O
‘Estado’ da família precisa olhar para dentro de casa
Santa
Catarina gosta de falar sobre família. Fala da família nas campanhas
eleitorais, nos discursos parlamentares, nas igrejas, nas escolas, nas redes
sociais. A família tornou-se um dos pilares da identidade catarinense. Em seu
nome, travam-se disputas sobre costumes, educação, religião e direitos.
Defendê-la passou a ser uma espécie de credencial moral, um ponto de encontro
entre parcelas importantes da sociedade e das lideranças políticas do estado.
Mas há
uma pergunta que raramente aparece nesse debate: como está a família
catarinense quando a porta de casa se fecha?
Essa
pergunta é incômoda porque exige abandonar slogans superficiais e recorrer aos
dados. E os dados contam uma história muito diferente daquela que muitos
afirmam sobre Santa Catarina. Se o critério de segurança pública for limitado à
métrica visível das ruas, os baixos índices de homicídios dolosos e a ausência
de grandes confrontos entre facções, Santa Catarina sustenta com facilidade o
título de estado mais seguro do Brasil. Contudo, essa percepção de ordem é
forjada sob um conceito afunilado e um ponto cego institucional deliberado: a
segurança que termina onde a chave da residência é virada por dentro.
O
estado costuma aparecer nos rankings nacionais como um dos estados mais seguros
do Brasil. A afirmação não é falsa. De fato, possui uma das menores taxas de
homicídio do país. O problema é que, ao reduzir segurança pública ao número de
pessoas assassinadas, deixamos de enxergar uma parte fundamental da violência:
aquela que não acontece nas esquinas, mas nas cozinhas; não nas facções
criminosas, mas nas relações familiares; não diante das câmeras de segurança,
mas entre quatro paredes.
O
Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela um paradoxo que merece muito
mais atenção do que recebe. Santa Catarina ocupa o primeiro lugar nacional em
registros de ameaça contra mulheres. São 1.733 ocorrências para cada 100 mil
mulheres, mais que o dobro da média brasileira. Também está entre os estados
com maiores índices de violência psicológica, perseguição, descumprimento de
medidas protetivas e lesão corporal praticada em contexto de violência
doméstica.
É
difícil conciliar esses números com a imagem de um estado que faz da defesa da
família uma de suas principais bandeiras.
O
retrato torna-se ainda mais perturbador quando voltamos o olhar para a
infância. Santa Catarina aparece entre os estados brasileiros com maiores taxas
de lesão corporal contra crianças e adolescentes dentro do ambiente doméstico.
Está entre os cinco primeiros em maus-tratos, abandono de incapaz e violência
sexual contra crianças e adolescentes. Não se trata de episódios isolados,
tampouco de estatísticas residuais. Trata-se de um padrão suficientemente
consistente para exigir reflexão.
A
primeira pergunta que esses dados impõem não é ideológica. É ética.
O que
significa defender a família quando milhares de mulheres continuam sendo
ameaçadas dentro dela? O que significa colocar a família no centro do debate
público quando tantas crianças continuam sofrendo violência justamente no
espaço que deveria lhes oferecer proteção?
Talvez
um dos maiores equívocos do debate catarinense seja imaginar que direitos
humanos e família ocupam lados opostos de uma disputa política. Não ocupam.
Direitos humanos começam exatamente onde a família deixa de proteger. Começam
quando uma criança precisa ser retirada de um ambiente de violência. Quando uma
mulher necessita de uma medida protetiva para permanecer viva. Quando um idoso
sofre violência patrimonial. Quando o Estado compreende que nenhuma agressão
pode ser relativizada como “problema doméstico”.
Há
outro dado que merece atenção. Santa Catarina lidera o Brasil em registros de
racismo e ocupa a segunda posição em injúria racial. Ao mesmo tempo, não
consegue produzir estatísticas consistentes sobre crimes motivados por
homofobia e transfobia porque seus sistemas de registro ainda não identificam
adequadamente essas motivações. A violência existe. o Estado nem sempre
consegue enxergá-la.
Essa
dificuldade de enxergar talvez diga tanto sobre o estado catarinense quanto os
próprios indicadores. Nossa história foi construída em torno de uma narrativa
de excepcionalidade. Aprendemos a nos reconhecer como um estado europeu,
trabalhador, ordeiro, eficiente e diferente do restante do país. Essa
identidade ajudou a impulsionar orgulho, investimentos e desenvolvimento
econômico. Mas também produziu uma consequência indesejada: a dificuldade de
admitir que convivemos com problemas estruturais semelhantes aos do restante do
Brasil e, em alguns casos, muito mais graves.
Quando
uma sociedade acredita demasiadamente na própria excepcionalidade, toda crítica
parece uma ofensa. Todo dado desconfortável parece um ataque. Toda pauta de
direitos humanos passa a ser recebida como uma ameaça à identidade local,
quando deveria ser compreendida como uma oportunidade de aperfeiçoar políticas
públicas.
É
justamente por isso que Santa Catarina precisa amadurecer esse debate. Não para
abandonar os valores que considera importantes, mas para perguntar se eles
estão sendo efetivamente vividos. Uma sociedade que valoriza a família deveria
estar indignada com os índices de violência doméstica. Uma sociedade que se
orgulha de si deveria liderar o combate ao racismo. Uma sociedade que se
considera desenvolvida deveria investir na proteção das crianças com o mesmo
empenho com que investe em infraestrutura, inovação e competitividade.
Nenhum
estado se torna menos desenvolvido por reconhecer suas fragilidades. Pelo
contrário. O verdadeiro desenvolvimento começa quando deixamos de administrar
reputações e passamos a enfrentar realidades. Talvez a grande pergunta para
Santa Catarina não seja se somos o estado mais seguro do Brasil. Talvez seja
outra, muito mais difícil: teremos coragem de olhar para dentro de casa?
Fonte:
Por Marlon Amorim, no Le Monde

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