quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Como rede criminosa transforma jovens em assassinos de aluguel na Europa

Um estudante de 20 anos foi morto a tiros em um subúrbio de Estocolmo, na Suécia, quando voltava do trabalho no McDonald's.

O autor dos disparos, vestido de preto e armado com uma pistola, aproximou-se de Murad Abdelkader e atirou várias vezes, acertando o último tiro na cabeça da vítima, que já estava caída no chão.

O assassino era Atilla Azimov, de 18 anos. Naquela noite de fevereiro do ano passado, ele matou o homem errado.

Azimov agiu por dinheiro. Ele tinha sido contratado pela Rede Foxtrot, um grupo de crime organizado ligado ao regime iraniano e conhecido por oferecer "violência como serviço" (VaaS, na sigla em inglês).

Desde 2022, acredita-se que a Rede Foxtrot seja responsável por cerca de 35 assassinatos, além de uma série de ataques e tentativas de ataque contra alvos israelenses na Europa, incluindo dois com explosivos e granadas.

A quadrilha recruta adolescentes para executar os ataques em troca de dinheiro, mas quase nunca precisa pagar, porque eles costumam ser presos antes.

É o caso de Johannes Natland, adolescente norueguês condenado na quarta-feira (29/7) por um júri do tribunal Old Bailey, em Londres. Ele foi considerado culpado de planejar um assassinato em West Yorkshire.

A Europol, agência de polícia da União Europeia, criou uma força-tarefa para combater o problema: a OTF GRIMM. Segundo o grupo, os adolescentes são contratados para matar nas redes sociais e recebem instruções em um sistema "gamificado", inspirado na lógica dos videogames.

Andy Kraag, chefe do Centro Europeu de Crimes Graves e Organizados da Europol, afirma que as gangues terceirizam assassinatos de forma calculada ao recrutar jovens vulneráveis para executá-los.

A OTF GRIMM envolve atualmente 11 países afetados pelo fenômeno da "violência como serviço": Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Islândia, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia.

O líder da Rede Foxtrot, Rawa Majid, fugiu da Suécia e, depois, deixou sua base de operações na Turquia. Hoje, ele vive em Teerã, capital do Irã.

A polícia acredita que alguns dos ataques foram executados a mando do regime iraniano — incluindo um ataque com granada à embaixada de Israel em Copenhague. Outros ataques estariam ligados às disputas da Foxtrot pelo controle do mercado de drogas.

Diamant Salihu, jornalista investigativo da emissora sueca SVT, pesquisa a Foxtrot e suas ligações iranianas há três anos.

"O regime está dando ordens ao líder da Rede Foxtrot para que use sua rede e cometa ataques contra os inimigos do governo", disse.

"Podem ser dissidentes, jornalistas que fazem oposição ao regime iraniano ou alvos israelenses."

Segundo Salihu, as ligações com o regime iraniano começaram depois de outubro de 2023, quando Majid fugiu para Teerã.

"Ele teve que fazer um acordo para viver livremente no país, sob a condição de que ele e sua rede trabalhassem para o regime."

A Rede Foxtrot e Majid foram alvo de sanções do governo do Reino Unido em abril de 2025.

As sanções vieram um mês depois da prisão de Natland, então com 18 anos. Ele tinha viajado de avião até o Reino Unido para executar um assassinato por encomenda para a Foxtrot, em algum lugar perto de Huddersfield.

O caso Natland ilustra como funciona o sistema de "violência como serviço".

Natland é filho de dois jornalistas de Stavanger, na Noruega, e teve uma criação confortável. Mas acabou se envolvendo com drogas e desenvolveu psicose. Passou um período em uma clínica de reabilitação e um curto período em uma instituição para menores, onde conheceu um adolescente que usava o codinome UnknownHustler.

Foi UnknownHustler quem enviou a Natland o primeiro pedido online: alguém procurava uma pessoa para executar um assassinato na Inglaterra por 270 mil coroas norueguesas, o equivalente a cerca de R$ 143 mil.

O pedido tinha vindo de outro jovem, que usava o codinome Generalen. Aos 16 anos, ele havia passado os três anos anteriores vivendo em uma instituição para menores. Depois, recrutou Natland para o assassinato.

Natland foi então colocado em contato com um membro da Foxtrot que usava o nome de usuário Agent 47, inspirado na franquia de videogames "Hitman". A polícia sueca acusa Ali Shehad Ahmed, homem próximo ao líder Majid, de ser o Agent 47.

O Agent 47 comprou a passagem só de ida de Natland para o aeroporto de Manchester e o ajudou a tirar um passaporte de emergência. Pelo aplicativo de mensagens Signal, ele guiou o jovem em cada etapa da viagem, antes de repassá-lo a um encarregado da logística, com o codinome "1".

Tratando Natland quase como um personagem de videogame, "1" lhe enviou um mapa e vídeos: um mostrava como encontrar as armas escondidas em uma área de mata em Huddersfield; o outro ensinava como acessar um esconderijo de dinheiro, na vegetação perto de uma passagem subterrânea.

Assim que Natland chegou ao hotel em Huddersfield com as armas, Agent 47 mandou uma nova mensagem: "Temos muito o que fazer amanhã."

Natland foi preso na manhã seguinte. Ainda não lhe tinham dito quem ele deveria matar, e os investigadores de contraterrorismo continuam tentando descobrir se seria uma execução criminosa ou uma ação política realizada a mando do Irã.

Generalen, o adolescente que recrutou Natland, não agia sozinho.

Além de recrutá-lo como assassino de aluguel, ele também tinha contratado ao menos duas pessoas para cometer assassinatos na Suécia: Azimov, que cumpre prisão perpétua por matar o homem errado, e um adolescente de 17 anos que matou a tiros Ahmed Zamzam em Lund, no sul da Suécia, três semanas e meia antes.

Nenhum dos dois assassinos foi pago, porque ambos foram presos. Salihu disse que isso fazia parte do modus operandi da Foxtrot.

"Eles não se importam se os adolescentes são presos. Quando isso acontece, eles não conseguem exigir o dinheiro que foi prometido, e não vemos exemplos de pagamentos feitos a esses jovens assassinos", disse.

"Tem sido uma política deliberada recrutar adolescentes cada vez mais novos, porque eles não pensam nas consequências de serem presos e estão mais dispostos a correr os riscos."

Generalen acabou sendo detido porque tentava organizar o assassinato do filho de 14 anos de um policial norueguês.

Para o ataque a faca, ele recrutou dois adolescentes, de 15 e 17 anos. Mas o mais jovem acabou contando à polícia.

Quando Generalen foi preso, os investigadores encontraram no celular dele os detalhes do plano de assassinato em Huddersfield. Foi essa descoberta que levou a polícia britânica a prender Natland a tempo.

Generalen foi condenado em maio e cumpre pena de 14 anos de prisão.

A OTF GRIMM obteve alguns avanços nos 15 meses desde sua criação. A polícia fez mais de 280 prisões, incluindo alguns suspeitos importantes.

Uma das prisões mais relevantes foi a de Ahmed, suspeito de ser o Agent 47.

Ele foi detido na cidade curda de Sulaymaniyah, no Iraque, e é atualmente alvo de um pedido de extradição para a Suécia.

O vice-comissário nacional de polícia da Suécia, Stefan Hector, disse que o país está "expandindo constantemente a cooperação com outros países" e mostrando aos criminosos organizados que "eles não podem se sentir seguros em nenhum lugar do mundo".

Em maio, Mohamed "Moewgli" Mohdhi, ex-rapper descrito pela polícia sueca como um "ator central" da Foxtrot, foi preso na Tunísia.

Mas o próprio Majid permanece fora de alcance, no Irã.

"Ele ainda está ativo", disse Salihu. "E, enquanto essa rede continuar ativa, temo que continuaremos vendo ataques contra os inimigos do regime iraniano."

Ainda não está claro em que medida as prisões reduziram a capacidade operacional da Foxtrot, mas outros grupos — incluindo sua rival, a Rede Dalen — já adotaram o modelo de "violência como serviço", recrutando adolescentes vulneráveis para cometer assassinatos. Por isso, a ameaça continua muito real.

O fenômeno se espalhou rapidamente da Suécia para outros países da Escandinávia e do norte da Europa e, como mostra o caso Natland, chegou ao Reino Unido no ano passado.

¨      Como o genocídio dos povos roma e sinti é lembrado na Europa

Foram décadas até que o genocídio cometido pelos nazistas contra os roma e os sinti – que vitimou cerca de 500 mil pessoas durante a Segunda Guerra Mundial – fosse reconhecido pela Alemanha como tal. Também levou décadas até que o Dia Europeu em Memória do Holocausto dos Roma e dos Sinti, lembrado em 2 de agosto, se tornasse efetivamente um dia oficial de memória na Alemanha e na Europa.

Por iniciativa de organizações roma e sinti polonesas, foi nesse dia, em 1994, no Memorial de Auschwitz, que ocorreu pela primeira vez uma cerimônia de grande porte em homenagem à chamada "aniquilação dos campos ciganos" de Birkenau.

Na noite de 2 para 3 de agosto de 1944, milhares de roma e sinti, foram mortos em câmaras de gás, fuzilados ou espancados até a morte no campo de concentração de Auschwitz. Devido a desnutrição, doenças e epidemias, milhares de deportados já haviam morrido antes mesmo do massacre.

Somente desde 2015, sob determinação do Parlamento Europeu, o Dia Europeu em Memória do Holocausto dos Roma e Sinti passou a ser, também na Alemanha e em outros países, um dia de homenagem lembrado de forma oficial – com representantes governamentais, inclusive, dirigindo-se ao Memorial de Auschwitz.

Na maioria das vezes, porém, as cerimônias são realizadas nos próprios países, com destaque especial para nações do centro e do sudeste da Europa, uma vez que a política de extermínio nazista frequentemente mirava os roma e sinti nessas regiões. Ao mesmo tempo, algumas cerimônias costumam também servir para lembrar o preconceito atual e suas consequências.

<><> Polônia: Dia de Memória há 15 anos

Cerca de 30 mil roma e sinti vivem na Polônia, onde o 2 de agosto é, desde 2011, um dia oficial de memória, em que representantes do parlamento e do governo costumam se deslocar ao memorial de Auschwitz.

Outra importante cerimônia ocorre todos os anos na vila de Szczurowa, a leste de Cracóvia, no dia 3 de julho, em memória a um massacre perpetrado pelos alemães contra roma e sinti poloneses em 1943. Nesse local, foi erguido em 1956 o primeiro monumento da Europa dedicado às vítimas ciganas.

Também em outras pequenas cidades e vilarejos do sudeste da Polônia, todos os verões, é prestada homenagem a roma e sinti poloneses vitimados durante o período da ocupação alemã.

<><> República Tcheca: antiga fazenda virou memorial

Na República Tcheca, onde vivem cerca de 250 mil roma e sinti, o 2 de agosto é lembrado oficialmente desde 2015. A principal cerimônia em homenagem às vítimas ocorre na cidade de Lety, ao sul de Praga, onde organizações ciganas relembram o genocídio há décadas. Lá, os nazistas construíram, em 1940, um campo de concentração para o qual famílias ciganas foram deportadas a partir de 1942.

Após a guerra, virou uma fazenda de criação de suínos, o que gerava muita controvérsia. Por isso, as operações foram encerradas em 2018, e o local, transformado em um memorial.

À inauguração, em abril de 2024, compareceram o presidente da República Tcheca, Petr Pavel, e o então primeiro-ministro tcheco, Petr Fiala. Outro local de memória é Hodonin, ao norte de Brno, onde também existiu, entre 1942 e 1943, um campo de concentração alemão para roma e sinti. Nesse local, é lembrada a deportação em massa desses povos para Auschwitz, ocorrida em 21 de agosto de 1943.

<><> Eslováquia: celebração desde 2005

Em torno de meio milhão de roma e sinti vivem na Eslováquia, onde o 2 de agosto é um dia oficial de comemoração desde 2005. A principal cerimônia ocorre no Museu da Revolta Popular (SNP), que relembra a revolta antifascista de 1944, em Banska Bystrica, na região central do país.

A homenagem é organizada pelo governo – mais precisamente, pelo representante oficial dos roma – em conjunto com iniciativas não governamentais. Outras figuras proeminentes da política, como o presidente, também participam do evento.

<><> Hungria: preconceito no passado e no presente

Na Hungria, onde hoje vivem cerca de 600 mil roma e sinti, o Dia da Memória do Holocausto dos Ciganos é comemorado em 2 de agosto em diversas localidades, desde 2005, após uma decisão do parlamento.

Somente em Budapeste, há três memoriais onde são realizadas homenagens. A razão para a existência desses e de muitos outros memoriais no país é que os roma e sinti húngaros foram vítimas de deportações e assassinatos especialmente após o início da ocupação alemã em 1944 e sob o domínio do Partido da Cruz Flechada, os nazistas húngaros.

À memória histórica, soma-se na Hungria também a lembrança da série de assassinatos contra roma e sinti ocorrida em 2008 e 2009. Naquela época, terroristas de extrema direita assassinaram seis pessoas e feriram 55, algumas delas gravemente. O último atentado foi cometido justamente na noite de 2 para 3 de agosto de 2009, na vila de Kisleta, no leste da Hungria.

<><> Romênia: deportação para a Transnístria

Cerca de dois milhões de roma e sinti vivem na Romênia, onde o Dia da Memória é comemorado oficialmente desde 2020, com a principal cerimônia ocorrendo no Memorial do Holocausto, inaugurado em 2009, em Bucareste.

Sob o regime do ditador Ion Antonescu, aliado de Hitler, a Romênia organizou por conta própria uma deportação em massa para a Transnístria, onde cerca de 380 mil judeus e 11 mil ciganos foram assassinados em campos de concentração ou morreram de fome e doenças. Em 2025, pela primeira vez, um presidente da Romênia, Nicusor Dan, participou pessoalmente das homenagens.

Em 2004, a Romênia declarou o dia 9 de outubro como o Dia Nacional em Memória do Holocausto. Nessa data, tiveram início as deportações de judeus da região da Bucovina para a Transnístria. Nesse dia, também é relembrada a deportação e o assassinato de roma e sinti pelo regime de Antonescu.

<><> Bulgária: memória sem dia comemorativo

Na Bulgária, onde vivem cerca de 700 mil roma e sinti, o 2 de agosto não foi declarado dia comemorativo oficial, mas é celebrado com cerimônias organizadas por entidades ciganas. Representantes do governo também publicam comunicados oficiais a esse respeito.

Embora aliada dos nazistas, a Bulgária resistiu à deportação de judeus e também de roma e sinti que era exigida pela Alemanha. Mas, internamente, acabaram discriminados devido a uma série de leis e transformados em cidadãos de segunda classe.

<><> Croácia: a tentativa de fuga em destaque

Cerca de 25 mil roma e sinti vivem na Croácia, onde o 2 de agosto foi declarado um dia de homenagem pelo parlamento em 2014. A principal cerimônia ocorre no local do antigo campo de concentração de Jasenovac, onde, durante o regime fascista dos ustashas – instituído no país entre 1941 e 1945 –, sérvios, judeus, croatas e ciganos foram detidos. Cerca de 15.000 a 20.000 roma e sinti foram assassinados.

Representantes de alto escalão do governo participam regularmente das homenagens. De modo geral, nas cerimônias em Jasenovac, o dia 22 de abril ocupa um lugar de destaque: nessa data, relembra-se uma tentativa de fuga dos prisioneiros do campo de concentração, ocorrida em 1945.

<><> Macedônia do Norte: memória e feriado

Na Macedônia do Norte, onde vivem cerca de 100 mil roma e sinti, o 2 de agosto é oficialmente o Dia de Memória do Holocausto dos Ciganos desde 2017. A principal cerimônia ocorre em Skopje, no Centro de Memória do Holocausto aos Judeus da Macedônia.

Como o dia 2 de agosto também é o Dia da República – portanto, feriado nacional –, a homenagem ao genocídio dos roma e sinti fica um pouco em segundo plano na esfera pública.

<><> Sérvia: não há dia oficial

Na Sérvia, onde vivem cerca de 130 mil roma e sinti, o 2 de agosto não é um dia oficial de homenagem ao genocídio dos ciganos, que é relembrado junto com outras datas que destacam as políticas de genocídio dos nazistas e dos ustaschas.

 

Fonte: BBC News Reino Unido/DW Brasil

 

Nenhum comentário: