Vendavais
e chuvas revelam falta de preparo das cidades brasileiras
Os
eventos climáticos extremos da última semana expõem a realidade do despreparo
das cidades brasileiras para a adaptação das mudanças climáticas. Na
quarta-feira, o Rio de Janeiro foi atingido por rajadas de vento de até 100
km/h, que deixou dois mortos, diversos feridos e mais de 80 mil imóveis que
ficaram sem energia por mais de 24 horas. Em São Paulo, o vendaval chegou a 125
km/h, matou três pessoas e causou destruição no Litoral Norte estado. Já o Rio
Grande do Sul enfrenta, pelo terceiro ano consecutivo, os perigos dos
temporais, com inundações, frentes frias e rajadas de vento.
A
expectativa é de que, neste semestre,tais eventos climáticos fiquem cada vez
mais comuns, com a chegada no El Niño. Para Rodrigo Jesus, porta-voz da Frente
de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, a destruição e as mortes desta
semana não podem ser atribuídas exclusivamente ao fenômeno, mas são um sinal de
alerta do que vem pela frente.
"Esses
ventos são um alerta importante sobre um cenário que tende a se tornar mais
frequente e intenso. O ponto central é que não estamos diante de um evento
isolado, mas de uma tendência. O Brasil precisa deixar de reagir apenas às
tragédias e começar a se preparar de forma permanente para um clima que já
mudou", entende.
De
acordo com Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Centro Nacional de
Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe), apesar de não ser possível fazer uma correlação
direta das rajadas de vento no Sudeste com o El Niño, as chuvas no Rio Grande
do Sul são características do fenômeno climático. "O fato de ter ficado
vários dias estacionária na Região Sul, o tipo de chuva que ela provocou, a
quantidade de dias com chuva — isso tem um sinal do El Niño", assegura.
Rodrigo
Jesus cita um levantamento do AdaptaBrasil, que revela que 3.679 municípios
brasileiros não têm capacidade financeira, institucional e de infraestrutura
para prevenir e responder aos impactos climáticos. Ou seja, cerca de 66% das
cidades têm baixa ou muito baixa capacidade adaptativa.
"Muitos
municípios não têm equipes técnicas suficientes, planos de contingência
atualizados, sistemas eficientes de drenagem urbana, mapeamento de áreas de
risco, infraestrutura resiliente ou recursos financeiros para investir em
prevenção", lamenta.
Para
Marcelo Seluchi, o foco deve ser nos estados para conseguir mitigar os efeitos
climáticos. "Às vezes, não serve de nada o governo federal se preparar,
ter uma política de contingência, se a Defesa Civil do município não tem meios
para trabalhar, para prevenir esses desastres", observa.
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Adaptação climática
A
adaptação das cidades brasileiras aos eventos climáticos extremos precisa ser
tratada como uma política pública permanente, e não apenas como uma resposta
após a ocorrência de desastres. Para Rodrigo Jesus, o planejamento antecipado é
fundamental para reduzir os impactos e os custos provocados por enchentes,
secas, vendavais e incêndios.
"Pensar
em reconstruir custa muito mais caro do que é projetado ou estipulado. Adaptar
as cidades não pode começar quando a chuva chega, quando o vento derruba
árvores ou quando o fogo se espalha. A adaptação precisa ser uma política
pública contínua, baseada em planejamento, investimento e participação das
comunidades, porque o custo de prevenir é muito menor do que o custo de
reconstrução", afirma.
Eletambém
avalia que o país ainda concentra parte significativa dos esforços na resposta
aos desastres depois que acontecem. "Historicamente, o Brasil ainda
investe muito mais na resposta e na reconstrução do que na prevenção e
adaptação. Os desastres dos últimos anos mostram isso de forma clara",
critica.
Além do
investimento em infraestrutura e prevenção, Marcelo Saluchi destaca a
importância de preparar e informar a população para situações de emergência.
Segundo ele, os sistemas de alerta precisam ser acompanhados de orientações
claras sobre como agir em um evento climático extremo.
"É
muito importante informar com o nível correto, sem ser alarmista, sem criar
pânico, mas também sem ocultar informação. Isso é muito importante. Explicar
para a população, por exemplo, o que significa quando toca o celular, o que
significa um alerta, o que eles precisam fazer", explica.
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Preparação do morador da comunidade
A
previsão da chegada de um dos mais fortes episódios de El Niño já registrados
reforça a necessidade de adaptação à crise climática por comunidades
marginalizadas, que frequentemente enfrentam sozinhas os impactos dos eventos
extremos. O relatório "As soluções dos territórios: Adaptação Climática
Baseada em Comunidades" aponta que o protagonismo da população vulnerável
é fundamental na construção de soluções que promovam justiça climática. O
estudo foi produzido pelo Greenpeace Brasil, em parceria com o Laboratório de
Estudos do Clima e do Ambiente (UERJ) e da Brisa Soluções Ambientais.
Para
Rodrigo Jesus, porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, é
essencial que essas comunidades estejam no centro da discussão da crise
climática. "São justamente as comunidades vulnerabilizadas que vivem
diariamente os impactos da crise climática e, ao mesmo tempo, acumulam um
conhecimento profundo sobre seus territórios. Quem mora em uma favela, em uma
comunidade ribeirinha, indígena, quilombola ou em áreas rurais vulneráveis
conhece como a água se comporta, onde o calor é mais intenso, quais são as
rotas de fuga, quais famílias precisam de mais apoio e quais soluções já
funcionam localmente", explica.
O
relatório conta a história da comunidade da Vila Arraes, no bairro da Várzea em
Recife, que precisou se mobilizar para criar o Plano Comunitário de
Contingência, Adaptação e Mitigação dos Efeitos das Chuvas, devido às
tempestades de 2022. O plano, produzido pela Associação GRIS Espaço Solidário,
em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e com a população
local, aponta medidas de educação climática, saúde, logística, monitoramento de
risco e gestão de crise.
No
entanto, Rodrigo Jesus alerta que é preciso ter cuidado para não transferir
para a população toda a responsabilidade de mitigar e se adaptar às tragédias.
"Fortalecer a resiliência comunitária não significa substituir o
Estado", adverte.
• El Niño provoca clima de extremos no
Brasil em agosto, com calor atípico e ciclone a caminho
O El
Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas
superficiais do Oceano Pacífico na faixa equatorial, deve continuar
influenciando o clima brasileiro ao longo de agosto e ajudar a moldar um
cenário de eventos extremos pelo país, segundo meteorologistas ouvidos pela BBC
News Brasil.
A
expectativa é de temperaturas acima da média em praticamente todo o país, mas
com efeitos diferentes de uma região para outra.
No Sul,
o fenômeno aumenta a probabilidade de chuvas intensas e temporais, com risco de
ventos fortes, granizo e alagamentos. No Sudeste e no Centro-Oeste, a previsão
é de calor acima do normal e baixa umidade do ar. Já no Norte e no Nordeste, a
tendência é de menos chuva, favorecendo o avanço das queimadas.
Mas o
calor não deve impedir a chegada de massas de ar polar. Uma nova onda de frio
deve atingir o Sul, o Sudeste e parte do Centro do país por volta do dia 11,
afirma o meteorologista Franco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de
Meteorologia (Inmet). Depois disso, a segunda quinzena deve voltar a registrar
temperaturas acima da média.
O El
Niño, que se configurou em junho, deve permanecer ativo até o início de 2027 e
atingir seu pico entre outubro e novembro, afirma Diogo Arsego, meteorologista
do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em agosto, o fenômeno deve
manter uma de suas principais características no Brasil: favorecer chuvas acima
da média no Sul.
Segundo
Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo, isso ocorre porque o aquecimento
das águas do Pacífico altera a circulação da atmosfera sobre a América do Sul,
levando mais umidade para o Sul do país e criando um ambiente propício à
formação de temporais.
Leia a
seguir as previsões do tempo para o mês de agosto em cada região do Brasil.
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Sul: chuva acima da média, ventos fortes e risco de novos temporais
A
previsão para agosto vem na esteira de um mês turbulento no Rio Grande do Sul.
Julho foi marcado por sucessivos temporais com ventos fortes, chuva intensa e
granizo, que deixaram um rastro de destruição em diferentes regiões do Estado.
No
início do mês, um vendaval acompanhado de granizo atingiu Eldorado do Sul, na
região metropolitana de Porto Alegre, destruindo dez casas, destelhando outras
180 e deixando 720 pessoas desabrigadas, segundo a Defesa Civil municipal.
Entre
os dias 17 e 20, uma nova rodada de temporais afetou 49 municípios gaúchos,
provocou destelhamentos, derrubou árvores e postes e deixou ao menos 19 pessoas
desalojadas, de acordo com a Defesa Civil estadual. No fim do mês, por fim, um
tornado atingiu a região noroeste do Estado e deixou quatro feridos.
Para
agosto, a expectativa é que a região continue sob influência de uma atmosfera
instável, favorável à ocorrência de eventos extremos, segundo Diniz, do Inmet.
No próximo fim de semana, a formação de um ciclone extratropical entre Rio
Grande do Sul, Argentina e Uruguai deve provocar rajadas de vento de até 95
km/h.
"Não
deixa de ser também uma contribuição do El Niño para estar causando esse forte
contraste de temperatura e um ciclone mais intenso", afirma o
meteorologista.
Além
desse sistema, novas áreas de instabilidade devem favorecer episódios de chuva
intensa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina nas próximas semanas, com
possibilidade de geada em algumas regiões, ressalta Arsego, do CPTEC.
"Ainda
não conseguimos precisar a intensidade, as regiões que serão mais atingidas e
as datas mais prováveis. Isso só acompanhando a previsão de tempo em uma menor
escala de tempo", diz ele.
"Hoje
não é possível afirmar se teremos outros tornados no Sul, mas a gente tem uma
atmosfera muito instável, e não se descartam novos eventos graves",
acrescenta Verardo, do Climatempo.
Os
riscos já aparecem nos boletins oficiais de monitoramento. Em previsão
divulgada na terça-feira (04/08), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas
de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de continuidade
das inundações na região de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, devido à
propagação da onda de cheia na bacia do rio Uruguai.
O órgão
também apontou risco moderado de alagamentos na região de Porto Alegre, onde a
combinação entre o solo encharcado pelas chuvas das últimas semanas e a
previsão de novas precipitações pode provocar o transbordamento de córregos e
alagamentos em áreas baixas.
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Sudeste e Centro-Oeste: calor, baixa umidade e frio pontual
No
Sudeste e no Centro-Oeste, a tendência é de temperaturas acima da média durante
agosto, especialmente na segunda quinzena do mês.
Diniz,
do Inmet, afirma que uma onda de ar frio prevista para o próximo fim de semana
deve provocar uma queda temporária das temperaturas, mas não muda a perspectiva
de um mês mais quente.
Embora
agosto seja tradicionalmente um período seco, há possibilidade de chuva em
partes do Estado de São Paulo, acrescenta Verardo, do Climatempo.
No
Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, a
expectativa é de dias muito quentes, acompanhados de baixa umidade do ar.
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Norte e Nordeste: seca e maior risco de queimadas
No
Norte e em parte do Nordeste, a tendência é de menos chuva. "Isso pode
trazer um problema especialmente associado às queimadas", afirma Arsego,
do CPTEC, observando que boa parte do Nordeste já atravessa, naturalmente, um
período seco nesta época do ano.
Verardo,
do Climatempo, faz coro ao afirmar que as duas regiões devem registrar
condições típicas de agosto. "Dias mais quentes e focos de queimadas devem
ganhar força, especificamente entre o norte de Minas Gerais, Goiás, sul da
Bahia, Tocantins e Pará", ele prevê.
Há,
porém, áreas do litoral que seguem sob atenção para chuvas intensas. Em boletim
divulgado nesta terça-feira, o Cemaden classificou como moderado o risco de
eventos hidrológicos nas regiões de Maceió, Recife, João Pessoa e Natal.
Segundo
o órgão, pancadas de chuva podem provocar alagamentos urbanos e o
transbordamento de córregos, especialmente em áreas densamente ocupadas.
O
Cemaden também apontou risco geológico moderado para áreas de Alagoas,
Pernambuco e Paraíba. Segundo o boletim, o solo já úmido e a previsão de novas
chuvas podem favorecer deslizamentos pontuais em encostas urbanas.
Fonte:
Correio Braziliense/BBC News Brasil

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