econômico anual da obesidade e das dietas não saudáveis é estimado em
trilhões.
No
mundo, entre as ações em que os autores puderam ser identificados, quase metade
dos litígios partiram de empresas como Coca-Cola, PepsiCo, Mondeléz, Kellogs,
Danone e Ferrero, e em sua maioria, no México.
Tedros
Adhonam, de um lado, lembra que “os governos podem apoiar uns aos outros ao
adotar políticas robustas e obrigatórias e ao trabalhar juntos para fortalecer
e implementar normas e estruturas internacionais que salvaguardem a saúde
pública”.
Por
outro lado, recomenda que as empresas encerrem as disputas judiciais e
contribuam para adequações necessárias, ainda que reconheça que houve um avanço
na redução de gorduras trans nos processos industriais em todo o mundo, o que
deve ser celebrado.
“Esses
esforços são bem-vindos, mas não são suficientes por si só para enfrentar a
escala desta crise global de saúde”, conclui, junto a uma mensagem esperançosa:
“O impulso para a mudança está crescendo”.
Fonte:
Por Ed Wanderley, da Agencia Pública

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