quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A direita brasileira não tem um líder

Se a velha piada do desembarque do marciano se repetisse hoje, esse poderia ser o roteiro. O marciano desceria no Brasil e tentaria localizar alguém de direita na Avenida Paulista num domingo à tarde.

Pediria que o brasileiro de direita o levasse ao seu líder nacional, à figura que o representa como expressão do reacionarismo e do conservadorismo, incluindo o fascismo exacerbado.

E o cidadão diria ao marciano que seu líder mora na Argentina. O líder da direita brasileira hoje é Javier Milei. Porque, desde o momento em que Bolsonaro foi condenado e virou caseiro, ninguém mais se habilitou a cumprir seu papel. Tentam, mas não conseguem.

Na velha direita, que alguns chamam de direita profissional, os líderes são Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Antonio Rueda. Um manda no PL, o outro no PP, o terceiro no PSD e o último no União Brasil.

Dos quatro, só um, Ciro Nogueira, tem votos. Outros líderes dos povos da direita já tiveram, mas preferiram ser CEOs dos seus partidos a lutar pela legitimação do que fazem por deliberação do eleitor.

Kassab tenta retornar à ativa e é agora figurante de Caiado como seu vice na chapa do PSD à Presidência. Terá votos indiretos. Mas os outros sem votos são apenas os grandes operadores da direita. A democracia para eles é a dedicação permanente a arranjos, barganhas e negociatas.

Nenhum deles é um líder capaz de conversar com um marciano, nem Tarcísio de Freitas, refugado pelo próprio Bolsonaro. O cidadão de direita não teria nem como levar o visitante a Flávio Bolsonaro, que não lidera a família do pai.

O marciano ficaria sabendo que por isso, por falta de líderes locais, Milei é o líder da direita brasileira e latino-americana. Mas o homem da Paulista tentaria esconder uma reportagem da Folha, com a comparação de indicadores básicos da economia entre Brasil e Argentina.

A Folha enfileira números de PIB, inflação, endividamento público, investimentos estrangeiros, emprego. O homem esconderia a reportagem porque o marciano iria perceber, mesmo olhando por cima, que o Brasil tem os melhores indicadores na comparação geral.

E faria uma observação: onde está um indicador decisivo para que se compreenda a situação argentina? Onde estão as reservas internacionais? O cidadão de direita não saberia responder, mesmo que entenda tudo de outras áreas, até de arcabouço fiscal.

A reportagem de Douglas Gravas, jornalista morador de Buenos Aires, omite que o dólar é a moeda argentina. Que a Argentina quase não tem reservas sob controle do Estado, que Trump ofereceu US$ 20 bilhões a Milei na eleição parlamentar do ano passado e que essa ajuda acalmou o povo. O argentino só se sente seguro com dólares.

As reservas deveriam ser, depois do PIB, o primeiro indicador a ser comparado pela Folha. O Brasil tem US$ 360 bilhões em reservas em moeda forte. A Argentina tem ao redor de US$ 30 bilhões – porque a maior parte da moeda estrangeira, calculada em até US$ 300 bilhões, está escondida em algum lugar pelos argentinos, pelas empresas e pelas máfias, dentro e fora do país.

O marciano ficaria sabendo, se fosse atrás de mais informações, que hoje 61% dos argentinos consideram Milei um fracasso. Que o sistema de Justiça cercou o presidente e sua irmã Karina por envolvimento com quadrilhas de criptomoedas. E que o FMI manda na Argentina.

Esse foi o líder que a extrema-direita trouxe à convenção do PL para apresentá-lo como modelo a ser seguido. Porque Flávio é frágil. Porque os outros líderes da velha direita são, na verdade, empreendedores da política das oportunidades.

O cidadão encontrado aleatoriamente na Paulista diria ao marciano: não temos líderes da direita. Caiado e Zema são tão líderes quanto Renan Santos e Cabo Daciolo. Não temos mais um craque, nem técnico da Seleção temos hoje. E confessaria: eles têm o Lula.

O marciano responderia que isso ele já sabe e perguntaria: um líder de centro, pelo menos isso vocês têm? O cidadão constrangido diria que sim, mas esse líder é o vice de Lula.

•        E se Flávio Bolsonaro perder a eleição de 2026?(2). Por Gustavo Tapioca

Vinte e dois dias atrás, publicamos um artigo que terminava com uma pergunta simples: e se Flávio Bolsonaro perder a eleição presidencial de 2026?

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Naquele momento, tratava-se de uma hipótese. Desde então, uma sucessão de acontecimentos políticos e diplomáticos transformou essa indagação em um tema central da campanha eleitoral.

O primeiro deles ocorreu em 22 de julho, quando Flávio Bolsonaro reuniu-se, em Brasília, com diplomatas estrangeiros para apresentar críticas ao sistema eleitoral brasileiro. Durante o encontro, voltou a levantar dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas, mencionou a empresa Smartmatic e defendeu a presença de observadores internacionais nas eleições de outubro.

Depois da repercussão negativa, afirmou que apenas respondera a perguntas dos diplomatas e negou ter colocado em dúvida a lisura do processo eleitoral.

O episódio, entretanto, desencadeou uma reação incomum.

Editorialistas de O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, além de diversos analistas políticos, identificaram na iniciativa a reedição da estratégia utilizada por Jair Bolsonaro antes das eleições de 2022 e por Donald Trump nos Estados Unidos: lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral antes da votação e, diante das críticas, negar que isso tenha sido feito.

A sequência de fatos ganhou nova dimensão dois dias depois.

Reportagem do Washington Post revelou que integrantes do Departamento de Estado norte-americano planejavam viajar ao Brasil para discutir temas ligados ao processo eleitoral. O governo brasileiro interpretou a iniciativa como uma tentativa de interferência em assunto interno e decidiu negar os vistos diplomáticos solicitados.

Washington sustentou que a missão teria caráter institucional e trataria de temas como liberdade de expressão, liberdade religiosa e integridade eleitoral. Brasília respondeu que a organização das eleições é matéria exclusiva da soberania nacional.

<><> A ultradireita trumpista

Pela primeira vez desde a redemocratização, o sistema eleitoral brasileiro transformava-se em objeto de um impasse diplomático entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, outro movimento chamava atenção.

A candidatura de Flávio Bolsonaro aprofundava sua aproximação com a rede internacional da ultradireita liderada por Donald Trump. Javier Milei participou da convenção nacional do Partido Liberal. Eduardo Bolsonaro intensificou sua atuação política nos Estados Unidos. Marco Rubio voltou a ocupar papel relevante nas discussões envolvendo as relações entre Washington e Brasília.

Isoladamente, cada um desses episódios poderia ser tratado como mais um fato da campanha. Observados em conjunto, porém, eles sugerem uma mudança de escala.

A eleição presidencial brasileira deixou de ser apenas uma disputa doméstica entre governo e oposição. Passou também a integrar um cenário internacional no qual soberania, plataformas digitais, política externa e democracia aparecem cada vez mais interligadas.

É justamente essa mudança de contexto que recoloca a pergunta feita há pouco mais de três semanas. Não porque já exista uma resposta para ela.

Mas porque os acontecimentos posteriores tornaram a pergunta muito mais relevante do que parecia quando foi formulada.

<><> A campanha também mudou

Essa transformação não decorre apenas da presença de novos personagens na disputa. Ela reflete uma mudança mais profunda na forma como campanhas eleitorais passaram a ser organizadas e disputadas em todo o mundo.

As eleições deixaram de acontecer apenas nos palanques, no horário eleitoral gratuito ou nos grandes debates da televisão. Hoje elas se desenvolvem, sobretudo, nas plataformas digitais, onde algoritmos, influenciadores, redes internacionais de comunicação e sistemas de inteligência artificial disputam diariamente a atenção e as preferências dos eleitores.

Foi nesse contexto que as discussões sobre soberania digital deixaram de ser um tema exclusivamente tecnológico. Tornaram-se parte do debate sobre a própria soberania política dos Estados nacionais.

Ao mesmo tempo, a candidatura de Flávio Bolsonaro passou a ser apresentada não apenas como representante da extrema-direita brasileira, mas como integrante de uma articulação política internacional identificada com a ultradireita liderada por Donald Trump.

<><> Interesse geopolítico 

A presença de Javier Milei na convenção nacional do Partido Liberal, a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e o protagonismo assumido por Marco Rubio nas tensões entre Washington e Brasília reforçaram essa percepção.

Nesse ambiente, também ganhou espaço uma interpretação apresentada por analistas como Luís Nassif. Segundo essa leitura, pressões diplomáticas, disputas econômicas, campanhas de comunicação, plataformas digitais e articulações políticas internacionais podem fazer parte de uma mesma estratégia de influência sobre processos políticos nacionais.

Pode-se concordar ou discordar dessa interpretação. O fato é que ela deslocou o foco do debate.

A discussão deixou de tratar apenas da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro para incluir uma questão mais ampla: de que maneira as transformações tecnológicas e a crescente internacionalização da política influenciam as democracias contemporâneas.

Foi justamente essa convergência de acontecimentos que levou grandes veículos internacionais — entre eles Reuters, Associated Press e o próprio Washington Post — a acompanhar mais de perto a evolução da campanha brasileira.

Nenhum desses fatos, isoladamente, altera o resultado das eleições.

Mas todos ajudam a compreender por que a eleição presidencial de 2026 passou a ser observada também como um tema de interesse geopolítico. Essa talvez seja a principal novidade em relação ao cenário existente poucas semanas atrás. A pergunta continua sendo a mesma.

O contexto em que ela precisa ser respondida, porém, mudou profundamente.

<><> E se o bolsonarismo perder de novo?

O contraste com 2022 ajuda a compreender a dimensão da mudança.

Há quatro anos, Jair Bolsonaro questionou o sistema eleitoral, buscou apoio internacional para suas críticas às urnas e, depois de derrotado nas eleições, seu governo foi sucedido pelos acontecimentos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

Hoje, o contexto internacional é diferente.

Joe Biden deixou a Casa Branca. Donald Trump voltou ao poder e reassumiu a liderança política da rede internacional da ultradireita da qual participam Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e outros dirigentes identificados com esse campo político.

Essa mudança, por si só, não permite antecipar como o governo norte-americano reagirá ao resultado das eleições brasileiras. Não existem elementos públicos que autorizem afirmar que haja uma decisão de contestar uma eventual vitória de Lula ou de apoiar qualquer ruptura institucional.

<><> Lula reage

A possibilidade de interferência externa nas eleições brasileiras, entretanto, deixou de ser apenas uma hipótese discutida por analistas. 

Em 8 de abril, quatro meses antes do início oficial da campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que, “pelo que tenho visto de Donald Trump nesses anos, nada com ele é impossível” e acrescentou que, caso o presidente norte-americano não reconhecesse o resultado das urnas brasileiras, “vamos dizer que ele está mentindo”. 

Nas semanas seguintes, seu discurso de Lula evoluiu. 

Em maio, após encontro com Trump, manifestou confiança de que o presidente norte-americano respeitaria a soberania brasileira. 

Em junho, passou a adverti-lo publicamente para que “não se meta nas eleições no Brasil”. 

No fim de julho, confirmou que o governo brasileiro negara vistos a representantes do Departamento de Estado por considerar que pretendiam interferir no processo eleitoral brasileiro. 

E, na entrevista concedida nesta sex-feira, 30 de julho, foi ainda mais explícito: 

“Eles vão tentar interferir aqui, ajudando o lado de lá. Mas eu não estou preocupado com isso. Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo. Nós vamos ganhar na narrativa. Cada mentira que contarem a respeito do Brasil, nós vamos desmascarar.”

Existe, portanto, um conjunto de acontecimentos que torna essa hipótese um tema legítimo de reflexão política e jornalística.

Pela primeira vez desde a redemocratização, a eleição presidencial brasileira passou a ocupar um espaço incomum no debate internacional. As dúvidas lançadas sobre o sistema eleitoral, as tensões diplomáticas entre Brasília e Washington, a aproximação do bolsonarismo com a ultradireita internacional, a atenção crescente da imprensa estrangeira e o debate sobre plataformas digitais, inteligência artificial e soberania tecnológica compõem um cenário inédito.

Nenhum desses fatos responde, por si só, à pergunta que dá título a este artigo.

Mas todos ajudam a compreender por que ela continua sendo feita.

Vinte e dois dias atrás perguntávamos:

<><> E se Flávio Bolsonaro perder? 

E perder para Lula. Hoje, a pergunta permanece exatamente a mesma. O que mudou foi o contexto.

Em 2022, a maior potência do mundo reconheceu imediatamente o resultado das urnas brasileiras.

Em 2026, as relações entre Brasília e Washington tornaram-se mais tensas. A candidatura de Flávio Bolsonaro aproximou-se ainda mais da rede política liderada por Donald Trump. E a eleição brasileira passou a ser acompanhada como um tema de interesse geopolítico.

As respostas só serão conhecidas depois de outubro. As perguntas, porém, precisam ser feitas agora.

As democracias não são testadas apenas no dia da votação. São testadas também na disposição de candidatos, governos e da comunidade internacional de reconhecer e respeitar a vontade soberana dos eleitores.

Foi isso que esteve em jogo em 2022. E ocorreu o 8 de janeiro.

É isso que voltará a estar em jogo em 2026.

 

Fonte: Por Moisés Mendes, em Brasil 247

 

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