quarta-feira, 5 de agosto de 2026

'Guerra ainda não começou': PT oficializa a sétima disputa eleitoral de Lula à Presidência

O PT oficializou neste domingo (2/8) a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição. A legenda estará coligada nacionalmente com o PV, PCdoB, PDT, PSOL, Rede e o PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin, que também concorre à reeleição.

A convenção do partido, realizada em São Paulo, reuniu dirigentes e parte da militância — a expectativa da campanha era de atrair 3 mil pessoas — em torno de Fernando Haddad e Marcio França, candidato e vice ao governo de São Paulo, a primeira-dama, Janja Lula da Silva, Lula e Alckmin.

Ao contrário do tradicional vermelho petista, todos os candidatos vestiam branco.

A campanha prepara um ato maior, no próximo dia 16, em São Bernardo do Campo (SP) para reunir sua militância no local mais simbólico da história do presidente.

Aos 80 anos, esta é a sétima, e muito provavelmente a última, eleição que Lula disputa. Por isso, o ato em São Bernardo ganhou um tom de "última dança" do petista, conforme uma pessoa próxima à campanha relatou à BBC News Brasil.

Na convenção, o presidente subiu ao palco ao som de Carruagens de Fogo, música associada a corridas e eventos esportivos. O Hino Nacional também foi tocado.

O discurso de Lula foi aberto pela primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, que falou sobre o pacto contra o feminicídio, uma mobilização coordenada por ela. Antes de Janja, Alckmin realizou uma fala acalorada para seus parâmetros.

"Lula com chuchu", disse o vice-presidente, ao finalizar seu discurso e fazendo piada com o próprio apelido que ganhou — picolé de chuchu — devido ao discurso usualmente considerado insosso.

Ao discursar, Lula lembrou que esta é a sétima eleição à Presidência disputada por ele. Provavelmente a última. "Não vou ganhar o penta", disse, associando suas disputas à Copa do Mundo. Se Lula vencer, será a quarta vitória.

Reforçou a fala de Janja sobre a violência de gênero. "O homem vai ter que escolher, ou ele vota em mim, ou ele bate na mulher. Se bate na mulher, não precisa votar em mim", disse.

Falou em "educar" os homens, ao longo de minutos, em um claro aceno ao eleitorado feminino, a maioria dos eleitores hoje e onde Flávio tem mais dificuldade de angariar votos.

Reclamou das emendas parlamentares e da gradual perda de poder do presidente. "Randolfe, você propôs a criação de uma universidade no Amapá e eu tive que vetar", afirmou, dizendo que é prerrogativa do presidente a criação de universidades.

Sem dizer como, afirmou querer "resolver definitivamente o papel da educação neste país". Acenou aos idosos, afirmando querer criar uma política para essa camada da população cada vez maior. "Quero pagar uma dívida com os idosos deste país."

Ao longo de mais de uma hora falando, Lula incluiu em seu discurso trechos sobre seu passado em Garanhuns (PE) e temas como terras raras, investimento na Defesa, inteligência artificial, transição energética, violência e gravidez na adolescência.

"Peço desculpas pelas coisas que eu não fiz. Peço desculpas pelos erros que cometi", finalizou. E não mencionou uma única vez Flávio Bolsonaro.

A homologação da candidatura de Lula foi a última dentre os maiores partidos. O prazo para realizar as convenções termina nesta quarta-feira (5/8). Depois, os partidos terão até o dia 15 para registrar suas candidaturas e alianças.

No fim de semana passado, o PL lançou Flávio Bolsonaro, também em São Paulo. Sem alianças definidas, o ato contou com a presença do presidente da Argentina, Javier Milei, que chamou o minsiro do Suprmo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de "lixo careca".

A fala de Milei culminou em uma crise diplomática entre os dois países e o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para "transmitir a repulsa" do governo brasileiro em relação aos comentários.

Atores internacionais estão protagonizando essa disputa acirrada no Brasil, a mais disputada desde a democratização. As novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump contra o Brasil, em vigor desde o último dia 22, vêm nessa esteira.

Do lado da campanha de Flávio Bolsonaro, o tema tende a prejudicar seu objetivo de chegar ao Palácio do Planalto.

Em uma carta enviada no início de julho ao escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o senador fez um alerta: caso o governo Trump confirmasse a nova taxa contra o Brasil, isso daria uma "vitória política" a Lula.

No documento, Flávio pedia o adiamento por 180 dias da aplicação. Ou seja, para depois das eleições. O filho mais velho de Bolsonaro ainda foi ao EUA participar de uma audiência pública antes da confirmação das tarifas, mas seus pedidos não surtiram efeito.

De ambos os lados, as campanhas tentam atrelar os novos impostos americanos ao adversário.

O mesmo ocorre com o escândalo do Banco Master, embora, até o momento, somente o nome de Flávio apareceu nas investigações relacionado a Daniel Vorcaro.

Mas as pesquisas mostram que, mesmo com uma campanha cheia de turbulências para Flávio Bolsonaro, Lula não consegue se firmar num patamar confortável de intenções de voto.

Hoje, a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno é a menor se comparada ao mesmo período de 2002, quando o petista enfrentou José Serra (PSDB), e em 2006, contra Geraldo Alckmin (na época no PSDB), segundo levantamento realizado pelo agregador de pesquisas PollingData para a BBC News Brasil.

Em seu discurso neste domingo, Lula reduziu a importância desses números.

"Não fique preocupado com pesquisa. A guerra não começou", ele disse. "Eu estou aqui hoje, Haddad, e não posso pedir voto", afirmou, lembrando que a campanha tem início oficialmente no dia 16.

<><> Efeito Lulinha?

No fim da semana, a poucos dias da convenção do PT, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a abrir um inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, filho de Lula e conhecido como "Lulinha".

Segundo informações divulgadas na quinta-feira (30/7) pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo g1, na semana passada a PF pediu a abertura do inquérito para investigar Lulinha.

Mendonça foi sorteado e será o relator do caso no Supremo — a investigação é para apurar se Lulinha cometeu os crimes de tráfico de influência e corrupção para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "careca do INSS" em negócios com o Ministério da Saúde e no gabinete presidencial.

Apontado pela PF como um dos principais operadores das fraudes no INSS, Antunes está preso preventivamente desde setembro.

Nesta sexta-feira (31/7), Mendonça autorizou a abertura de um segundo inquérito para investigar Lulinha por eventual tráfico de influência, desta vez por suspeita de beneficiar empresários em contratos da Dataprev.

Nos últimos anos, Lulinha se tornou o Calcanhar de Aquiles do presidente.

Analistas afirmam que os negócios de Lulinha com pessoas próximas ao governo vêm inspirando suspeitas ao longo dos anos e que isso pode ter um impacto, ainda que limitado, à campanha de reeleição de seu pai.

•        Pedro Serrano alerta para o risco da IA na eleição e adverte: ‘Bolsonaro e Flávio estão esticando a corda’

A utilização desregrada de inteligência artificial na propaganda política e o contínuo tensionamento promovido pelo clã Bolsonaro contra o Poder Judiciário representam riscos concretos às regras do jogo democrático nas eleições. O alerta foi feito pelo jurista e constitucionalista Pedro Serrano durante participação no programa Boa Noite 247.

Analisando a recente polêmica envolvendo a veiculação de um vídeo manipulado por IA com a imagem de Jair Bolsonaro durante a convenção do Partido Liberal (PL), Serrano ressaltou que a Justiça Eleitoral não pode atuar apenas como tribunal de conflitos, mas sim exercer com firmeza o seu papel regulador para conter distorções graves no pleito.

<><> O desafio da Inteligência Artificial no pleito eleitoral

Durante o painel, Pedro Serrano abordou a dimensão inédita dos recursos tecnológicos na disputa política. Para o jurista, o uso indevido de simulações virtuais (deep fakes) para simular declarações de figuras públicas abre um precedente perigoso.

“Nós estamos tratando do problema do uso da inteligência artificial numa campanha democrática. Isso pode destruir a democracia se você vai liberando e agindo com muita leniência. (…) Todos os olhos estão voltados agora para a Justiça Eleitoral.” — Pedro Serrano

Serrano observou que, embora o ex-presidente Jair Bolsonaro tenha alegado desconhecimento sobre a produção do conteúdo ao responder aos questionamentos do ministro Alexandre de Moraes, a responsabilidade sobre a exibição do material e o seu impacto eleitoral exigem sanções adequadas por parte do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para impedir que a prática se pulverize no pleito.

<><> Provocação metódica e ‘esticada de corda’

Outro ponto central da entrevista foi o padrão de comportamento da família Bolsonaro perante as medidas restritivas e ordens judiciais impostas pela Justiça. Questionado por Florestan Fernandes Jr. sobre os frequentes episódios de descumprimento de limites impostos à prisão domiciliar e declarações públicas, Serrano avaliou que há um componente tático nas ações da extrema-direita.

“O Bolsonaro tem esticado a corda (…) E o filho também tem esticado a corda. Parece até, às vezes, que eles provocam para serem punidos e saírem falando que estão sendo perseguidos. Eu acho que é método.”— Pedro Serrano

O jurista ponderou que o Judiciário deve manter a atuação estritamente técnica e balizada pelos preceitos da Constituição Federal, resistindo a cair em armadilhas de provocação política, mas sem abrir mão da aplicação rigorosa das leis vigentes.

<><> Defesa da soberania e repúdio às pressões externas

A conversa também repercutiu a nota oficial emitida pelo governo brasileiro em repúdio à renovação da declaração de emergência dos Estados Unidos contra o Brasil, que alegava interferências e cerceamento à liberdade de expressão em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

Serrano defendeu a postura altiva da diplomacia brasileira e alertou para a tentativa de atores da extrema-direita de inflar interferências externas sobre o processo democrático do país.

“Não é o caso de defender determinado segmento político, é o caso de defender o país e a nossa soberania.”— Pedro Serrano

Para o constitucionalista, a aplicação da lei penal e o cumprimento das regras eleitorais são os instrumentos fundamentais para garantir que a soberania popular prevaleça nas urnas, cabendo às instituições agir com firmeza diante de qualquer tentativa de desestabilização.

•        Polarização Lula-Bolsonaro derruba votos nulos a menor nível em 20 anos

A eleição mais disputada desde a redemocratização mudou o comportamento do eleitor brasileiro de forma mensurável , e os números provam isso.

Segundo a Folha, a eleição presidencial de 2022 reverteu uma tendência de duas décadas: o percentual de votos nulos e brancos caiu ao menor nível desde a adoção das urnas eletrônicas.

No segundo turno entre Lula e Bolsonaro, os votos inválidos chegaram a apenas 4,6% , o índice mais baixo desde 2002.

Especialistas apontam a polarização como principal fator para essa queda.

A literatura eleitoral já indicava que disputas altamente competitivas aumentam a percepção do eleitor sobre o peso do próprio voto. Em 2022, a intensidade do confronto entre os dois candidatos parece ter convertido indecisos e contestadores em votantes ativos.

O efeito se estendeu além da disputa presidencial. Houve redução similar de votos inválidos para deputados, senadores e governadores, o que sugere que a polarização mobilizou o eleitorado em toda a cadeia eleitoral.

Historicamente, voto nulo e voto branco tinham significados distintos. O nulo era associado a protesto ou erro de preenchimento nas antigas cédulas de papel, enquanto o branco indicava dificuldade de eleitores com menor escolaridade.

Com a universalização das urnas eletrônicas, esse quadro mudou. Uma hipótese é que parte dos votos nulos hoje resulte de erros de digitação, com eleitores menos instruídos inserindo números incorretos no início da votação.

O voto branco, por ter botão próprio na urna, passou a ser lido como recusa deliberada e consciente. Estudos indicam que votos nulos em cargos proporcionais tendem a aparecer mais em regiões com maior desenvolvimento, onde a contestação política é mais articulada.

O que os dados de 2022 mostram, no entanto, é que a polarização foi o fator dominante: eleitores que antes invalidavam o voto escolheram um lado.

 

Fonte: BBC News Brasil/O Cafezinho

 

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