A
direita brasileira não tem um líder
Se a
velha piada do desembarque do marciano se repetisse hoje, esse poderia ser o
roteiro. O marciano desceria no Brasil e tentaria localizar alguém de direita
na Avenida Paulista num domingo à tarde.
Pediria
que o brasileiro de direita o levasse ao seu líder nacional, à figura que o
representa como expressão do reacionarismo e do conservadorismo, incluindo o
fascismo exacerbado.
E o
cidadão diria ao marciano que seu líder mora na Argentina. O líder da direita
brasileira hoje é Javier Milei. Porque, desde o momento em que Bolsonaro foi
condenado e virou caseiro, ninguém mais se habilitou a cumprir seu papel.
Tentam, mas não conseguem.
Na
velha direita, que alguns chamam de direita profissional, os líderes são
Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Antonio Rueda. Um manda
no PL, o outro no PP, o terceiro no PSD e o último no União Brasil.
Dos
quatro, só um, Ciro Nogueira, tem votos. Outros líderes dos povos da direita já
tiveram, mas preferiram ser CEOs dos seus partidos a lutar pela legitimação do
que fazem por deliberação do eleitor.
Kassab
tenta retornar à ativa e é agora figurante de Caiado como seu vice na chapa do
PSD à Presidência. Terá votos indiretos. Mas os outros sem votos são apenas os
grandes operadores da direita. A democracia para eles é a dedicação permanente
a arranjos, barganhas e negociatas.
Nenhum
deles é um líder capaz de conversar com um marciano, nem Tarcísio de Freitas,
refugado pelo próprio Bolsonaro. O cidadão de direita não teria nem como levar
o visitante a Flávio Bolsonaro, que não lidera a família do pai.
O
marciano ficaria sabendo que por isso, por falta de líderes locais, Milei é o
líder da direita brasileira e latino-americana. Mas o homem da Paulista
tentaria esconder uma reportagem da Folha, com a comparação de indicadores
básicos da economia entre Brasil e Argentina.
A Folha
enfileira números de PIB, inflação, endividamento público, investimentos
estrangeiros, emprego. O homem esconderia a reportagem porque o marciano iria
perceber, mesmo olhando por cima, que o Brasil tem os melhores indicadores na
comparação geral.
E faria
uma observação: onde está um indicador decisivo para que se compreenda a
situação argentina? Onde estão as reservas internacionais? O cidadão de direita
não saberia responder, mesmo que entenda tudo de outras áreas, até de arcabouço
fiscal.
A
reportagem de Douglas Gravas, jornalista morador de Buenos Aires, omite que o
dólar é a moeda argentina. Que a Argentina quase não tem reservas sob controle
do Estado, que Trump ofereceu US$ 20 bilhões a Milei na eleição parlamentar do
ano passado e que essa ajuda acalmou o povo. O argentino só se sente seguro com
dólares.
As
reservas deveriam ser, depois do PIB, o primeiro indicador a ser comparado pela
Folha. O Brasil tem US$ 360 bilhões em reservas em moeda forte. A Argentina tem
ao redor de US$ 30 bilhões – porque a maior parte da moeda estrangeira,
calculada em até US$ 300 bilhões, está escondida em algum lugar pelos
argentinos, pelas empresas e pelas máfias, dentro e fora do país.
O
marciano ficaria sabendo, se fosse atrás de mais informações, que hoje 61% dos
argentinos consideram Milei um fracasso. Que o sistema de Justiça cercou o
presidente e sua irmã Karina por envolvimento com quadrilhas de criptomoedas. E
que o FMI manda na Argentina.
Esse
foi o líder que a extrema-direita trouxe à convenção do PL para apresentá-lo
como modelo a ser seguido. Porque Flávio é frágil. Porque os outros líderes da
velha direita são, na verdade, empreendedores da política das oportunidades.
O
cidadão encontrado aleatoriamente na Paulista diria ao marciano: não temos
líderes da direita. Caiado e Zema são tão líderes quanto Renan Santos e Cabo
Daciolo. Não temos mais um craque, nem técnico da Seleção temos hoje. E
confessaria: eles têm o Lula.
O
marciano responderia que isso ele já sabe e perguntaria: um líder de centro,
pelo menos isso vocês têm? O cidadão constrangido diria que sim, mas esse líder
é o vice de Lula.
• E se Flávio Bolsonaro perder a eleição
de 2026?(2). Por Gustavo Tapioca
Vinte e
dois dias atrás, publicamos um artigo que terminava com uma pergunta simples: e
se Flávio Bolsonaro perder a eleição presidencial de 2026?
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Naquele
momento, tratava-se de uma hipótese. Desde então, uma sucessão de
acontecimentos políticos e diplomáticos transformou essa indagação em um tema
central da campanha eleitoral.
O
primeiro deles ocorreu em 22 de julho, quando Flávio Bolsonaro reuniu-se, em
Brasília, com diplomatas estrangeiros para apresentar críticas ao sistema
eleitoral brasileiro. Durante o encontro, voltou a levantar dúvidas sobre a
segurança das urnas eletrônicas, mencionou a empresa Smartmatic e defendeu a
presença de observadores internacionais nas eleições de outubro.
Depois
da repercussão negativa, afirmou que apenas respondera a perguntas dos
diplomatas e negou ter colocado em dúvida a lisura do processo eleitoral.
O
episódio, entretanto, desencadeou uma reação incomum.
Editorialistas
de O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, além de
diversos analistas políticos, identificaram na iniciativa a reedição da
estratégia utilizada por Jair Bolsonaro antes das eleições de 2022 e por Donald
Trump nos Estados Unidos: lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral antes da
votação e, diante das críticas, negar que isso tenha sido feito.
A
sequência de fatos ganhou nova dimensão dois dias depois.
Reportagem
do Washington Post revelou que integrantes do Departamento de Estado
norte-americano planejavam viajar ao Brasil para discutir temas ligados ao
processo eleitoral. O governo brasileiro interpretou a iniciativa como uma
tentativa de interferência em assunto interno e decidiu negar os vistos
diplomáticos solicitados.
Washington
sustentou que a missão teria caráter institucional e trataria de temas como
liberdade de expressão, liberdade religiosa e integridade eleitoral. Brasília
respondeu que a organização das eleições é matéria exclusiva da soberania
nacional.
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A ultradireita trumpista
Pela
primeira vez desde a redemocratização, o sistema eleitoral brasileiro
transformava-se em objeto de um impasse diplomático entre os governos do Brasil
e dos Estados Unidos.
Ao
mesmo tempo, outro movimento chamava atenção.
A
candidatura de Flávio Bolsonaro aprofundava sua aproximação com a rede
internacional da ultradireita liderada por Donald Trump. Javier Milei
participou da convenção nacional do Partido Liberal. Eduardo Bolsonaro
intensificou sua atuação política nos Estados Unidos. Marco Rubio voltou a
ocupar papel relevante nas discussões envolvendo as relações entre Washington e
Brasília.
Isoladamente,
cada um desses episódios poderia ser tratado como mais um fato da campanha.
Observados em conjunto, porém, eles sugerem uma mudança de escala.
A
eleição presidencial brasileira deixou de ser apenas uma disputa doméstica
entre governo e oposição. Passou também a integrar um cenário internacional no
qual soberania, plataformas digitais, política externa e democracia aparecem
cada vez mais interligadas.
É
justamente essa mudança de contexto que recoloca a pergunta feita há pouco mais
de três semanas. Não porque já exista uma resposta para ela.
Mas
porque os acontecimentos posteriores tornaram a pergunta muito mais relevante
do que parecia quando foi formulada.
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A campanha também mudou
Essa
transformação não decorre apenas da presença de novos personagens na disputa.
Ela reflete uma mudança mais profunda na forma como campanhas eleitorais
passaram a ser organizadas e disputadas em todo o mundo.
As
eleições deixaram de acontecer apenas nos palanques, no horário eleitoral
gratuito ou nos grandes debates da televisão. Hoje elas se desenvolvem,
sobretudo, nas plataformas digitais, onde algoritmos, influenciadores, redes
internacionais de comunicação e sistemas de inteligência artificial disputam
diariamente a atenção e as preferências dos eleitores.
Foi
nesse contexto que as discussões sobre soberania digital deixaram de ser um
tema exclusivamente tecnológico. Tornaram-se parte do debate sobre a própria
soberania política dos Estados nacionais.
Ao
mesmo tempo, a candidatura de Flávio Bolsonaro passou a ser apresentada não
apenas como representante da extrema-direita brasileira, mas como integrante de
uma articulação política internacional identificada com a ultradireita liderada
por Donald Trump.
<><>
Interesse geopolítico
A
presença de Javier Milei na convenção nacional do Partido Liberal, a atuação de
Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e o protagonismo assumido por Marco Rubio
nas tensões entre Washington e Brasília reforçaram essa percepção.
Nesse
ambiente, também ganhou espaço uma interpretação apresentada por analistas como
Luís Nassif. Segundo essa leitura, pressões diplomáticas, disputas econômicas,
campanhas de comunicação, plataformas digitais e articulações políticas
internacionais podem fazer parte de uma mesma estratégia de influência sobre
processos políticos nacionais.
Pode-se
concordar ou discordar dessa interpretação. O fato é que ela deslocou o foco do
debate.
A
discussão deixou de tratar apenas da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro para
incluir uma questão mais ampla: de que maneira as transformações tecnológicas e
a crescente internacionalização da política influenciam as democracias
contemporâneas.
Foi
justamente essa convergência de acontecimentos que levou grandes veículos
internacionais — entre eles Reuters, Associated Press e o próprio Washington
Post — a acompanhar mais de perto a evolução da campanha brasileira.
Nenhum
desses fatos, isoladamente, altera o resultado das eleições.
Mas
todos ajudam a compreender por que a eleição presidencial de 2026 passou a ser
observada também como um tema de interesse geopolítico. Essa talvez seja a
principal novidade em relação ao cenário existente poucas semanas atrás. A
pergunta continua sendo a mesma.
O
contexto em que ela precisa ser respondida, porém, mudou profundamente.
<><>
E se o bolsonarismo perder de novo?
O
contraste com 2022 ajuda a compreender a dimensão da mudança.
Há
quatro anos, Jair Bolsonaro questionou o sistema eleitoral, buscou apoio
internacional para suas críticas às urnas e, depois de derrotado nas eleições,
seu governo foi sucedido pelos acontecimentos que culminaram nos ataques de 8
de janeiro de 2023.
Hoje, o
contexto internacional é diferente.
Joe
Biden deixou a Casa Branca. Donald Trump voltou ao poder e reassumiu a
liderança política da rede internacional da ultradireita da qual participam
Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e outros dirigentes identificados com esse
campo político.
Essa
mudança, por si só, não permite antecipar como o governo norte-americano
reagirá ao resultado das eleições brasileiras. Não existem elementos públicos
que autorizem afirmar que haja uma decisão de contestar uma eventual vitória de
Lula ou de apoiar qualquer ruptura institucional.
<><>
Lula reage
A
possibilidade de interferência externa nas eleições brasileiras, entretanto,
deixou de ser apenas uma hipótese discutida por analistas.
Em 8 de
abril, quatro meses antes do início oficial da campanha, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva afirmou que, “pelo que tenho visto de Donald Trump nesses
anos, nada com ele é impossível” e acrescentou que, caso o presidente
norte-americano não reconhecesse o resultado das urnas brasileiras, “vamos
dizer que ele está mentindo”.
Nas
semanas seguintes, seu discurso de Lula evoluiu.
Em
maio, após encontro com Trump, manifestou confiança de que o presidente
norte-americano respeitaria a soberania brasileira.
Em
junho, passou a adverti-lo publicamente para que “não se meta nas eleições no
Brasil”.
No fim
de julho, confirmou que o governo brasileiro negara vistos a representantes do
Departamento de Estado por considerar que pretendiam interferir no processo
eleitoral brasileiro.
E, na
entrevista concedida nesta sex-feira, 30 de julho, foi ainda mais
explícito:
“Eles
vão tentar interferir aqui, ajudando o lado de lá. Mas eu não estou preocupado
com isso. Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo. Nós vamos ganhar na narrativa.
Cada mentira que contarem a respeito do Brasil, nós vamos desmascarar.”
Existe,
portanto, um conjunto de acontecimentos que torna essa hipótese um tema
legítimo de reflexão política e jornalística.
Pela
primeira vez desde a redemocratização, a eleição presidencial brasileira passou
a ocupar um espaço incomum no debate internacional. As dúvidas lançadas sobre o
sistema eleitoral, as tensões diplomáticas entre Brasília e Washington, a
aproximação do bolsonarismo com a ultradireita internacional, a atenção
crescente da imprensa estrangeira e o debate sobre plataformas digitais,
inteligência artificial e soberania tecnológica compõem um cenário inédito.
Nenhum
desses fatos responde, por si só, à pergunta que dá título a este artigo.
Mas
todos ajudam a compreender por que ela continua sendo feita.
Vinte e
dois dias atrás perguntávamos:
<><>
E se Flávio Bolsonaro perder?
E
perder para Lula. Hoje, a pergunta permanece exatamente a mesma. O que mudou
foi o contexto.
Em
2022, a maior potência do mundo reconheceu imediatamente o resultado das urnas
brasileiras.
Em
2026, as relações entre Brasília e Washington tornaram-se mais tensas. A
candidatura de Flávio Bolsonaro aproximou-se ainda mais da rede política
liderada por Donald Trump. E a eleição brasileira passou a ser acompanhada como
um tema de interesse geopolítico.
As
respostas só serão conhecidas depois de outubro. As perguntas, porém, precisam
ser feitas agora.
As
democracias não são testadas apenas no dia da votação. São testadas também na
disposição de candidatos, governos e da comunidade internacional de reconhecer
e respeitar a vontade soberana dos eleitores.
Foi
isso que esteve em jogo em 2022. E ocorreu o 8 de janeiro.
É isso
que voltará a estar em jogo em 2026.
Fonte:
Por Moisés Mendes, em Brasil 247

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