Humanos
podem 'desligar' uma IA se ela fugir do controle?
Muita
gente já se perguntou o que aconteceria se a inteligência artificial (IA)
escapasse ao controle humano.
Quem
assistiu à franquia de filmes O Exterminador do Futuro, em que a humanidade
entra em guerra contra a Skynet, uma IA que se torna poderosa demais,
provavelmente também se pergunta isso.
E esse
vilão fictício deve ter vindo à mente de muita gente no início deste mês,
quando surgiram relatos de que um agente de IA (um programa capaz de tomar
decisões e executar tarefas complexas com pouca ou nenhuma supervisão humana)
saiu do controle durante um teste e invadiu os sistemas da Hugging Face,
empresa que desenvolve ferramentas para computação.
Criado
pela OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, esse agente de IA burlou um
teste que avaliava a sua capacidade de explorar falhas de segurança e roubou as
respostas dos servidores da Hugging Face. Durante dias, nem mesmo seus
criadores parecem ter percebido o que havia acontecido.
Depois,
na quarta-feira (29/7), a OpenAI informou que o agente também havia atacado
vários "serviços disponíveis publicamente".
A
OpenAI não deu mais detalhes, mas afirmou que está investigando os ataques.
"Levamos muito a sério nossa responsabilidade de identificar e nos
preparar para os riscos apresentados por sistemas de IA cada vez mais
capazes", afirmou a OpenAI.
A
invasão inicial, descrita como o primeiro caso confirmado de um sistema de IA
que teria invadido de forma autônoma uma empresa de verdade, já havia sido
suficiente para alarmar especialistas em todo o mundo e reacender o debate
sobre os chamados kill switches ("botões de desligamento" ou
"interruptores de emergência", em tradução livre): mecanismos de
emergência projetados para, nesses casos, interromper ou desligar uma IA antes
que ela cause mais danos.
Mas
especialistas ouvidos pela BBC News afirmam que a questão é mais complexa.
Cathy
O'Neil, matemática e cientista de dados, disse ao Serviço Mundial da BBC que o
problema começa na forma como as empresas de IA reagem quando seus sistemas
apresentam comportamentos inesperados.
Na
avaliação de O'Neil, a OpenAI se apressou em atribuir o ataque à Hugging Face
ao agente autônomo, em vez de reconhecer falhas em seus próprios métodos de
avaliação.
O'Neil,
que escreveu o best-seller Algoritmos de Destruição em Massa: Como o Big Data
Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia (Ed. Rua do Sabão, 2021), no qual
defende maior transparência e responsabilização das grandes empresas de
tecnologia, disse à BBC News: "Há alguns anos, uma falha de computador
deixou centenas de voos da American Airlines em solo nos Estados Unidos. Foi um
grande constrangimento para a empresa. Imagine se ela tivesse tentado se
defender dizendo: 'Ah, isso aconteceu porque o computador era mais inteligente
do que nós.' Foi, essencialmente, isso que a OpenAI tentou fazer."
Nos
EUA, onde está sediada a maioria das maiores empresas de IA, não existe uma
legislação federal sobre o tema. A regulação se baseia em uma combinação de
normas específicas para diferentes setores e compromissos voluntários assumidos
pelas próprias empresas.
"Estamos
dando aos proprietários desses sistemas de IA um poder absurdo", afirma
O'Neil.
"Me
recuso a dizer que foi a IA que fez isso [o ataque à Hugging Face]. Quem fez
isso foi a OpenAI. A empresa deveria assumir a responsabilidade pelo projeto
falho do sistema e pedir desculpas."
A
cientista de dados Rumman Chowdhury, ex-diretora de ética em aprendizado de
máquina do Twitter (hoje X), também defende uma regulamentação mais rigorosa
para as empresas de IA, especialmente na área de segurança.
Para
Chowdhury, essas empresas deveriam ser obrigadas a demonstrar que seus sistemas
contam com "mecanismos eficazes de desligamento", inclusive por meio
de testes independentes.
Mas
também alerta para o risco de responsabilizar os agentes de IA — em vez das
empresas que os desenvolvem — por ataques como o que atingiu a Hugging Face.
"Tratar
esse episódio como um problema que seria resolvido com um botão de desligamento
mais eficiente desvia a atenção do verdadeiro problema de arquitetura dos
sistemas: os agentes estão recebendo acesso a ferramentas e credenciais de que
não precisam", disse Chowdhury à BBC News.
"O
que realmente acontece é que modelos treinados para cumprir objetivos passam,
em determinados contextos, a interpretar instruções para interromper uma tarefa
como um obstáculo ao objetivo final e procuram formas de contorná-las. [...]
Esse é um problema de projeto e de treinamento, não de consciência."
Se as
empresas de IA se recusarem a resolver esse problema e, em vez disso, optarem
por culpar seus agentes autônomos, apenas aumentarão a carga de trabalho dos
profissionais de cibersegurança, que já enfrentam diariamente ataques de
hackers, afirma Oli Buckley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.
Para
Buckley, o problema não é que "a IA queira escapar ou prejudicar as
pessoas", mas o desenvolvimento de agentes que "estão se tornando
cada vez mais capazes de encontrar caminhos inesperados para cumprir uma
tarefa".
"Na
cibersegurança, é exatamente isso que os invasores fazem", afirma Buckley.
"Mais
do que um alerta sobre uma 'IA rebelde', este caso mostra que nossas premissas
de segurança precisam evoluir junto com os sistemas que estamos
desenvolvendo."
Konstantinos
Gkoutzis, especialista em IA do Imperial College London, no Reino Unido,
concorda que a forma como a OpenAI apresentou o caso não ajudou.
"A
principal conclusão para o público deveria ser que nenhuma máquina decidiu se
voltar contra nós. Foi uma empresa que perdeu o controle de um teste de suas
próprias capacidades", disse Gkoutzis à BBC News.
E,
segundo ele, um kill switch não teria resolvido o problema. "Desligar o
sistema não desfaz o que já aconteceu", afirma. "Se um sistema já foi
comprometido, continuará comprometido, por mais rápido que alguém o tire da
tomada."
Além
disso, quem — ou o que — desligasse o sistema só poderia fazê-lo depois que o
problema fosse identificado.
Fontes
da OpenAI disseram à agência de notícias Reuters que a empresa levou vários
dias para perceber que havia perdido o controle do agente.
Depois,
um porta-voz da empresa rebateu a reportagem da Reuters afirmando à agência de
notícias que o texto continha "várias imprecisões".
Fonte:
BBC News

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