quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Resiliência 'notável', mas não invulnerável: como o Brasil resistiu ao tarifaço

Mercado interno, novos parceiros comerciais e medidas do governo reduziram os impactos do tarifaço, mas economistas ouvidos pela Sputnik Brasil alertam que riscos podem migrar do comércio para as áreas financeira e tecnológica.

Em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou que a economia brasileira tem demonstrado "resiliência notável" diante dos impactos das tarifas impostas pela Casa Branca.

"As exportações do Brasil têm se mantido resilientes, apesar das elevadas tarifas dos EUA, e o déficit em conta corrente diminuiu ligeiramente para 2,9% do PIB em 2025", diz o texto da consulta anual do Artigo IV.

Mas não só. O FMI também revisou para cima (2,4%) a projeção de crescimento do produto interno bruto (PIB) do país, impulsionado pelos preços elevados de petróleo e pela alta participação de fontes renováveis na matriz energética do país.

<><> Resiliência da economia brasileira

Como explica Caio Vilella, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD), há três fatores que explicam essa característica na relação comercial entre Brasil e EUA:

>>> 1. O mercado interno brasileiro possui relevância maior do que a balança comercial: são mais de 200 milhões de brasileiros, uma indústria relativamente desenvolvida e uma diversidade produtiva.

>>> 2. Os EUA não são o principal parceiro comercial do Brasil. Na verdade, uma pequena parcela das exportações vão para o país norte-americano, em comparação com parceiros como a China ou a Índia.

>>> 3. A resposta da política econômica do governo Lula, que buscou amortecer os impactos setoriais das tarifas por meio de medidas de apoio às empresas exportadoras, ao mesmo tempo que acelerou a diversificação de mercados, com maior aproximação de parceiros asiáticos.

"Esses três fatores são um quadro geral que trazem um pouco a explicação para essa resiliência que o FMI aponta."

Para Francisco Marzinotto, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), embora a diversificação de parceiros fortaleça a capacidade de reação da economia brasileira, isso não eliminou todas as vulnerabilidades.

Em vez disso, pode ter apenas mudado o eixo da economia brasileira para depender de outras. Em sua fala à Sputnik Brasil, ele também lista outros fatores que contribuíram para a capacidade brasileira de resistir às tarifas norte-americanas:

>>> 1. Grande produção de alimentos, líder global nas exportações de soja, café, açúcar, carne bovina e carne de frango, além de responder por cerca de 10% do comércio agrícola mundial, suficiente para abastecer 800 a 900 milhões de pessoas.

>>> 2. Uma matriz energética diversificada, na qual aproximadamente 50% da oferta interna de energia provém de fontes renováveis, conseguindo gerar aproximadamente 82% a 85% de eletricidade em sua matriz elétrica.

>>> 3. Elevada produção de petróleo, que ajudou o país a enfrentar os choques provocados por conflitos internacionais, como os do Oriente Médio, que pressionaram os preços globais das commodities.

Essa posição permitiu amortecer os efeitos da alta internacional dos preços de alimentos e combustíveis e garantir o abastecimento do mercado doméstico. "A gente perde na quantidade, mas ganha no preço […] Isso foi principalmente importante não na dinâmica econômica, mas para conter a inflação."

Marzinotto acrescenta que a elevada participação de fontes renováveis e a condição de exportador líquido de petróleo criaram uma segunda camada de proteção para a economia brasileira, reduzindo a exposição aos choques energéticos internacionais.

"O Brasil possui relativa autonomia energética, é exportador líquido de petróleo e tem elevada participação de fontes renováveis. O FMI inclusive afirmou que essa estrutura protege parcialmente o país do aumento do petróleo, decorrente da guerra no Oriente Médio."

<><> Lições do primeiro tarifaço

Vilella destaca que, durante o primeiro tarifaço, em 2025, o governo federal, em conjunto com o BNDES, adotou medidas para mitigar os impactos sobre os setores mais afetados pelas tarifas de Washington. O Plano Brasil Soberano, em linhas gerais, permitiu que empresas exportadoras tivessem acesso a linhas de crédito para atravessar o período mais agudo da crise, enquanto o Brasil buscava abrir novos mercados e redirecionar parte de suas exportações.

O economista ressalta, no entanto, que o programa teve um papel de contenção de danos, e não de impulsionar o crescimento da economia. Em sua avaliação, a principal explicação para a resiliência apontada pelo FMI está na política fiscal adotada nos anos anteriores, que sustentou a demanda doméstica e permitiu ao país manter um ritmo relativamente estável de crescimento.

Embora essa estratégia tenha perdido força com o corte de gastos e a manutenção dos juros altos, foi ela que criou as condições para que a economia absorvesse melhor os choques externos.

Para o economista, a continuidade desse aperto nas contas públicas pode reduzir o dinamismo do mercado interno — já apontado como o principal motor do PIB brasileiro — e limitar a capacidade de crescimento nos próximos anos.

Marzinotto faz uma avaliação semelhante quanto à importância da política econômica, mas destaca que a combinação entre as políticas fiscal e monetária foi decisiva para reduzir os efeitos das tarifas. Enquanto os juros elevados ajudaram a estabilizar as expectativas e reduzir a volatilidade cambial, a manutenção de gastos públicos com investimentos e programas de transferência de renda sustentou o consumo, o emprego e a atividade econômica.

"Sem esse ambiente, os impactos das tarifas poderiam ter sido mais significativos, com maior desaceleração do PIB, redução dos investimentos e aumento da instabilidade financeira."

<><> Brasil ainda tem fragilidades

Mesmo com tantas capacidades, o Brasil ainda pode ser afetado pelas tarifas norte-americanas, ainda mais se focarem em outros setores da economia, apontam os especialistas.

Para Vilella, a principal preocupação seria uma eventual escalada para o campo financeiro, já que a capacidade dos Estados Unidos de pressionar a economia brasileira é maior por meio dos fluxos internacionais de capitais e do sistema financeiro do que pelo comércio exterior.

"Se os Estados Unidos começam a exercer pressões financeiras sobre o Brasil, como ameaçando desligar o Brasil do SWIFT, aí sim nós seríamos muito mais afetados."

Marzinotto amplia esse diagnóstico ao destacar que Washington também dispõe de instrumentos tecnológicos e digitais. "Além das tarifas, Washington dispõe de outras armas geoeconômicas, como restrições ao acesso a tecnologias estratégicas, como o GPS, além de capacidade de bloqueios ao acesso a serviços digitais e computação em nuvem."

"Portanto, a capacidade de coerção econômica dos EUA sobre o Brasil não desapareceu, mas é menor do que seria em uma economia altamente dependente do mercado americano."

•        Desenvolvimento de minerais críticos no Brasil pode adicionar R$ 192 bilhões ao PIB até 2050

Um estudo da Câmara Americana de Comércio (Amcham) estima que o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos pode acrescentar até R$ 192 bilhões ao produto interno bruto (PIB) brasileiro até 2050, além de gerar 750 mil empregos, caso o país atraia investimentos

No cenário mais restrito, baseado apenas em exportação e capital doméstico, o impacto seria menor: R$ 128,7 bilhões e 304 mil empregos.

A análise destaca que o Brasil ainda atua majoritariamente nos estágios iniciais da cadeia mineral, com pouco processamento — em 2023, só 5% do lítio extraído foi beneficiado internamente, e o níquel refinado representou menos de 40% da produção.

Romper esse padrão poderia impulsionar a indústria de transformação, com crescimento de 1,82%, e setores como máquinas e equipamentos elétricos, que poderiam avançar 16,7%.

O debate sobre capital estrangeiro é central, dada a relevância geopolítica dos minerais críticos, e já suscitou a criação do projeto de lei que cria a política nacional de minerais críticos, em análise no Senado, prevendo incentivos ao processamento e mecanismos de controle sobre influência externa.

•        Diplomatas dizem que relação Brasil-EUA está 'trincada' e apontam 'chantagem' de Washington

A revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiz Ribeiro Viotti, foi vista por diplomatas como uma "chantagem" de Washington e que escancara a relação "trincada" que Casa Branca e Planalto vivem.

Conforme apuração do portal G1, múltiplos diplomatas avaliaram como "chantagem" a revogação do visto de Ribeiro Viotti, uma vez que os Estados Unidos condicionaram a normalização da permanência da embaixadora ao aval diplomático do Itamaraty ao novo embaixador norte-americano, Daniel Perez.

O indicado do governo dos Estados Unidos teve aprovação em uma comissão do Senado e agora aguarda a chancela no plenário da Casa. No entanto, Washington não fez uma consulta prévia a Brasília sobre o nome, o que é comum nesse tipo de caso.

A Casa Branca não conta com um embaixador no Brasil desde a posse de Donald Trump, no início de 2025, quando a diplomata Elizabeth Bagley foi chamada de volta ao país. Desde então, a função tem sido executada pelo encarregado de negócios Gabriel Escobar.

O jornalista João Paulo Charleaux, colunista do UOL, afirmou que um embaixador brasileiro com quem conversou e pediu para não ser identificado, declarou que as relações entre Brasil e Estados Unidos estão "trincadas".

"Há uma escalada em curso, na qual um episódio negativo vai engrenando outro. [...] Tudo está muito contaminado agora por um processo eleitoral no qual o apelo ao nacionalismo brasileiro entrou na agenda da campanha."

A decisão de revogação do visto de Ribeiro Viotti também levou em conta outros incidentes diplomáticos entre os países, como a recusa por parte do Itamaraty de conceder visto a dois diplomatas do Departamento de Estado dos EUA que viajariam ao Brasil: o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson.

O governo americano negou que a missão tivesse o objetivo de interferir nas eleições e afirmou que a viagem trataria de temas como integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão, com autoridades e representantes da sociedade civil.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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