quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Vendavais e chuvas revelam falta de preparo das cidades brasileiras

Os eventos climáticos extremos da última semana expõem a realidade do despreparo das cidades brasileiras para a adaptação das mudanças climáticas. Na quarta-feira, o Rio de Janeiro foi atingido por rajadas de vento de até 100 km/h, que deixou dois mortos, diversos feridos e mais de 80 mil imóveis que ficaram sem energia por mais de 24 horas. Em São Paulo, o vendaval chegou a 125 km/h, matou três pessoas e causou destruição no Litoral Norte estado. Já o Rio Grande do Sul enfrenta, pelo terceiro ano consecutivo, os perigos dos temporais, com inundações, frentes frias e rajadas de vento.

A expectativa é de que, neste semestre,tais eventos climáticos fiquem cada vez mais comuns, com a chegada no El Niño. Para Rodrigo Jesus, porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, a destruição e as mortes desta semana não podem ser atribuídas exclusivamente ao fenômeno, mas são um sinal de alerta do que vem pela frente.

"Esses ventos são um alerta importante sobre um cenário que tende a se tornar mais frequente e intenso. O ponto central é que não estamos diante de um evento isolado, mas de uma tendência. O Brasil precisa deixar de reagir apenas às tragédias e começar a se preparar de forma permanente para um clima que já mudou", entende.

De acordo com Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apesar de não ser possível fazer uma correlação direta das rajadas de vento no Sudeste com o El Niño, as chuvas no Rio Grande do Sul são características do fenômeno climático. "O fato de ter ficado vários dias estacionária na Região Sul, o tipo de chuva que ela provocou, a quantidade de dias com chuva — isso tem um sinal do El Niño", assegura.

Rodrigo Jesus cita um levantamento do AdaptaBrasil, que revela que 3.679 municípios brasileiros não têm capacidade financeira, institucional e de infraestrutura para prevenir e responder aos impactos climáticos. Ou seja, cerca de 66% das cidades têm baixa ou muito baixa capacidade adaptativa.

"Muitos municípios não têm equipes técnicas suficientes, planos de contingência atualizados, sistemas eficientes de drenagem urbana, mapeamento de áreas de risco, infraestrutura resiliente ou recursos financeiros para investir em prevenção", lamenta.

Para Marcelo Seluchi, o foco deve ser nos estados para conseguir mitigar os efeitos climáticos. "Às vezes, não serve de nada o governo federal se preparar, ter uma política de contingência, se a Defesa Civil do município não tem meios para trabalhar, para prevenir esses desastres", observa.

<><> Adaptação climática

A adaptação das cidades brasileiras aos eventos climáticos extremos precisa ser tratada como uma política pública permanente, e não apenas como uma resposta após a ocorrência de desastres. Para Rodrigo Jesus, o planejamento antecipado é fundamental para reduzir os impactos e os custos provocados por enchentes, secas, vendavais e incêndios.

"Pensar em reconstruir custa muito mais caro do que é projetado ou estipulado. Adaptar as cidades não pode começar quando a chuva chega, quando o vento derruba árvores ou quando o fogo se espalha. A adaptação precisa ser uma política pública contínua, baseada em planejamento, investimento e participação das comunidades, porque o custo de prevenir é muito menor do que o custo de reconstrução", afirma.

Eletambém avalia que o país ainda concentra parte significativa dos esforços na resposta aos desastres depois que acontecem. "Historicamente, o Brasil ainda investe muito mais na resposta e na reconstrução do que na prevenção e adaptação. Os desastres dos últimos anos mostram isso de forma clara", critica.

Além do investimento em infraestrutura e prevenção, Marcelo Saluchi destaca a importância de preparar e informar a população para situações de emergência. Segundo ele, os sistemas de alerta precisam ser acompanhados de orientações claras sobre como agir em um evento climático extremo.

"É muito importante informar com o nível correto, sem ser alarmista, sem criar pânico, mas também sem ocultar informação. Isso é muito importante. Explicar para a população, por exemplo, o que significa quando toca o celular, o que significa um alerta, o que eles precisam fazer", explica.

<><> Preparação do morador da comunidade

A previsão da chegada de um dos mais fortes episódios de El Niño já registrados reforça a necessidade de adaptação à crise climática por comunidades marginalizadas, que frequentemente enfrentam sozinhas os impactos dos eventos extremos. O relatório "As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades" aponta que o protagonismo da população vulnerável é fundamental na construção de soluções que promovam justiça climática. O estudo foi produzido pelo Greenpeace Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Clima e do Ambiente (UERJ) e da Brisa Soluções Ambientais.

Para Rodrigo Jesus, porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, é essencial que essas comunidades estejam no centro da discussão da crise climática. "São justamente as comunidades vulnerabilizadas que vivem diariamente os impactos da crise climática e, ao mesmo tempo, acumulam um conhecimento profundo sobre seus territórios. Quem mora em uma favela, em uma comunidade ribeirinha, indígena, quilombola ou em áreas rurais vulneráveis conhece como a água se comporta, onde o calor é mais intenso, quais são as rotas de fuga, quais famílias precisam de mais apoio e quais soluções já funcionam localmente", explica.

O relatório conta a história da comunidade da Vila Arraes, no bairro da Várzea em Recife, que precisou se mobilizar para criar o Plano Comunitário de Contingência, Adaptação e Mitigação dos Efeitos das Chuvas, devido às tempestades de 2022. O plano, produzido pela Associação GRIS Espaço Solidário, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e com a população local, aponta medidas de educação climática, saúde, logística, monitoramento de risco e gestão de crise.

No entanto, Rodrigo Jesus alerta que é preciso ter cuidado para não transferir para a população toda a responsabilidade de mitigar e se adaptar às tragédias. "Fortalecer a resiliência comunitária não significa substituir o Estado", adverte.

•        El Niño provoca clima de extremos no Brasil em agosto, com calor atípico e ciclone a caminho

O El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na faixa equatorial, deve continuar influenciando o clima brasileiro ao longo de agosto e ajudar a moldar um cenário de eventos extremos pelo país, segundo meteorologistas ouvidos pela BBC News Brasil.

A expectativa é de temperaturas acima da média em praticamente todo o país, mas com efeitos diferentes de uma região para outra.

No Sul, o fenômeno aumenta a probabilidade de chuvas intensas e temporais, com risco de ventos fortes, granizo e alagamentos. No Sudeste e no Centro-Oeste, a previsão é de calor acima do normal e baixa umidade do ar. Já no Norte e no Nordeste, a tendência é de menos chuva, favorecendo o avanço das queimadas.

Mas o calor não deve impedir a chegada de massas de ar polar. Uma nova onda de frio deve atingir o Sul, o Sudeste e parte do Centro do país por volta do dia 11, afirma o meteorologista Franco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Depois disso, a segunda quinzena deve voltar a registrar temperaturas acima da média.

O El Niño, que se configurou em junho, deve permanecer ativo até o início de 2027 e atingir seu pico entre outubro e novembro, afirma Diogo Arsego, meteorologista do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em agosto, o fenômeno deve manter uma de suas principais características no Brasil: favorecer chuvas acima da média no Sul.

Segundo Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo, isso ocorre porque o aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação da atmosfera sobre a América do Sul, levando mais umidade para o Sul do país e criando um ambiente propício à formação de temporais.

Leia a seguir as previsões do tempo para o mês de agosto em cada região do Brasil.

<><> Sul: chuva acima da média, ventos fortes e risco de novos temporais

A previsão para agosto vem na esteira de um mês turbulento no Rio Grande do Sul. Julho foi marcado por sucessivos temporais com ventos fortes, chuva intensa e granizo, que deixaram um rastro de destruição em diferentes regiões do Estado.

No início do mês, um vendaval acompanhado de granizo atingiu Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, destruindo dez casas, destelhando outras 180 e deixando 720 pessoas desabrigadas, segundo a Defesa Civil municipal.

Entre os dias 17 e 20, uma nova rodada de temporais afetou 49 municípios gaúchos, provocou destelhamentos, derrubou árvores e postes e deixou ao menos 19 pessoas desalojadas, de acordo com a Defesa Civil estadual. No fim do mês, por fim, um tornado atingiu a região noroeste do Estado e deixou quatro feridos.

Para agosto, a expectativa é que a região continue sob influência de uma atmosfera instável, favorável à ocorrência de eventos extremos, segundo Diniz, do Inmet. No próximo fim de semana, a formação de um ciclone extratropical entre Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai deve provocar rajadas de vento de até 95 km/h.

"Não deixa de ser também uma contribuição do El Niño para estar causando esse forte contraste de temperatura e um ciclone mais intenso", afirma o meteorologista.

Além desse sistema, novas áreas de instabilidade devem favorecer episódios de chuva intensa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina nas próximas semanas, com possibilidade de geada em algumas regiões, ressalta Arsego, do CPTEC.

"Ainda não conseguimos precisar a intensidade, as regiões que serão mais atingidas e as datas mais prováveis. Isso só acompanhando a previsão de tempo em uma menor escala de tempo", diz ele.

"Hoje não é possível afirmar se teremos outros tornados no Sul, mas a gente tem uma atmosfera muito instável, e não se descartam novos eventos graves", acrescenta Verardo, do Climatempo.

Os riscos já aparecem nos boletins oficiais de monitoramento. Em previsão divulgada na terça-feira (04/08), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de continuidade das inundações na região de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, devido à propagação da onda de cheia na bacia do rio Uruguai.

O órgão também apontou risco moderado de alagamentos na região de Porto Alegre, onde a combinação entre o solo encharcado pelas chuvas das últimas semanas e a previsão de novas precipitações pode provocar o transbordamento de córregos e alagamentos em áreas baixas.

<><> Sudeste e Centro-Oeste: calor, baixa umidade e frio pontual

No Sudeste e no Centro-Oeste, a tendência é de temperaturas acima da média durante agosto, especialmente na segunda quinzena do mês.

Diniz, do Inmet, afirma que uma onda de ar frio prevista para o próximo fim de semana deve provocar uma queda temporária das temperaturas, mas não muda a perspectiva de um mês mais quente.

Embora agosto seja tradicionalmente um período seco, há possibilidade de chuva em partes do Estado de São Paulo, acrescenta Verardo, do Climatempo.

No Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, a expectativa é de dias muito quentes, acompanhados de baixa umidade do ar.

<><> Norte e Nordeste: seca e maior risco de queimadas

No Norte e em parte do Nordeste, a tendência é de menos chuva. "Isso pode trazer um problema especialmente associado às queimadas", afirma Arsego, do CPTEC, observando que boa parte do Nordeste já atravessa, naturalmente, um período seco nesta época do ano.

Verardo, do Climatempo, faz coro ao afirmar que as duas regiões devem registrar condições típicas de agosto. "Dias mais quentes e focos de queimadas devem ganhar força, especificamente entre o norte de Minas Gerais, Goiás, sul da Bahia, Tocantins e Pará", ele prevê.

Há, porém, áreas do litoral que seguem sob atenção para chuvas intensas. Em boletim divulgado nesta terça-feira, o Cemaden classificou como moderado o risco de eventos hidrológicos nas regiões de Maceió, Recife, João Pessoa e Natal.

Segundo o órgão, pancadas de chuva podem provocar alagamentos urbanos e o transbordamento de córregos, especialmente em áreas densamente ocupadas.

O Cemaden também apontou risco geológico moderado para áreas de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Segundo o boletim, o solo já úmido e a previsão de novas chuvas podem favorecer deslizamentos pontuais em encostas urbanas.

 

Fonte: Correio Braziliense/BBC News Brasil

 

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