O
desmantelamento das políticas públicas
O
Brasil continua sendo uma das sociedades mais desiguais do mundo. Esse é um
processo histórico de construção de desigualdades sociais, raciais e regionais
que foi se agravando com o tempo, mesmo que algumas políticas públicas
implementadas a partir da Constituição de 1988 buscassem reduzir essas
disparidades.
Além
disso, por mais que o último Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado
pelo PNUD-ONU tenha situado o país no patamar de “países desenvolvidos”, são
amplamente visíveis as desigualdades que persistem, especialmente em termos
regionais, de raça e de gênero.
Portanto,
a natureza estrutural da desigualdade brasileira persistiu e se agravou ainda
mais durante o período 2016-2022 devido a uma soma cumulativa do desempenho
negativo dos diversos indicadores que compõem o índice acima citado. A
consequência imediata foi o regresso do país ao Mapa da Fome da ONU, em função
do crescimento expressivo de pessoas em situação de fome e de insegurança
alimentar.
O
processo constituinte de 1986-1988 apresentou alguns caminhos que poderiam ter
rompido com essa trajetória histórica até então percorrida pela sociedade
brasileira, uma vez que está estampada em diversos artigos da Constituição
Federal, pela primeira vez na história, a formação de um sistema de proteção
social amplo e proativo como pilar central para edificar uma sociedade livre,
democrática, mais justa e solidária que fosse capaz de erradicar a fome, a
pobreza e todos os demais tipos de desigualdades existentes no país (Art.3º.).
Além
disso, no artigo 6º. ficou consagrado que o acesso de todos à educação, saúde,
trabalho, habitação e alimentação são direitos fundamentais de todos os seres
humanos.
A
partir da introdução do capítulo dos Direitos Sociais, foi criado o Sistema de
Proteção Social (art. 194º) com foco nas áreas de saúde, previdência e
assistência social. Tal sistema é universal porque consagra os direitos de
todos os cidadãos o acesso aos serviços nessas respectivas áreas, destacando-se
como características essenciais a universalidade da cobertura, a equivalência
dos benefícios a todas as populações, a diversidade de instrumentos de
financiamento e a adoção de mecanismos de gestão democráticas das políticas
públicas em cada esfera.
Todavia,
o que se viu ao longo dos decênios posteriores à aprovação da nova Constituição
da República, mais particularmente nas últimas legislaturas do Congresso
Nacional (CN), foram movimentos exatamente no sentido contrário, sendo que a
bandeira de questionamentos e de mudanças no capítulo dos direitos sociais se
constitui na principal agenda das forças políticas conservadoras
presentes no Congresso Nacional nos últimos mandatos parlamentares, inclusive
com a imposição de retrocessos civilizatórios por parte de agrupamentos
políticos que foram se constituindo à margem dos reais problemas do conjunto da
sociedade brasileira.
Como
sabemos, as últimas décadas do século XX foram marcadas pela emergência no
cenário político da ideologia do neoliberalismo, tanto econômico quanto
político e social. No bojo desse movimento em escala global ganharam força as
políticas públicas de restrições de gastos, particularmente na esfera das
políticas sociais. E tudo isso sob o manto do discurso da “austeridade fiscal”,
o qual servia de guia para os governos centrais.
É a
partir de então que tem início o processo de desmantelamento de um conjunto de
políticas públicas que foram sendo desenhadas desde 1988 para compor o
denominado Sistema de Proteção Social (SP) do país. O programa de governo de
Temer denominado de “uma ponte para o futuro” partiu do diagnóstico de que o
governo gastava demais, especialmente na esfera social, sendo o corte desses
gastos um remédio necessário para a recuperação econômica do país. Com isso,
ascende à agenda geral do país a temática da austeridade fiscal, cujo enlace
final se dá por meio da Emenda Constitucional (EC) número 95, de novembro de
2016.
Tal
projeto de desmantelamento das políticas públicas foi aprofundado durante os
quatro anos seguintes (2019-2022) pelo governo de Jair Bolsonaro. Sob o lema de
governo “Mais Brasil, Menos Brasília”, procedeu-se a um desmantelamento
deliberado de políticas públicas como também de instituições de Estado,
sobretudo na esfera social. Tal governo foi guiado pela aversão aos ideais da
Constituição Federal, especialmente das leis e normas garantidoras dos direitos
de cidadania da população.
Agregue-se
a esse período, além do processo de desmantelamento das políticas públicas, a
adoção de uma agenda política conservadora no país inspirada no lema “Deus,
pátria, família e liberdade”, cuja finalidade buscou articular pautas
conservadoras, nacionalistas e religiosas. No fundo, trata-se de um movimento
político muito semelhante à ação integralista da década de 1930, movimento de
extrema direita inspirado no fascismo italiano.
Portanto,
faz parte desses regimes neoliberais autoritários procurar desestabilizar as
políticas públicas na esfera social, ao mesmo tempo em que buscam negar os
direitos dos cidadãos. Em grande medida, esse comportamento político está
atrelado aos compromissos com os programas de ajuste fiscal, os quais permitem
que gastos com programas e políticas públicas que fazem parte do sistema de
proteção social sejam interrompidos a qualquer momento.
Na
lógica da “austeridade fiscal’ são contestados os gastos com políticas públicas
que compõem o sistema de proteção social porque, segundo os defensores do credo
neoliberal, eles são excessivos. Portanto, segundo essa ótica, é necessário
reduzir as políticas sociais para equilibrar as finanças públicas. Na essência,
tais teses encontram pouca sustentação técnica e configuram uma opção
política-ideológica assentada em meros discursos sem embasamento empírico.
Esse
posicionamento significa, na essência, uma opção pela construção de uma
sociedade cada vez mais desigual e segregada que condena uma parcela
significativa da população a não ter acesso a direitos sociais básicos,
especialmente as parcelas mais vulneráveis da sociedade. Portanto, nota-se que
a agenda da austeridade fiscal está cumprindo um papel no sentido de reverter
todos os avanços conquistados a partir da Constituição Federal de 1988.
Com o
retorno ao poder do Governo Lula III (2023-2026) verifica-se que os ataques
econômicos e políticos ao Sistema de Proteção Social (SPS) do país se
avolumaram, especialmente em função da retomada de algumas políticas sociais
que tinham sido desmanteladas nos dois governos anteriores (Michel Temer e Jair
Bolsonaro).
Destaca-se
que, além do mantra tradicional das forças políticas conservadoras contra esse
sistema (excesso de gasto público com políticas sociais), emergiram novos
argumentos contra o mesmo para além das tradicionais falácias dos economistas
neoliberais. Neste caso, merecem destaque tanto os novos posicionamentos de
diversos setores empresariais quanto as expressões preconceituosas em relação
aos segmentos sociais beneficiários das diversas políticas sociais que compõem
o sistema de proteção social do país.
Visando
dialogar criticamente com esses segmentos sociais contrários à existência de um
Sistema de proteção social ativo e protagonista no país, elencamos na sequência
um conjunto de argumentos que comumente estão sendo utilizados para tentar
desmantelar tal sistema ou então descredenciá-lo junto à sociedade. Vale
registrar que tais posicionamentos estão sendo cada vez mais frequentes,
especialmente em função do cenário político atual marcado por novas eleições
presidenciais.
Normalmente
esses comportamentos são sustentados por economistas ortodoxos e neoliberais
que procuram fomentar junto à sociedade a ideia de que os problemas dos
déficits das contas públicas do país decorrem das políticas públicas de apoio
às camadas empobrecidas da sociedade que convivem na miséria e sobrevivem dos
auxílios financeiros oriundos dos programas públicos de transferência de renda
e demais políticas sociais. Para esses “experts”, bastava apenas o governo
cortar esses gastos sociais “excessivos” que as finanças públicas se ajustariam
e, com isso, os déficits das contas públicas sumiriam.
Todavia,
jamais é exposto de forma transparente o verdadeiro “câncer econômico” que
tomou conta do país há mais de duas décadas. Vamos elucidar brevemente o
problema com base nos dados do exercício fiscal de 2025. Vejamos os gastos das
principais políticas sociais sequencialmente responsabilizadas pelos problemas
das contas governamentais: Bolsa Família: R$ 158 bilhões; Benefício da
Prestação Continuada: R$ 127 bilhões; Serviço Unificado de Assistência Social:
R$ 285 bilhões; Serviço Unificado de Saúde: R$ 233 bilhões; Seguro Desemprego:
R$ 52 bilhões.
Tudo
isso somado atinge a cifra aproximada de R$ 855 bilhões, valor muito abaixo dos
R$ 1,1 trilhões que o governo federal pagou de juros da dívida pública, cujos
títulos estão em poder de uma parcela ínfima de especuladores financeiros.
Além
disso, há diversos outros exemplos desse comportamento sanguessuga das elites
econômicas do país em relação aos recursos públicos. Relembremos o programa de
desoneração da folha de pagamento de diversos setores econômicos implementado
em 2012 durante o Governo Dilma I (2011-2014) com objetivo de reverter a perda
de competitividade de setores econômicos que empregavam número elevado de
trabalhadores, além de buscar aumentar o nível de formalidade do mercado de
trabalho, uma vez que segundo lideranças empresariais de vários setores o custo
do trabalho no Brasil era muito elevado.
Portanto,
segundo os mesmos bastava o governo reduzir os tributos que os empregos
surgiriam automaticamente. Na prática, o que se viu foi uma explosão do
desemprego entre os anos de 2015 e 2016, conforme está fartamente documentado
na literatura sobre mercado de trabalho no Brasil. Além disso, observou-se que
na lista dos setores que mais geraram empregos no período entre 2012 e 2022 não
figura um setor sequer com folha desonerada, conforme dados da PNAD Contínua.
Além
disso, notou-se que o percentual de empregados com carteira de trabalho caiu no
período, o que pode ter contribuído para o avanço da informalidade e para a
redução da arrecadação da previdência social. Esse programa, ainda em curso,
custa a bagatela de aproximadamente R$ 400 bilhões ao ano para o governo
federal.
Outro
caso ocorreu recentemente com a política industrial do Governo Lula III,
ocasião em que foi lançado o programa “Nova Indústria Brasileira”. Neste caso,
observa-se que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
disponibilizou bilhões de reais com juros subsidiados para estimular a
reindustrialização do país.
Mas o
que se viu efetivamente foi que grande parte desses recursos acabou sendo
utilizada para sanar dívidas e, pasmem, para fazer aplicações no mercado
financeiro. O resultado é que depois de três anos de lançamento do programa a
taxa bruta de capital fixo do setor permanece praticamente no mesmo patamar
anterior ao início do programa.
Por
fim, informações disponíveis relativas ao primeiro quadrimestre de 2026 revelam
que os juros da dívida já consumiram em apenas quatro meses a importância de R$
352 bilhões, gasto que cresce continuamente. Mas isso não é tratado como
irresponsabilidade, tanto pelos meios de comunicação e pelas lideranças
empresariais quanto pelos políticos conservadores contrários à expansão dos
gastos sociais. Ou seja, enquanto os gastos sociais sofrem severas restrições,
o topo da pirâmide social continua sendo beneficiado, afinal para ele não
existe “teto de gasto”.
O
conjunto dessas informações coloca por terra as teses centrais dos economistas
ortodoxos e neoliberais e de seus aliados nos meios de comunicação e
organizações empresariais que teimam em afirmar que os gastos públicos elevados
com programas e políticas sociais são os responsáveis pela “crise dívida
pública”. Portanto, creditar ao capítulo dos direitos sociais da Constituição
Federal a responsabilidade pela elevação do descontrolada do gasto público, é
olhar apenas um lado da balança.
A
solução trivial, segundo esses diversos críticos do sistema de proteção social
anteriormente mencionados seria: cortar os ganhos reais do salário mínimo por
um período de cinco anos; desvincular os pagamentos dos benefícios
governamentais do salário mínimo; não dar aumento real de salários aos
aposentados; reduzir sequencialmente os gastos com programas governamentais e
aumentar o tempo de contribuição dos trabalhadores à previdência social.
Há de
se registrar que essa tríade associada (economistas neoliberais, confederações
empresariais e meio de comunicação) se esquece de dois aspectos básicos: por um
lado, as demandas sociais nas áreas de saúde, educação, assistência social e
previdência social crescem por uma razão óbvia: a população também cresce; e
por outro, é importante registrar que o gasto social no Brasil é maior
comparativamente a outros países também por uma razão óbvia: o sistema de
proteção social no país é universal e gratuito.
Por
fim, também é digno de registro o pacto recente embasado nas propostas acima
mencionadas contra o sistema de proteção social do país que foi firmado entre
as principais confederações empresariais do país e alguns dos principais
candidatos à presidente mais alinhados ao discurso político conservador.
Por
isso, é fundamental que as forças progressistas do país – assim como fizeram na
Constituinte de 1988 – recoloquem no centro do debate eleitoral atual a defesa
intransigente do capítulo constitucional dos direitos sociais e de suas
respectivas políticas que foram duramente construídas nos decênios posteriores.
Fonte:
Por Lauro Mattei, em A Terra é Redonda

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