Resiliência
'notável', mas não invulnerável: como o Brasil resistiu ao tarifaço
Mercado
interno, novos parceiros comerciais e medidas do governo reduziram os impactos
do tarifaço, mas economistas ouvidos pela Sputnik Brasil alertam que riscos
podem migrar do comércio para as áreas financeira e tecnológica.
Em meio
ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o Fundo
Monetário Internacional (FMI) avaliou que a economia brasileira tem demonstrado
"resiliência notável" diante dos impactos das tarifas impostas pela
Casa Branca.
"As
exportações do Brasil têm se mantido resilientes, apesar das elevadas tarifas
dos EUA, e o déficit em conta corrente diminuiu ligeiramente para 2,9% do PIB
em 2025", diz o texto da consulta anual do Artigo IV.
Mas não
só. O FMI também revisou para cima (2,4%) a projeção de crescimento do produto
interno bruto (PIB) do país, impulsionado pelos preços elevados de petróleo e
pela alta participação de fontes renováveis na matriz energética do país.
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Resiliência da economia brasileira
Como
explica Caio Vilella, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e
diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD), há
três fatores que explicam essa característica na relação comercial entre Brasil
e EUA:
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1. O mercado interno brasileiro possui relevância maior do que a balança
comercial: são mais de 200 milhões de brasileiros, uma indústria relativamente
desenvolvida e uma diversidade produtiva.
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2. Os EUA não são o principal parceiro comercial do Brasil. Na verdade, uma
pequena parcela das exportações vão para o país norte-americano, em comparação
com parceiros como a China ou a Índia.
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3. A resposta da política econômica do governo Lula, que buscou amortecer os
impactos setoriais das tarifas por meio de medidas de apoio às empresas
exportadoras, ao mesmo tempo que acelerou a diversificação de mercados, com
maior aproximação de parceiros asiáticos.
"Esses
três fatores são um quadro geral que trazem um pouco a explicação para essa
resiliência que o FMI aponta."
Para
Francisco Marzinotto, doutor em economia política internacional pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor na Universidade do
Estado de Minas Gerais (UEMG), embora a diversificação de parceiros fortaleça a
capacidade de reação da economia brasileira, isso não eliminou todas as
vulnerabilidades.
Em vez
disso, pode ter apenas mudado o eixo da economia brasileira para depender de
outras. Em sua fala à Sputnik Brasil, ele também lista outros fatores que
contribuíram para a capacidade brasileira de resistir às tarifas
norte-americanas:
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1. Grande produção de alimentos, líder global nas exportações de soja, café,
açúcar, carne bovina e carne de frango, além de responder por cerca de 10% do
comércio agrícola mundial, suficiente para abastecer 800 a 900 milhões de
pessoas.
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2. Uma matriz energética diversificada, na qual aproximadamente 50% da oferta
interna de energia provém de fontes renováveis, conseguindo gerar
aproximadamente 82% a 85% de eletricidade em sua matriz elétrica.
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3. Elevada produção de petróleo, que ajudou o país a enfrentar os choques
provocados por conflitos internacionais, como os do Oriente Médio, que
pressionaram os preços globais das commodities.
Essa
posição permitiu amortecer os efeitos da alta internacional dos preços de
alimentos e combustíveis e garantir o abastecimento do mercado doméstico.
"A gente perde na quantidade, mas ganha no preço […] Isso foi
principalmente importante não na dinâmica econômica, mas para conter a
inflação."
Marzinotto
acrescenta que a elevada participação de fontes renováveis e a condição de
exportador líquido de petróleo criaram uma segunda camada de proteção para a
economia brasileira, reduzindo a exposição aos choques energéticos
internacionais.
"O
Brasil possui relativa autonomia energética, é exportador líquido de petróleo e
tem elevada participação de fontes renováveis. O FMI inclusive afirmou que essa
estrutura protege parcialmente o país do aumento do petróleo, decorrente da
guerra no Oriente Médio."
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Lições do primeiro tarifaço
Vilella
destaca que, durante o primeiro tarifaço, em 2025, o governo federal, em
conjunto com o BNDES, adotou medidas para mitigar os impactos sobre os setores
mais afetados pelas tarifas de Washington. O Plano Brasil Soberano, em linhas
gerais, permitiu que empresas exportadoras tivessem acesso a linhas de crédito
para atravessar o período mais agudo da crise, enquanto o Brasil buscava abrir
novos mercados e redirecionar parte de suas exportações.
O
economista ressalta, no entanto, que o programa teve um papel de contenção de
danos, e não de impulsionar o crescimento da economia. Em sua avaliação, a
principal explicação para a resiliência apontada pelo FMI está na política
fiscal adotada nos anos anteriores, que sustentou a demanda doméstica e
permitiu ao país manter um ritmo relativamente estável de crescimento.
Embora
essa estratégia tenha perdido força com o corte de gastos e a manutenção dos
juros altos, foi ela que criou as condições para que a economia absorvesse
melhor os choques externos.
Para o
economista, a continuidade desse aperto nas contas públicas pode reduzir o
dinamismo do mercado interno — já apontado como o principal motor do PIB
brasileiro — e limitar a capacidade de crescimento nos próximos anos.
Marzinotto
faz uma avaliação semelhante quanto à importância da política econômica, mas
destaca que a combinação entre as políticas fiscal e monetária foi decisiva
para reduzir os efeitos das tarifas. Enquanto os juros elevados ajudaram a
estabilizar as expectativas e reduzir a volatilidade cambial, a manutenção de
gastos públicos com investimentos e programas de transferência de renda
sustentou o consumo, o emprego e a atividade econômica.
"Sem
esse ambiente, os impactos das tarifas poderiam ter sido mais significativos,
com maior desaceleração do PIB, redução dos investimentos e aumento da
instabilidade financeira."
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Brasil ainda tem fragilidades
Mesmo
com tantas capacidades, o Brasil ainda pode ser afetado pelas tarifas
norte-americanas, ainda mais se focarem em outros setores da economia, apontam
os especialistas.
Para
Vilella, a principal preocupação seria uma eventual escalada para o campo
financeiro, já que a capacidade dos Estados Unidos de pressionar a economia
brasileira é maior por meio dos fluxos internacionais de capitais e do sistema
financeiro do que pelo comércio exterior.
"Se
os Estados Unidos começam a exercer pressões financeiras sobre o Brasil, como
ameaçando desligar o Brasil do SWIFT, aí sim nós seríamos muito mais
afetados."
Marzinotto
amplia esse diagnóstico ao destacar que Washington também dispõe de
instrumentos tecnológicos e digitais. "Além das tarifas, Washington dispõe
de outras armas geoeconômicas, como restrições ao acesso a tecnologias
estratégicas, como o GPS, além de capacidade de bloqueios ao acesso a serviços
digitais e computação em nuvem."
"Portanto,
a capacidade de coerção econômica dos EUA sobre o Brasil não desapareceu, mas é
menor do que seria em uma economia altamente dependente do mercado
americano."
• Desenvolvimento de minerais críticos no
Brasil pode adicionar R$ 192 bilhões ao PIB até 2050
Um
estudo da Câmara Americana de Comércio (Amcham) estima que o desenvolvimento da
cadeia de minerais críticos pode acrescentar até R$ 192 bilhões ao produto
interno bruto (PIB) brasileiro até 2050, além de gerar 750 mil empregos, caso o
país atraia investimentos
No
cenário mais restrito, baseado apenas em exportação e capital doméstico, o
impacto seria menor: R$ 128,7 bilhões e 304 mil empregos.
A
análise destaca que o Brasil ainda atua majoritariamente nos estágios iniciais
da cadeia mineral, com pouco processamento — em 2023, só 5% do lítio extraído
foi beneficiado internamente, e o níquel refinado representou menos de 40% da
produção.
Romper
esse padrão poderia impulsionar a indústria de transformação, com crescimento
de 1,82%, e setores como máquinas e equipamentos elétricos, que poderiam
avançar 16,7%.
O
debate sobre capital estrangeiro é central, dada a relevância geopolítica dos
minerais críticos, e já suscitou a criação do projeto de lei que cria a
política nacional de minerais críticos, em análise no Senado, prevendo
incentivos ao processamento e mecanismos de controle sobre influência externa.
• Diplomatas dizem que relação Brasil-EUA
está 'trincada' e apontam 'chantagem' de Washington
A
revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiz
Ribeiro Viotti, foi vista por diplomatas como uma "chantagem" de
Washington e que escancara a relação "trincada" que Casa Branca e
Planalto vivem.
Conforme
apuração do portal G1, múltiplos diplomatas avaliaram como
"chantagem" a revogação do visto de Ribeiro Viotti, uma vez que os
Estados Unidos condicionaram a normalização da permanência da embaixadora ao
aval diplomático do Itamaraty ao novo embaixador norte-americano, Daniel Perez.
O
indicado do governo dos Estados Unidos teve aprovação em uma comissão do Senado
e agora aguarda a chancela no plenário da Casa. No entanto, Washington não fez
uma consulta prévia a Brasília sobre o nome, o que é comum nesse tipo de caso.
A Casa
Branca não conta com um embaixador no Brasil desde a posse de Donald Trump, no
início de 2025, quando a diplomata Elizabeth Bagley foi chamada de volta ao
país. Desde então, a função tem sido executada pelo encarregado de negócios
Gabriel Escobar.
O
jornalista João Paulo Charleaux, colunista do UOL, afirmou que um embaixador
brasileiro com quem conversou e pediu para não ser identificado, declarou que
as relações entre Brasil e Estados Unidos estão "trincadas".
"Há
uma escalada em curso, na qual um episódio negativo vai engrenando outro. [...]
Tudo está muito contaminado agora por um processo eleitoral no qual o apelo ao
nacionalismo brasileiro entrou na agenda da campanha."
A
decisão de revogação do visto de Ribeiro Viotti também levou em conta outros
incidentes diplomáticos entre os países, como a recusa por parte do Itamaraty
de conceder visto a dois diplomatas do Departamento de Estado dos EUA que
viajariam ao Brasil: o secretário-assistente Riley M. Barnes e o
subsecretário-assistente Samuel Samson.
O
governo americano negou que a missão tivesse o objetivo de interferir nas
eleições e afirmou que a viagem trataria de temas como integridade eleitoral,
liberdade religiosa e liberdade de expressão, com autoridades e representantes
da sociedade civil.
Fonte:
Sputnik Brasil

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