Commodities
ou indústria — que país queremos?
Fundado
sobre as bases do binômio escravismo-latifúndio (o Brasil foi o último país das
Américas a abolir a escravatura e ainda hoje se recusa a promover a reforma
agrária que as nações desenvolvidas levaram a cabo nos dois últimos séculos),
nascemos e nos formamos determinados pela metrópole empobrecida a cumprir o
papel de fornecedores das matérias-primas requeridas pelo mercado europeu.
Nascemos
como economia agroexportadora, uma empresa territorial sob a intermediação de
Lisboa, o entreposto de tudo o que importávamos e de tudo o que exportávamos,
basicamente o açúcar produzido nos engenhos do litoral nordestino, depois da
extração predatória do pau-brasil.
Nenhum
projeto de sociedade, de nação, de país. O fundamental era assegurar a posse de
uma imensidade de terra ainda desconhecida e visitada por piratas e
aventureiros.
Este é
o Brasil Colônia que, com as alterações impostas pelo processo histórico (com
destaque para a chegada da Corte, posta a correr de Lisboa pelas tropas de
Junot), se instala no Império, com duas alterações: uma estrutural, a
substituição do açúcar pelo café; outra política, quando o mando lusitano cede
espaço à preeminência britânica, que, ademais de controlar nossas finanças
mediante empréstimos extorsivos (fartou-se a Casa Rothschild), renova o veto de
Lisboa a qualquer sorte de manufatura na Colônia.
Na
sucessão do açúcar, ingressaremos na era do café, promotora de duas alterações:
a primeira, o deslocamento do centro dinâmico da economia do Nordeste para o
Sudeste, principalmente durante o século XIX, quando o cultivo se expandiu para
o Rio de Janeiro, o Vale do Paraíba e, posteriormente, para o Oeste de São
Paulo, tornando-se a principal atividade econômica do país.
A
segunda alteração será a possibilidade de acumulação de capital. Pois será essa
commodity que, lá adiante, na República, financiará o sempre adiado sonho da
industrialização.
O
desenvolvimento da grande lavoura é facilitado pela disponibilidade de terras
férteis e inexploradas no Centro-Sul. A necessidade de utilização intensiva de
mão de obra será atendida pela exploração escravista. Este é um lado, mas não o
único, porque o outro é o aprofundamento da concentração fundiária, destruindo
tanto a pequena propriedade quanto mesmo a lavoura de subsistência. É o mando
da terra.
Com
poucas alterações, este é o país que chega à República, ainda essencialmente
rural e agroexportador, e ainda marcado pela hegemonia do café, que assim se
conserva até pelo menos os anos 1930, quando, com Getúlio Vargas, se dá início
(ou se retoma), como projeto de Estado, ao tardio processo de industrialização.
Na
balança permanece o café, mas a ele se juntarão soja, milho, carne, açúcar e um
sem-número de minérios, desde o ferro (que retorna como lingotes) até minerais
críticos ou estratégicos, como as chamadas terras raras, lítio, grafite,
nióbio, além de cobalto, níquel, cobre, manganês etc., essenciais para diversas
aplicações tecnológicas, civis e militares, e para a transição energética,
dramaticamente urgente.
Mas são
minerais que exportamos na forma bruta (muitas vezes escavados de nossas
jazidas e minas exploradas por multinacionais), sem valor agregado, enquanto o
refino e a transformação são majoritariamente levados a cabo por outros países
— como a China —, que, na sequência, se transformam em nossos fornecedores do
produto acabado.
É
exemplar o caso do petróleo: somos, hoje, exportadores de petróleo bruto e
importadores de seus derivados, como gasolina e fertilizantes, a fórmula mais
eficiente de mandar para as calendas gregas os projetos estratégicos de
segurança energética e alimentar, ao tempo em que, desperdiçando milhões de
dólares, estamos há 20 anos aguardando a montagem de Angra III, enquanto a
China possui 60 usinas em funcionamento, 35 em construção e programa chegar ao
ano de 2030 com mais de cem.
Continuamos
governados pelo passado.
A
indústria de transformação atingiu seu pico em 1985, quando representava cerca
de 36% do PIB brasileiro. A partir daí, iniciou-se um declínio contínuo para,
no biênio 2024-2025, chegar a apenas 10% do PIB, quando o agronegócio atingia o
patamar de 25,13%.
O ponto
de partida da crise é consensualmente datado no início dos anos 1980, que
registra a recessão de 1981-83 e a crise da dívida externa (1982). A
desindustrialização ainda toma pulso com a abertura comercial (1990-94) e o
Plano Real (valorização do câmbio). Desfazem-se, sob o neoliberalismo paulista,
os sonhos industrialistas dos anos 1980. Era também, e então de forma mais
profunda, o “fim da era Vargas” prometido por Fernando Henrique Cardoso.
A
participação da indústria na composição do PIB cai de cerca de 36%, em 1985,
para aproximadamente 27% em 1990 e, no curso declinante, esbarra em 10% em
2025. São os dados de hoje. Na outra ponta da liça, a participação do
agronegócio chega a 25,13% do PIB, exibindo um crescimento de 12,2%.
Os anos
2003-2011 são ainda marcados pela expansão do agrobusiness, puxada
principalmente pelas exportações de soja, carnes e minérios. O outro lado, sem
necessariamente apontar uma relação de causa e efeito, retrata a constância da
tendência da redução relativa da indústria, o que vai agravar-se com a recessão
de 2015-2016, enquanto, de 2017 até aqui (dados de 2025), as estatísticas
registram a expansão da produção agrícola e, consequentemente, o crescimento da
participação do agronegócio na formação do PIB.
Como se
vê, a expansão do agronegócio opera paralelamente ao processo de
desindustrialização, um e outro determinando transformações econômicas, sociais
e políticas, como o êxodo rural que se encontra com a crise do trabalho, na
crista das transformações impostas pelas inovações tecnológicas no processo
produtivo e na vida social como um todo.
Consabidamente,
o país de hoje nada lembra os inícios do século passado, e se apresenta como
uma economia cuja característica predominante é a centralidade do setor
exportador de commodities, modificando a estrutura produtiva, com notórias
repercussões políticas e sociais que podem, no médio prazo, alterar as bases do
poder.
Durante
boa parte do século XX, acreditou-se que o Brasil caminhava para se tornar uma
potência industrial, posto que reunia todos os requisitos: população,
território, grandes reservas naturais, minérios estratégicos, petróleo e água à
farta.
A
partir do recesso da República Velha, o país se empenhou na gradual
substituição do cediço modelo agroexportador por um projeto de industrialização
que transformaria sua economia, sua sociedade e suas cidades. E alteraria a
composição do poder com a alternância de mando. Este, por óbvio, permaneceria
sob as rédeas da classe dominante, mas esta estaria agora sob o comando
modernizante dos novos industriais.
Entre
os anos 1950 — com o governo constitucional de Vargas, mas igualmente com os
frutos do seu Estado Novo, como a Companhia Siderúrgica Nacional — e 1980, sob
a nova ditadura, a indústria de transformação tornou-se o principal símbolo do
desenvolvimento nacional.
Depois
do Estado Novo e do governo democrático de Vargas, tivéramos, com os cinco anos
de JK, a retomada da industrialização e, a seu serviço, maciços investimentos
em infraestrutura. Assim, nada obstante os percalços que a memória coletiva
gravou, chegamos aos meados dos anos 1980 com a indústria respondendo por
aproximadamente 36% do PIB, participação jamais repetida.
Como
referido acima, quarenta anos passados, a indústria de transformação representa
cerca de apenas 10% do PIB, enquanto o agronegócio responde por aproximadamente
um quarto da riqueza nacional, quando considerada toda a sua cadeia produtiva.
A
mudança é suficientemente profunda para suscitar uma pergunta que ultrapassa o
interesse acadêmico: estaria o Brasil retornando, em pleno século XXI, à
condição de economia agroexportadora?
A
resposta não é simples. O país contemporâneo, por óbvio, é muito diferente
daquele da República Velha. O agronegócio atual reúne agricultura altamente
mecanizada, beneficia-se da pesquisa científica e da biotecnologia favorecidas
pelo Estado através da Embrapa, dispõe de logística sofisticada, agroindústria
e grandes empresas exportadoras. E usufruiu de um sem-número de benefícios e
incentivos fiscais e creditícios.
Trata-se,
afinal, e como fruto de tudo isso, de um dos segmentos tecnologicamente mais
avançados da economia brasileira, assinalando a ascensão de um novo complexo
exportador, baseado em commodities agrícolas.
Essa
trajetória não parece ser mera coincidência. Embora um setor não cresça
necessariamente às custas do outro, ambos evoluíram em direções opostas durante
quase quatro décadas. Não se trata, este fenômeno, de uma regra: vários países,
como Estados Unidos, Alemanha e Holanda (a China também?), demonstram a
compatibilidade entre expansão agrícola e elevada capacidade industrial.
O que é
o “caso” brasileiro?
Seria
incorreto atribuir a crise industrial ao êxito do agronegócio. Um bom caminho
recomenda considerar o baixo investimento brasileiro na produção, não de hoje,
mas faz décadas; a infraestrutura (seja qual for o ângulo pelo qual A
analisemos) apresenta deficiências; o sistema tributário é complexo; o custo do
capital figura entre os mais elevados do mundo; o padrão educacional é baixo e
baixos os esforços visando à formação de mão de obra especializada; as
políticas industriais sofrem descontinuidade; e nossa produtividade cresceu
pouco, ou muito pouco, em comparação com economias asiáticas, sejam as
revoluções econômico-tecnológicas da China e da Coreia do Sul, seja o fenômeno
vietnamita após a devastadora invasão dos EUA.
É certo
que a indústria automobilística se instala no Brasil a partir de 1956, com o
governo Juscelino Kubitschek. Mas até hoje não temos uma só marca nacional, não
produzimos um só motor a explosão, esta obsolescência que em breve será
reconhecida como peça de museu.
Dir-se-á,
porém, que a indústria nacional não conta com inumeráveis benefícios que vêm
alimentando a expansão do agronegócio. Podemos dizer ainda, e é verdade, que
padece na concorrência internacional, à mercê de práticas protecionistas as
mais variáveis, e padece mesmo de verdadeiros embargos, como o que representa a
atual política dos EUA.
A
questão também pode ser vista a partir de outra ótica, a saber: por que o
Brasil não conseguiu — ou não quis — combinar uma agricultura competitiva com
uma indústria igualmente dinâmica? Nossa indústria, ao contrário, perdeu
densidade tecnológica e competitividade internacional e sofre concorrência no
mercado interno.
Não é
exato que o Brasil voltou a ser uma economia agroexportadora, isto é mais do
que óbvio, mas é precisa a afirmação de que o país ingressou em nova etapa de
sua história econômica, na qual o dinamismo das commodities convive com uma
indústria relativamente enfraquecida. A antiga promessa de uma economia
liderada pela manufatura cedeu lugar a um modelo em que a produção primária
voltou a ocupar posição estratégica.
Resta
saber — e eis o nó górdio da questão — se essa configuração representa um
estágio e, por isso, fenômeno necessariamente transitório, ou uma mudança
estrutural de longa duração. A resposta definirá não apenas o futuro da
indústria brasileira, mas, de igual modo, o próprio padrão de desenvolvimento
do país neste século. Definirá mais: que país queremos ser.
Sem
indústria, não conheceremos desenvolvimento econômico nem distribuição de
renda, muito menos autonomia, seja econômica, seja política, porque, sem alto
desenvolvimento industrial sustentável, assentado em tecnologias avançadas
(fruto do avanço da ciência e da tecnologia, e exigentes de educação), seremos
incapazes de tomar a peito qualquer projeto de soberania.
Este
pode ser um tema para o debate eleitoral de outubro próximo — quando, elegendo
o presidente da República, estaremos dizendo que país queremos.
Fonte:
Por Roberto Amaral, em Viomundo

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