Complicação
rara após cirurgia bariátrica pode causar hipoglicemias em pessoas sem diabetes
Em
casos raros, alterações após a cirurgia bariátrica podem provocar episódios
recorrentes de hipoglicemia, como aconteceu com a enfermeira Stephani Duarte,
de 32 anos.
Quando
se fala em hipoglicemia, a maioria das pessoas pensa imediatamente em quem
utiliza insulina para tratar o diabetes. No entanto, a queda da glicose no
sangue também pode ocorrer em pessoas sem a doença e, quando acontece de forma
recorrente, merece investigação médica.
Segundo
a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a hipoglicemia pode ter diferentes
causas. Além do tratamento do diabetes, ela também pode estar relacionada ao
uso de alguns medicamentos, ao consumo excessivo de álcool em jejum, a
alterações hormonais e, em situações mais raras, a distúrbios que fazem o
organismo produzir insulina em excesso.
Entre
as pessoas que passaram pela cirurgia bariátrica, existe ainda uma complicação
pouco conhecida chamada hipoglicemia hiperinsulinêmica pós-bariátrica. Em
alguns casos, ela pode estar associada ao nesidioblastoma, condição
caracterizada pelo crescimento anormal das células beta do pâncreas,
responsáveis pela produção de insulina. Como consequência, o organismo passa a
liberar mais insulina do que o necessário, fazendo com que a glicose caia mesmo
em pessoas sem diabetes.
Embora
seja uma condição rara, especialistas reforçam que episódios frequentes de
hipoglicemia após a cirurgia bariátrica não devem ser considerados normais e
precisam ser avaliados para que a causa seja identificada.
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Quando a glicose baixa mudou a rotina
Acostumada
a cuidar de pacientes na emergência, Stephani jamais imaginou que passaria a
vivenciar uma situação que até então conhecia apenas na prática profissional.
Ela
decidiu realizar a cirurgia bariátrica em 2022 após enfrentar limitações
provocadas pela obesidade. Na época, chegou a pesar 185 quilos e percebeu que
sua condição física já compromete até mesmo o trabalho como enfermeira.
“Eu
cheguei num ponto da minha vida em que não tinha mais qualidade de vida. Não
conseguia caminhar, passear e, trabalhando na emergência, percebi que já não
tinha força para fazer uma massagem cardíaca. Foi quando entendi que precisava
fazer a cirurgia.”
Nos
primeiros meses após o procedimento, ela acreditava que o mal-estar fazia parte
da recuperação. Afinal, sintomas como tontura, suor e fraqueza costumam ser
associados ao chamado dumping, uma alteração relativamente comum em pessoas que
passaram pela bariátrica.
Mas um
episódio durante o trabalho mudou completamente essa percepção.
“Um dia
eu estava passando mal e resolvi medir a glicemia. O resultado foi 32 mg/dL. Eu
fiquei em choque porque ainda estava andando e conversando. Foi naquele momento
que percebi que aquilo não era apenas um mal-estar da cirurgia.”
A
partir dali, Stephani passou a monitorar a glicose sempre que apresentava
sintomas e percebeu que os episódios estavam se tornando cada vez mais
frequentes.
Mesmo
sendo profissional da saúde, o diagnóstico não veio rapidamente.
“No
começo, todo mundo achava que era hipoglicemia reativa, ansiedade ou até
consequência da correria do plantão. Eu ia corrigindo com mel e balas, mas
chegou um momento em que ficou insustentável. Teve dia em que fiz oito ou nove
hipoglicemias.”
Foram
meses de consultas, exames e acompanhamento especializado até descobrir a causa
das crises.
“Quando
descobri o que era, senti um conforto por saber que aquilo tinha um nome. Não
era algo que eu estava imaginando. Existia uma explicação para tudo o que eu
estava vivendo.”
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O que é o nesidioblastoma?
Pouco
conhecido pela população, o nesidioblastoma é uma condição rara em que ocorre
um crescimento anormal das células beta do pâncreas, responsáveis pela produção
de insulina.
Na
prática, isso faz com que o organismo produza mais insulina do que precisa.
Como consequência, a glicose é retirada rapidamente da circulação, favorecendo
episódios recorrentes de hipoglicemia.
Stephani
explica que, no seu caso, a cirurgia bariátrica tornou esse processo ainda mais
desafiador.
“Depois
da bariátrica eu não consigo comer grandes quantidades. Só que meu organismo
continua liberando muita insulina. Então, a glicose acaba sendo consumida muito
rápido. Já tive episódios de 28, 30 e até 18 mg/dL.”
Para
ela, compreender o que estava acontecendo foi um passo importante para iniciar
o tratamento e voltar a ter mais segurança no dia a dia.
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Por que a glicose cai?
Ao
longo da investigação, Stephani também passou a compreender melhor o que
acontecia com seu organismo.
“O
pâncreas libera insulina para controlar a glicose depois que a gente se
alimenta. No meu caso, ele libera mais insulina do que deveria. Como eu também
não consigo comer grandes quantidades por causa da bariátrica, a glicose acaba
caindo muito rápido.”
Essa é
uma explicação simplificada para um quadro que pode variar de pessoa para
pessoa. Por isso, a investigação médica é fundamental para identificar a causa
da hipoglicemia e definir o tratamento mais adequado.
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As crises mudaram a rotina
Os
episódios de hipoglicemia passaram a fazer parte do dia a dia de Stephani e
impactaram tanto sua vida pessoal quanto profissional.
“Eu
fico muito gelada, começo a tremer e parece que toda a minha energia vai
embora. Depois da hipoglicemia, só quero deitar porque fico completamente sem
forças.”
Ela
conta que, muitas vezes, as crises acontecem em momentos inesperados.
“Às
vezes estou trabalhando ou passeando e preciso parar tudo para corrigir a
glicemia. Hoje minha família e meus amigos já sabem como me ajudar, mas quem
não conhece a situação acaba se assustando.”
Com o
tempo, Stephani também percebeu que situações de estresse e alguns alimentos
podem favorecer as quedas da glicose.
“Quando
estou muito ansiosa ou em um plantão corrido, meu metabolismo acelera e isso
pode desencadear uma hipoglicemia. Também aprendi que alguns alimentos provocam
uma queda importante da glicose algum tempo depois.”
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O tratamento trouxe mais qualidade de vida
O
tratamento para a hipoglicemia varia de acordo com a causa e deve ser definido
por uma equipe médica. No caso de Stephani, mudanças na alimentação,
acompanhamento especializado e o uso de medicação foram essenciais para
controlar as crises.
“Meu
principal tratamento é a alimentação, mas nem sempre consigo comer a quantidade
necessária por causa da bariátrica. Também monitoro a glicemia e sempre ando
com mel, balas e outros alimentos para corrigir uma hipoglicemia quando ela
acontece.”
Ela
também utilizou um sensor de glicose contínuo por um período, principalmente
para acompanhar as quedas durante a madrugada.
“O
sensor me dava mais segurança, principalmente enquanto eu dormia. Hoje continuo
acompanhando a glicemia e seguindo o tratamento.”
Após
iniciar o acompanhamento adequado, a rotina mudou.
“Depois
que comecei o tratamento, as hipoglicemias diminuíram bastante. Antes eu vivia
com medo da próxima crise. Hoje consigo ter muito mais controle.”
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Quando procurar ajuda?
Segundo
a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), episódios recorrentes de hipoglicemia
não devem ser considerados normais, mesmo em pessoas sem diabetes. Quando as
crises acontecem com frequência, especialmente após a cirurgia bariátrica, é
importante procurar avaliação médica para investigar a causa.
Durante
a consulta, o profissional poderá analisar o histórico clínico, a relação dos
episódios com a alimentação e solicitar exames que auxiliem na identificação da
origem da hipoglicemia. Registrar os valores da glicemia durante as crises,
quando possível, também pode contribuir para o diagnóstico.
Foi
justamente a persistência dos sintomas e a investigação especializada que
permitiram a Stephani chegar ao diagnóstico correto e iniciar o tratamento.
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Um alerta que pode ajudar outras pessoas
Para
Stephani, um dos maiores desafios ainda é a falta de informação sobre o
assunto.
“Muitas
pessoas acreditam que só quem tem diabetes pode fazer hipoglicemia. Isso faz
com que muita gente demore para procurar ajuda ou até para receber o
diagnóstico correto.”
Ela
conta que a experiência também transformou a forma como exerce a profissão.
“Hoje
consigo entender ainda mais o lado do paciente. Passei a ouvir mais, acolher
mais e entender que, muitas vezes, a pessoa sabe que existe algo errado, mesmo
quando ainda não encontrou uma resposta.”
A
história da enfermeira mostra que a hipoglicemia não é uma condição exclusiva
das pessoas com diabetes. Embora casos como o dela sejam raros, episódios
frequentes de glicose baixa merecem investigação, especialmente após a cirurgia
bariátrica. Reconhecer os sinais e buscar atendimento especializado pode fazer
toda a diferença para chegar ao diagnóstico correto e recuperar a qualidade de
vida.
Stephani
espera que compartilhar sua experiência ajude outras pessoas a não ignorarem os
sinais do próprio corpo.
“Se eu
pudesse deixar um conselho para outras pessoas, seria este: não ignore os
sinais do seu corpo. Muitas vezes a gente acha que é normal ou que faz parte da
cirurgia, mas nem sempre é. Procurar ajuda pode mudar completamente a nossa
qualidade de vida.”
Fonte:
Um Diabético

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